História Vermelho e Violeta - Capítulo 3


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Palavras 4.413
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Acho, ACHO que já acabei de escrever, vou tentar postar um capítulo por dia. É curtinha, só 10 caps, mas eu gostei de escrever.

Digamos que o ômega se animou com o uso de palavrões

Aproveitem

Capítulo 3 - Ah, se minha mente falasse


Não consegui dormir após tomar a decisão. Também não acho que queria, pois dormir só faria o tempo correr mais rápido. Ainda tinha uma pequena esperança de conseguir pensar em outra opção. O dia amanhecia e tudo o que eu consegui pensar foi em como eu faria para não ter que usar uma coleira vermelha quando Lucas fosse me arrastar por aí. Era um bom plano, envolvia algemas, cama, venda para olhos e uma faca afiada apontando para um lugar específico. A faca poderia ou não escapar de meus dedos, mas isso não vem ao caso.

Fui fazer café. Só café. Forte e amargo, como eu precisaria ser agora. Coloco o uniforme, bebo mais que a quantidade socialmente aceitável, quase queimando a língua, pego minha mochila e saio. Quanto antes eu fizer, melhor. Bati meu recorde e em menos de quinze minutos já estava lá. Era mais tarde do que eu geralmente chegava, muitos alunos estavam espalhados no pátio. Sentia-me incomodado com tantos olhares, era por isso que eu chegava cedo. Respiro fundo, indo para sala, mudando o rumo quando vejo Lucas e sua gangue. Pela primeira vez eu fui em sua direção e não na contrária.

Devia ser algo da minha cabeça, mas eu sentia que algo estava errado. Bem, só o fato de eu estar andando em linha reta na direção do alfa já era muito errado, mas ouvia cochichos baixos e uma ou outra pessoa me apontando. Devem estar me achando ainda mais louco, o que eu estava tentado a concordar. Junto ao diabo, digo, Lucas, havia cinco betas, sendo somente uma mulher. Ela estava abraçada a um dos outros do grupo, enquanto os outros três conversavam entre si. Lucas me encarava com um sorriso, meio surpreso meio malicioso. Eu poucas vezes o olhava por mais de cinco segundos sem desviar o olhar. Quando chego perto o suficiente, sou impedido de começar por um dos betas que antes conversava.

- Olha só, eu queria mesmo bater em alguém hoje. - Ele estala os dedos numa tentativa de me assustar, mas não consegue. - Vai falar nada não? - Ele ameaça se mover. Que se exploda ele. Ainda encarando o alfa, falo.

- Preciso falar com você. - Lucas me encara incrédulo. Seguro um riso de sua expressão boba antes de continuar. - A sós, por favor. - Um outro beta é interrompido pelo alfa, que vinha em minha direção, chegando cada vez mais desconfortavelmente perto.

- Eu quero que você use essa boquinha para outra coisa. - Ele envolve minha cintura e puxa, tocando meus lábios com os dedos. - Eu faço o que você quer, você faz o que eu quero, que tal? - Solta um sorriso safado, descendo a mão para minha bunda e a apertando.

- Por favor, é algo sério. - Ele bufa e me solta, parecendo frustrado. Foda-se, melhor ele do que eu. Toco receoso seu ombro. - Lucas...

- Fala logo, vai. Não quero perder meu tempo. - Não chega a bater, mas tira minha mão de perto com mais força que o necessário. Minha vez de bufar. Fecho os olhos, abaixo a cabeça para me manter calmo. Sinto meus cabelos caírem por meu rosto. Merda, esqueci de prender.

- Me espera na biblioteca depois da aula, tá? - Tento esconder meu cabelo de qualquer jeito, o que parece atrair a atenção do alfa, que começa a rir baixo, me incomodando. - Que foi? - Vai demorar muito para esse dia acabar?

- Não prende, eu prefiro ele assim. - Ele segura delicadamente uma mecha do meu cabelo e leva até seu rosto. - Você fica bem mais lindo de cabelo solto.

