História Veludo Vermelho - Capítulo 4


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Categorias Originais
Tags Adolescente, Bruxas, Drama, Escolar, Fadas, Fantasia, Lobisomens, Revelaçoes, Romance, Vampiros, Yaoi
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Palavras 4.785
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Ação, Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Fantasia, Ficção, Magia, Romance e Novela, Saga, Slash, Sobrenatural
Avisos: Heterossexualidade, Homossexualidade, Mutilação, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - Estragando tudo para sempre



Fico o mais longe possível do fogo. Ainda assim, é perto o suficiente para poder sentir o cheiro do queimar e seu calor intenso.

Ainda bem que descobri que vampiros são extremamente ignescentes quando provados pelo fogo – literalmente – antes de resolver fazer um churrasco sem tomar cuidado.

Não que isso tenha sido perigoso para mim – ficar perto das chamas. Foi tranquilo, na verdade. O fogo não foi perigoso nem mesmo para o vampiro que eu queimei.

Entrei no apartamento tão lentamente e com passos tão pesados que em certo ponto comecei a assustar a mim mesmo. No quarto, lá estavam Gray e sua nova vítima, os dois nus, os dentes dele cravados no pescoço dela.

Eu encarei os olhos de Gray no escuro, e a prata neles brilhou como se houvesse luz forte. Sei que ele sentiu medo, pois seu queixo caiu imediatamente e ele largou a garota como largaria uma criança largaria um saco de doces ao ser pego por seus pais. Seu suspiro ecoou.

A garota correu assustada quando me viu, correndo e gritando, enrolada em um lençol, exatamente como num filme de terror ruim. Parece que ela não confiava muito em Gray para a proteger. Não dei atenção a ela naquele momento. Meu foco era o vampiro que tirou de mim minha vida.

Ele nem ao menos se moveu. Não sei se ele não teve tempo de reagir ou se ficou tão atônito de me ver vivo que não soube como reagir. Sei, porém, que foi incrivelmente fácil dar um longo passo até ele e arrancar seu coração de seu peito, que ainda pulsou em minha mão durante alguns momentos. Ele apenas me encarou até uma lágrima escorrer por seu rosto. De dor? De arrependimento por todos os seus erros? De ódio? Para mim, tanto fez como tanto faz.

Assim que o vampiro atingiu o solo, eu fui atrás da humana. Mesmo com os minutos de dianteira que eu dei a ela, ela não foi rápida o suficiente. Rasguei seu pescoço sem pensar duas vezes, quando a encontrei. Não porque sou uma criatura ruim. Apenas porque não queria vê-la transformada em vampiro por causa da mordida de Gray. Claro que, falando assim, até pareço um tipo de herói ao invés do vilão podre, mas a verdade é que sou um vilão. Matei a garota sem pensar duas vezes. E para ter certeza de que ela não ia voltar, ainda beijei os cortes depois de terminar de beber seu sangue.

Ainda fiquei uma boa meia-hora encarando aqueles dois corpos, um ensanguentado e o outro exangue, pensando no que eu tinha feito e no que fazer em seguida. Acontece que Forson Carty é cercada de florestas densas e a noite cai na cidade com muito mais rapidez que em outras – uma peculiaridade geográfica –, então não foi difícil de encontrar um ponto com pouca visibilidade do ponto de vista da cidade para incendiar os corpos.

O cheiro da fumaça é de incenso e papel, como se eu houvesse jogado uma caixa de velas perfumadas no meio da fogueira há segundos. O calor do fogo é confortável contra o ar frio da noite, mas o cheiro é horrível. Já não consigo ver o belo e traiçoeiro rosto de Gray, que desapareceu juntos às chamas. Não sei dizer se o cheiro de papel queimando vem dele ou da humana, mesmo sabendo que o sangue da humana era doce. Não que isso importe. Saber o cheiro que tem um vampiro quando está em chamas não vai mudar nada em minha vida.

Minha pós-vida.

