História Vermelho e Violeta - Capítulo 4


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Tags Abo
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Palavras 7.212
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Famí­lia, Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Primeiramente, há lemon/cena de sexo entre dois homens nesse capítulo.
Segundo, foi a partir daqui que a história começou a tomar o controle, fazendo-me fugir da minha ideia original

Aproveitem

Capítulo 4 - Pensar demais nunca é bom


A diferença entre uma casa grande e uma enorme, é que a enorme faz você se sentir menor do que já é, pelo menos no meu caso. Então, certamente com o azar rindo de mim, era de se esperar que a casa de Lucas fosse enorme. Nem tinha entrado e a garagem deveria ser pelo menos tão grande quanto a minha casa. Além do que Lucas estacionava, tinham mais dois carros e uma moto, com espaço para pelo menos mais um veículo. Eu achava todo aquele espaço exagero. Para que tudo isso? Se quiser jogar dinheiro fora, joga ele em mim, inferno.

- Vem, vamos para meu quarto. - Engulo seco, eu torcia para ele não ter falado aquilo no sentido que eu acho que ele usou. Ele pega minha bolsa e me entrega a mochila, saindo por uma grande porta à esquerda. Sigo-o para não me perder. - Te mostro a casa outra hora. Os quartos ficam todos no andar de cima, o resto fica aqui. - Só não ter infinitos corredores que vai ser fácil. Subimos as escadas e entramos num dos quartos no fim do corredor, o que ficava a esquerda. - Esse é meu quarto.

As paredes eram escuras e tudo no quarto era grande. A cama, o armário, as estantes, a TV, o morador. A bagunça também era. Apostilas no chão, sacolas, algo embolado que eu tinha certeza que era uma toalha, várias bolinhas de papel, algumas em cima da cama, até algumas portas do armário estavam escancaradas. Aquele, definitivamente, era o quarto do Lucas.

- É a sua cara. - Ele ri, admitindo com a cabeça. Ele coloca minha bolsa ao lado da cama, de casal, e começa a tirar a roupa. Tudo o que eu consigo fazer é ficar de costas, olhando a porta logo em frente, pensando em abri-la e sair correndo dali. - O que você pensa que está fazendo?

- Tirando a roupa, oras. - Eu tinha certeza que ele estava fingindo um sorriso inocente agora. Fico batendo o pé, esperando uma resposta melhor. - Eu vou tomar banho, para isso eu preciso ficar pelado.

- Você poderia ter feito isso no banheiro. - Eu não tinha coragem de me virar. Se de costas já me sentia envergonhado, imagina se o olhasse nu?

- Poderia, mas esse é meu quarto, posso fazer o que eu quiser aqui.

- Então me fala onde eu vou ficar, para não te atrapalhar mais hoje.

- Você não me atrapalha em nada, gatinho. - Eu não sabia como ele tinha chegado tão perto sem eu perceber. Ele se apoia em minhas costas, me fazendo curvar com seu peso. Vejo uma mão passando por baixo e a seguro. - Que foi, só estou querendo trancar a porta. Afinal, você vai dormir aqui, comigo, não quero que ninguém entre e atrapalhe o nosso... sono. - Ele gemeu em meu ouvido. O desgraçado, cópia mal feita do diabo, falou aquilo gemendo no meu ouvido! Meu corpo tremeu todo e tive que soltar a mochila para poder me segurar contra a porta.

- Va-vai tomar banho então. Eu... eu te espero. - Seu hálito quente bate em minha nuca, me fazendo soltar um gemido baixinho. Merda. Levo uma mão a boca, como se isso fosse fazer alguma coisa agora.

- Preciso de alguém para lavar minhas costas. - Lucas segura cada uma de minhas mãos com as suas. - Você me ajuda, gatinho? - Ele morde meu ombro de leve, por cima da camiseta. Seu cheiro invadia minhas narinas.

Nossas mãos vão até a base da minha camiseta, passam para dentro dela, deslizando por minha pele. Elas sobem até meus mamilos e os dedos de Lucas me apertam. Um gemido escapa sem eu deixar, seguido por outro quando sinto-o beijar meu pescoço. Meus dedos apertam os dele, agora as quatro mãos tirando minha camiseta. Antes que eu percebesse, suas mãos já tinham abaixado meu short até o joelho, que deslizou por minhas pernas até o chão.

Eu ainda estava de costas para ele, suas mãos em minha cintura me guiam até uma porta encostada. O banheiro era grande como o quarto, com um pequeno armário embaixo da pia, um sanitário, um chuveiro e uma banheira. O barulho da água me faz voltar a realidade. O chuveiro estava ligado, mas não foi isso que atraiu minha atenção. O alfa estava nu, no chuveiro, com água escorrendo pelo corpo, esticando uma mão em minha direção, me chamando.

Caminho um pouco hesitante em sua direção, mas ele não me puxa, não me agarra. Ele espera. Eu estava ficando louco, por que infernos eu queria beijar aquela boca? Eu só sei que meu corpo não me obedecia mais. Eu beijo-o afoito, enlaçando seu pescoço para juntar mais nossos lábios, nossos corpos, para minhas pernas bambas não me derrubarem. Suas mãos percorrem meu corpo. Começam pelas costas, descendo pelas laterais, entrando na minha cueca e terminando em um forte aperto em minha bunda.

- Gatinho safado, gostei disso. - Suas palavras só me fazem endurecer mais. - Vamos tirar isso aqui, vamos? - Ele não espera uma resposta.

