História Vermelho e Violeta - Capítulo 2


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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Esse capítulo tem um "gatilho" de selfharm/auto-mutilação. Eu acho a palavra mutilação muito forte, mas o personagem principal se fere propositalmente.

Capítulo 2 - Sem tempo para pensar


                O mundo era só um borrão de luzes escondidas por lágrimas. Sentia os olhos arderem, pelo chorar e pelo suor que lhe escorria do rosto ou vindas das costas das mãos, que tentavam fazer esses líquidos em excesso saírem de perto de mim. O grito de dor entalava a garganta, quase me impedindo de respirar. Eu não sentia minhas pernas, só o baque brusco dos pés contra o chão. Eu trombava com pessoas, sentia galhos riscarem meu rosto, ralava os joelhos com as quedas. Um dos chinelos foi perdido no meio do caminho, o outro, quebrado, se agarrava em mim com mais força que eu tinha no momento.

                Eu não sabia quanto tempo corri, nem como consegui chegar. Só parei para ter fôlego o suficiente para dizer o nome de vovó e perguntar o quarto. Tudo o que percebo é uma direção apontada e um número, correndo antes mesmo dela terminar. Desvio de enfermeiras, pacientes e macas, praticamente arrancando a porta do pequeno quarto. O som das máquinas me apavora. Tinha alguém lá, deitado na cama. Eram mais faixas que gente, o peito praticamente imóvel. Caio de joelhos ao seu lado, com medo de tocar e quebrar alguma coisa. Eu sabia que era vovó lá. Não sei explicar, eu só sabia.

                Uma mão toca meu ombro, fazendo-me voltar um pouco a realidade. Seu Valter, marido de dona Gláucia, estava lá, provavelmente já estava antes de minha invasão. Ele me coloca da pé, me apertando entre seus braços. Finalmente a dor rompe o lacre e os gritos pouco controlados escapam, mas eu não me importava. Eu estava apavorado, meu peito doía tanto que quase não me deixava respirar. O resto do corpo também estava quebrado, mas nada doía como aquilo. Alguém me empurra um comprimido e um pouco de água, me fazendo apagar logo em seguida.

 

                Minha cabeça parecia uma sirene, a dor pulsando constante sem sinal de parada. As pernas pareciam dormentes e meus pés provavelmente ainda estavam lá, mesmo não os sentindo. Acho que a única parte de meu corpo que não está doendo é minha bunda. Não me atrevia a mexer um dedo, nem a respirar mais profundo. Meus braços ardiam com o contato com a cama e com o lençol. Um barulho ritmado em meu ouvido era chato, mas bem menos intenso. Meus olhos continuavam fechados, o barulho lá fora denunciava que era dia. Eu tinha que ir pra escola.

                Sinto meu braço ser puxado e abro os olhos em susto. A luz clara me cega. Eu nunca dormia com a luz acesa! Ignoro as pontadas em minha cabeça, olhando para todos os lados, mas vendo quase nada. O braço atacado já tinha sido recuperado e estava protegido pelo outro. Quando finalmente consigo ver, uma enfermeira, meio espantada meio compreensiva, esperava que eu me acalmasse, ou algo assim. Levanto um pouco e fico sentado no sofá, que eu achava ser cama, enquanto uma de minhas blusas escorrega por meu peito, provavelmente era meu lençol.

                A memória me acerta como um trem. Rapidamente acho a cama ocupada, me atirando novamente em sua direção. Meus joelhos reclamam, mas os olhos e a cabeça também, não tinha como ouvir todos. Eu não entendia absolutamente nada desse monte de máquina e som, mas tinha uma enfermeira ali, e se ela não estava desesperada como eu estou, pelo menos com isso eu não preciso me preocupar. Eu ouço seus passos receosos em minha direção, nem se tudo pegasse fogo eu sairia dali. Ela começa a falar, eu fico grato por não ter que desviar o olhar.