Tudo o que eu podia fazer tinha sido feito. Nem me despeço direito e saio de lá, admito que um pouco envergonhado. Ou muito envergonhado. Vou até a sala, conseguindo desviar de Flávio no caminho. Sento em meu lugar, me deitando sobre os braços e escondendo o rosto. Meus cabelos escorrem por todos os lados, mas eu nem tinha como prendê-los. Droga, estava tão nervoso que esqueci do meu ritual básico. Só escondo meus cabelos de qualquer jeito por dentro do uniforme e volto a me deitar.

Que vai dar merda eu esperar ele depois da aula, eu sei que vai. Eu só torcia que não desse tão errado. Se até as piores opções derem errado, eu não vou ter o que fazer. Ainda tinha que pensar em uma desculpa para Bia que não a fizesse querer me esperar. As sirenes da dor de cabeça pareciam cada vez mais explosivas. Meus segundos de paz acabam quando vejo Flávio entrar. Ele vem em minha direção, lentamente, até chegar perto e se curvar.

- É muita maldade você não vir no meu dia, baixinho. - Eu só o espero continuar. - Você fugiu de mim dois dias, baixinho, vou ter que descontar o atraso. - Ele chega bem perto, mas logo se afasta. - Você fede. - Simplesmente se vira e sai.

Eu não entendi. Eu tomei banho, não suei nem nada. Cheiro minha camisa para tentar entender, mas não sinto além do meu cheiro natural de ômega, meu desodorante e... e o cheiro do Lucas. É, provavelmente ele não gostou de não ter sido o primeiro a me atormentar hoje. Azar o dele. Os dois poderiam nunca serem os primeiros, se isso significasse que sairiam de perto. Poderiam também cair de abismos, se engasgarem com um pedaço de torta, torcerem o tornozelo fugindo de um tigre, várias opções. Infelizmente, parece que o mundo não me ouve.

As aulas passaram mais rápido do que eu queria. No intervalo, falo para Bia mudar nosso lugar “secreto”, por fim acabamos encostados em uma árvore não muito longe do nosso antigo, mas como estava mais longe dos muros, o vento batia com mais frequência, o que era bom. Consigo convencer Bia que eu precisava ficar para fazer os exercícios das aulas perdidas, eu precisava mesmo, mas não faria agora. Depois do intervalo a tortura era lenta. Sentia o olhar curioso de Lucas em mim o tempo todo, o que não me deixou concentrar na matéria. Mais uma aula que vou ter que rever depois.

Eu já estava na biblioteca há uns bons dez minutos. Eu esperaria até a uma da tarde, depois eu teria que tentar de novo amanhã. Ou eu poderia tentar acha-lo no hospital de novo e falar lá. Pensando bem, essa era uma opção bem melhor que falar com ele na escola. Oh, cérebro, eu sei que está difícil, mas não me deixa fazer besteira, vai, prometo te dar descanso qualquer hora. Pego minha mochila que tinha deixado sobre a mesa que fiquei esperando. Os três betas que estavam ao lado de Lucas hoje mais cedo estavam na porta, entrando e vasculhando todo o local pelo olhar.

Automaticamente me levanto, sabia que não ia dar certo. Um deles me vê, logo cutucando os outros dois e todos vêm em minha direção. Dois eram caninos e um lupino. Os caninos eram os que pareciam mais animados, enquanto o lupino só observava. Com um canino de cada lado, não sabia para qual olhar. Eu tentava cobrir o machucado no braço esquerdo e segurar a mochila com a mão direita, o que, obviamente, não deu certo. O canino que me incomodou de manhã foi o primeiro a me chamar.

- Então, bichano, vai falar o que quer ou vamos ter que fazer você cooperar?

- Dica, a segunda opção é a melhor. – O segundo dá um sorriso mais falso que a segurança que eu tentava passar.

