História Vermillion - Capítulo 4


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Gotico, Horror, Sadomasoquismo, Terror
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Palavras 3.309
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Fantasia, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - Desejo e repulsa.


Joaquim estava inquieto. Propôs passar a noite naquele quarto, cheio de coragem, mas no fundo estava morrendo de medo. Medo não só de mim, a presença indesejada naquela casa, mas também das coisas que aconteciam naquele quarto, que eram impossíveis de ignorar sempre que os olhos dele caíam num daqueles equipamentos que faziam com que o cômodo mais se parecesse com uma sala de tortura.

Ele provavelmente não conseguiria dormir a noite inteira. Talvez por medo, talvez por vontade de ter um vislumbre de minha imponente figura. Comecei a considerar exibir-me àquele doce menino de cabelos loiros. Parecia um dos anjos das pinturas mais tradicionais.

Ele certamente não tinha o cheiro tão bom quanto o da irmã. Algumas horas com os dois foram o suficiente para que eu pudesse analisá-los minuciosamente, em especial porque falavam tanto de mim, mas não podiam prever que eu estava ali, há poucos metros, saboreando-os. Não eram cheiros excepcionais, mas serviriam para um lanchinho. No entanto, Joaquim prendia meu interesse.

Porque ele tinha o cheiro de que todos nós amamos.

Cheiro de medo.

Quis brincar com ele. Talvez assustá-lo um pouco. Mexer as cortinas, sacudir a cama, soprar em sua nuca, derrubar alguma decoração. Qualquer coisa incomum seria associada à minha presença, e aumentaria ainda mais o medo que ele já sentia, embora tentasse enfrentá-lo. A irmã provavelmente era mais corajosa, mas ele jamais a deixaria ali, num quarto que, para ele, gritava “perdição” a cada centímetro. Para passar o tempo, começou a ler. Tinha vários livros, todos eles se tratando de assuntos religiosos e místicos. Havia uma Bíblia entre eles. Conhecia bem esse livro em especial; durante minhas observações e experiências, conheci gente que fodia em cima dele. Não era inútil, no final das contas.

Joaquim era virgem. Não precisava conhecê-lo profundamente para saber. Embora tivesse fugido de seu destino religioso e não ter, de fato, se tornado um padre, ele continuava agindo como um, ou pensando como um. Suas atitudes, seu medo, seus constrangimentos... Tudo nele o denunciava. Mas, especialmente, o cheiro e a energia que emanava. As pessoas virgens, normalmente, tinham mais energia sexual do que aquelas que já tiveram relações, ou ainda as tinha regularmente. Tinham mais desejos, mais fantasias, mais intensidade. Eu as preferia.

Mas Joaquim teve uma imperturbável noite de leitura, sem absolutamente nenhum evento incomum. Porque, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa com o anjinho loiro, eu o senti.

O sentiria onde quer que fosse.

Mariana também teve uma noite tranquila, embora estivesse muito ansiosa e preocupada. Preocupada com o irmão, sozinho no quarto assombrado. Preocupada com todos eles, porque não conheciam bem Katrina, eu, e o que estava disposta a fazer. Até então, não tinha me mostrado, de fato, uma presença maligna. Não tentara os machucar nem atormentar. Ela acreditava que, tudo o que eu queria era me comunicar; bastava saber ouvir minha voz. Mas essas não eram suas únicas preocupações. Ao contrário do irmão, ela não estava mais completamente presa ao passado religioso. Só conseguia pensar em Dório, e no quanto ele era intrigante. Na maneira com que a olhava, de forma tão sutil, mas tão intensa, inegavelmente cheia de desejo. Nas coisas que ele dizia, sempre carregadas de duplos sentidos e entrelinhas. Ele era a representação de tudo o que ela fora ensinada a temer até então. Era, também, o desconhecido. E por isso era assustador e irresistível ao mesmo tempo.

Ninguém dormiu aquela noite. Corri pelos corredores da casa, que pareciam tão desinteressantes nas outras ocasiões e, mesmo estando ali por tanto tempo, nunca pude analisá-los muito bem. O que não tinha vida, não tinha interesse. O que me importava era o que respirava, transpirava, tinha entranhas e sangue correndo pelas veias, sangue quente e brilhante, e um coração palpitante, acelerado.

