História Vermelho e Violeta - Capítulo 1


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NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Universo A B O com algumas alterações próprias, se ficar confuso, por favor me avise que tentarei explicar tanto em uma das "notas" quanto pessoalmente.
Detalhes básicos: Todos os "humanos" tem orelhas e cauda de algum dos quatro animais a seguir: Lupinos = lobo, caninos = cachorros, vulpinos = raposas e felinos = gatos. Assim, um felino ômega é um ômega com orelhas de gato.
Eu tenho meio que uma origem do meu universo, mas ainda não está completa para ser postada, sorry.

Capítulo 1 - Tudo tem que ter um começo


Eu definitivamente odeio vermelho. Sim, eu sei que muitas coisas legais ou importantes são vermelhas: sangue, quando dentro de seu corpo e não em seu uniforme escolar, pôr do sol e amanhecer, visto quando nenhum olho está roxo, pimenta, na comida, não nos olhos. Até morangos e cerejas sabem que é melhor fugir do vermelho, ficando rosa quando viram sorvete. Não sou nenhum dos dois, mas também faço meu melhor para fugir do vermelho. Se tirar nota vermelha perco minha bolsa de estudos, compro o mínimo necessário, já que não temos muito dinheiro mas, principalmente, tento ficar o mais longe possível dos malditos alfas e seus olhos vermelhos. Aceitaria ser cobaia de testes se isso me permitisse ficar invisível.

A pior parte é a prepotência. Eles se acham os donos de tudo, objetos ou pessoas. Assediam ômegas, principalmente, mas vários betas também parecem ter alvos pintados em suas costas. Nem sempre são os que parecem mais fracos, mas os que se negam a obedecer qualquer vontade desses idiotas. Bem, pelo menos é assim na escola. Sei que lá fora não é algo tão claro assim, essa opressão vira econômica em vez de física. Menos no caso dos ômegas, que fica pior, porque vira física, econômica, sexual, social.

Só tem uma coisa vermelha que me agrada. Os cabelos da Bia. Ela é uma vulpina beta de olhos verdes e cabelos vermelho-fogo, bem parecidos com sua personalidade explosiva. Era a única pessoa que eu realmente gostava naquele maldito lugar. Digo, os professores e outros funcionários da escola eram legais, mas eu não os convidaria para passar a noite vendo filme e comendo pipoca ou só ficar conversando e tentando descobrir como aquela garota sabia tanto da vida de todo mundo. Ela dizia que não era fofoqueira, só bem informada.

Sem ela minha vida seria bem pior, ou pelo menos bem mais difícil. Ela me ajudava a fugir dos que queriam me bater ou assediar, me ajudava com os curativos, inclusive arrumando desculpas críveis para dar a vovó ou a pedindo para deixar eu dormir lá para ajuda-la a estudar ou fazer um trabalho quando eles me destruíam. Ela dizia não se importar em cuidar de mim, sempre fala que como ela um dia seria médica, era bom ter um paciente para ir treinando. E eu ficava feliz, sabendo que ela mentia só para eu não me sentir mal, afinal eu sabia que seu sonho era ser professora infantil.

Outro motivo de eu odiar alfas e vermelho era meu “pai”. Vovó sempre disse que era completamente apaixonado por mamãe, que fazia tudo por ela e mais um pouco. Que parecia uma eterna lua de mel. Mas aí eu nasci, mamãe não resistiu ao parto e por alguma lógica bizarra que fazia sentido apenas a ele, a culpa era minha. Quando ele tentou me matar, me deixando para fora, na chuva, vovó decidiu que era hora de ir embora. Ela adorava o genro, mas não o perdoava por isso. Ela abandonou tudo. Cidade, casa, amigos. Saiu com uma mala para ela e uma bolsa para mim. Foi o mais longe que conseguiu, alugou uma casinha de fundo, pequena mas suficiente. Nós nunca fomos procurados por meu “pai”.