Suas mãos me largam, segurando juntas uma das laterais da cueca. Ele rasga essa lateral com facilidade, fazendo o mesmo com a outra. Eu solto um gritinho na primeira, mas não na segunda. Abro um pouco as pernas, deixando o tecido ir ao chão. Ele se aproveita da abertura e desliza os dedos entre as nádegas. Seu indicador fica circulando minha entrada, mas sem querer invadi-la.

- Você gosta, é? - ele pressiona mais forte e eu gemo concordando. - Eu vou fazer você gemer meu nome. – Mordo o lábio inferior. Eu não ia mais gemer, não ia!

Meu corpo é virado contra a parede, sinto todo o comprimento de Lucas se esfregando em mim. Tremo de medo e de tesão, um pouco mais por causa do primeiro. Ele começa a beijar minha nuca, me acalmando de pouco em pouco. Começa a descer pela espinha, mais e mais. Lucas afasta minhas pernas, ficando entre elas. Arrisco um olhar e o vejo ajoelhar, não entendo o porque até sentir sua língua me tocar fundo. Eu gemia despudoradamente alto, ecoando por todo o banheiro.

Minhas mãos são puxadas para minha bunda, fazendo com que eu a segurasse aberta. Minha testa escorada na parede era tudo que me mantinha em pé. Uma mão envolve meu pênis e aperta antes de começar a se mexer. Eu rebolava, querendo mais língua, mais movimento. Sentia que meu orgasmo se aproximava, queria mais, mas ele para. Gemo toda minha frustração. Ele se levanta, esfrega seu membro duro contra mim.

- Geme meu nome, Ariel. - Sua respiração alterada bate em meu pescoço.

- Ah... Lucas... continua... Luca... Ahhh... - Continua desgraçado.

Sou virado com violência, minhas costas batem contra a parede gelada, me fazendo perder o ar. Seguro os ombros do alfa e o puxo a mim, precisava beijá-lo. Nossos membros se esfregavam, trazendo gemidos a nós dois. Os meus um pouco altos, os dele baixos e roucos. Sua mão une nossos membros e começa a masturbá-los juntos. Ela facilmente me cobria, mas nem chegava na metade do seu. 

Meu corpo treme, arranho seu peito com força, o ouvindo quase rosnar de prazer. Minha respiração fica ainda mais esporádica, sinto o prazer subindo pela espinha e me desmancho entre nossos corpos, quase gritando seu nome. Eu queria vê-lo gozar, ver que expressão teria em seu rosto. Ele acelera a mão, ainda segurando nós dois. Mordo levemente seu pescoço, me distanciando a tempo. Ele fecha os olhos, apoia sua cabeça na minha e geme baixo, longo, fazendo todos os pelos do meu corpo arrepiarem.

- Eu falei que faria você gemer meu nome. - Ele sorri vitorioso, assim que se recupera um pouco. Ele me beija calmo, quase parecendo carinhoso. - Gostou?

- Muito. - Não ia mentir. Eu tinha uma dúvida que me incomodava. - Por que você não... você sabe...

- Porque eu não me enterrei em você? - Imbecil. Dou um tapa nele que ri. - Calma gatinho apressado, tudo a seu tempo. - Ele recebe outro tapa antes de continuar. - Agora temos mesmo que tomar banho.

O banho foi... tranquilo. Digo, eu estava envergonhado, as vezes mal conseguindo olhá-lo direito, mas ele não fez mais nada que me incomodasse. Ele foi calmo, lavei suas costas como pediu, se ofereceu para retribuir o favor, o sabão fez sua mão escorregar um pouco, segundo ele, claro. Era um pouco estranho estar com ele assim, sem sentir medo do que ele poderia fazer. Ele ainda era o mesmo Lucas que semana passada ficava rosnando sempre que tinha a oportunidade. Não era nem bom nem ruim. Não era nem a calmaria antes da tempestade, mas também não era o mar revolto, é difícil de explicar.

Lucas me entregou uma toalha para me secar. Assim que acabamos, eu finalmente percebi que minha cueca jazia em trapos no piso molhado, ia pedir para o alfa, mas ele já saia, nu, pelo quarto. Enrolo a toalha em minha cintura e o sigo. Quando ele me vê, sorri, mas não de um jeito bom. Eu tremi, não de medo, mas de receio. Eu não sabia o que ele estava planejando, mas duvido que tenha sido feito para o meu bem. Ele segurava uma pequena peça, vermelha, jogando-a para mim.

- Aqui, é para você vestir isso. - Com a toalha bem presa na cintura, finalmente olho a peça, querendo esganar aquele maldito alfa. - Eu a comprei pensando em você.

- Eu não vou usar isso! - Quem ele pensa que é? Eu não uso calcinhas!

- Não só isso, gatinho, olha aqui, suas roupas novas. - Eu tive vontade de gritar. Ele abriu duas portas do armário, cheio de saias, short curtíssimos, camisetas que não cobrem nada e por aí vai.

- Você deve estar louco. Só pode.

- Pode ficar pelado se quiser, eu não vou reclamar. - Imbecil.

E, claro, tinha que ser vermelha. Isso é algum tipo de perseguição, certeza. O mundo quer me punir por odiar essa cor. E eu mando o mundo se foder, vou odiar o vermelho ainda mais agora. Ele já se vestira, um short apenas. A muito contragosto coloco o que foi-me entregue. Eu olhei por todo aquele armário, tentando achar algo que prestasse. O alfa ria, sentado na cama me olhando. Eu abro sua parte do armário.

-Cala boca! - Falo sem nem dar tempo para ele protestar. Pego uma camiseta que parecia velha e a coloco. Sobrava espaço, mas pelo menos não faltava tecido como as “minhas”. Ele começa a rir ainda mais alto, apagando a luz e se deitando. Eu chuto algumas coisas antes de chegar na cama.