- E-eu só preciso falar rápido com o Lucas, não vai ser mais que cinco minutos. – Começo gaguejando e termino quase desesperado. Que lindo, cérebro. Você está ótimo, viu?

- Você pode nos falar – O segundo começa...

- Prometemos dar o recado. – O primeiro termina, levantando uma mão com os dedinhos cruzados, enquanto a outra vai e aperta meu machucado. Tento controlar o grito de dor, mas acabo gemendo e trincando os dentes. Pelo menos o susto fez o beta liberar meu braço, que agora eu escondia no peito, usando a mochila como escudo.

- Chega! – O primeiro canino tenta me tocar novamente, mas o rosnado do alfa o faz recuar. Minhas orelhas ardem e sinto que meu corpo era perfurado por várias agulhas. – Fernando, Jorge, saiam daqui – Os dois caninos saem sem reclamar, provavelmente tinham medo se fizessem algo. – André, fica na porta e não deixa ninguém entrar.

- Xá comigo! – O lupino vai sorridente não para a porta, mas para a bibliotecária. Conversa um pouco com ela, que logo sai lhe entregando a chave. O lupino a segue e o som da porta trancando me faz engolir seco.

- Estamos sozinhos agora. – Lucas fica desnecessariamente próximo e sussurra suas palavras, me deixando muito incomodado. Tento dar um pequeno passo para trás, mas ele acompanha, ficando ainda mais perto. Ele sorria de lado, esperando que eu começasse.

- Eu... eu tenho uma proposta a te fazer. – Tento parecer firme. Ele levanta uma sobrancelha, me apontando uma cadeira enquanto se sentava em outra.

- E o que seria? – Seus cotovelos vão para a mesa, braços dobrados, seu rosto apoiado somente nos dedões esticados. Uma verdadeira pose de negócios. Arrumo-me melhor na cadeira, mas não chego perto da mesa. Deixo minhas mãos trêmulas sob a mesa.

- Preciso de dinheiro. – Ele se mantém impassível. – Muito dinheiro. – Ele crispa os lábios, com uma expressão nada feliz no rosto.

- E o que eu tenho a ver com isso? Ou melhor, o que eu ganho com isso? – Isso, sorri da desgraça alheia. Depois que titio Lú vier te buscar, vou dançar no seu caixão de tamanco, desgraça.

- Você é rico. – Ele revira os olhos. Eu sei que isso é óbvio, peste. – Eu... quero que você me compre. – Eu praticamente sussurrei as últimas palavras, não acreditando que tinha conseguido dizê-las.

- Eu não ouvi direito, poderia repetir? – O sorriso safado em seu rosto gritava que ele tinha ouvido, mas queria que eu me humilhasse um pouco mais. Respiro fundo antes de fazer.

- Eu quero que você me compre. – Dessa vez falo olhando em seus olhos. Seus odiosamente vermelhos olhos. Ele parece procurar um motivo em meu olhar, mas não parece ter encontrado. Eu me ajeito, deixando os braços cruzados sobre a mesa.

- Por que eu pagaria por algo que posso ter a hora que quiser? – Ele foi rápido. Segurou meus braços, fazendo-me curvar sobre a mesa. – Eu só preciso querer e você vira meu. – Eu sentia o corpo todo querer tremer.

- Por favor, eu não sei mais o que fazer. – Eu sentia as lágrimas inundarem meus olhos, logo escorrendo por meu rosto. – Eu procurei emprego ontem o dia inteiro, mas parecem que só querem a porcaria de um ômega como prostituto. Nem para lavar pratos eu servia. – Por que eu estava falando tudo isso para ele? O pior é não conseguir parar. – Eu não quero ter que ir me oferecer na rua ou para o Flávio. Por favor, por favor... – Eu já não conseguia falar, só chorava alto.

