História Você não vai me tomar o tempo - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS), Red Velvet
Personagens Suga, Wendy
Tags Bangtanvelvet, Btsvelvet, Wenga
Visualizações 27
Palavras 4.110
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Tinha postado isso em outra conta, mas eu to tentando organizar minhas coisas e essa fanfic não fazia o menor sentido onde ela tava, por isso eu deletei e to repostando aqui

Capítulo 1 - (quarto de hotel), você nunca me deixa


Fanfic / Fanfiction Você não vai me tomar o tempo - Capítulo 1 - (quarto de hotel), você nunca me deixa

 

 

 

 

O cheiro etílico da acetona evaporando em contato com a pele de seus dedos fez arder suas narinas. Teve o ímpeto de espirrar, a sensação agoniante do libertar alérgico das vias respiratórias que não veio. Odiava não ter a vontade saciada, o espirro não executado lhe causava raiva. Por outro lado, amava aquele cheiro de limpeza do algodão embebido no removedor de esmaltes. A coloração preta abandonou gradativamente suas unhas e em seguida pôde finalmente deitar-se na cama aliviada.

O colchão, bem como as roupas de cama cheiravam a poeira e mofo, como se há alguns bons meses, talvez um ano, alguém não entrasse naquele local mal iluminado, mal ventilado e malcheiroso. A inospitalidade e más condições de conservação, sem dúvida alguma, justificava o preço baixo do quarto de hotel, se é que aquele lugar poderia ser considerado um hotel, uma estalagem humilde num bairro boêmio ou talvez um cortiço soasse melhor e como uma definição mais justa.

Não entrava pela velha e conhecida porta do quarto 26 há quase um ano. Desde que toda sua intempérie teve início, nunca ocorreu de passar um período tão longo longe do ambiente hostil e ao mesmo tempo tão saudoso.

Tentou a todo custo relaxar os músculos exauridos pelo dia exaustivo de trabalho, porém sabia que em pouco tempo, a qualquer mínimo piscar de olhos, ele estaria ali e ainda havia muito para Seungwan fazer por si mesma antes da aguardada chegada. Precisava tomar um banho na suíte minúscula e desconfortável do local. Retirar do rosto a maquiagem, já destruída pelo dia cansativo, trocar seu traje social pela muda de roupas confortáveis que trouxe e livrar seus pés do sapato de salto bonito, mas muito apertado.

Queria também permitir que outras coisas deixassem seu corpo além da sujeira da pele, como por exemplo, o medo crescente do que enfrentaria em seguida. Ela costumava ser tão forte, tão pequena e viva, vestida de coragem para enfrentar as desavenças da vida e agora estava a ponto de chorar de medo.

Na saída do banho abafado, assim que fechou o registro do chuveiro, soube que ele estava ali muito antes de abrir a porta. Sua presença sempre foi forte demais para ser ignorada, poderia ser alguma espécie de magnetismo que o envolvia, talvez prescindisse tanto dele que fosse capaz de senti-lo mesmo através de paredes.

Enquanto vestia o delicado pijama sobre pele enxugada às pressas, ouviu seus passos esparsos do outro lado. Estava analisando e avaliando o lugar do mesmo modo que ela própria fizera anteriormente, e por isso, presumiu a cena que se desenrolava. O corpo preguiçoso se jogando contra a cama, como sempre; o rosto contornando-se em uma careta pelo cheiro incômodo da poeira. Cheiro do tempo e do esquecimento.

— Você veio. — Ela disse mais para si mesma, mais como uma reafirmação lógica daquilo que sua visão apresentava, do que com surpresa.

Cogitou a ideia de sentar ao seu lado, receosa. Estava se forçando a ser como antes, contudo existia uma barreira construída pelo tempo difícil de ser ignorada. Seu sorriso forçado não o convenceu. — Sabia que eu viria de qualquer jeito. — Escutou o desdém, costumeiro da parte dele, dando sinais de vida em seu tom de voz. — Demorou até demais dessa vez.

Quase um ano, refletiu. Não acreditava de modo algum que ele tivesse parado para contar a passagem daquele tempo, não fazia sentido, nem faria diferença alguma. Os quase doze meses pesavam muito mais do ponto de vista dela, mesmo que ele fizesse intuir ter sido o deixado para trás.