Passo por cima dele, fazendo questão de acertar ao máximo seu corpo. A cama era encostada na parede, então vou para perto dela. Eu nunca tinha dormido tão... descoberto assim. Entro embaixo do lençol, na cama fofinha, deitando a cabeça no travesseiro ainda mais fofinho. Bem, da cama não tenho do que reclamar. Já do ser com quem a divido... Não que ele tivesse tentado me tocar, mas me obrigar a usar roupas femininas é demais, né? Poxa, eu estava quase te achando menos insuportável. Ele tinha colocado Meia-noite ali, para mim. Eu já tinha começado a bocejar faz uns minutos, então dou um último aperto na gata de pelúcia em meus braços para poder dormir.

 

Eu corria pelos corredores do hospital. Parecia que eu nunca chegaria ao quarto de vovó. O fôlego tinha me abandonado na entrada. Minhas pernas nem doíam mais, a adrenalina tinha tomado conta de tudo por mim, só precisava que eu guiasse. Finalmente reconheço o número, entrando no quarto sem diminuir a velocidade. O lugar estava escuro, não conseguia ver nada. Tento ir em direção ao interruptor, a janela, mas... cadê? Cadê aqueles bips irritantes? Eles... eles deveriam estar ali, certo?

Devo ter entrado na sala errada, isso. Corro para fora, quase tropeçando em mim ao ver que o quarto era o certo mesmo. Não, não, não. Acendo as luzes. Tem alguém na cama, coberto por um lençol branco. Em um dos monitores, ao lado da cama, uma linha reta ficava passando de um lado a outro. Não podia ser, né? Claro que não. Ela... era forte, o médico mesmo disse. Ele disse que ela estava bem, ele não iria mentir. Não podia mentir!

Mas... eu tinha que ter certeza. Meus passos são curtos e lentos. Meu corpo estava novamente tentando me proteger, não me deixando chegar perto dela. Não, não era ela, ela foi para outro quarto. Não me falaram o número, só isso. Eu faria um escândalo na portaria, quebraria algumas coisas e tudo ficaria bem. O lençol era tão fino, tão leve. Eu já o emaranhava entre os dedos, sem coragem de puxar. Um cheiro conhecido me envolve. Meus olhos ficam marejados. Não, não, ela não, ela não pode ter morrido...

- Ariel, Ariel, acorda! – Sento na cama gritando. Foi... só um pesadelo, né? Por favor, diz que foi. – Hey, gatinho, vem cá. – Lucas me puxa, me fazendo deitar em seu peito. Droga, eu estava chorando de novo na frente dele.

Eu não chegava a gritar, mas meus dentes doíam pela força que eu fazia para não soltar nenhum som. Apertava Lucas em meus braços, como se minha vida dependesse disso. Doía, meu peito doía tanto que eu sentia como se tivesse levado um tiro, como se tivessem arrancado uma parte de mim. Minhas unhas já machucavam minha mão, mas não conseguiam fazer a outra dor diminuir. Eu começo a morder o lábio inferior, mas isso só serve para deixar parte do som escapar, abafado, doloroso.

Lucas tinha começado a me apertar tão forte quanto eu o apertava. Isso me puxava para a realidade. Foi. Só. Um. Pesadelo. Ele afrouxa o aperto de um dos braços, passando a mão agora livre lentamente por meus cabelos. Não chegava a ser um cafuné, mas era bom. Minha respiração começa a se regularizar um pouco. Eu conseguia parar de chorar por alguns segundos antes de voltar, mas cada vez conseguia por mais tempo. Lucas beija de mal jeito minha testa, fazendo-me olhá-lo.

- Melhor? – Ele me abraça mais apertado.

- Um... pouco. – Minha voz ainda saía vacilante. – Foi só um pesadelo... né? – Eu precisava que ele confirmasse.

- Foi. Nada do que aconteceu é verdade. Você lembra de deitar na cama, não lembra? – Mexo a cabeça, ainda inseguro. – Você ficou aqui todo esse tempo. Tenta esquecer o que aconteceu. – Eu ainda estava um pouco agitado, mas pelo menos não chorava.

- Obrigado e desculpa te acordar. – Limpo os últimos vestígios de lágrimas. Eu ainda estava abraçando o alfa. Não queria soltar por enquanto. – Posso... continuar assim? Por favor... – Me levanto um pouco, procurando seus olhos, mas a escuridão não me deixa.

- Vem, só deixa eu me ajeitar aqui. – Eu me sento, mas com uma mão ainda tocando seu corpo. Ele logo me puxa de volta, deitando minha cabeça em seu peito. Eu ouvia seu coração um pouco agitado. Eu devo ter dado um susto nele. – Quer conversar ou dormir?

- Conversar. – Eu não o olhava diretamente, isso deixava mais fácil. Eu precisava de mais contato. Minhas pernas misturadas com as dele, um de meus braços em sua cintura. Respiro fundo, talvez isso não me fizesse engasgar e voltar a chorar. – Pensando melhor... é melhor não...

- Algo ruim aconteceu com sua avó? – Tento me levantar, mas ele me segura. Como...

- Como você sabe? – Ele começa um carinho em meu ombro.

- Você gritou “vovó” e “não” algumas vezes. – Encolho-me um pouco.

- Ela estava em uma cama de hospital coberta por um lençol branco. Eu não vi que era ela, mas eu sabia, eu sentia que era ela. – Apertei o meio abraço que lhe dava. – Foi horrível, pior que tudo que já senti.

- Tá tudo bem agora. Quer que eu pegue algo para você?