Já passava das duas da manhã, quando Dório bateu na porta de um dos inúmeros quartos da mansão. Ana era a única criada que dormia no segundo andar, junto aos quartos mais luxuosos de moradores e hóspedes. Porque ela era uma criada especial, e sabia bem guardar segredo. Essa era sua maior habilidade; aliás, era também a melhor qualidade que alguém pode ter. Ela abriu a porta com curiosidade; deve ter pensado se tratar de uma emergência. Os cabelos acobreados estavam, pela primeira vez, soltos e desgrenhados. Os olhos um pouco avermelhados; devia ter acabado de despertar. No entanto, ela sorriu quando viu a presença de Dório, parado à porta, com um olhar indecifrável.

Ela usava uma camisola simples, branca, que ia até os pés. Assemelhava-se à camisola de Mariana, embora uma delas fosse de melhor qualidade. Não se envergonhou com sua aparência e abriu um pouco mais a porta, deixando à mostra a cama com lençóis bagunçados e uma vela acesa na mesinha de cabeceira.

Dório também estava em roupas de dormir: calças largas e marrons, e com o torso nu. Os cabelos não eram cacheados como os dela, mas também estavam bagunçados. O rosto não indicava que tivesse dormido naquela noite; os olhos azuis, bem despertos, pareceram ser capazes de ver através dela.

Os dois trocaram um olhar demorado. Não precisavam, de fato, dizer nada. Tudo estava claro naquele único olhar, que foi suficiente para me deixar com fome. Os dois pareciam estar em perfeita sintonia; ela deu um passo para o lado, permitindo que Dório entrasse no quarto e ela fechasse a porta silenciosamente e a trancasse por dentro. Em meu descuido, fiquei para fora. Mas portas fechadas não podiam me impedir. Se era invisível, incorpórea, atravessar portas e paredes não seria uma tarefa difícil. Aliás, eles se surpreenderiam com as coisas que eu era capaz de atravessar, ou de penetrar.

Assim que a porta foi fechada, os dois se jogaram um contra o outro com a mesma rapidez e intensidade. Suas ações transmitiam urgência, mas tinham todo o restante da noite os aguardando. Beijaram-se ferozmente; as bocas avermelhadas se tornando uma só, naquela bagunça de corpos, de braços e mãos se movendo sobre o outro. Dório mordeu os lábios da garota, que soltou um gemido de dor. Aproximei-me mais dos dois.

Ela passava as mãos pelos cabelos de Dório, que eram macios e cheirosos. Eu os sentira por mim mesma. Ele, por outro lado, não parecia tão interessado em sentir as madeixas cacheadas e cor de cobre dela, mas as curvas de seu corpo. Em pouco tempo, já não havia vestígios da camisola branca. Para Dório, a nudez estava longe de ter significados profundos e sentimentais, assim como para mim. Um corpo nu, era um corpo sem impedimentos. Era um corpo aberto. E um corpo que instigava todos os sentidos, se explorado inteiramente: a visão, o olfato, o tato, o paladar, até mesmo a audição. O corpo era verdadeiro, incapaz de mentir.

E um corpo era só um corpo.

Eu estava viciada. Eu queria, e queria muito. Observar não mais era capaz de me satisfazer. No entanto, por que eu simplesmente não tomava o que me pertencera desde o princípio?

Porque eu gostava da tensão. Da incerteza. Dos jogos e da espera minuciosa. Quando o tivesse, não haveria escapatória. Ele seria inteiramente meu.

Subi na cama, junto aos dois. Pus-me atrás de Dório, quase em cima dele, ciente de que ele não poderia sentir meu peso que sequer podia existir. O rosto colado junto ao dele, o corpo movimentando-se ao mesmo ritmo, nós dois como se fizéssemos parte de uma só coisa, e uma coisa muito maior do que tudo aquilo que estava ao nosso redor.

Dório me sentia. Eu sei que me sentia. Caso contrário, não teria fechado os olhos com tanta força, com uma expressão tão extasiada quanto a minha. Não era Ana que o deixava assim, estava longe de ser. Já tivera noites muito mais prazerosas do que aquela. Mesmo nelas, procurava não se entregar completamente, porque a frieza e o distanciamento o faziam ser quem era. Ainda agora, tentava se conter. Mas conseguia sentir nossa conexão e que, naquele exato momento, eu poderia estar dentro dele.