Dona Helena, ou simplesmente vovó, era uma felina beta que, apesar de não ter mais a beleza da sua juventude, nunca desistiu de buscar o melhor para nós. Vivemos com o dinheiro de sua aposentadoria, que não é muita coisa, mas vez ou outra até sobra um pouco. Uma vez eu tentei falar que queria procurar um emprego para ajudar nas despesas da casa. Tentei porque antes que eu terminasse, ela me abraçou mais apertado que nunca, falando baixinho que tudo o que ela queria era que eu não me preocupasse com nada, que ela sempre daria um jeito. Que ela só queria que eu fosse feliz. Era principalmente por isso que eu não a deixaria saber o que acontecia comigo na escola. Não precisava de mais preocupações.

Era segunda e eu tinha dormido mal, se é que acordar a cada trinta minutos possa ser considerado dormir. Eu só entrava as sete, mas desde as três não consegui dormir mais. Também não podia fazer muito barulho ou acender a luz pois, por alguma coisa que só vinha com a idade, todo velho, digo, toda pessoa de mais idade tem a mania de acordar extremamente cedo. Tudo que eu podia fazer era aproveitar o calor debaixo dos cobertores e o não-sentir dor, já que o feriado de quinta da semana passada me deu tempo mais que suficiente para me recuperar.

Escondo-me mais na cama, praticamente esmagando a Meia-noite entre os braços. Ela era uma gata de pelúcia, preta como meus cabelos. Ganhei quando tinha dez anos e desde então, não conseguia mais dormir sem ela. Sei que é infantil, mas mesmo assim eu gostava. E, tirando vovó e Bia, ninguém sabia disso, então não tinha porque me preocupar. Era, sem dúvida, meu bem mais precioso. Lembro uma vez quando ela descosturou uma parte perto da orelha e eu, com meus doze anos, chorei a ponto de vovó ter que correr para arrumar um jeito de costura-la ou então eu morreria desidratado. Ou pelo menos isso era o que ela achava.

Eu não queria ir para escola. Era sempre assim, depois das férias escolares, ou mesmo de um feriado prolongado. Eu nem sabia porque continuava. Como ômega, assim que tivesse meu primeiro cio, eu seria proibido de continuar. Bem, não realmente proibido, mas eu não iria me vincular e muito menos deixaria ser marcado por um alfa. Ontem a noite discuti com vovó por isso. Ela insistia que eu continuasse, que ela daria um jeito nisso, mas eu torcia para ela não conseguir. Sei que não devia torcer contra ela e contra mim, mas eu só me sentia culpado por ter brigado com ela.

Pelo menos depois das aulas eu teria uma consulta com minha psicóloga, doutora Viviane. Ela é uma lupina beta de cabelos loiros e curtos e um sorriso eterno no rosto. Eu me consultava com ela desde o começo do ano passado, quando vovó achou as minhas caixas vazias de calmante. Eu não queria me matar, só queria... apagar um pouco. Tentar diminuir a dor, sei lá. Não tinha sido a primeira vez que eu fiz isso, só que daquela vez eu tinha sido descuidado. Ainda tinha consultas a cada dois meses com minha psiquiatra, doutora Ana, que me diagnosticou e me receita remédios.

Minha última consulta com ela foi na quarta da semana passada, então tinha um monte de caixinhas em minha mesa de estudos. Ao mesmo tempo que vovó não gostava de ver tanto remédio em minha mesa, ela ficava feliz que eu estava me tratando. A meu pedido ela escondeu a caixa com todos os outros medicamentos, e eu fiz questão de nunca procurar. Era talvez a única forma de me ajudar que eu tinha naquele momento, não confiava em mim mais. Ainda não confio muito, sei que é possível uma recaída.

Nesse ponto a escola até ajudava. Lembro de ter lido em algum lugar que, uma dor nova, sendo ela de intensidade semelhante ou maior que a anterior, tende a fazer o corpo “parar” de sentir a dor antiga. Apanhar dos coleguinhas durante uma crise depressiva mais forte era bom, por mais masoquista que isso pareça. Claro que o mesmo durante os poucos momentos de euforia poderia ser o gatilho das crises depressivas. Mas como, em geral, as crises depressivas eram em maior quantidade... Pelo menos eu não precisava voltar a me arranhar. Não era a melhor situação, mas era a menos pior.