                - Não se preocupe, ela está estável. Vou chamar o médico responsável. - Aceno, um pouco mais calmo. Estável significa que ela não vai piorar, né? Que ela vai melhorar, né? Que logo, logo vai estar cantando baixinho e bebendo café, né? Resisto a vontade de gritar para que ela acordasse, que não me deixasse sozinho. Ela vai melhorar, eu vou cuidar dela, como ela cuidou de mim.

                - Você é parente da senhora Vasconcelos? - Afirmo com a cabeça. - Eu precisaria falar com algum responsável, seu pai, sua mãe? - Eu só nego.

                - Somos só eu e ela no mundo. - O médico respira fundo, parecendo pensar no que falar a seguir. Isso só me fez pensar que eram más notícias, que ficavam cada vez piores a medida que os segundos passavam. - Por favor, me fale como ela está.

                - Apesar de tudo, ela está bem. É uma mulher forte. Foi um acidente grave, ela teve muita sorte de não ter lesionado gravemente nenhum órgão importante. Ainda assim, teve alguns ossos quebrados, uma das costelas perfurou o pulmão.

                - Quanto... Quanto tempo até ela melhorar? - Eu tentava inutilmente parecer calmo ou seguro.

- Se ela fosse mais jovem, eu diria que pelo menos três meses, mas com pacientes mais velhos, fica impossível dar um prazo certo. - A notícia me empurra ao sofá. Eu sentei lentamente, deixando tudo se organizar.

O médico me olha preocupado, mas dou-lhe uma tentativa de sorriso, que o parece tranquilizar. Ele sai em seguida, vendo que eu não tinha mais nada a perguntar. Mesmo se tivesse, eu não conseguiria fazer nesse momento. Vovó não é jovem, mas é saudável, come bem, faz exercícios, vai ao médico regularmente. Ela vai sair daqui logo, então eu vou poder brigar com ela por ter me dado esse susto e nós iríamos tomar sorvete. Depois eu ajudaria a fazer um bolo e tudo ficaria bem. Tinha que ficar.

Minha atenção é tomada pela porta sendo aberta. O barulho de saltos contra o piso competia pelo seu lugar. Uma mulher, não devia ter trinta anos, para na porta, olhando tudo como se procurasse algo ou alguém. Olha para mim várias vezes, mas não fala nada. Por fim, vem em minha direção, sentando-se no braço do sofá. Será que ninguém nessa porcaria de hospital me acha capaz?

- Ariel Vasconcelos?

- Sou eu. - Ela me entrega um envelope pardo, lacrado.

- Não é a melhor hora, mas como na ficha de sua avó só tem você como contato, infelizmente tenho que fazer. - Ela parecia sim, um pouco incomodada, mas exagerava em suas palavras.

- O que é isso? - A interrompo, balançando o envelope.

- O plano de saúde de vocês não cobre internações de longos períodos nem órteses, isso será cobrado a parte.

- Órteses?

- Ela precisou de placas para fixação de ossos do antebraço. Ah, sim, a cirurgia relacionada as costelas e pulmão também não faz parte do plano. - Essa merda de plano não cobre nada? Respiro fundo, tentando não me descontrolar. Rasgo o envelope para ver o valor. Aquilo... tinha... eram muitos números. Vovó não tinha tantos dígitos assim em sua conta. Eu deixo escapar um pouco da minha apreensão.

- Tudo isso? - Ela confirma. - Quanto tempo temos para pagar?

- Se parcelar, tem até trinta dias corridos para pagar a primeira parcela. Caso não seja pago, o jurídico do hospital tomará as ações cabíveis.

Ela se despede, pedindo desculpas por ter que me entregar algo assim em um momento tão difícil. Até parece. Sua voz não vacilou em nenhum momento, nem parecia culpada. É o seu trabalho, infeliz, não precisa mentir. Respiro fundo vendo a conta. Não tínhamos tanto dinheiro assim e, mesmo sendo boas pessoas, não poderia pedir tanto dinheiro aos amigos de vovó ou mesmo da família de Bia. Se eu destinasse todo o dinheiro da aposentadoria ainda levaria um tempo considerável, o que é impossível, já que quando estiver melhor, queria que vovó saísse o mais rápido possível daqui. O que é que eu vou fazer?