Observo o fogo por mais algum tempo enquanto penso e resumo os fatos dos últimos dois dias em minha mente: eu conheci Gray; eu me apaixonei por Gray; Gray se revelou um vampiro; eu tentei contar para os meus amigos que Gray era um vampiro; Gray me matou; eu me tornei um vampiro; eu matei um mendigo; fui sequestrado por algo que é como um Comitê e aprendi as três regras de convivência vampírica básica; eu matei Gray. Como as coisas mudaram tão drasticamente em apenas quatro dias? Segunda-feira eu era um garoto comum – ou quase – começando numa escola nova e hoje, quinta-feira, sou um vampiro que já matou duas pessoas.

Essas coisas me deixam desnorteado, completamente desorientado, literalmente sem saber o que fazer. Estou tão perdido que nem sei se devo voltar para a casa de Emerald ou para o apartamento de Gray, ou se devo ligar para os meus pais e pedir para que me levem para casa... Será que vou acabar atacando alguém nesse meio tempo? Agora não estou sentindo sede, mas quanto tempo vai demorar até lá?

Decido voltar para o apartamento de Gray. Como foi lá que tudo começou, parece a decisão mais perspicaz.

Um momento depois, cá estou. O cheiro de sangue – humano, que é perfumado, e vampiresco, que tem cheiro de sangue normal – é forte, e está começando a ficar nojento. Por isso, ligo a luz da cozinha, fecho a porta de entrada e começo a limpar.

Sinto-me um monstro, como a fera de The Beauty and the Beast, só que sem a garota pura e linda para se apaixonar por mim. É a verdade, não é? Sou um monstro, e nem posso morrer. Não que eu pense que essa fosse uma saída ou opção. É só a maneira como me sinto. Um monstro imortal.

Quando eu assisti The Hunchback of Notre Dame, não me senti mal pelo corcunda, porque na verdade eu não sabia como ele se sentia. Agora sei.

Ele se sentia como eu me sinto. Um monstro. Vazio. Inamável. Solitário.

É horrível.

E eu só percebo as lágrimas escorrendo quando não posso ignorá-las. Do que adianta a eternidade se ela vem com monstruosidade e solidão? Se soubesse que isso é o que significa ser um vampiro, teria corrido o mais rápido que pudesse para longe daquele que conheci. Não parecia assim para ele, contudo, por isso não temi. Se arrependimento matasse...

Percebo algo enquanto retiro os lençóis e cobertores encharcados de sangue da cama de Gray: mesmo que eu esteja destinado a vagar pela terra em busca de almas inocentes para atormentar, eu poderia encontrar um parceiro nesse meio tempo? Alguém com que passar o tempo... Gray não parecia preocupado com amigos, é claro, mas quem sabe quantos anos ele não viveu desde que se tornou vampiro? É possível que ele tenha se acostumado a estar sozinho. Mas e quanto a mim? E quanto às pessoas com quem eu compartilharia a eternidade?

Se há uma coisa que eu sempre odiei em mim é isso; minha pré-disposição para mudar de humor – e de ideia – tão brusca e subitamente quanto agora, como se meus problemas tivessem solução de um momento para o outro. Ok, não posso realmente negar que acabei de pensar em algo que poderia matar dois problemas com apenas um golpe, porém ainda assim há falhas e problemas.

Dizem “Não deseje para os outros aquilo que não quer para si mesmo”. Mas e se a questão não for exatamente “não desejar” e sim “desejar de uma maneira diferente? ”.

Enquanto termino de limpar o apartamento, começo a bolar meu plano.


– Vocês dormem bem pesado... – digo, quando vejo Pallome e Phillip lentamente abrirem os olhos.

Os dois dormiam lado a lado nos colchões – roubados – que estendi no chão entre a sala de estar e a cozinha, e agora que estão de olhos abertos posso ver que a cor neles realmente mudou, tal como a minha, que passou de verde para dourado – percebi ao olhar meu reflexo na água do balde que me auxiliou a limpar tudo. Pallome, que tinha olhos castanhos, agora tem olhos vermelho-sangue intensos e cintilantes, e Phillip, que tinha como cor de sua íris um azul-escuro, agora possui olhos de um verde-chá eloquente e bonito, muito mais belos que os meus, em humanidade.