Já ouvia o baixo cantar de vovó vindo provavelmente da cozinha. Finalmente poderia me mover sem receios, mesmo que isso significasse ter que ir à escola. Suspiro pesado antes de deixar Meia-noite escondida nas cobertas. Pelo menos ela poderia aproveitar um pouco. Com os olhos mais ou menos abertos, pego o uniforme e me arrasto até o banheiro. Quando se é obrigado a fazer algo que não quer, o esforço necessário se multiplica. Eu tinha certeza que, nesse momento, não passava de uma bagunça de cabelos, irritação e desânimo.

Prendo meus longos cabelos. Sempre os escondia de alguma forma na escola, já que não duvido que eles fossem capazes de o cortarem, só para me humilhar. No frio era bem mais fácil, já que a escola não proibia gorros ou toucas, mas no verão eu quase sempre tinha que ser criativo, o que não é meu forte. Já fiquei mais de um mês juntando o dinheiro do lanche para comprar uma peruca, que usava quando nada mais dava certo. Hoje seria um desses dias. Eu usava peruca para esconder o cabelo na escola e usava boné em casa para esconder a peruca de vovó. Não tem como não rir disso.

Já estava pronto. Uniforme, jeans preto, tênis simples, boné simples que sairia assim que a distância e algum vidro que fosse temporariamente espelho me permitissem. Sinto o cheiro de café forte me levantar um pouco, sentindo um pouco da fome que eu tentava ignorar desde que acordei. Chego e vovó já estava sentada colocando café para ela e, assim que me viu, para mim também. Sento-me ao seu lado e beijo sua bochecha.

- Bom dia vovó. – Finjo parecer animado. Depois de tanto tempo, era fácil.

- Bom dia querido. Hoje tem consulta depois da aula, certo?

- Sim, devo chegar antes das três, vou comer lá por perto mesmo. – Ela não gostava que eu tivesse como almoço algum salgado, mas não compensava voltar da escola e sair logo em seguida.

- Tudo bem, mas coma algo saudável! – Ela nem me esperou e começou a rir sozinha.

Vovó não entendia o por que de eu sempre sair bem cedo para escola. Eu falava que era para me encontrar com a Bia, e ela acreditava na mentira. Bia só chegava em cima da hora, seu pai a trazia quando ia ao trabalho em um escritório perto da escola. Eu ia cedo para poder me esconder dos coleguinhas que adoram o contraste do vermelho e do roxo contra minha pele, sempre querendo vê-lo mais e mais. Segunda e sexta era suficiente ficar na sala, mas vez ou outra tinha que ficar trancado em alguma cabine do banheiro de ômegas. Também tinha a opção de me sentar no banco perto da sala dos professores, mas essa só parava o tormento físico, não impedia os alfas de ficarem passando a mão em mim.

A melhor parte de se estudar de manhã eram as ruas vazias, tirando velhos, que ainda não sei porque estão acordados, e padarias, que até tem motivos para estarem abertas. Eu podia caminhar tranquilamente, sem ficar com vontade de olhar para trás todo quarteirão. Não moro perto, mas não acho que moro longe da escola. Demoro mais ou menos meia hora para chegar, mas é porque eu fico aproveitando o friozinho da manhã. Tiro o boné, dando uma última olhada para ver se a peruca está firme, e o guardo, parando tempo suficiente para um suspiro e voltar a caminhar.

O Centro Educacional Nair Teixeira e Irma Rodrigues é o que alguns podem considerar uma sucursal do inferno, uma jaula cheia de chimpanzés desmiolados ou sua área de diversão, dependendo só qual era seu tipo. Eu, obviamente, ficava com a primeira opção, Bia achava que a segunda era mais exata. Ela tentou me explicar que as pessoas eram mais estúpidas que malvadas, mas quando se é o único ômega masculino de toda escola, com um enorme imã que só atrai idiotas, não faz tanta diferença assim.

 A escola em si não era lá grande coisa. Um prédio de dois andares. No segundo andar ficavam as salas de aula, no primeiro a biblioteca e sala dos professores e no térreo o resto. Os professores eram, em sua maioria, bons. Apesar de só ter uma sala para cada ano, elas não eram superlotadas. Também, com a mensalidade com uma quantidade exagerada de dígitos, pelo menos boas aulas e conforto eram o mínimo.