Deito no sofá, não sabendo se encarava o teto ou me encolhia todo. Eu só conseguia pensar em duas opções, existia uma terceira, mas eu preferia deixá-la para quando eu estivesse desesperado. Eu arrumaria um emprego, qualquer coisa que conseguisse, e tentaria conseguir algum período de carência, o máximo possível, com dona Gláucia. Eu sabia que, alguma hora, eu acabaria tendo que recorrer à terceira opção, vender meu corpo, para conseguir terminar de pagar a dívida. Tudo valeria a pena no final.

Era melhor eu começar logo. Eu sou um ômega, sou menor de idade, meu único ponto positivo é meu histórico escolar, que, convenhamos, não vale nada nessa hora. O único lugar que eu conhecia era o escritório do pai de Bia, e pelo que ela dizia, não estava indo muito bem. Teria que sair andando por aí, meio a esmo, meio planejado. Todo meu planejamento era entrar nas lojas que o dono ou a dona me achasse capaz de trabalhar. Além disso, tinha que ter o mínimo de alfas possíveis, já me bastavam os da escola. Se bem que até a escola pode esperar agora.

Depois de tantos problemas rodando minha cabeça, finalmente consigo respirar. Os problemas ainda estão ali, como leoas, cercando-me, só esperando o momento certo. Eu nem sabia que horas eram. Ainda tinha que ir para casa para tomar um banho e sair. Eu já começava a ficar irritado com o barulho dos aparelhos, ao mesmo tempo que me tranquilizava pela noção que estava tudo bem com vovó. Pego a blusa que me serviu como lençol e tento dobrá-la de qualquer jeito para não amarrotar. Só então olhei meu travesseiro.

Provavelmente fora dona Gláucia quem as trouxe. Era uma toalha de rosto que recobria algumas roupas, dentre elas meu uniforme, alguns pares de meia e meu tênis. Percebo o que sobrou de meus chinelos, agora apenas chinelo, escondido perto da porta. Ela sabia que eu não sairia daquele lugar tão cedo, precisava agradecê-la, os dois na verdade. Em uma sacola, logo ao lado, no chão, com um pente, pasta e as escovas de dente minha e de vovó. Aproveito que estavam lá e pego minha escova, pasta e a toalha e vou a banheiro. Sentia ainda um gosto ruim, provavelmente do remédio que me apagou. Eu também deveria estar com a cara toda amassada.

A segunda parte era completamente verdade. Meus olhos e nariz estavam vermelhos, eu odeio essa cor. Escovo os dentes duas vezes antes do gosto ruim sair. Também jogo um pouco de água no rosto para tentar melhorar meu estado. Não ajudou muito. Quando procuro algum lugar para estender a toalha, vejo o que deveria ser um lugar para banho. Não passava de um chuveiro e uma cortina para alguma privacidade. Olho para a tranca do banheiro, penso na distância que teria que andar até chegar em casa e depois ter que sair de novo. Se eu posso ou não, que se foda. Já estão querendo meus rins e mais alguns órgãos como pagamento, vou tomar banho aqui mesmo.

Pego uma troca de roupa em cima do sofá, tranco a porta e começo a me despir. Eu não conseguia tomar banho frio, mas a água quente passando pelos joelhos ralados quase me fez mudar de ideia. Também quase me fez gritar. Consigo me secar de alguma forma com aquela toalha de rosto. Eu pensei seriamente em sair com meu uniforme, poderia me ajudar, uma melhor primeira impressão. Desisto porque provavelmente isso só serviria como mais uma possível desculpa, de não contratar estudantes. Penteio os cabelos, calço meu tênis, finalmente saindo do quarto, dando um último olhar para vovó.

Não acho que adiantaria procurar o dia todo. Se fosse manhã, procuraria até perto da hora de almoço, descansaria a tarde e voltaria a procurar durante o começo da noite. Se já fosse de tarde, bem, aí eu iria demorar a voltar. Encontro uma enfermeira saindo do quarto ao lado. Não era a que me acordou. Pergunto se não tinha problemas em deixar vovó sozinha no estado em que se encontrava. Ela me informou que durante o dia não tinha problemas, pois havia mais enfermeiras no hospital, mas que durante a noite era recomendado a presença de alguém no quarto se o estado de saúde fosse grave ou se o paciente tivesse algum risco de morte. Agradeci e comecei a procurar a saída.