— Eu estive ocupada Yoongi. — “Ocupada demais te abandonando em algum ponto do nosso passado ruim”. O pensamento com alusão ao tempo pregresso lhe trouxe de volta a primeira reminiscência daquela noite, de quando seus olhos esbarraram nos deles durante uma festa esquecida em suas memórias incompletas.

Os olhos fechados em um grande sorriso, que em pouquíssimo tempo de convivência descobriria se tratar de um evento raro, mas que sempre lhe faria falta. Yoongi ria tanto naquela noite que Seungwan sentiu inveja da felicidade daquele cara desconhecido mais velho, mais independente e principalmente mais livre que ela.

As meninas de sua idade, na época, nutriam uma estupida fascinação por garotos da faculdade, como se o fato deles frequentarem o ensino superior pudesse retirá-las do marasmo cotidiano do ensino médio. Era uma ideia idiota e inconsequente como todo adolescente costuma ser, mas não ela, ou ao menos não a princípio.

Alunos da faculdade matavam aula sem recriminação, bebiam recobertos pela lei sem ilegalidade, as claras. Não precisavam do aval de ninguém para nada e davam festas em repúblicas longe da vigília dos pais, como aquela, a primeira de tantas em que Seungwan não sentiu fascínio, nem desejo, apenas inveja do espírito livre que exalava do sorriso, da risada, de cada gesto do rapaz, tão diferente do mundo sufocante e cheio de questionamentos existenciais em que a adolescente vivia.

Ela era uma boa garota de um colégio católico regido por freiras, tinhas boas notas, recebia elogios e carregava nos ombros os sonhos e anseios dos adultos de sua família. Que tipo de idiota ela seria, se acabasse apaixonada por aquele estranho de cabelos descoloridos e jeans surrado? Já tinha lido coisas suficientes, clichês e não clichês, para formar um repertório sobre todas as formas em que se encontraria perdida se isso acontecesse.

— Ah claro. — Assentiu sem entusiasmo. — É uma verdadeira adulta sem tempo pra nada agora, quem diria. — Encarou sua figura relaxada na cama zombando de si, o rosto estava petrificado em sua usual feição de desmerecimento, mesclado ao desprezo sobre qualquer coisa que envolvesse a vida da jovem mulher. Ele não disse, mas aquilo estava praticamente implícito em sua fala. Não acreditava que aquela mesma menina que vivia à suas sombras como um cachorrinho assustado, pudesse ter, em algum momento ao longo daqueles anos, se transformado em uma pessoa madura e responsável. — Trouxe tanta coisa, pretende se mudar para cá e me fazer companhia?

A bagunça era grande, ela admitia.

Olhando em volta viu suas roupas esparramadas pelo chão, seus produtos de higiene empilhados na mesinha próxima a cama, como se realmente tivesse a pretensão de ali ficar por alguns dias. Contudo, sabia que se tratava apenas de um ritual simbólico de desprendimento. Precisava se livrar da Seungwan do dia a dia, a da vida real, para se encontrar e se conectar a ele.

Poderia parecer uma grande bobagem, e talvez fosse, principalmente diante da falta de interesse que dele emanava, mas ela não queria que tivesse a visão do quão absolutamente entediante e metódica era a vida que levava. Seu uniforme padronizado, social, simplório e ordinário, o salto alto que na adolescência sempre abominou e jurou nunca usar, a maquiagem tampando o rosto delicado com uma sobriedade que antes não a pertencia. Precisava se livrar de tudo isso, necessitava estar a mais próxima possível da Seungwan que ele costumava amar.

— Vim direto do trabalho. — Um emprego com um bom salário queria ter dito, no qual havia obtido uma promoção recente e que apesar da monotonia que Yoongi tanto odiava, era uma atividade que permitia a ela certa independência e estava satisfeita com isso. Queria ter contado como andava sua vida, das amizades e adversidades que encontrou pelo caminho e que apesar dos problemas, apesar daquele quarto esquecido de hotel, a vida tomava seu curso e era hora de aceitar tudo isso. — Acho que nunca me viu uniformizada, eu só quis me arrumar. — “E fingir que não segui com a minha vida sem você. ”

A risada suave denotou que não estava alcançando êxito em seu disfarce. Se o que pretendia era fazê-lo acreditar que as coisas iam bem e que o tempo não tinha a afetado tanto assim, encontrava-se falhando de maneira miserável. — Ou desarrumar, você quer dizer. Está tentando se parecer com a Seungwan de antes?