Se eu estiver certo, os dois devem estar sentindo uma dor-de-cabeça horrível e muita sede, assim como eu fiquei depois da transformação. Para sua sorte, eles não terão de matar um mendigo para se alimentar – como eu tive. Para isso me preparei. Assim, quando os olhos dos dois focalizam em mim e percebem as bolsas cheias do líquido vermelho que lhes dará vida, ambos pulam sobre mim e agarram seu alimento primal com avidez, e bebem direto do saco plástico. São bolsas de sangue que roubei de um hospital há algumas horas, e sei que estão deliciosas porque o cheiro atravessa o invólucro e perfuma o ambiente.

Os dois rasgam o plástico e bebem rapidez, sujando-se completamente, tanto roupas quanto colchão e tudo o mais. Sorrio para os dois. Aposto que agora eles acreditam em mim.

Pallome nem terminou de beber, mas para subitamente. Ela levanta os olhos vermelhos para mim, e eu vejo uma dúvida neles.

– Cedric... – começa ela, e quando Phillip ouve sua voz, ele também ergue os olhos, primeiro para Pallome, depois para mim, parecendo pela primeira vez perceber que está de fato bebendo sangue. – O-o que aconteceu, eu... Lembro de você aparecendo e... uma dor... O que você fez? – Quando percebe que seu tom foi acusatório, ela trata de acrescentar: – Quis dizer, você tinha presas e parecia diferente... – Eu não respondo. – Cedric... – Sei qual será a próxima pergunta.

– O que nós somos?

Eu olho para ela e depois para ele e depois sorrio simpaticamente.

– Você sabe o que somos – digo, e eu vejo claramente o reconhecimento em seu rosto. Mesmo sabendo que eles dois sabem bem do que estou falando, prossigo mesmo assim: – Mesmo se não souber, terá a eternidade para descobrir.

Eu continuo sorrindo para eles, para que digiram a notícia com mais facilidade.

Só que Phillip reage como eu esperava.

Phillip se levanta, seu rosto rechonchudo subitamente vermelho. A bolsa de sangue desliza até o colchão e tinge de vermelho o que antes era tecido branco. Sua camiseta está toda suja, assim como suas calças, mas o pior é a expressão em seu rosto. Decepção? Incredulidade? Desesperança? Acho que todos juntos. Seus olhos verdes transmitem bem aquilo que ele ainda não disse.

– O que você fez?

Seus pensamentos estão tão conflitantes que eu quase posso ouvi-los. Tenho certeza de que seu coração está partido.

– Eu... Eu não queria isso. – Há lágrimas se formando nos cantos de seus olhos, e seu desapontamento para comigo desponta como uma bandeira. – Eu nunca disse que queria me tornar... essa coisa! – Quando diz as últimas duas palavras, consigo sentir o nojo em sua voz. – Eu pensei que você era louco, sim, mas isso não quer dizer que eu quisesse que você me provasse que vampiros existem dessa forma!

– Eu só queria que nós passássemos mais tempo juntos... Quero dizer, a eternidade pode ser muito solitária... – Minha voz soa tão lânguida e derrotada quanto eu me sinto. Sinceramente não os transformei considerando que qualquer um dos dois fosse se arrepender. Não obstante, não digo isso a eles.

– E por causa de você, eu terei de passar a minha eternidade sozinho. – A acusação em sua voz é afiada como uma lâmina. – Por acaso você já viu algum vampiro gordo? Claro que não! Além disso, já pensou o quão difícil para mim já não era me aproximar das pessoas, quanto mais que alguma delas se apaixonasse por mim?! É claro que não pensou. E agora essa chance mínima que eu tinha de encontrar uma garota especial já era! – Tenho balbuciar alguma coisa, mas ele me impede, continuando a falar alto. – Eu nem mesmo vou poder viver em sociedade, não com o perigo de atacar alguém quando estiver com sede! Ou você acha que eu não sei como funciona?

– Calma aí, Phillip – diz Pallome –, eu tenho certeza de que o Cedric só queria ajudar.

– E acabou estragando tudo para sempre.

E sai correndo, passando diretamente pela porta com sua velocidade vampírica, fugindo de mim.


– Pallome, o que eu fiz de errado? – pergunto.

Pallome e eu caminhamos rapidamente pela floresta, que é o lugar para onde aponta o cheiro do sangue. Acabei de descobrir que vampiros são impossíveis de rastrear apenas pelo cheiro. Humanos exalam um cheiro que lembra comida – como o da garota que estava com Gray, que era parecido com frutas, e o do mendigo, que parecido com carne assada –, que conseguimos classificar como doce ou salgado, assim como acontecia quando éramos humanos. Vampiros, porém, não exalam esse cheiro. Para o nosso azar.