O ar fora do hospital era inexplicavelmente melhor. Mais leve. O sol estava baixo, acho que perto das oito horas. A maioria dos locais abre as nove, mas sempre tem alguns que começam antes. Eu tinha certeza que nenhuma fábrica me contrataria. Não tinha força física nem conhecimento suficiente para operar as máquinas. Eu teria mais chances no comércio. O centro da cidade não estava longe, quanto mais perto chego, mais movimentadas ficam as ruas.

Entro em uma padaria, vejo que são oito e meia e peço qualquer coisa para comer. Eu não estava com fome, na verdade estava com ânsia, mas tudo o que eu menos precisava agora era passar mal na rua. Aproveito o movimento baixo e pergunto para uma canina beta se ela sabia de algum lugar que precisava de funcionários. Ela disse que algumas estavam, mas a maioria pedia experiência. Acho que percebeu meu desespero nessa hora e continuou, falando que eu provavelmente teria uma melhor chance se procurasse em restaurantes, pizzarias e lojas do tipo, que sempre precisam de alguém para lavar pratos.

Isso me deu alguma esperança. Não seria o emprego mais bem pago do mundo, mas era simples e fácil o suficiente para mim. Eu poderia trabalhar meio período sem problemas. Um sorriso brotava em meus lábios, que me foi retribuído pela beta. Agradeci, paguei e fui embora, um pouco animado. Eu queria não ter tantas esperanças assim para depois sair decepcionado, mas uma esperancinha, pequenininha, deixaria o sorriso menos forçado na hora da entrevista.

 

Provavelmente, não, eu tinha certeza absoluta que tinha andado mais hoje do que todo esse ano. Estava cansado, minhas pernas doíam mais do que quando acordei. Depois de sei lá quantas recusas, umas cinco ofertas caso eu aceitasse dormir com o alfa dono do lugar e pelo menos três que nem sequer se dispôs a falar comigo, eu estava arrasado. Mais mental que fisicamente. Já passava das duas quando desisto, torcendo para ter mais sorte a noite. Decido não voltar para casa, ver vovó me acalmaria o suficiente para não ter uma crise de pânico. Perto do quarto, uma cabeleira ruiva corre em minha direção e quase me derruba. Levanta-me no ar com um abraço apertado. Eu sentia que ia chorar, mas resisto, devolvendo o abraço.

- E-eu fui te procurar, você nunca falta. Aí sua vizinha disse que você estava aqui e eu vim correndo, mas você não estava e eu fiquei com medo de você, sabe, tentar de novo. – Bia sabia das minhas tentativas no passado. Eu estranhei, só percebendo agora que eu não tinha nem pensado nessa opção. Acho que o tratamento realmente está surtindo algum efeito.

- Eu acho que ainda estou em choque. Não tive como te avisar, desculpe.

- Precisa de alguma coisa? Eu posso ir na sua casa com minha mãe e pegar algumas roupas ou seu material, sei lá.

- Não precisa, minha vizinha me trouxe algumas coisas. Vem, vamos sentar, minhas pernas estão me matando. – A puxo para dentro do quarto. Eu precisava ficar lá, ver que nada tinha piorado com vovó antes de conseguir falar qualquer coisa. Nos sentamos no sofá, ainda sem soltar as mãos. Ela aperta meus dedos, me incentivando a começar. E eu conto tudo.

Sobre como descobri, como cheguei, o que o médico disse. Ela se assustou mais que eu quando falei o valor da dívida que agora eu tinha. Ela disse que falaria com seus pais, para conseguir ajudar um pouco, mas eu insisti em não aceitar. O escritório do pai dela não estava indo muito bem, se perdesse o emprego eles precisariam desse dinheiro até que ele conseguisse outro. Eu falei sobre procurar emprego. Não falei sobre meu fracasso até agora, nem que a opção de sair da escola se tivesse que trabalhar em período integral existia. Ela pede para ver a conta e vejo seu que sua expressão piora.