Passo pelos portões olhando baixo. Se eu não encarasse ninguém, seria mais fácil ser ignorado por eles. Até meus cumprimentos eram rápidos e mudos, apenas um menear de cabeça. Só volto a respirar quando me sento, deitando a cabeça na mochila que apoiava nas pernas perto do joelho. Arrisco um olhar pela sala. O bom de se sentar na última carteira, perto do meio da sala era que não precisava virar muito a cabeça para observar o “perigo”. Apenas alguns betas e uma ômega estavam lá.

Eu tinha sentido o cheiro de alguns poucos alfas quando cheguei, mas nenhum destes eram os que faziam parte do meu grupo de tormento. Não sei dizer quanto tempo, mas bem mais rápido do que eu queria, sinto um cheiro infelizmente familiar perto de mim. Os meus coleguinhas se dividem em três grupos. Os que me batem, os que passam a mão em mim e os que fazem as duas coisas. Lucas Venturini era do último grupo. Ele não me dava socos ou chutes, mas me jogava contra paredes, apertava meus pulsos, me puxava em sua direção.

Minha cabeça estava usando a mochila como travesseiro, então fiz questão de não me mexer, na esperança que ele não me notasse, ou pelo menos não quisesse fazer nada comigo. Eu sinto-o chegar mais perto, consigo segurar o pequeno tremor que senti. Ele parecia muito perto agora. Ou estava curvado sobre mim ou agachado ao meu lado. Quando seu hálito quente envolve minha nuca, todos os poucos pelos de meu corpo se arrepiam, meus lábios se apertam entre meus dentes para não deixar o medo sair.

Um dedo desliza por minhas costas, levando arrepios consigo. Logo sinto seus dentes percorrerem meu pescoço, me fazendo tremer. Droga, eu tinha medo de continuar ali, tinha medo de tentar sair e ele piorar a situação. Tudo o que eu podia fazer era cobrir o máximo de meu corpo possível e esperar que o professor aparecesse, porque tenho certeza que ninguém o impediria. Bia com certeza tentaria, mas ela provavelmente chegaria junto do professor, como sempre.

- Seu cheiro é o melhor, Ariel. – Ele sussurra contra meu ouvido, mordendo o lóbulo em seguida. Minhas mãos tentam se fechar com mais força, começando a machucar a palma de cada uma. Ouço um riso baixo antes de sentir que seu cheiro se afastou um pouco de mim.

Não atrevo a olhar em sua direção, continuo de olhos fechados esperando o professor. Ouvia as conversas ao meu redor. Lucas com alguns amigos, que para mim pareciam mais uma gangue, as ômegas lá na frente da sala falando mais alto que o necessário, os sons indistinguíveis vindo de fora. Tudo foi momentaneamente silenciado pelo alto sinal de começo das aulas. Finalmente levanto a cabeça, olhando a sala quase cheia, com todos sentados. O lugar a minha frente ainda vazio. Bia chegaria logo para me contar como foi a viagem que fez no fim de semana com seus pais.

Como previsto, ela chega junto do professor, ou melhor, o professor chega à porta e a segura, esperando alguns segundos e deixa a vulpina beta entrar. Ela desaba na cadeira e vira em minha direção, mas o professor lhe deu uma bronca e tudo o que conseguiu fazer foi pedir desculpas. A sala tinha trinta e dois alunos. Cinco alfas, quatro ômegas e o resto de betas. Contando somente alunos, ainda tinha na escola mais sete alfas e quatro ômegas. Eu sinceramente achava que eram muitos alfas, mas ninguém ouvia minha opinião.

Lucas era o que mais me incomodava. Enquanto sua gangue adorava me derrubar e espancar quando nenhum professor estava olhando, esse lupino maldito ficava admirando tudo, esperando a vez dele se divertir. As duas alfas da sala nunca me incomodaram. Os outros dois eram um caso a parte. Pedro era o mais baixo na hierarquia, tanto por não ser nem muito forte, nem muito rico, nem muito marcante. Tudo o que se importava era tentar conquistar a única ômega solteira da sala, Emília. Ele vez ou outra vinha falar comigo, em geral nada legal, mas não chegava a me tocar, o que já era alguma coisa.