- Não precisa, estou um pouco mais calmo agora. Obrigado.

Eu pensei que ele fosse me empurrar ou pelo menos me colocar de volta em meu travesseiro, agora que eu estava melhor, mas não. Ele continuou como estava, com um carinho meio desajeitado feito pelo braço que me emprestava. Eu tento retribuir de alguma forma com o abraço que lhe dava. Depois de um tempo eu percebo sua respiração se ritmar, mostrando que tinha dormido. Mexendo o mínimo possível, dou um beijo em sua bochecha para então eu também ir dormir.

 

O barulho chato do despertador me acorda. Como aquela coisinha podia ser tão irritante? Ficava gritando e gritando até alguém dar atenção. Ainda com dificuldade de manter os olhos abertos me levanto um pouco na cama, tentando encontrar aquela peste. Levo alguns segundos para realmente poder ver e praticamente esmurrar o coitado. Volto a minha posição anterior, me aconchegando mais no peito do alfa. Espera... eu não tenho um despertador! Me levanto mais rápido que antes, olhando o ser ao meu lado.

Lucas parecia dormir tranquilo, nem parecendo perceber todo o barulho que tinha se passado. O lençol ainda nos cobria, porém só da cintura para baixo. A vergonha pelo que fiz ontem começa a querer surgir, mas tento ignorar. Só tinha eu acordado no quarto, deixa ela voltar quando o alfa tivesse se levantado. Seu peito subia e descia calmamente. Lucas não tinha um corpo musculoso, pelo contrário. Era possível ver o “extra” em seu tórax por um todo. Uma pequena mas presente barriga, peitoral definitivamente forte mas macio. Eu sabia que ele era forte, mas seus músculos provavelmente eram envolvidos e parcialmente escondidos pelas calorias não gastas.

Eu ainda não sabia se tinha feito a melhor escolha. É bem possível que se eu tivesse mais tempo, poderia pensar com calma e achar outra solução. Tempo e calma que não me foram permitidos. Tenho que admitir, entretanto, que não esperava esse Lucas que vi. Esperava o violento, o malvado. A parte tarada existia, mas era bem menos do que eu pensava. Pensava que ele seria mais bruto, que não se importaria como eu estivesse me sentindo ou se estava me machucando.  Absolutamente não estou reclamando disso, mas isso só faz minhas dúvidas se intensificarem.

Um toque a minha cintura faz minha atenção voltar ao alfa. Ele estava de olhos fechados, mas dava para perceber que estava acordado, principalmente pelo fato de seus dedos estarem lentamente puxando minha camiseta e pelo sorriso safado em seu rosto. Dou um tapinha em seus dedos, não os afetando. Ele também se senta na cama, chegando com o rosto bem perto do meu, sua respiração quente batendo contra meu pescoço, fazendo-me arrepiar.

Lucas não fala nada, só continua puxando minha camiseta devagar. Eu não sabia se queria ou não, mesmo sem saber o que ele queria fazer. Apoio-me em seus ombros para que o tecido saia de baixo de mim, voltando a sentar quando a camiseta me obriga a levantar os braços para sair. O alfa não faz nada, só fica me olhando. A vergonha antes ignorada volta com tudo. Seu olhar cheio de malícia acaricia meu corpo magro, que só usava algo que nem cobria o que deveria cobrir.

Desvio um pouco o rosto, tentando me acalmar. Eu me sentia totalmente desprotegido, mas não sentia medo. Parecia que meu corpo... queria que ele continuasse o que quer que seja que ele está pensando em fazer. Pelo canto do olho percebo-o se movendo, seu short voando pelo quarto. Ele não estava nu, usava uma boxer preta, mas com uma ereção matinal forçando o pobre tecido. Sou puxado com cuidado, sentando-me em seu colo, sentindo toda sua excitação embaixo de mim.

- Bom dia, gatinho. - Ele morde levemente meu pescoço, me fazendo suspirar. - Dormiu bem? - Ele segura minha cintura, movimentando-a sobre sua ereção, gemendo baixo. Eu já começa a sentir a prisão do tecido que eu usava.

- Sim... - Mais gemo que respondo, acelerando o roçar entre cinturas.

- Quer brincar um pouco? - Eu só consigo responder com a cabeça. - Vai fazer tudo que eu mandar? - Ele impulsiona sua cintura contra a minha, aquele excesso de tecido já começava a me incomodar. Lucas me segurava pelas laterais da calcinha, vez e outra tocando e apertando minha bunda.

- Vou. - Deito minha cabeça em seu ombro. Eu já tinha certeza que meu olhar era pedinte, porque vejo-o engolir sedento e sinto-o vibrar debaixo de mim.

- Fica de quatro. - Sua respiração entrecortada mostrava que ele também não estava muito racional naquele momento. Ele se deita, me deixando ficar sobre ele. Meus cabelos caiam de qualquer forma sobre nossos corpos. Seu olhar era fixo nos meus. Eu tampouco conseguia desviar. Suas mãos em nenhum momento saíram de mim. Abaixo o rosto até ficar bem perto de seu ouvido.

- Lucas... - Sussurro e sinto suas mãos me apertando mais. - Você tá muito vestido. - Mordo seu pescoço e o ouço suspirar. - Tira para mim, vai... - Volto para minha posição original, não sem antes morder de leve e puxar seu lábio.

Eu fico de joelhos, deixando que ele se mova. Ele senta contra a cabeceira, logo se desfazendo da cueca. Seu pênis praticamente salta ao ver-se livre da prisão, grande, imponente, pelos aparados em sua base. Volto a ficar de quatro, chegando bem perto do meu objetivo. Assopro levemente por toda a extensão, recebendo um gemido como resposta. Coloco a cabeça, pingando líquido pré-ejaculatório, em minha boca, sugando-a. Era um gosto estranho, mas não era de todo ruim.