Lucas não falava nada. Se eu não sentisse seu cheiro, eu teria certeza que ele teria saído dali para rir com seus amigos. Não sei quanto tempo eu fiquei chorando. Quando achei que poderia encará-lo novamente, respiro fundo, enxugando o rosto rudemente com as mãos. Não tinha funcionado, eu ainda não conseguia ver nada. Uso uma das mangas para secar as lágrimas mais teimosas, finalmente o olhando. Minha cabeça doía, minha garganta ardia, qualquer vestígio de orgulho que eu tinha se escondeu e o infeliz estava lá, sorrindo.

Nessa hora eu surtei. Era tanta raiva que eu sentia por dentro. Do mundo, de mim, do azar. Levanto quase derrubando a cadeira e avanço sobre ele. Agarro a mochila com as duas mãos e a giro em sua direção. Ele foi pego de surpresa, não conseguindo se defender muito bem. Tudo parecia câmera lenta para mim. Lucas se desequilibra e acaba caindo de bunda no chão, jogando a cadeira longe.

Sento em sua cintura, começando a distribuir socos de qualquer jeito. Ele mantinha os braços cruzados defendendo o rosto. Eu chorava novamente, praticamente gritando a cada soco. Os olhos molhados não me deixavam mirar direito. Por vezes acertei o chão com força, mas a adrenalina corria tanto por meu corpo que eu não sentia nada. Eu só sentia raiva, queria destruir qualquer coisa a minha frente. Lucas teve o azar de ser essa coisa.

Meus braços já estavam desistindo, quase dormentes. Dobro-os contra o corpo, tampando meu rosto com as mãos. As lágrimas não paravam, mas os gritos tinham diminuído. Minha garganta doía tanto que eu não tinha certeza se conseguiria falar amanhã. Agora, além de ter uma dívida enorme sem ter como pagar, tenho um maldito alfa que sabe disso, que deve estar vermelho de raiva por eu ter lhe batido. Vou ser espancado até a morte ou até ter que ser internado no hospital, aumentando minha dívida e não tendo nem como tentar novamente achar alguma saída. Talvez desacordado eu tenha um prazo maior.

- Quanto você precisa? – Olho assustado para o alfa. Ele... hm... o que? – Quanto dinheiro você precisa? Eu estava querendo um bichinho de estimação faz um tempo. – Meu corpo decide assumir o controle, agora que meu adorável cérebro partiu em dois. Pego a mochila e retiro um papel onde anotei o valor da conta. Entrego e o ouço assobiar. – Muito dinheiro mesmo.

- De-desculpa eu... eu não... digo... – Eu tinha que falar algo com sentido, mas tudo que saía de minha boca eram partes de frases diferentes.

- Aquela proposta ainda está de pé? – Que proposta? Ele deve ter percebido minha dúvida e continua. – Eu quero te comprar. – Lucas vai subindo suas mãos por minhas coxas até chegar em minha cintura, apertando de leve. A súbita lembrança fez toda a vergonha inicial voltar, querendo me levantar. Eu até tento, mas acabo batendo as costas na quina da mesa, gemendo de dor e caindo sobre o peito do alfa. Ele ri alto.

- Para de rir. – Eu estava bravo, mas a voz destruída fez sair tudo em sussurro. Ele consegue controlar o riso, me deixando continuar. – A proposta ainda está de pé.

- Só faço esse acordo se me der um beijo. – Me afasto logo, apoiando os antebraços em seu peito. Como assim? – Um beijo de verdade, com língua e gemido. – Ele só devia estar brincando!

Vou me aproximando aos poucos, com minhas mãos segurando em seus ombros, deixando meus braços entre nós. Fecho os olhos, respirando fundo para tentar conseguir alguma coragem. Sinto seus lábios contra os meus, sua respiração batendo em minha pele. Viro mais um pouco o rosto, pedindo passagem. Ele era calmo, sua língua brincava com a minha, se entrelaçavam. Era estranho, ele me deixar controlar o beijo. Eu estava um pouco ofegante, o ar tinha saído mais rápido do que eu pensava.