A menina a quem se referia já não existia. Yoongi poderia procurá-la por debaixo da pele, dos ossos ou vestuários que cobriam e integravam aquele corpo, mas não estava mais ali. Tinha abandonado aquela antiga forma a um bom tempo e ainda que quisesse sabia que ela não voltaria nunca mais.

— Isto não é sobre você. — Era uma meia verdade e os dois sabiam disso. Muito do que estava prestes a fazer dizia respeito ao rapaz largado a sua frente, mas dessa vez pensava mais em si mesma independentemente do que se sucedesse. Era seu próprio nome e vida que roubavam o primeiro lugar em sua lista de prioridades. A imagem dele era pintada de forma bela em seu cérebro apesar do aparente descaso, mas sabia que estava prestes a se dissolver diante de seus olhos. Tudo era tão somente sobre ela, nada mais. — Me arrumei ou desarrumei, como queira chamar, porque eu quis.

Ele riu e o sorriso formado em seu rosto, quase doce, parecia dizer “você realmente cresceu”, embora tivesse desdenhado de sua maturidade segundos atrás. — Está tão bonita. — Pode alcançar e tocar o orgulho misturado a tristeza emanando de seus lábios, seu coração estava tão partido, seu corpo retinha todas as coisas ruins que encontrou pelo mundo. Sempre foi assim. — Não me importaria de te ver sempre de salto alto, ou maquiada, ou vestindo jeans rasgado. Tenho certeza que o Yoongi de antes também não se importaria.

Sim. O Yoongi de antes estaria à essa altura bagunçando seus cabelos e sua pele sobre aquela cama. Teria retirado sua saia lápis de linho com a mesma leveza que retirava sua calça cheia de rasgos. Teria dito que poderia vestir o que quisesse, da forma que melhor entendesse. E assim, a Seungwan de antes estaria derretida na capacidade dele de fazer com que tudo fosse mais bonito, inclusive ela mesma, ignorando o dia, o local ou a hora. O completo oposto da imagem pintada no quadro caótico dos dois de agora. Ambos se afastando e jogando coisas demais sobre a face um do outro, mesmo sem de fato proferirem palavras concretas.

Ele era o desespero dela de não conseguir recuperar o que deixou no passado. Ela era a angústia que ele sentia por não ter partido do jeito certo, como num final de qualquer filme romântico em que o casal se separa, mas lutam individualmente para reconstruir cada um seu coração partido.

Seungwan se recordava de tê-lo encontrado tantas vezes antes de lhe dirigir a palavra e de ter se apaixonado em todas as ocasiões de maneiras diferentes, ainda que nunca tivessem conversado.

Soube que almejava ser poeta, fotógrafo e jornalista, que escrevia poesia concreta sobre suas conquistas e desejou secretamente algum dia ser também sua musa inspiradora. Mentia que não se interessava quando a perguntavam, dizia que aquele amontoado de sentimentos estranhos se resumiam a pura inveja do jeito livre que ele ostentava. Mas no fundo queria ser ensinada, ter sua mão segura e firme contra a dele e seria uma ótima aluna se o rapaz pálido, ácido e impiedoso a olhasse, ao menos uma vez, com outros olhos. Não se importava com o comportamento, que ao mesmo tempo que a expelia também a atraia, com as palavras rudes ditas com naturalidade, o olhar ríspido que deveria enfurecê-la, mas que no fundo a instigava, esquentava e despertava o desejo de desvendar os segredos que nele moravam.

Descobriu que curso fazia na faculdade, as músicas que gostava, seus livros preferidos, as filosofias com as quais compactuava, a distância. Aprendeu que seus olhos desapareciam quando raramente resolvia sorrir, que sua expressão de tédio era um reflexo da personalidade geniosa, mas não refletiam seu caráter, que ao contrário do que fazia parecer, era gentil e prestativo na maior parte do tempo. O viu jogado e cansado pelos cantos nos lugares em que o encontrava, escutou dizer pela boca de terceiros próximos a ele, que andava sempre doente na maioria dos dias e que isso era apenas consequência de ser um poeta malsucedido, com uma alma amargurada e enferma.