Sinto mãos entrando pela calcinha, a puxando para baixo. Ela cai até perto dos joelhos. A retiro rapidamente, voltando logo a chupá-lo. Eu tentava, mas não conseguia colocar tudo dentro de minha boca. Minha língua rodeava toda sua extensão, dando especial atenção à cabeça. Eu sugava-o, enfiando o máximo que conseguia sem engasgar. Ele tinha as mãos em minha cabeça, aumentando a velocidade do movimento, ao mesmo tempo que também se empurrava contra minha boca.

Ele começa a falar coisas incompreensíveis, mas seu corpo é bem mais claro. O retesar do membro em minha boca indicava que ele estava quase lá. Continuo chupando com mais força, até sentir seu gosto em minha boca. Ele geme longo e rouco, murmurando algo que parecia meu nome. Isso me faz arrepiar .Termino de limpar todo seu pênis com minha língua, enquanto ele tentava regular sua respiração. Ele estava de olhos fechados, o peito subia e descia rápido. Seus olhos se abrem, ainda meio vagos. Ele me procura. Eu já estava de joelhos novamente um pouco distante de seu corpo.

- Minha vez. - Ele chega mais perto, colando nossos corpos. Invade minha boca em um beijo sedento. Ele certamente sentia seu gosto em mim, mas não parecia se importar.

Lucas segura minhas coxas e me levanta um pouco, só para em seguida me jogar contra o colchão. Um gemido involuntário escapa com o susto, mas minha boca é logo tomada pela sua. Ele se ajeita entre minhas pernas, com uma de suas mãos a me masturbar. Eu gemo alto quando ele chupa meu pescoço com força. Aquilo iria deixar marca, mas não me importa agora. Sua boca desce, mordendo meus mamilos, barriga, virilha e coxas.

As mãos descem, apertando cada uma sua nádega. Sinto-o lamber meu pênis, para logo depois colocá-lo todo em sua boca. Eu gemo alto, eu queria que ele fizesse mais. Não tenho tempo que chegar a seus cabelos. Ele levanta a parte de baixo de meu corpo, fazendo-me apoiar totalmente pela parte de cima das costas. Não nego um gritinho de susto, que foi logo suprimido pelo gemido ao sentir sua língua querendo me invadir de novo. Ele rodeava, penetrava, depois percorria todo o caminho até meu pênis e retornava.

Eu gemia de prazer e frustração, eu queria gozar logo. Ele me abaixa lentamente, se deitando parcialmente sobre mim. Eu ia reclamar a falta de ação, mas sinto um dedo entrar em mim. Era lento, aumentando a velocidade a cada estocada. Eu começo a me masturbar quando ele enfia um segundo. Seus dedos entravam e saíam quase em sua totalidade. Quando ele acerta minha próstata, eu gemi seu nome. Ele pareceu se animar, acertando lá cada vez mais forte.

Meu corpo todo treme, sinto-me esmagar seus dedos dentro de mim, o líquido viscoso cai sobre mim e um pouco nele. Ele retira seus dedos, não sem antes eu reclamar. Eu mantinha os olhos abertos, olhando fixamente o teto, tentando voltar ao normal. O fato dele estar lambendo meu corpo não ajuda nada. Eu precisava de um beijo. Seu rosto já se aproximava do meu, enlacei seu pescoço enquanto o puxava, ele não pareceu resistir. Sinto seus braços pedirem passagem entre minha cintura e o colchão, me apertando firme.

Sua pele contra a minha me aquecia. Não de uma maneira sexual. Certo, essa também, mas não só ela. Eu me sentia bem com esse calor, era como se ele conseguisse me acalmar, passando que tudo daria certo. Não, melhor não pensar nisso agora. Ele me vira, fazendo-me apoiar as costas contra seu peito e com um de seus braços sobre mim.  Senti um inesperadamente casto beijo ser dado em meu ombro. Viro-me o suficiente para conseguir vê-lo. Ele estava com o cotovelo apoiado cama e sua mão seria o suporte para sua cabeça. Ele me olhava também, mas eu não conseguia entender muito bem, até que ele percebeu que eu o encarava e o já constante sorriso safado volta a seu rosto.

- Segunda rodada? - Ele impulsiona sua pélvis contra mim. Ele não estava totalmente desperto, mas se continuasse assim, logo estaria. - Você estava tão fofo pedindo mais e mais. Olha só, até me animei. - Ele nos esfrega novamente, já bem mais duro.

- Tarado. - Distancio um pouco nossas cinturas, mas continuo no abraço. Ele se aproxima novamente. - Lucas...

- Calma, não vou fazer nada, prometo. - O mesmo beijo casto é dado novamente. Apesar de ele estar ainda um pouco animado, ele só junta nossos corpos o máximo possível. Eu respiro fundo e me viro, encarando seu olhar duvidoso. - Que foi?

- Você está estranho. Aconteceu algo? - Não que eu estivesse reclamando tanto carinho, só que agora, seus toques pareciam diferentes. Era como se primeiro receassem me tocar, mas assim que o faziam, eram desesperados.

- Nada. - Ele respira fundo, provavelmente querendo mudar de assunto. - Estou bem mesmo, não se preocupe. - Trocamos um selinho. - Ainda quer ir para escola? - Minha Deusa, as aulas!