Flávio, o último dos babacas, não era tão rico nem tão forte quanto Lucas, mas era bem mais popular. Ele era mestre em manipular pessoas e eu tinha certeza que ele deveria controlar até a diretora da escola. E, para minha sorte, ele e seu bando adoravam competir com a gangue do Lucas no jogo “vamos tornar a vida de Ariel um inferno”. Felizmente essas competições aconteciam apenas uma vez por semana, em geral na sexta, o que me dava alguns dias de preparo. Devia ser coisa de alfas lupinos idiotas.

A aula corria tranquila, mas vez ou outra eu sentia o olhar de Lucas ou Flávio sobre mim. Não sei qual era pior. Tudo o que eu podia fazer era segurar o tremor do corpo e prestar tanta atenção na aula que todo o resto desaparecesse. Isso funcionava em parte, principalmente na parte dos exercícios, quando os olhos focavam os livros e não a mim. Antes do intervalo, o professor pede que Bia o acompanhe, que a diretora queria falar com ela. Eu queria ir junto, mas eles não me deixariam passar da secretaria, onde eu ficaria mais exposto do que se simplesmente me escondesse.

Apesar de ser um prédio sem graça, a escola tem um pátio amplo, bem, amplo o suficiente para os mais ou menos cem alunos. Bancos, algumas árvores, uma pequena cantina com algumas mesinhas, nada demais. Eu podia contar nos dedos quantas vezes me arrisquei a entrar na fila em frente a cantina. Em geral eu só sentava em um banco parcialmente escondido por duas árvores e esperava Bia comprar seu lanche para conversarmos. Como não podia ficar na sala, que era trancada, corri para meu refúgio, torcendo para Bia chegar logo.

Antes mesmo de chegar ao meu banco, sinto o cheiro de Flávio vindo de lá. Não sei quantos xingamentos eu conseguiria proferir agora, se não sentisse um empurrão em minhas costas, levando-me até o alfa. Dou uma olhava para trás e vejo um amiguinho dele. Chego perto, olho em volta, eu poderia tentar correr, escapar de um beta era fácil, eu era rápido e eles não conseguiam sentir meu cheiro. Duvido que Flávio viesse me perseguir, não era do feitio dele. Claro que se desse errado, eu provavelmente teria que dormir na casa da Bia.

Respiro fundo, decidido. Diminuo meu passo até ficar na frente do beta, dou um passo para o lado e o faço tropeçar. Corro em direção as escadas, só soltando o ar quando estava entre as estantes da biblioteca. Eu tinha parado de correr na porta, não poderia ter a chance de ser expulso de lá, não agora pelo menos. Eu não queria ficar nem muito visível perto da porta, nem muito no fundo, onde, se me achassem, não teria como escapar. Estava tão atento a porta que quase me escapa um grito, quando uma mão envolve minha cintura.

O grito escapou de mim, mas foi preso pela outra mão. Logo meu corpo é puxado para trás, batendo contra o corpo alheio, sendo ainda mais apertado. Dentes puxam meu uniforme, liberando meu pescoço, depois percorrido lentamente por lábios. Eu consigo um pouco de razão, usando minhas duas mãos contra a que me emudecia, a pressionando contra mim, para que meus dentes conseguissem mordê-la mais forte. Ele não grita, mas o inesperado o fez afrouxar o aperto, me permitindo virar em seus braços e o empurrar um pouco para trás.

- Oh, o gatinho quer brincar. – Lucas sorri e eu sinto minhas pernas travarem. Quando eu resistia, ele ficava violento. Sinto minhas costas baterem contra uma grande estante de madeira, seu antebraço me prensava, com uma boa parte ainda escapando pelos lados. Ele lambe lentamente os lábios, terminando em um sorriso quase sádico. – Implore. – Sua voz sai calma, mas meu arrepio não o é.

- Não. – Eu sabia que implorar não adiantaria. Ficar em silêncio não adiantaria, nada adiantaria. Ele só queria uma desculpa. Já que é para dar merda, vamos fazer direito. Eu não o encarava, até porque meus olhos estavam fechados, mas eu fazia meu melhor para não tremer. Eu o ouço rosnar, minhas orelhas começam a arder, meu corpo queria se encolher, já que correr não conseguia.