- Faltou o gemido. – Só entendi depois que suas mãos apertaram minha cintura. Lucas facilmente gira nossos corpos, ficando por cima de mim. Eu ia reclamar, mas quando abro minha boca ele a cobre com a sua. Ele era intenso. Sua língua explorava toda minha boca, me obrigando a tentar acompanha-la. Era bom, muito bom. Suas mãos descem, apertando minha bunda com força, me fazendo gemer também com força. – Agora sim. - Ele sussurra em meu ouvido.

Lucas estava entre minhas pernas e sussurrando em meu ouvido. Quem eu matei e não me lembro para ter que suportar isso? Consigo empurrá-lo, só um pouco, mas melhor que nada. Ele se levanta aos poucos, me puxando logo em seguida. Eu pego minha mochila e vou para minha cadeira. Ou pelo menos queria. Sinto o braço sem machucados ser puxado, me desequilibrando e me fazendo sentar de lado em suas pernas. Ele sorria cínico, como se não tivesse feito nada demais.

- Para que precisa de tanto dinheiro, gatinho? - Eu não iria responder. Tinha me vendido pelo bem de vovó, não tinha nada a ver com ele. Tento me levantar, mas minha cintura é logo presa por apenas um de seus braços, enquanto a outra pega minha mochila e a coloca em cima da mesa. Cada vez que tentava me soltar, o aperto aumentava. Eu estava usando isso para conseguir tempo para pensar em uma desculpa, o que não deu certo. - Só te solto depois que me responder.

- Eu não posso falar... - Não poder é bem mais forte que não querer.

- Tem alguma coisa a ver com isso? - Ele usa a mão livre para tocar próximo de meu machucado, sem chegar perto da parte mais sensível. Bom, de certa forma tem a ver sim, mas eu já falei coisas demais para ele hoje, mais do que eu devo ter conversado com ele desde que o conheci.

- Nã-não, eu me machuquei. - Ele levanta uma sobrancelha, desacreditando-me – O que? - Ele só me encarava em silêncio

- Como se machucou? - Droga, não tem como você aceitar um não? Que inferno!

- Eu caí. - Disse a primeira coisa que me veio a cabeça. Ele segura uma de minhas mãos, levantando a palma.

- Sem ferir as mãos?

- Si-sim, caí em cima do braço. - Droga, droga, droga, por que eu gaguejei?

- Vou fingir que acredito por hoje. Mais cedo ou mais tarde vou te fazer falar. - Lucas desliza sua mão livre para entre minhas pernas, apertando minha coxa me fazendo gemer.

Sua mão sai logo em seguida, indo até seu bolso pegar o celular. Eu o olhava curioso, não tinha ouvido tocar. Não me deixou ver sua senha, o que me deixou frustrado, e entrou em um aplicativo de banco. Já tinha visto Bia usar o mesmo algumas vezes, para conferir se sua mesada já poderia ser gasta. Ele pede meus dados bancários, que na verdade são de vovó, me “agradecendo” com um beijo na nuca. Ele estranha o nome que apareceu, mas não pergunta nada. Quando a operação estava concluída, vira o celular em minha direção e fala.

- Pronto, agora você é meu, gatinho. - Ele sussurra em meu ouvido. Sua voz rouca me faz tremer um pouco, mas resisto. - Arrume suas coisas. As nove te busco.

- Pra que?

- A partir de hoje você vai morar comigo. - Ele fala como se fosse algo óbvio. Isso... fazia parte do acordo?

- Mas, eu não, não precisa, eu tenho minha casa e... - Ele me silencia com um dedo em meus lábios.

- Shhhhh, você é meu, preciso ficar de olho para que ninguém roube. - Ele sorri safado. Ele realmente era o diabo.

Lucas me levanta e entrega minha mochila. Eu ainda estava em choque, mas um tapa dado em minha bunda por ele me acorda. Antes que eu perceba, já tinha lhe devolvido um no ombro. Eu congelei um segundo, achando que ele poderia me bater, mas ele ri, se levanta, enlaça minha cintura me puxando para fora. Dá duas batidinhas na porta, que é aberta por André, que estranha a situação, mas não fala nada. Vemos a bibliotecária subindo as escadas, irritada, brigando com André porque a diretora disse que não a tinha chamado. Deve ter sido assim que ele conseguiu que ela saísse.