Estava cansada de jogos. Mas se quisesse ter sucesso, teria que esperar. Não era de surpreender que, de todos os lugares, tivesse parado logo ali. A dor também era minha maior fonte de prazer.

 

- Ela não está no quarto. – concluiu Joaquim.

Todos pareciam exaustos. Entre eles, Joaquim era provavelmente o que mais tinha animação, porque estava determinado a descobrir o que acontecia naquela casa. Durante toda a vida, não entendera muito bem os planos que Deus o tinha reservado. Se sentira completamente inútil e infiel ao largar a vida religiosa, ao renunciar seu único destino, e desde então vivia tentando encontrar um novo propósito. E se o seu propósito fosse salvar aquelas pessoas, mesmo que fossem pecadoras? Todos mereciam ser salvos. O que ele fazia era nobre, e mais nobre ainda porque era algo que todos os outros se recusariam a fazer. Mesmo que não fosse algo tão grandioso quanto desejaria, já era um começo. Já tornava a dar sentido à sua vida.

- Você viu algo, não foi? – perguntou a Dório, porque a expressão dele subitamente se tornou severa, e um pouco cansada.

- Eu não vi nada. Eu só... Senti. Eu não sei por que, mas consigo dizer quando ela está ou não presente, embora não possa vê-la. Mas agora está ficando mais forte.

Todos ficaram em silêncio. Joaquim engoliu em seco. Estavam, embora não deixassem transparecer, assustados. E tinham de acabar com aquilo.

- Está a sentindo agora? – perguntou a Dório.

- Não.

- Talvez tenha alguma relação com o período da noite. De qualquer forma, sua presença se fortalece em alguns momentos, e sempre relacionados a você. O que quer dizer que ela não está ligada a um cômodo, mas a uma pessoa. É com você que ela quer ter contato, Dório. E algo me diz que, não importa aonde você vá, ela estará por perto.

- Não faz muito sentido. – Ana argumentou, a voz um pouco alterada. – Por que Dório? Os dois mal se conheciam! Eles sequer tinham uma relação de intimidade.

- Tem razão. – Mariana concordou. – Vocês duas deviam ser muito mais próximas. Viveram aqui por anos, não é?

- É. – Ana desviou o olhar, como se subitamente quisesse mudar o assunto.

- Talvez Dório saiba de algo que nenhum de nós saberia. Ou é capaz de descobrir, de forma que nós não seríamos. – Joaquim ponderou. – De qualquer forma, há algo nele que ela não vê em nós.

 

- Acredito que esse seja um bom começo. – Joaquim anunciou, espreguiçando-se.

Dório quase cochilava, numa mistura de tédio e cansaço. Os outros três, Joaquim, Mariana e Ana, vasculhavam papéis, fotografias e se aproveitavam da memória da criada. Passaram o dia naquela tarefa no mínimo extenuante, até que elegessem três grandes suspeitos.

O primeiro deles era, de acordo com as informações coletadas, um homem de grande prestígio social: ocupava uma posição considerável na nobreza, passava da meia-idade e era casado, mas visivelmente possessivo. Já havia tido desentendimentos com a mulher; até chegara a bater, tudo por ciúmes. Também tinha muitas amantes, e já dormira até mesmo com Ana, que deu seu depoimento pessoal sobre o comportamento do homem na cama. Decidira passar a noite com ela simplesmente porque sentia a necessidade de ser agressivo com alguém, como o era com suas mulheres. De acordo com Ana, com Katrina ele era simplesmente mais um submisso, pois ela dificilmente aceitava outro papel se não o de dominadora, e já havia recusado diversas propostas dele. Então, aquele era um homem possessivo e que, particularmente, desejava inverter os papéis. Era um bom candidato a machucá-la.