- O que foi? – Ela parece voltar a si, mas parecendo pior.

- Liri, quanto tempo disseram que você tinha?

- Um mês, por que?

- Aqui fala que tem que pagar até a próxima mensalidade. – Meus olhos se abrem com tanta força que parecem querer saltar. Vovó sempre pagava essas contas antes do quinto dia útil do mês, para fugir das filas. Isso significa que...

- Eu tenho só até sexta? – Minha voz sai baixa, descrente. Dizem que coisas ruins acontecem sempre em três. Dessa vez, acho que exageraram.

Tinha perdido sem nem ter chance de ganhar. Eu não conseguiria fazer um acordo com o hospital sem ter pelo menos alguma garantia que os pagamentos ocorreriam regularmente. Minha mente estava mais branca que as paredes desse quarto. O objeto mais caro que temos em casa é a geladeira, não tem como isso valer algo. Eu poderia tentar deixá-los com culpa ou talvez só fazê-los sentir pena de mim para conseguir mais tempo, mas isso era tão certo quanto eu conseguir um emprego.

Bia não podia ficar muito. Depois de quase uma hora conversando comigo, ela foi para sua aula de música. Não tínhamos conseguido nenhuma resposta, mas pelo menos eu consegui me distrair um pouco. Meu corpo estava tenso, todos os meus sentidos queriam ficar em alerta ao mesmo tempo e minha mente já começava a planejar assaltos a bancos ou falsificação de dinheiro. Eu precisava desacelerar minha cabeça ou só teria mais chances de uma crise de pânico. Sem o comprimido forte de ontem eu demorei um pouco, mas consegui tirar um cochilo.

 

Andar de um lado para o outro dentro daquele quarto não estava ajudando em nada. Se vovó estivesse acordada, já teria me mandado parar ou ela ficaria tonta. Mesmo a janela aberta me sufocava. Até pensei em trocar de roupa, como se menos tecido ou se algo mais folgado fosse ajudar. Sexta, três dias e meio, menos de noventa horas. Muitos minutos para calcular de cabeça, mas poucos para conseguir resolver meu problema.

O corredor dos quartos era movimentado. Mais por parentes dos lá internados, mas sempre com pelo menos uma enfermeira a um grito de distância. Fecho a porta com cuidado, olhando ao meu redor. Algumas cadeiras que mentiam ser confortáveis, um filtro de água onde o corredor se bifurcava e nada mais. Não considero plantas de plástico, elas são uma ofensa. Minha boca seca me guia até o filtro. Puxo um copinho de plástico transparente e o encho, mas antes de bebê-lo, algo no canto do olho atrai minha atenção.

Não sei se pelo medo ou por algum tipo de memória visual, mas eu reconheceria os alfas de minha sala em qualquer lugar. Era ótimo quando eu os via sem ser visto, para que eu tivesse tempo de desviar, o que parecia ser a situação. Estava de costas para mim, provavelmente indo em direção a um dos quartos no fim desse corredor. Era Lucas. Seu caminhar era rápido, mas eu percebia que ele tentava parecer calmo. Ele se vira para uma porta, olhando dentro do quarto pelo vidro. Ele... sorria, de uma maneira que eu nunca tinha visto na escola. Era um sorriso aberto, que espremia as bochechas.

Sim, eu estava seguindo-o com os olhos, mas era apenas curiosidade. Digo, curiosidade apenas após esse sorriso estranho. Estranho vindo da parte dele, claro. Ele parece hesitar a entrar no quarto, duas vezes tira a mão do bolso e move em direção à maçaneta, retraindo-a logo depois. Na terceira tentativa ele parece respirar fundo antes de finalmente abrir e entrar no quarto. Meu copo já estava vazio entre os dedos, não estava mais com tanta sede, e eu falei que queria andar um pouco, certo? E andar na direção daquele quarto em específico só era uma consequência disso, certo? Claro que sim, nada a ver com a curiosidade galopante em minha cabeça.