- Acho que não ouvi direito. – A cada palavra dita eu tinha mais chances de me unir à parede. O rosnado fica mais forte, a dor começa a descer pelo corpo. Eu começava a querer que ele me batesse, porque assim só doeria uma pequena parte e não o todo. Meu corpo ainda se segura. Eu os enfrentava ocasionalmente, mais quando os machucados eram poucos, mas enfrentava. Respiro fundo para segurar um gemido de dor, abrindo os olhos, mas logo fechando um, como se isso fosse diminuir a dor.

- Eu disse não. – Lucas desliza os dedos da mão livre por meu rosto. Ao chegar em meu queixo, ele levanta dolorosamente meu rosto, sorrindo. Logo ele vai se curvando, chegando com os lábios bem perto de minha orelha, provavelmente da mesma forma que fizera mais cedo. Uma leve mordida antes de continuar.

- Ainda vou me divertir muito com você, gatinho. – Lucas me solta, dando um passo para trás. Minhas pernas finalmente cedem, fazendo-me cair encostado à estante. Não precisava olhá-lo para saber que sorria.

Nada acontecia. Lucas ainda estava lá, perto de mim, mas em estranho silêncio. Arrisco um rápido olhar e o vejo encostado na estante, uma mão segurando um livro de capa vermelha que não consegui ler, enquanto a outra estava no bolso. Assim que me percebe começa a ir embora, me acenando com a mão que segurava o livro. Quando finalmente some entre as estantes eu começo a tremer. Inferno, isso nunca iria acabar, certo? Saio da foice para cair na espada, escapo do crocodilo para encarar o leão.

Só me levanto quando tenho certeza que não vou mais cair. Eu fedia a alfa. Nem tento pegar um livro como desculpa, só ando lentamente em direção à porta. Vejo Bia discutindo com um dos betas da gangue de Lucas. Não sabia se devia ir em sua direção ou não, mas não precisei decidir. Sou visto e a vulpina passa entre os braços do beta que a impedia, tentando seu máximo não correr dentro da biblioteca.

- Liri, tudo bem? Te procurei o intervalo todo. Quando ia entrar aqui o idiota do André não me deixou passar! – Ela falava rápido, ao mesmo tempo que me analisava por completo. – Foi o Lucas, né? – Só confirmo com a cabeça. – Vem, vamos para sala. – Só confirmo de novo.

Nessas horas eu não queria falar, porque eu sabia que se falasse e em algum momento a vontade de chorar viesse, eu não conseguiria segurar. Bia gentilmente me arrastava com ela, falando pelo menos três palavras por segundo sobre sua viagem. Ela me fazia prestar atenção nela, porque assim eu não prestava atenção em mim. Eu só prestava atenção em meu olfato. Ignorando o cheiro de Lucas em mim.

Chegamos inteiros à sala, não muito antes do sinal tocar. Entro e continuo com quase toda atenção à Bia, que agora falava de uma festa chata, segundo ela, que fora obrigada a ir pelos pais. Vejo tanto Flávio quanto Lucas entrarem, com o primeiro encarando o segundo, que só ria. Quando o assunto sobre a bebedeira da tia Antônia ia começar, a professora chega e praticamente grita, fazendo todos prestarem atenção.

A melhor parte de gostar das matérias é que o tempo dentro da sala não era uma tortura, não era o constante medo do relógio. Claro que os olhares continuavam, mas alguns professores eram melhores que outros em desviar minha atenção deles. A última aula era de redação, ou seja, assim que terminássemos, poderíamos conversar, baixo, de modo a não atrapalhar os outros. Finalmente consegui contar o que aconteceu hoje. A vulpina parecia incomodada, talvez se culpasse pelo ocorrido durante o intervalo e, antes mesmo dela falar, tiro essa preocupação de si.

As aulas terminavam meio dia e quarenta. Em geral eu ia com Bia até o trabalho do pai dela, cujo horário de almoço começava a uma da tarde. Porém, como praticamente toda segunda eu tenho consulta, nesse dia eu saia sozinho, ou mais ou menos. Bia fazia questão de me acompanhar parte do caminho, até a lanchonete em que eu comprava minha imitação de almoço. Não era ruim, mas por mais gostoso que um salgado e suco sejam, não era uma refeição. Se vovó ouve isso, ficaria com seu famoso sorriso de vitória.