Para a nossa sorte, porém, a fragrância do cheiro humano deixa algo que parece um rastro invisível, como se fosse uma trilha de fumaça.

Phillip saiu correndo depois de me culpar por tê-lo transformado – e eu realmente tenho culpa –, e eu o teria deixado fugir, se não soubesse o que acontece quando se é um vampiro recém-transformado assustado. E Phillip está assustado com tudo o que está acontecendo.

Sei que fui burro e ignorante e que pensei pouco antes de cometer um grande erro, mas como acabei de perceber, eu sei o quanto é assustador se sentir sozinho e ser eterno. Por ora, tenho Pallome ao meu lado, e, mesmo não sabendo se ela também vai embora depois de encontrarmos Phillip, isso é suficiente para que eu me sinta melhor.

A trilha de sangue na camiseta e calças de Phillip nos guiou inicialmente até a floresta que circunda Forson Carty, mas a partir dali tivemos de começar a prestar atenção, pois o cheiro do sangue salgado nas roupas dele parece ter parado, como se ele tivesse parado.

– Acho que julgar que Phillip gostaria de ser um vampiro – responde ela, olhando rapidamente para os lados e inspirando fundo em intervalos curtos para captar melhor a trilha de sangue. É incrível, realmente, a maneira como ela se adaptou às habilidades vampirescas. Quando saímos correndo atrás de Phillip, ela automaticamente soube como utilizar a velocidade sobre-humana e a maior resistência a seu favor para irmos atrás dele. Phillip saiu tão apavorado que em um momento já tinha desaparecido no horizonte. E ela pareceu também saber como seguir o rastro com perfeição, uma habilidade que até um momento atrás eu não tinha aprendido. Se ela também não ficou feliz em ser transformada, não demonstra.

– Acho que não foi só com ele que cometi esse erro... – digo, mas não uso um tom acusatório, mas em um que indica que estou falando sobre ela.

– Na verdade, não. Eu sempre quis ser eterna. – Ela sorri para mim sem que paremos de caminhar. – Se tivesse me perguntado se eu queria ser vampiro, teria respondido ‘sim’ sem pensar duas vezes. Então eu meio que sou agradecida que você tenha me transformado, mesmo que tenha sido contra minha vontade. – Sei que gosto de garotos, mas Pallome parece incrivelmente bela iluminada pela luz da lua que penetra pelas folhas das árvores, com seus olhos gigantes coloridos de vermelho brilhando incandescentes, ressaltados pelo vermelho em sua boca manchada pelo sangue que bebeu. E esse é um momento ruim para esse tipo de observação.

– Fico feliz de ter acertado pelo menos uma vez – digo, sorrindo de volta. – Mas isso não tira minha culpa pela coisa ruim que eu fiz. Eu sei como é ser um vampiro perdido.

– Ei, todos cometemos erros, ok? – Ela olha diretamente dentro de meus olhos por um longo momento. – Phillip e eu erramos ao não acreditar em você quando disse que vampiros existem. Quer dizer, isso tudo ainda parece loucura e tudo mais, porque até ontem eu acreditava que deus é legal e hoje sou uma criatura da noite, mas acho que vamos nos acostumar a isso. Sei que você também não é vampiro há tanto tempo.

– E como sabe disso? – pergunto, brincando com ela. Os sinais são óbvios, mas para alguém que estava cético de que o sobrenatural é real, ela está se sentindo presunçosa demais.

– Você foi para a escola de manhã, ué. Até anteontem. E se caminhou no sol e não queimou, é porque não é vampiro.

Eu sem querer solto uma gargalhada. Ela franze o cenho.

– É que vampiros não queimam no sol...

– Como é? – ela pergunta, realmente confusa.

– Vampiros não queimam... – Porém sou obrigado a me interromper.

O cheiro da camiseta ensopada de sangue penetra em minhas narinas como se eu estivesse fungando diretamente do pescoço dilacerado de alguém – como da vez em que matei aquele mendigo. O cheiro salgado está vindo direto de algum lugar abaixo de nós. Se Phillip realmente está aqui, ele está parado.