O segundo era mais jovem, e um solteirão. Não tinha família nem amigos, pelo que puderam perceber, e possuía manias bastante singulares. Não falava muito, mas gostava de rir. Se submetia facilmente a qualquer coisa que lhe fosse proposto, mas tinha desejos peculiares e sempre novos. No entanto, já havia passado dos limites algumas vezes. De acordo com Ana, ele já havia sido esticado tanto pelas cordas amarradas no teto, sempre pedindo por mais, que havia distendido um dos braços. Por mais que Katrina fosse profissional em causar dor, pelas palavras de Ana, ela jamais colocava a vida de seus companheiros em risco, nem desejava romper a linha que a interligava ao prazer. Era um homem estranho, que não hesitaria em novamente ultrapassar os limites e cometer loucuras.

Por fim, o último deles, era o mais jovem dos três e também o mais reservado. Não apresentava comportamentos estranhos, nem tinha escândalos o envolvendo. Também pouco sabiam sobre ele, mas Ana já havia o flagrado uma vez nos jardins, fazendo sabe-se lá o que. Perguntou se ele estava maluco e ele respondeu que já estava de saída, sem dar maiores explicações. Talvez, por ser o mais silencioso e comum dos três, o tornasse o mais suspeito deles. Ana afirmou que seus olhos tinham um brilho indecifrável.

Eles deveriam considerar mais possibilidades, mas estavam satisfeitos com as que conseguiram juntar. Os três iam regularmente a casa, conheciam-na bem e poderiam ter motivos para cometer aquele crime. Era um bom começo, e prometeram que investigariam mais.

Após o jantar, Joaquim segurou a irmã pelo braço, cochichando em seu ouvido que precisavam conversar. Ela trocou um olhar demorado com Dório, que já preparava para subir, e parecia esperar alguma coisa dela. Ao vê-los, continuou andando, desinteressado, deixando-os ter sua privacidade.

- O quê? – Mariana parecia impaciente como uma criança que havia acabado de ser impedida de ir brincar.

- Por favor, tome cuidado.

- Já notamos que ela não tem intenção de machucar ninguém. Não por agora.

- Não estou falando dela. – era como se, para eles, tocar meu nome pudesse me invocar. – Estou falando dele.

- Ele quem? – Mariana franziu a testa.

- Não se faça de boba. Dório. – ele lançou o olhar na direção em que Dório tinha estado minutos antes. – Ele é, provavelmente, a presença mais perigosa nessa casa. Viu como ele olha para tudo? Como fala as palavras como se risse por dentro, como se o mundo não passasse de diversão? Você sabe como esse homem vive. Ele é sustentado pelos depravados que vêm a essa casa, mas aqui não é simplesmente um bordel. Viu as... “Coisas” no quarto?

- Vi. – sua voz era tão baixa, que era quase inaudível.

- Por favor, não se aproxime dele, minha irmã. Eu também já percebi o jeito que olha para ele. Não é sua culpa; tudo o que ele faz é para provocar, é para atrair. Pense nesse homem como uma tentação, mas não caia. Você sabe que ele só pode trazer coisas ruins, como tudo nesse lugar.

Mariana dormiu sozinha novamente naquela noite. O irmão decidiu passar mais algum tempo no meu quarto, ou no quarto que julgavam ser o meu preferido, analisando minuciosamente tudo o que poderia ser pistas a meu respeito. Mas não era ali que ele encontraria vestígios de minha presença.

O quarto de Mariana era confortável, espaçoso e bem decorado, mas um simples quarto de hóspedes, bastante inferior aos outros, especialmente ao quarto principal. Ela não se importava; parecia ser uma menina simples. Era cedo quando vestiu sua camisola, ainda pensando nas palavras do irmão e, consequentemente, também em Dório. Deitou-se ainda perturbada, mas um pouco mais tranquila com os avanços alcançados durante o dia.

A cortina sacudiu. Ela se sentou assustada, mas suspirou quando percebeu que provavelmente se tratava do vento, pois havia deixado uma parte da janela aberta. Deitou novamente a cabeça no travesseiro e revirou os olhos. Devia estar ficando paranoica.

Mas quando abriu os olhos novamente, eu já escalava sua cama. Ela abriu a boca, como se fosse gritar, mas não emitiu nenhum som. Tomei cuidado para não assustá-la demais; embora o medo me alimentasse, impediria que ela sentisse qualquer tipo de prazer. Para homens e mulheres, a aparência era essencial. Absolutamente ninguém era capaz de sentir desejo por algo que não considerasse belo, porque o desejo está diretamente ligado ao corpo, embora envolva outra série de fatores.