Eu praticamente saí correndo da cama, indo pegar alguma roupa. Lucas parecia rir e reclamar ao mesmo tempo. Pego meu uniforme, mas quando vou procurar um jeans e uma cueca, lembro das “minhas” roupas que o alfa comprou. Viro-me, o encarando com raiva. O alfa não entende a princípio, mas assim que o faz, começa a rir mais alto. Ele se levanta e vem lentamente até mim. Eu lembro que estamos nus e a vergonha volta. Ele retira o uniforme de minha mão, o pendurando em um cabide antes de me abraçar.

- Vamos voltar para cama, vai. - Ele finge carência, deslizando seu nariz por meu ombro.

- Lucas, eu não posso perder mais tanta aula, tenho que manter minha bolsa. - Ele levanta o rosto, seu sorriso safado volta.

- Não se preocupe... Eu te ensino... tudo – Ele sussurra contra meu ouvido. Eu sentia meu corpo querer se animar, mas não podia. Eu uso minha melhor carinha pidona e ele ri. - Isso não vale.

- Por que? - Claro que vale. Se você quer me seduzir para não ir, posso usar a fofura para ir.

- Porque assim eu fico com ainda mais vontade de te devorar. - Ele chupa com força meu pescoço. Antes que eu pudesse reclamar, ele fala. - Bom, vamos falar das regras então.

- Regras? Que regras? Não tinha nenhuma regra no acordo!

- Calma, gatinho. - Ele acaricia minha bochecha. - São poucas.

- Mesmo assim! - Ele só suspira.

- Sempre que você quiser sair, eu quero que você me avise antes. - Bem, essa é aceitável. - Não quero que fique perto de nenhum alfa quando estiver longe de mim. - Essa ele nem precisava dizer. - Se você mentir para mim, será castigado. - Eu tremia, de medo e tesão, não sabia o que esperar daquele olhar.

- M-mais alguma? - Não gagueja, filho da puta.

- Por enquanto é só. - Ele volta o sorriso safado. - Quer ajuda para escolher a roupa? - Ele finge uma inocência que eu tenho certeza que ele nunca teve.

- Eu não posso ir para escola com isso. - Aponto o armário aberto às minhas costas com o polegar.

- Por que não? Tenho certeza que você ficaria lindo. - Alfa imbecil. Quer falsidade, vamos ser falsos então e ver quem ganha.

- Você jura? - Ele confirma com a cabeça. - Bem, se é assim... - Me solto de seus braços, pegando uma saia que mais mostrava que escondia. - Acho que vou com essa então. Vou ficar tão bonito que todo mundo vai ficar me olhando. - Ele parece ter percebido meu jogo. - Principalmente os alfas, talvez me imaginando sem essas roupas. - Ele rosna um pouco, fazendo minhas orelhas arderem. - Lucas, isso dói!

- Não fale de outro na minha frente! - Sua voz raivosa escapava entre os dentes fechados.

- Não me faça vestir como uma puta então! - Falo mais alto do que jamais falei com um alfa. Ele se aproxima, tinha medo, mas não recuei.

- Não força a barra, gatinho. Sou bonzinho, mas posso mudar se você quiser.

- Você não é bonzinho, e eu sei muito bem disso, esqueceu de todos esses anos de tormento? - Ele me empurra contra uma porta fechada do armário. - Viu só?

- Você é meu, não gosto que toquem nas minhas coisas. - Ele estava nervoso, mas eu também!

- Eu não sou uma coisa, seu possessivo imbecil! - Ele fecha os olhos, talvez tentando se acalmar. Quando ele volta a falar, sua voz sai assustadoramente fria.

- Sou possessivo mesmo. Você é meu e não vou deixar ninguém te tocar – Eu estava ficando com medo. Ele parecia como antes, bem antes, quando só me batia, não, quando me espancava até eu ficar desacordado.

- Lucas... Por favor... me solta... - Eu tremia leve, a parede me mantendo em pé.

- Não vamos à escola hoje, entendeu? - Confirmo. - Você vai usar o que eu mandar, entendeu? - Eu queria, mas não ousaria negar. Confirmo. - Bom, bom gatinho. - Ele tenta dar seu sorriso safado de sempre, mas era claramente falso.

O armário era grande, eram quatro portas duplas, além de gavetas na parte inferior. Lucas fecha as portas que eu tinha deixado aberto e vai para a última porta dupla. Até agora eu só tinha visto duas das quatro portas. Ele abre, o barulho de cabides correndo é curto. Não conseguia ver nada porque ainda estava colado ao armário. Ele se abaixa, abre a primeira gaveta, onde consigo ver algumas meias e calcinhas. Ele pega uma rosa bem clarinha, cheira de  renda. Eu queria protestar, mas não o faria.

- Segura, vamos tomar banho. - Eu só pego as roupas e fico em silêncio. Ele vem em minha direção, encolho-me de medo. - Preciso abrir essa porta. - Eu saio quase correndo, o esperando na porta do banheiro. Ele pega algumas peças para si e vem.

Dou alguns passos para trás, para não ficar novamente em seu caminho. Ele me olha por alguns segundos antes de continuar. Ele enche a banheira, apertando alguns botões assim que desliga a água, mas vai para o chuveiro. Eu ficava olhando de um para o outro sem entender. Tinha deixado minhas roupas, uma camiseta quase tão larga quanto a que dormi ontem, um short curto, não tanto quanto os outros que vi, e a calcinha rendada.

Sinto um toque em meu braço e pulo para trás. O alfa bufa irritado, apontando o chuveiro com a cabeça, enquanto se ensaboava. Confirmo e vou em sua direção. Deixo a água correr, fazendo o cabelo grudar em meu corpo. Dou-lhes uma volta e os coloco sobre o ombro esquerdo, descendo até o peito. Minha atenção estava toda voltada ao alfa. Eu estava de costas, mas sentia seu cheiro se aproximar de mim.