Caminhamos mais alguns passos o declive íngreme que achamos, até chegarmos ao ponto exato de onde está sendo emanado o perfume do sangue.

– Ele tá pelado! – afirma Pallome, assustada, e tenho que concordar com ela.

Nem sinal de Phillip. Porém as roupas ensanguentadas que ele estava usando estão no chão, espalhadas como se ele as houvesse descartados rapidamente. Estão rasgadas ainda por cima.

– Mas onde...

Antes que eu consigo terminar de dizer uma palavra, um grito rasga o silêncio da noite.

Pallome e eu olhamos um para o outro por apenas um segundo antes de começarmos a correr em direção ao som. A voz que gritou é masculina, e parece completamente apavorada, ou até mesmo estar sendo atacada.

Depois de corrermos mais várias centenas de metros, escutamos outro grito, desta vez feminino. Ele parece mais longe que o lugar onde o primeiro aconteceu, e tão assustador quanto. Pallome e eu corremos o mais rápido que a velocidade de vampiro permite, até chegarmos a uma pequena clareia iluminada pelas chamas de uma fogueira. O cheiro do sangue doce atinge minhas narinas com a mesma força que eu seria atingido por um soco. Sem pararmos de correr, Pallome e eu vemos o corpo de um homem caído no chão, deitado por uma poça do que julgo ser de seu próprio sangue.

Pallome e eu seguimos correndo em direção ao outro grito a tempo de ver o corpo da garota caindo.

Phillip está banhado em sangue, além de desnudo. Sua respiração está pesada como se ele tivesse corrido quilômetros em humanidade. Seus olhos verdes aguados brilham com as lágrimas. Sinto compaixão do garoto, sinto-me muito mal por ele. Porém, antes que eu possa me aproximar, ele sai correndo de novo.

Desta vez, porém, Pallome e eu estamos preparados.

Phillip corre a toda velocidade, sem hesitar por um segundo sequer. Mesmo tendo sido rechonchudo e provavelmente sedentário antes do vampirismo, ele agora é incrivelmente ágil e tem reflexos incríveis. Ele corre em meios às árvores, pulando por sobre as caídas como se fossem rasos riachos, fazendo curvas fechadas na tentativa de nos despistar com afinco. Pallome e eu seguimos seu encalço sem parar nem para respirar, tendo como vantagem o cheiro de sangue que ficou na pele dele.

O vento ruge nos meus ouvidos à medida que eu avanço, e os sons da noite se misturam ao das folhas balançando e gravetos sendo esmagados por nossos pés. Tudo isso entra em meus ouvidos, mas não chegam à minha consciência.

Até que eu escuto o rosnado.

Tudo acontece em um segundo.

Phillip está correndo na nossa frente, e parece tão assustado que não parece notar o vulto enorme correndo para cima dele. No momento em que ele olha para trás, o lobo gigante pula sobre ele, derrubando-o no chão com um baque alto e um latido aterrorizante. Automaticamente Pallome para de correr, o horror cobrindo seu rosto como uma máscara de teatro. O ar escapa de meus pulmões e eu desacelero a corrida. O lobo de pelo escuro e pernas longas ergue a cabeça para abocanhar o pescoço de Phillip. Imediatamente minhas pernas me impulsionam para frente e para cima, e antes que eu consiga perceber estou enfiando meus dedos no corpo do animal, que agora mais parece cera, dando uma cambalhota e jogando-o para longe do meu amigo.

Porém, antes que eu possa respirar aliviado, mais um punhado deles aparece, todos com seus sorrisos estranhos de cachorro ensandecido, dentes de fora, e os pelos eriçados.

O movimento do primeiro atiça os demais.

O mesmo lobo vem correndo para cima de mim e pula, com os dentes expostos, para me morder. Movo meu braço esquerdo em um arco enquanto ele ainda está no ar e acerto o punho entre as costelas e o esterno do animal ainda em meio salto, e pelo canto do olho vejo que outro lobo já estava me atacando, também pulando sobre mim com a boca aberta. A mordida em meu ombro dói muito, mas não tanto a ponto de me deixar sem ação. No meio do movimento do animal, utilizo sua própria velocidade contra ele. O lobo ainda está aterrissando o corpo nas minhas costas quando eu agarro seu pescoço com a mão direito e o puxo, acertando suas costelas contra o chão.