Ando tentando fazer o mínimo de barulho possível, o que não era preciso, já que o barulho feito por outras pessoas no corredor certamente encobriria o de meus passos. O vidro na porta não era largo, mas era comprido, ficando longe apenas das extremidades. Discretamente movo minha cabeça, olhando o interior. Vejo Lucas sentado na beirada da cama, acariciando os cabelos de uma criança que eu não daria mais que cinco anos. Ele, pois parecia ser menino, dormia tranquilo, pelo menos parecia sorrir com o carinho.

Era estranho ver Lucas assim, sendo carinhoso com alguém. Na escola ele não brigava, mas também não era tão cuidadoso assim com os membros de sua gangue, digo, com seus amigos. Eu nunca o tinha visto namorando, talvez fosse assim com ela. Não consigo continuar com minha linha de pensamento quando uma enfermeira me toca o ombro, me incentivando a entrar. Um grito baixo escapa de meus lábios, me viro e saio correndo dali, em direção ao quarto de vovó. Eu torcia que a sorte sentisse pena de mim e não deixasse o alfa vir atrás de mim. Afinal, ela está me devendo muito desde ontem.

Admito que o fato de ter me escondido dentro do banheiro assim que cheguei no quarto possa ser considerado exagero. Era apenas uma medida preventiva extra. Ficar lá mais de trinta minutos, sim, foi exagero. Vou até a porta do quarto, espiar se era seguro sair. Abro a porta lentamente, olhando os dois lados, respirando tranquilo ao vê-los só com algumas pessoas que eu reconhecia como acompanhantes dos ocupantes dos quartos ao redor. Aproveito que estou com a cabeça para fora e pergunto as horas.

Eram quase seis da tarde, hora perfeita para sair. Comeria alguma coisa qualquer na rua e tentaria a sorte novamente, realmente precisando da sorte nesse momento. Tentei a padaria de hoje cedo, mas estava fechada. Vou a uma praça perto e como um cachorro-quente que uma lupina bem animada vendia. Eu já sabia mais ou menos onde eu encontraria mais restaurantes, então vou caminhando antes mesmo de acabar de comer. Era um pouco longe e eu não queria fazer o caminho de volta muito tarde.

 

O cheiro do fracasso me envolvia, dificultando a respiração. Meus ombros pesavam mais que chumbo. Eu caminhava. Só caminhava, derrotado, até o hospital. Eu tinha falhado, eu não era capaz nem de conseguir uma droga de emprego! Inferno, como vou conseguir ajudar assim? Eu devo ter passado em pelo menos metade das lojas e restaurantes da cidade e nada. Nem uma dica, nem uma sugestão, nem mesmo uma mentira. Eu já começava a entrar em desespero, que era o que eu menos precisava agora. Talvez mais um ou dois daquele comprimido de ontem ajudariam bastante.

Minhas mãos, uma de cada vez, esfregava o antebraço oposto. Não pelo frio, que não era tanto. Fazia tanto tempo que não sentia necessidade de fazer isso. Logo a palma da mão é substituída pelas unhas. O movimento ainda é lento, mas eu sabia que não duraria. A mão direita, bem mais violenta que a esquerda, toma o controle. Minhas garras atacam a pele, cada vez mais rápidos, mais curtos e mais fortes. Não demora muito para a camada clara ficar embaixo das unhas, enquanto o local, já vermelho, continuava sofrendo o ataque.

Eu sentia a dor percorrer o corpo em ondas, cada vez maiores. Eu sentia necessidade de continuar essa loucura, precisava da dor para me punir, para me sentir melhor. Precisava para não enlouquecer, para não ficar pior. O sangue não escorria, mas estava presente, pequenas gotas se formavam quando o movimento era parado. O plasma sanguíneo se esforçava para tentar fechar a enorme ferida, para diminuir os danos. Eu não chorava, sacrificava o corpo pela mente, pois o corpo ainda era mais forte.