Mas a beleza misturada à feiura era aquela responsável por causar desejo e repulsa ao mesmo tempo. E a repulsa, muitas vezes, misturava-se ao medo, e dava origem àquele sentimento que era o mais delicioso no mundo inteiro. E era o que fazia da experiência sexual muito mais do que algumas posições, trocas biológicas e até mesmo brinquedinhos para causar dor; fazia com que ela fosse inesquecível, por prazer ou trauma, e transcendesse os sentidos.

Escalei a cama lentamente, deslizando também pelo corpo magro e amedrontado de Mariana, a minha freirinha. Estava estática, incapaz de realizar qualquer movimento, o que me parecia muito conveniente. Evitei tocá-la mais diretamente; nossos corpos apenas roçavam um contra o outro. Quando viu meu rosto, percebi seu corpo se estremecer por inteiro. As palavras na ponta dos lábios nunca foram ditas: “quem é você?”.

- Eu sou uma humilde observadora. – sussurrei em seu ouvido, meus cabelos compridos caindo em seu rosto. – E quero fazer você sentir.

Mariana me encarava com olhos arregalados. Tudo o que eu precisava, ou planejava, era instigá-la. Mas poderia, muito bem, aproveitar-me da situação.

Deixei que meu corpo caísse sobre o dela, nossas pernas lisas se entrelaçando. Passei um dos pés em suas canelas, até os joelhos, levantando o tecido fino da camisola. Podia sentir dentro de mim cada uma de suas reações; queria mais. Toquei seu pescoço com delicadeza, e senti seu corpo se arquear um pouco. Aproximei meus lábios de seus olhos; toquei-os. Ela os fechou com força, como se pensasse que, ao abri-los novamente, pudesse despertar daquele sonho. Lambi-os, delicadamente, não mais com a língua grande e afiada, mas lamentando que, sem ela, não pudesse simplesmente arrancá-los através das pálpebras.

Ela era virgem também, mas completamente diferente do irmão. Seus desejos eram muito mais aflorados e abertos, ferozes, intensos. Ah, se eu não fosse tão teimosa, poderia mudar de alvo. Desci a língua por seu rosto e ela o virou um pouco, fechando os olhos com mais força, e soltou um suspiro. O ar que saiu de sua boca foi o suficiente para me atrair instantaneamente, pelo cheiro e pelo sabor, e senti que poderia devorá-la num único deslize. Não sei se ela já havia sido beijada antes, mas parecia ansiar por aquilo porque, ao simples toque de minha língua, espremeu seus lábios contra os meus, como se precisasse de mim. Como se quisesse ser beijada.

Até mesmo presenças como eu podem se surpreender. Parecia que ela, finalmente, havia aceitado que aquilo se tratava de um sonho maluco, e não poderia ser nada além disso. Se era um sonho, por que não se entregar a ele? Tudo voltaria ao normal quando abrisse os olhos. Tudo, menos as lembranças.

Eu conheço meu próprio poder. Sei que posso ser viciante, na maior parte das vezes. Porque me alimento sempre, e quando me alimento, fico mais gostosa também. Eu sei que o gosto que ela sentia na minha boca era infinitamente melhor do que o que eu sentia na dela; o gosto de muito desejo convertido na minha própria energia, que era o mais puro e intenso dos sexos.

Ela abriu um pouco mais as pernas, acomodando-me em cima de seu corpo que, de repente, não era mais tão pequeno assim. Saboreei cada centímetro de sua boca. Toquei seu peito, aproveitando-me da dupla sensação: a da reação dela perante meu gesto, e as batidas fortes e aceleradas de seu coração.

Com pesar, afastei- me de seus lábios. Seus olhos azuis finalmente se abriram, como se perguntassem por que eu tinha parado. Fingi que ia beijá-la novamente algumas vezes, cheguei até a morder seus lábios, mas voltei a me afastar, satisfeita pela crescente frustração dela.

- Você sabe quem eu sou. – sussurrei. – Sou quem você mais deseja.

Os olhos de Mariana se arregalaram. Desapareci num piscar de olhos, literalmente, e ela foi incapaz de dormir o restante daquela noite. 



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