Dois deles vem atacando meu flanco esquerdo. O movimento deles parece ainda mais sobrenatural que os olhos vampíricos de Phillip brilhando na noite: cada um dos lobos gigantes pula em uma direção, leste e oeste, formando um X com seus corpos, para que eu não tenha tempo de acertar os dois sem sofrer danos do outro. Acerto o lobo que está mais perto com o punho em seu peito, dando ao outro chance de dilacerar meu pescoço.

A julgar pela dor em meu ombro direito, estes animais conseguirão nos ferir gravemente se os dermos a chance.

Porém, antes que eu sinta a dor de meu pescoço sendo triturado, o lobo não chega, e um vulto passa por cima de mim e lança o animal longe com um chute. Pallome.

Vejo um lobo, pelo canto do olho, se preparar para pular, mas antes que ele possa fazer isso, agarro-o pelas pernas e dou um giro com ele. Lanço o lobo longe. Estou tão concentrado na batalha que mal escuto seu ganido de dor quando ele se choca contra algo.

Sinto uma dor lancinante na panturrilha e assim sei que fui atacado. Meu corpo vai ao chão antes que eu tenha tempo de abrir a boca. A dor se espalha por minha perna. O lobo me arrasta para trás, e com a perna livre eu o chuto com toda a força que encontro. Seu uivo de dor é rápido.

Quando viro a cabeça, um deles está correndo em minha direção. Sua boca está escancarada. Se eu não me mexer, ele vai arrancar meu rosto fora.

Alguém chuta o lobo para fora de seu trajeto, me dando tempo para me levantar.

Sinto algo que lembra uma pressão no meio das costas, e instintivamente me abaixo. O lobo de pelo escuro voa por cima de mim como que se tivéssemos ensaiado esse truque. Ele aterrissa em minha frente e continua correndo.

Pallome intercepta seu ataque dando-lhe um soco com o punho no meio do focinho. Seu lindo rosto delicado possui um arranhão enorme.

Tão subitamente quanto começou, o ataque termina.

Não há mais lobos por perto, e estamos todos arfando e apavorados. Meu coração bate com tanta ferocidade que eu poderia estar vivo.

Olho para Pallome, que respira pela boca. Além da ferida em seu rosto, ela parece bem. Seu rosto está tão feroz que ela poderia se passar por um daqueles lobos sem dificuldade. Matéria de capa: como se disfarçar de lobo para evitar ataques, por Pallome Lewis. Ela olha em todas as direções, esperando por mais ataques.

Olho para Phillip, para saber se ele está machucado. Ele olha para mim como se eu fosse mais um daqueles lobos, com terror nos olhos.

– Infelizmente é isso o que somos agora, Phillip. Desculpe ter te tornado nisso... – Minha voz falha por causa de uma pontada de dor em minha panturrilha ferida. Vou ao chão por causa da dor. O que quer que houvesse na saliva daquele lobo, está causando uma dor imensa em mim, e a sensação é como ácido em minha pele.

E, ao contrário daquilo que eu imaginei, Phillip vem ao meu encontro. No chão, eu aperto minha panturrilha com força, tentando não gritar de dor. Em um segundo, Pallome desapareceu. O rosto de Phillip está lívido, mas ele continua firme. Ele puxa minhas mãos de cima do ferimento e dá uma olhada, quando permito. Os dentes do lobo de pernas longas causaram feridas profundas em minha perna. Quando estou prestes a apertar minhas mãos contra o ferimento de novo, ele me impede.

– Não. Deixe sangrar por um tempo. – Balanço a cabeça em discordância, sem compreender. – Vai ajudar a impedir as bactérias de ficar por aí. Elas saem junto com o sangue.

– Como sabe? – pergunto.

– Minha mãe é enfermeira.

Escutamos um farfalhar de folhas, mas mais nenhum lobo aparece nem Pallome volta.

– Desculpe por duvidar de você – diz ele, e a cor de seu rosto começa a voltar ao normal.

– Me desculpe por te dar a vida eterna contra sua vontade. Sei que dizer isso não adianta de muita coisa agora, mas eu realmente reverteria se pudesse.