Engulo seco antes de me virar. Ele estava muito próximo. Seus olhos vermelhos me encaravam, comigo quebrando o contato visual primeiro. Olho para baixo, ele levanta o sabonete em minha direção. Pego-o sem entender, mas ele simplesmente fica de costas. Ainda receoso, lavo com cuidado, deixando-o usar o chuveiro assim que acabei. Eu sentia seu olhar sobre mim. Sentia falta daquela sensação estranha, de não estar com medo perto dele.

Ainda de rosto abaixado, entrego o sabonete em suas mãos e fico de costas, como ele fez comigo. Ele parece hesitar, seus primeiros toques são quase assustados. Depois ficam firmes, apertando levemente minhas costas. Ele me puxa até a água, retira o sabão de mim, sem desviar de meus olhos. Fecha o chuveiro, segurando de leve minha mão. Tentei pegar a toalha com a outra mão, mas ele se colocou em frente a ela. Eu evito tocá-lo, baixando o braço em seguida.

Vamos em direção à banheira. Ele entra, incentivando-me a fazer o mesmo. Eu queria ficar longe e perto ao mesmo tempo. Aos poucos vou com ele. A banheira era grande, não precisaria que eu ficasse perto, mas eu queria. Sento bem ao lado dele, ficando com a parte de cima do peito fora d'água. Lucas era bem mais alto que eu, com água pouco acima da barriga. Ele encostava a cabeça na parede, com os olhos fechados, parecendo pensar.

Sem saber se deveria falar alguma coisa ou não, fico calado. Eu não tinha feito nada de errado! Só não queria usar aquelas roupas. Ele ficou me irritando e, quando eu retruquei na mesmo moeda, o alfazinho se irrita? Nem parece que temos a mesma idade. Alfas não prestam, isso só mostra que eu estou certo. Vou, sei lá, fugir com o circo ou me juntar a um convento ou qualquer coisa assim, que não tenha alfas. Queria que vovó pelo menos pudesse falar para me ajudar a entender o que está acontecendo.

- Eu... - Começo e ele parece sair do transe. - queria dar uma volta, eu posso?

- Não quer esperar o almoço?

- Não estou com fome.

- Tudo bem. - Ele fecha os olhos e eu me levanto, pego uma toalha e começo a me secar, mas me assusto quando ele volta a falar. - Eu vou sair lá pelas duas, não devo demorar muito. - Ele estava com os olhos fechados.

- Entendi. - Eu termino de me secar, colocando a roupa que me foi dada. Era diferente das roupas que eu estava acostumado, mas não estava tão ruim. - Desculpa ter te irritado. - Eu não estava incomodado com isso. Na verdade eu estava sim, e muito, mas estava tentando jogar toda a culpa irracional que eu sentia nele, e estava funcionando.

Ele não esboça nenhuma reação, então vou calçar meu tênis com uma meia nova que peguei onde ele pegou minha... roupa íntima e saio do quarto. Eu faço o caminho reverso de quando cheguei. Quando passei perto da porta da cozinha, uma velha canina beta estava perto do fogão. Ela me estranhou no primeiro segundo, mas logo me sorria docemente. Eu retribuo o sorriso e aceno uma despedida.

Quando chego no portão, lembro que eu não tinha como abri-lo, quando eu ia me virar e voltar, o portão se abre com um barulho. Eu espero alguém passar, mas nada acontece. Olho em direção a casa e vejo a beta me acenando da janela. Deve ter sido ela. Aceno mais uma vez e saio, verificando duas vezes se eu tinha conseguido mesmo trancar o portão. A camiseta que usava era comprida, mas não cobria totalmente o short, ainda sobrando uns quatro dedos. Deixava muito das minhas pernas a mostra, o que vez ou outra atraia o olhar de algum alfa asqueroso, mas nada mais que isso.

A casa de Lucas era mais perto do hospital que a minha. Chego rápido, indo até o quarto. Antes de chegar, eu vejo o quarto em que vi Lucas terça, eu só ia dar uma olhadinha depois ficaria com vovó.  Não demorei tempo suficiente para que o alfa estivesse ali, então caminhei sem medo. Espio pelo vidro da porta. O garotinho estava acordado, olhando para a janela. Ele deve ter me percebido e se vira. Seus olhos violetas, como os meus, me surpreenderam um pouco. Ele também parecia surpreso, mas mais assustado.

Claro que ele deveria estar. Tinha um estranho lhe encarando, claro que ele deveria estar assustado, idiota. Sorrio para ele e vou embora, chegando em um fôlego ao meu destino original. Assim que toquei a porta um arrepio desce a espinha. O pesadelo volta com tudo, principalmente a sensação ruim. Abro a porta com força, só me acalmando quando os barulhos, agora nada chatos, invadiram meus ouvidos.

Ela estava serena, uma ou outra faixa tinha sido removida, deixando mais da pele um pouco enrugada a mostra. Vou até seu lado, sentando no chão frio e colocando minha cabeça sobre o colchão. Eu me sentia tão aliviado, tão calmo agora. Ela sempre me fazia bem, agora, mesmo nem podendo se mexer direito, ainda tinha esse efeito sobre mim. Com uma das mãos eu toco a pele a mostra de seu braço, só para ter mais certeza que estava ali.

Agora tudo estava bem, certo? Vovó iria se recuperar, a dívida foi paga, o aluguel e a casa foram mantidos. Eu fiz minha parte, certo? Tudo bem, tudo resolvido, nada mais precisaria da minha atenção, nada mais precisaria de mim. Depois de tanto tempo, eu queria descansar de novo. Ir para um lugar calmo, sem essa dor, esse vazio no peito. Um lugar que eu finalmente não sinta a solidão querer arrancar meu coração.