A escola estava praticamente vazia. Uns poucos alunos, os funcionários, quase nenhum deles prestando atenção em nós. Os dois caninos betas amigos de Lucas já deveriam ter ido, pois chegamos ao portão e não os tinha visto em nenhum lugar. O alfa se coloca em minha frente, dando-me um beijo tão intenso quanto o anterior. Sinto as pernas bambearem um pouco e me seguro em seus ombros para me firmar. O beijo acaba, mas ele ainda morde o lóbulo de minha orelha antes de me soltar e sorrir, indo embora por um caminho diferente que o meu com o beta ao seu lado, rindo horrores.

Tenho que chacoalhar um pouco a cabeça para fazê-la voltar a funcionar. Mais tarde eu arrumaria um jeito de castigar meu cérebro, mas agora tinha outras coisas a resolver. Passei na lanchonete que sempre “almoço” quando tenho consultas para comer alguma coisa, saindo logo para ir ao banco. Queria ter certeza que o dinheiro estava lá e pagar de uma vez essa porcaria de dívida, o que eu só conseguiria fazer no caixa, eletrônico ou humano. Eu não tinha celular, mesmo vovó insistindo para eu comprar um. Ela dizia que era para minha segurança, mas eu achava caro demais e não queria que ela gastasse tanto dinheiro assim comigo.

Suspirei em alívio quando aquele número enorme apareceu no extrato. Eu me senti estranhamente calmo, o que era errado, eu deveria estar em pânico pelo que viria a acontecer. Vou até o caixa pagar todas as contas. A fila não era grande, mas sempre aparecia mais um velhinho para entrar na minha frente. A atendente chamou algum superior quando lhe entreguei o boleto do hospital. Talvez contas tão cruéis assim precisassem de verificação ou algo assim. Ou ela só queria uma testemunha quando contasse isso aos colegas. Já estava quase saindo quando lembro de tirar o dinheiro do aluguel. Não posso me esquecer de que, até vovó sair do hospital, eu tenho pagar as contas e cuidar da casa.

Chego no hospital antes das quatro. O quarto estava vazio, mas logo dona Gláucia chega. Nós ficamos conversando um pouco. O médico tinha lhe dito que levaria tempo, mas que vovó estava se recuperando bem. Eu ainda tinha que arrumar uma desculpa para ela. Eu iria sair de lá, mas não posso contar porque faria isso. Também tinha os vasos de vovó que não poderiam ficar muito tempo sem regar. Droga, eu nem sabia com que frequência eu conseguiria vir ao hospital!

- Posso te pedir um favor, dona Gláucia?

- Claro que pode querido. - Ela me sorri gentilmente.

- Eu vou ficar na casa de um amigo por uns tempos, mas ainda vamos ficar com a casa! - Começo a me atrapalhar. Respiro antes de continuar. - Queria saber se a senhora poderia cuidar das flores da vovó

- Cuido sim, querido, pode deixar.

- Muito obrigado! - Um problema a menos.

Já passava das seis quando saí do hospital. Dei um beijo na testa enfaixada, tentaria voltar para visitá-la logo. Chego em casa sem fome, mas me obrigo a comer qualquer coisa. Tomo meus remédios e vou para o banho, tirar um pouco da tensão que sentia. Água quente sempre funciona nessa hora. Como tinha passado quase um dia, retiro o curativo. Não estava bonito, mas não estava infeccionado, apesar da grande vermelhidão. A pele ardia em contato com a água, me fazia sentir bem. Saio do chuveiro, me secando com cuidado e colocando uma roupa leve.