– Acho que eu exagerei... – Ele fala baixo, provavelmente envergonhado por admitir isso. – Quero dizer, ser eterno é uma coisa boa. Mesmo que seja necessário beber sangue... – Ele dá uma risadinha sem graça. Devolvo a ele um sorriso amarelo. – É só... – Não acredito ser impressão minha ele estar ruborizando. Ele fala ainda mais baixo. – Para mim é difícil, sabe? E agora vai ficar mais ainda.

– Você está falando de... garotas? – pergunto, também sentindo minha pele enrubescer. Ele balança a cabeça rápida e timidamente.

Sério? Esse era o medo dele? Como poderia namorar novamente agora que é imortal? Bem, é um temor plausível. Como já havia comentado antes, sei como é me sentir imortal e solitário. Então talvez não seja insegurança infundada. A base é sólida, para ser sincero. Por isso, digo:

– Posso te contar uma coisa? – pergunto. Ele levanta a cabeça por apenas um momento e aquiesce. Meu rosto parece em chamas contra o ar da noite, e tenho certeza que não é por causa da ferida que o cão causou. – Eu também me sinto assim, sabe? Na verdade, foi justamente por isso que transformei vocês. Porque queria ter amigos, para não me sentir tão sozinho. Para poder passar por isso tudo ao lado dos meus amigos.

– Mas nós nem éramos amigos... – começa, mas se interrompe.

– Então por que me contou sobre sua insegurança? – brinco. Ele dá uma risada comigo.

– Acho que nos tornamos...

– É... – Deixo minha mente vagar por um momento. – Acho que realmente somos, agora. Mas não quero que se sinta forçado a ficar ao meu lado só porque eu te transformei. Nem a Pallome.

– Mas nós vamos ficar – diz ela, aparecendo subitamente. Ela caminha até nós com a expressão mais branda, não mais letífera de antes, não mais parecendo um lobo. Em sua mão há algo que parece uma bolsa, mas só confirmo isso quando ela se aproxima mais. – Eu e Phillip conversamos ontem, depois da aula, depois que disse para a gente que você tinha um namorado vampiro. Entramos em um consenso. – Ela se senta ao meu lado e abre a bolsa. Parece que aquele casal que Phillip atacou estava preparado para primeiros socorros de ferimentos, pois a mochila está cheia de antissépticos e gazes. Phillip se adianta e começa a limpar meu ferimento.

– Mesmo sendo doido de pedra, você parecia um cara legal – diz Phillip, ainda falando baixo.

– E nós decidimos que íamos ficar do seu lado de qualquer forma.

– Mas essa é uma situação completamente diferente – digo, tentando fazer a cabeça deles contra mim. Não posso simplesmente aceitar que eles me perdoem com tanta facilidade. Não é justo com eles.

– Bem, é para isso que servem os amigos – diz Pallome, colocando a mão sobre meu joelho de brincadeira.

– Não seja boba, Pallome. Essa é uma situação completamente diferente. Não é como se eu tivesse apenas pegado o garoto que você gosta ou quebrado o copo favorito da sua mãe.

– Escuta, Cedric – corta-me Phillip. – Não vou dizer que estamos completamente bem, porque eu ainda estou puto com você. Porém... – Ele faz uma pequena pausa, por talvez estar tentando se convencer a falar. – Acho que mesmo seu erro monumental merece perdão, ou quem sabe só uma segunda chance. Além disso, não faz sentido cada um ir para o seu lado por causa disso. O que podemos fazer é viver um dia de cada vez e dar um jeito nessa bagunça.

– Pense pelo lado positivo – diz Pallome em seguida. – Se encontrar a garota perfeita, suas chances de passar literalmente a eternidade com ela aumentam de ‘amor verdadeiro’ para ‘amantes imortais’.

Nós três rimos por algum tempo.

– Não quero que você me perdoe – digo, para Phillip.

– E eu não quero te perdoar. Mas, como disse a Pallome, é para isso que servem os amigos.

E assim seguimos com a noite. Sem mais ataques de lobos malucos. Sem mais turistas sendo atacados por vampiros assustados. Sem o tão necessário perdão, porém também sem um término em nossa relação. Com sorte, também sem mais solidão.



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