                Chego cedo, ainda tinha dez minutos até minha consulta. O que eu mais gostava nessa clínica era que existiam zero alfas nela. Seja psicólogo, psiquiatra ou paciente. O ar-condicionado friozinho nesse calor era apenas um bônus. Eu não iria pensar naqueles idiotas, não agora pelo menos, já que provavelmente a psicóloga vai pedir que eu fale o que aconteceu. Ela não demora e me chama para a sala já tão conhecida. O roteiro era sempre o mesmo. Ela senta em silêncio até eu começar a falar algo, só então começa a participar.

                - Eu conversei com a doutora Ana sobre a insônia. Ela me passou um remédio que ajuda com isso e com a depressão. A dose não pareceu funcionar, mas pode ser só porque eu comecei semana passada. - Ela me olha e anota. Ela sempre anota coisas mas nunca me deixava ver.

                - Não acha que toma muito remédio? - Eu nunca conseguia lê-la, era como um passatempo meu.

                - Sinceramente não. Eu percebi uma melhora com eles, então não tenho do que reclamar. Vovó não gosta, principalmente quando eu volto cheio de caixas pra casa. - Eu não gostava de remédios, ou melhor, não gostava das pílulas. Acho que por ter tomado tantos comprimidos antes, quando tentava me apagar.

                A conversa em si foi tranquila. Contei o que tinha acontecido hoje, como meus dias estão um inferno cada vez pior, em como eu pensava em desistir a cada dia. Tinha vezes que eu só me sentia tranquilo em falar com ela olhando para paredes ou qualquer outra coisa inanimada. Eu não conseguia falar tão abertamente a olhando nos olhos. Ela já conhecia meus problemas na escola, sabia que as vezes que eu denunciei a direção eles até tentaram fazer algo, que na verdade só piorou minha situação. Também me ajudava, me fazendo entender um pouco a mente dos que me atormentam para eu conseguir viver um pouco melhor.

                Nos dias de consulta eu voltava sozinho, mas pela hora não havia muitas pessoas na rua, então eu não tinha muito com o que me preocupar, só a habitual paranoia racional de sempre. O calor não me deixava desacelerar o passo, mas mesmo assim levava pelo menos vinte minutos até chegar. Estranho o silêncio quando abro a porta. Em geral vovó fica me esperando na sala, fingindo que assistia alguma coisa, mas que não escondia sua preocupação. Ela só deve ter saído ou coisa assim.

                Vou para meu quarto trocar de roupa, ficando só de short e camiseta. Eu não gostava de usar chinelos em casa, a sensação dos pés contra o piso frio, mesmo no inverno, era relaxante. A fome bate, mas não tinha nada do que eu queria comer. Pego minha carteira e infelizmente os chinelos e saio, trancando a porta. Como eu morava em uma casa de fundo, tinha um longo e estreito corredor até a rua, de um lado era dona Gláucia, de quem alugávamos a casa e a do outro estava vazia fazia mais ou menos dois meses. Tranco também o portão da rua, vendo dona Gláucia vindo em minha direção, um pouco afobada. Eu só a tinha visto assim uma vez, quando um dos sobrinhos dela tinha morrido. Sinto o coração apertar e minhas mãos a tremer. O olhar de pena me fez ter mais medo do que todos os dias na escola, juntos.

                - Vem, vamos entrar querido. - A voz dela saia tremida. Ela tenta me empurrar na direção de sua casa, mas meu corpo imóvel parecia de pedra.

                - Por favor, fala logo dona Gláucia. - Ela parece ponderar se fala ou não, o que me deixa mais agitado. Eu já tinha certeza que algo aconteceu com vovó e a maldita velha não falava nada.

                - Sua vó foi internada no hospital, querido... - Droga, droga, droga, droga! Ela tentava falar mas eu não ouvia. Tudo o que eu consegui fazer foi correr. Correr o mais rápido que eu conseguia na direção do maldito hospital, querendo que minhas pernas fossem maiores, que os carros se explodissem, sei lá! Tudo o que eu queria era ir para o lado da vovó, agora!


Notas Finais


Infelizmente não posso garantir frequência, mas espero que gostem.


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