Não tinha coragem de entrar no quarto de vovó. Ficava lá, olhando a porta, esperando alguma coisa boa acontecer. Sei lá, algum milionário bondoso ou alguma loteria que ganhei sem jogar. Até virar stripper e ter notas sendo atiradas no meu corpo seminu já era bom. Toco perto do machucado. Não era o mais grave que já tinha feito, mas era sem dúvidas o maior. Quando vejo dona Gláucia chegando, tento esconder, mas ela é mais rápida. Ela não sabia que eu fazia isso comigo, nem precisava saber.

Fui levado até uma enfermeira, menti o motivo da ferida e um curativo cuidadoso foi-me presenteado. Eu não senti vergonha de ter mentido sobre isso. Não me ajudaria, não ajudaria dona Gláucia e nem sequer afetaria a enfermeira, já que ela faria o curativo de qualquer forma. Sou arrastado até um carro e levado para casa por seu Valter. Enquanto sua esposa ficaria a noite com vovó, ele me levaria e ficaria lá caso eu precisasse de qualquer coisa. Eu não queria ficar longe, mas não acho que conseguiria ficar naquele quarto. Eu sentia meu rosto aquecer pela vergonha, me pintando com a cor que mais odeio.

Coloco uma roupa leve, vou para cama e tento dormir. Falho nisso também. Tentei sofá, chão, até a cama de vovó, nada, nem depois de tomar meus remédios, que me dão um pouco de sono, consegui. Tomei um banho quente antes de tentar todas as opções novamente, com um cuidado extremo em não molhar o curativo. Tanto por não querer ter que fazer eu mesmo outro quanto por não querer que a água quente toque a ferida. Já passava das duas, devo ter dormido uma hora no máximo. Era minha cabeça que não queria me deixar parar. Tudo que eu conseguia pensar eram em formas cada vez mais absurdas de conseguir dinheiro. Roubar bichinho de pelúcia de criancinha para revender aos pais tempo depois, vender bonecas de plástico para homens solitários, virar testador de brinquedos eróticos, virar o bichinho de estimação de algum alfa estúpido e rico. Espera...

Essa última opção... não... não parece tão ruim assim. Eu conseguiria todo o dinheiro, não tocaria nas economias de vovó, não teria que parar de pagar o aluguel, deixando tudo como está. O alfa imbecil, sendo rico, não precisaria me prostituir, talvez me ofereceria para amigos ou sócios, mas não seria algo diário. Claro que ele também poderia ser dono de algum prostíbulo, mas se eu conseguisse todo o dinheiro de uma vez e pagasse o hospital, isso era suficiente, certo? Eu provavelmente acabaria tendo que fazer algo assim de qualquer jeito. Ninguém em sã consciência iria querer um ômega como eu.

Eu não posso colocar um anúncio de vendo-me na testa ou no jornal. Todos os alfas conhecidos de vovó já tem companheiras, eu só conheço os alfas imbecis da escola. Sem companheiras tem apenas quatro. Um do segundo ano, que me batia sempre que seu time de futebol perdia. Nunca ouvi a voz dele. Pedro, que não é rico e já gosta de uma ômega. Flávio ou Lucas. Um frio desce a espinha, congelando-me inteiro. Dos dois, eu tinha mais medo do primeiro. Flávio me parecia mais um psicopata em formação do que um estudante do primeiro ano. Lucas não era lá muito melhor que isso. Era egoísta, possessivo, sempre fica me assediando, extremamente agressivo quando contrariado, mas era rico, muito rico.

Pensando pelo lado menos negativo, poderia nem ser ele a me comprar, poderia ser o pai dele. Não deve ser muito pior que o filho. Ou Lucas poderia me comprar e dar de presente para algum amigo dele, o que poderia ser muito pior. Estava tão concentrado em minha mente que nem sabia quando tinha começado a chorar. Inferno. Meu desespero subia conforme o número de possibilidades diminuía. Eu precisava de alguma herança surpresa ou vender minha alma para o titio Lúcifer. Bem, de certa forma, era o mesmo que me vender para o Lucas...


Notas Finais


Ainda não sei muito bem onde quero levar essa história e estou experimentando "formas diferentes", assim, qualquer crítica é bem vinda.


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