Observou por tanto tempo escondida, infiltrada nas sombras que não percebeu que era fitada com a mesma curiosidade até ser arrastada ao labirinto de emoções de um primeiro amor que deveria ter durado para sempre.

Foi em sua festa de admissão na faculdade, na recepção dos calouros, que sentiu o toque do rapaz de dedos gélidos e olhar sombrio, pela primeira vez. Neste mesmo quarto que já possuía naquele tempo a mesma aparência hostil. A arrastou pelas ruas noturnas até que se deparassem com o hotel de ar fantasmagórico, sem saber que retiraria dela não apenas a pureza, mas o medo de existir. Estava bêbado demais, encantado demais com a garota de olhar tímido, para se dar conta de que afetaria de maneira tão incisiva seu coração. Seungwan, por outro lado, não havia ingerido sequer uma gota de álcool e sóbria, tremeu sobre seus braços e temeu que no amanhecer do outro dia ele a deixasse sozinha naquele ambiente claustrofóbico e empoeirado.

Teve medo de que não se importasse em saber seu nome, seu filme e cor favorita. Receou se tornar apenas uma memória apagada por uma noite confusa de bebedeira e uma manhã de ressaca cruel. Mas ele estava lá. E nas noites que se seguiram depois daquela, ele ainda esteve lá.

Segurou as mãos da menina insegura e contou a ela que seria sempre a melhor de todas e não deveria aceitar nunca que lhe dissessem o contrário.

— Não vou mais voltar. — A Seungwan ferida, mas quase cicatrizada de agora lhe disse. Deitada ao lado do causador de toda a sua dor, como na noite em que ele retirou dela a virgindade, na mesma cama, no mesmo local onde tantas vezes fizeram amor. Seu olhar a atravessou tão intensamente que mesmo que tentasse com todo o empenho de sua alma, não conseguiria não chorar.

A primeira lágrima desceu obliquamente pelo rosto bonito. Yoongi lutou contra a vontade de consolá-la, pois sabia que já estava na hora de encarar algumas verdades e se não tivesse chorado o suficiente, então deveria derramar todas as lágrimas acumuladas nos últimos meses, anos, até que se sentisse bem o bastante, ou seria certo dizer, em cacos o suficiente para começar a se concertar.

— Isso é bom. — Ela enxerga através da vista embaçada pelo choro, um sorriso discreto, daqueles que se dá por obrigação. Na opinião dela, o sorriso mais triste. — Você me deprime sempre que vem aqui tão manhosa e solitária. — Seungwan não era feita de manha, longe disso. Rememorou o tempo difícil em que se viu obrigada a se enxergar sem ele e rejeitou qualquer tipo de carinho, porque jurou desde o início que seria forte o bastante sem precisar de ninguém. Mas perto dele tudo era terrível e superlativo, era sempre extremo e isso estava a matando.

— Não estou mais sozinha Yoongi. — Deixou com que as palavras escapassem com um gosto amargo de seus lábios.

“Era tempo de fazer as coisas melhorarem”, repetiu a si mesma em silêncio. “Eu ainda estou viva”.

— Como ele se chama? — Sua voz, diferente da voz quebradiça da mulher, permanecia inalterável. Estava sendo para ela o muro de forças que sempre foi. Mostrando que não deveria ter medo de tentar ser feliz.

— Sinceramente ... não acho que isso faça alguma diferença. — Pensou ter visto o olhar dele estremecer, mas sabia que era apenas um fruto amargo de sua cabeça, ele não se importava mais, era impossível que se importasse.

— Então pode me dizer o que houve com o outro antes desse? — A acusação disfarçada naquele questionamento provocou uma onda mais forte de choro. Seungwan fungou e encostou a cabeça contra o peito de seu inquisidor.

— Não.. — Tentou encontrar forças para falar, mas ainda o amava tanto, sentia tanta falta de seus lábios, suas rimas, sua voz injetando vida nos lugares mais escuros de seu corpo. — As coisas não funcionaram, por mais que eu tenha tentado. — “Não duvide do meu esforço”.

Rostos diferentes, corpos diferentes, perfumes e palavras distintos. Nenhum deles arrancaram de sua cabeça a ausência do outro.

— Você ama ele? — “Não”, pensou em gritar até que todo o quarto estivesse preenchido com seu desespero.