Lucas disse que chegaria daqui meia hora, as nove. Quando eu coloco uma bolsa de viagem na cama, percebo. Como ele vai chegar aqui se não tem meu endereço? Eu não lhe passei e tenho certeza que Bia tampouco. Isso significa que ele estava brincando ou que só se esqueceu. Ouço alguém batendo palmas e dou uma espiada para ver quem é. Tomo um susto ao ver que era Lucas. Ele estava meia hora adiantado! Calma, isso não é importante, como ele sabe onde moro? Ele parecia impaciente, então saí e fui lhe cumprimentar.

- O-oi. - Para de gaguejar, inferno. - Chegou cedo...

- Pensei em vir te ajudar. - Ele se aproxima, o corredor é estreito, praticamente me prensando contra o pequeno muro, enquanto ele segue em direção à minha casa. Falta de educação, entrar assim sem nem pedir. Ele já estava entrando quando se virou. - Você não vem?

- Tô indo. - Fecho o portão e corro um pouco. Ele estava já na porta do meu quarto, mas não olhava para dentro, ficava olhando todo o resto da casa. Vou até meu armário e ele me segue, impedindo-me de abri-lo. - Você está me atrapalhando...

- Você não precisa pegar roupas.

- O que? - Minha voz se descontrola, quase gritando. Como assim, não preciso de roupas? Pelado que eu não vou ficar! - Sai. Da. Frente. - Falo o mais calmo que consigo.

- Comprei roupas para você, espero que goste. - Eu ia reclamar, mas ele me cala com um dedo. - Só pegue seu uniforme.

Raiva. Raiva definia bem o que eu estava sentindo agora. Um pouco de vontade assassina, mas principalmente raiva. Enquanto colocava o que me era “permitido”, basicamente material escolar e produtos de higiene, tentava decidir se seria melhor sufocamento ou jogá-lo na jaula dos leões. Eu não tinha certeza se levava Meia-noite comigo, mas sei que não conseguiria dormir sem ela lá, principalmente por ser um lugar estranho. Ele começa a rir e eu só consigo imaginar ele sendo sufocado por leões famintos.

- Gato de pelúcia? - Vai, ser desprovido de graça, continua rindo, vai. - Combina com você. - Ele se aproxima e toca minha bochecha, mas eu afasto sua mão rápido. - Nervosinho.

- Você ainda não me viu nervoso. - Falo entre dentes, encarando-o. Ele chega mais perto, mas eu não me movo.

- Eu vou adorar te domar, gatinho. - Lucas desliza um dedo por minhas costas, causando arrepios. Aproxima o nariz do meu pescoço, respirando fundo. - Vou fazer você gemer tanto meu nome que vai esquecer o seu. - Sinto um beijo no pescoço, estremecendo. O empurro de qualquer jeito, precisava respirar.

- Só nos seus sonhos, imbecil. - Ele ri. O desgraçado ri. Ele pega a bolsa e minha mochila. Eu estava entre ele e a porta. Assim que passa por mim segura meu queixo, obrigando-me a encarar seus olhos.

- Nos meus sonhos eu faço coisas ainda melhores. - Ele segura minha mão, conseguindo entrelaçar nossos dedos, levando-me para fora. Inferno, eu estava envergonhado. Não é para perder dele nessas horas.

Vou apagando as luzes e tranco a casa. Lucas ainda não tinha me soltado, só fazendo isso quando já estávamos ao lado do carro. Ele coloca minhas coisas no banco de trás. Antes de entrar eu dou uma última olhada na minha casa. Eu sei que voltaria ali muitas vezes, mas não sei se moraria lá novamente. Lucas me espera paciente, ligando o carro só após me sentar. O rádio ligado me dava uma desculpa para não tentar conversar. Fecho os olhos por um segundo, aceitando minha nova realidade. 


Notas Finais


Estudante do primeiro ano dirigindo carro:
primeira explicação, dinheiro resolve;
segunda explicação, que aparece mais para frente, alfas adquirem maioridade aos 16 e ômegas após o primeiro cio.


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