Ninguém ficaria sozinho, todos teriam alguém que poderia ficar em meu lugar. Vovó poderia fazer café para beber com as amigas, conversar com dona Gláucia, cuidar de algum animalzinho abandonado na rua. Bia tinha os seus amigos das aulas de música. Eles sem dúvida conseguiriam ajudá-la com a lição de casa, falariam mal das meninas chatas do colégio, falariam dos garotos bonitos. Ela teria outros amigos com que passaria noites de filme e pipoca, e outros com quem tentaria não destruir a cozinha quanto tentavam alguma coisa.

Até o garotinho que eu acabei de ver estaria bem. Eu não seria mais que uma lembrança esquecida, ele teria Lucas para cuidar dele. Lucas... Esse sim ficaria melhor! Sem ter em quem descontar suas frustrações, talvez ele se focasse mais no que quer, cuidar da empresa do pai. Eu estava me escondendo deles e tinha ouvido que uma vez que o pai lhe achava muito irresponsável e que queria mudar isso, mas não sabia como. Ele poderia ir com o pai pra empresa nas férias escolares, tentar conversar sobre o trabalho, coisas assim. Poderia ler livros de negócio. Poderia parar de gastar tanto dinheiro comprando ômegas inúteis. Poderia achar uma bela ômega, uma que não tivesse crises depressivas ou de pânico, uma que ficasse bonita de roupas curtas. Uma que o fizesse bem.

Não vou pensar nisso. Vou ficar aqui, deitado, esperando minhas lágrimas se cansarem. Vovó está aqui, eu não posso pensar nessas coisas na frente dela. Ela sabe quando eu tento esconder esses pensamentos ruins. Mas vovó também não está aqui. Se não fosse por minha causa, ela não teria vindo morar aqui, se não fosse por minha causa ela não teria sofrido esse acidente. Ela estaria bem longe daquele carro, com seus antigos amigos, com sua filha viva e com seu genro adorado. Eu era o culpado, eu estraguei tudo, eu estraguei a vida de todo mundo. Eu não deveria estar aqui. Tudo seria melhor sem mim.

Fiquei com vovó até minha barriga reclamar. Meu corpo estava com fome, mas eu não. Dou um último beijo em sua testa, saindo do quarto. Chegando no fim do corredor, uma funcionária parecia limpar o quarto do garotinho ômega, pelo menos tinha um carrinho com dezenas de produtos de limpeza e a porta estava aberta. Bem, isso não era importante agora. Eu só queria parar de pensar. Pensar só me trazia coisas ruins nas horas de depressão. Fazia parecer que ingerir mil calmantes era uma solução, que ver qual faca era mais afiada era solução, que seria interessante saber na prática qual a força de choque de um caminhão.

Eu poderia ir para a casa da Bia, mas aí eu teria que explicar um monte de coisas, e também eu provavelmente a deixaria preocupada. Não queria incomodar. Eu não tinha trazido minha carteira, então não teria como fazer algo que dependesse de dinheiro. Eu poderia voltar para a casa do Lucas. Ele deveria estar preocupado. Eu saí faz muito tempo. Não, ele não iria se importar, nem se preocupou em saber para onde eu ia. Ele é só um alfa imbecil. Acabo ficando sentado em um parque, vendo as crianças brincarem, suas mães olhando. E eu, chorando de novo. É uma droga juntar o instinto materno com a depressão.

Minhas pernas me guiam para casa de Lucas sem que eu percebesse. A noite já caía, meus braços e pernas estavam frios e eu queria uma cama. Não queria ver o alfa, eu queria afundar minha cabeça no travesseiro, queria meus remédios, queria acordar menos triste amanhã. Mas eu não tinha chave para entrar escondido, teria que tocar a campainha. Se eu fizesse isso, não teria como ter certeza que não seria Lucas a abrir. Eu poderia esperar e torcer para alguém vir para fora e me deixar passar. Eu já estava parado tentando decidir mesmo, que seja a segunda opção.

Acho que tinham se passado quinze ou vinte minutos. A velha beta passa pela porta com um saco de lixo. Quando ela volta, eu estava parado ao lado do portão. Ela parecia preocupada, falando algumas coisas que eu não prestava atenção. Ela me faz entrar, me empurrando até a cozinha. Ela se vira para pegar algo e eu corro em direção aos quartos. Eu só queria me deitar, e a luz do quarto de Lucas estava apagada, então ele não estava lá.

Abro lentamente a porta, pronto para fugir se visse qualquer coisa. O silêncio me envolve, fazendo meu corpo pesar. Tomo meus remédios, torcendo para estar melhor de manhã. Eu resisti a vontade de tomar mais que o receitado, mais que o recomendado. Engulo os comprimidos bebendo água da pia mesmo, não queria arriscar que Lucas me visse. Vejo a camiseta do alfa que eu tinha usado como pijama na noite anterior, sentindo quase uma necessidade de usá-la. Retiro a camiseta e o short que usava, colocando-a em mim. Vou até a cama, deito sentindo o frio da parede contra minha testa e a pelúcia contra os braços. Amanhã eu estaria melhor. Eu espero...


Notas Finais


Eu gosto de fazer cenas de sexo sem a obrigação da penetração. Um termo em francês, gouinage ou algo parecido, sugere uma atração sexual, hetero ou homo, sem essa obrigação. Quando li esse termo pela primeira vez, achei interessante e comecei a usar cenas assim em minhas escritas.


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