“ Não ainda, não o bastante, não como eu amava você”.

— Não vou saber se não tentar de novo. — Tentou justificar seus erros e passar um corretivo sobre o fracasso dos relacionamentos anteriores, ainda que temporariamente. Não cabia mais a ele julgá-los, ele não tinha esse direito. — Depois que a gente cresce, o amor deixa de ser uma necessidade instantânea.

Tinha ainda vívida em sua memória, a ânsia que sentia em ser amada de volta e o medo que a falta de imediatismo lhe causava. Hoje, reconhecia que o melhor que pôde ter ao lado de Yoongi, estava justamente no decorrer dos dias, na forma como se permitiu conhecer e ser conhecida, aprender a entender o outro e assim a conhecer a si própria. Sem pressa nenhuma e se amaldiçoou por ter perdido tanto, exigindo um amor efusivo que sempre esteve ali, porém calmo e pacifico.

— Pode construir sentimentos com o tempo, mas para isso tem que deixar o tempo acontecer. Fico feliz que entenda agora, você cresceu e talvez eu me orgulhe disso. — Viu um início de choro em sua expressão e se confortou com isso. Era uma atitude extremamente egoísta, porém queria que ele estivesse sentindo a mesma dor que sentia. — Mas mesmo que tente, vai ser inútil se não compreender o motivo do fracasso anterior.

— Você. — Lutou contra força daquela palavra tão pequena e que ainda assim lhe arrancava toda o mundo naquele momento, se não estivesse deitada, teria caído sobre os próprios joelhos cansada e fraca. Ele sabia exatamente sobre o que ela se referia, mas aguardou até que dissesse tudo o que tinha guardado para dizer. — Nenhum deles Yoongi, nenhum deles é você.

— Sou apenas sua imaginação. — Ele ditou calmamente, como se precisasse explicar a uma criança uma situação difícil. Afagou suas costas e suspirou sobre seus cabelos buscando a melhor forma de conduzir aquela conversa tão tóxica. — Sou apenas uma imagem distorcida daquilo que aconteceu. — O fantasma, a alucinação ou qualquer que fosse o demônio do inconsciente que a assombrava, tocou a pele descoberta de seus braços com a ponta dos dedos, eram frios, eram leves e atenciosos. Recordava aquele toque e o sentiu quase como se fosse real. — Você sabe que ele nunca vai voltar, não sabe?

— Eu sei, eu sei. — Encostou seu rosto na curvatura do pescoço da figura habitando sua cama.

Uma criatura ruim, um espelho de seus problemas, seus sentimentos.

— Eu vi seu corpo estirado no chão do banheiro desse mesmo quarto, segurei sua mão gelada contra a minha. — “E mesmo assim nunca o deixei partir”. — Eu o amava, amava por me ter feito amar a mim mesma. Amava porque apesar de parecer sempre frio era bom e quente comigo, parecia destrutivo e no fim das contas talvez fosse, mas nunca me machucaria, nunca arrebentou meu coração como todos disseram que aconteceria. Mas então ele partiu e isso foi pior que qualquer maldito coração quebrado. Não é uma merda de uma desilusão amorosa. Não posso superar alguém que não está mais aqui e que eu vi ir embora parada e impotente. Ele era meu protetor, o ponto fixo que me segurava ao chão, meu melhor amigo.

Ele não disse nada e ela pôde o sentir desvanecendo diante de seus olhos e isso, sabia, sempre foi a coisa certa a ocorrer, se assim tivesse permitido desde o início.

— Este maldito quarto parece congelado no tempo. — O cheiro dos lençóis, parede descascada, a lâmpada de baixa voltagem, tudo era exatamente como antes, como a noite da primeira vez e como a noite em que Yoongi disse que ia tomar um banho e nunca mais voltou. — Cada mínimo detalhe e se eu fechar os olhos ainda posso vê-lo deitado sobre meu corpo.

— Seungwan, quanto tempo perdeu sentindo culpa? — A voz imperturbável, aparentava afetação pela primeira vez. Fraca, trêmula como se estivesse chorando ou quem sabe morrendo de novo.

— Eu não quero mais contar o tempo, estou te ultrapassando e quando olhar para trás vou me lembrar de coisas boas, não é? Ainda que existam coisas tristes, vou estar feliz em transformá-las apenas em memórias que não possam me assombrar. — Lembrou-se da última vez em que estiveram juntos de fato, a menina traçando planos silenciosos para um futuro que só ela esperava. Não conseguiu se desapegar das esperanças que depositou nos ombros do namorado e não deixou que partisse daquela vida, que aprendeu ser tão boa e proveitosa justamente com ele, que em um ato que Seungwan nunca entenderia, desistiu de si mesmo, da própria existência.

Os olhos espertos e acusadores de Yoongi a perseguiram por todo o caminho nos últimos anos. Ele não estava ali, mas ainda podia sentir em sua pele, as palavras que costumavam motivá-la a fazer o que quer que tivesse vontade. Deu a ela um sopro de vida ao final da puberdade e início da vida adulta, cultivou paixões e manias que enriquecerem seus dias e depois saiu de cena, a deixando perdida demais num roteiro que em sua cabeça só fazia sentido se estivesse com ele. É esse o maior problema de um primeiro amor que não te deixa em pedaços, não se consegue nunca deixar de idealizá-lo e de se culpar por tê-lo perdido em uma luta que ela sequer teve chances de escolher armas para lutar. Ninguém pode vencer a morte, ela é soberana em todas as suas facetas.

Ele nunca traçou planos embora parecesse se orgulhar dos que ajudou Seungwan a cultivar. Era cético demais para estar apaixonado, mas com ela sempre foi tão extremo, tão intenso e apegado aos pequenos detalhes da garota que no início o observava apenas com curiosidade. Como as roupas que usava, seu perfume, as expressões divertidas e as de prazer. Ela acreditou que seria para sempre, mesmo que soubesse, apesar da ingenuidade, que o para sempre, sempre foi uma utopia.

Yoongi e seus quase extintos e ilusórios sorrisos partiram em uma noite em que Seungwan jurou que poderia amá-lo e encaixar-se em seus braços, que aparentavam tanta força, pelo resto da vida.

O rapaz apático daqueles versos perdidos (rabiscados num pedaço de folha rasgada e entregues a menina em meio a um exemplar amarelado de do amor e outros demônios) foi embora, e ela, por mais que amasse suas palavras, não acreditou no que elas diziam ou tentavam dizer. Talvez fossem um pedido de ajuda que ela não foi capaz de ouvir e entender.

 “Seunghwan era pura como o leito de um rio; possuída apenas pelos demônios da pele dele. Ardia em febre com seu toque, o inferno. Mas nele o coração era opaco, irrisório, vazio; sempre indiferente ao passar do tempo e frio”.

A mesma pessoa que a enchia de doçura e cuidados, amargava em sua rotina assombrações muito piores do que o fantasma de culpa e negação de perda daquele quarto. A doença e o cansaço crônicos, presentes em seu corpo, eram mascarados por remédios que nunca curavam nada. Não poderiam tratar as feridas da alma, tão parecidas com as que Seungwan carregava agora em seus ombros. Saudades, suspirou. Tinha lutado contra a aceitação da perda, justamente pelo medo do que a falta lhe causaria, mas apesar de dolorido, via agora que era o único caminho.

A saudade machuca, mas evoca sensações e memórias que um dia ajudaram a curar, que transformaram, marcaram, contribuíram para o amadurecimento. Sentir falta não traz ninguém de volta, mas é alento nos dias mais difíceis e era só disso que tinha necessidade.

Ele não precisava mais voltar e ela estava pronta para deixá-lo onde sempre foi seu lugar devido, no passado. Só se sente saudade daquilo que se ama e Seungwan amava Yoongi, mesmo que não tenha sido amada de volta na mesma intensidade, mesmo que doesse pensar nas coisas que poderia ter feito para fazer valer seu amor sobre os demônios do outro. Ela amava tanto. Ele, e não o prospecto cruel e maligno que alimentara nos últimos anos naquele maldito quarto.

Sempre teve medo e ao mesmo tempo ansiou pelos momentos que passaria ao seu lado, mas aquilo não era Yoongi. Aquilo só a maltratava e a impedia de avançar no tempo, precisava exorcizá-lo, queria apenas que voltasse as profundezas da sua psique adulterada.

— Prometa que vai ir embora.


Notas Finais


Obrigada por ler,


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