História Volta ao Mundo em 80 Histórias - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias Once Upon a Time
Tags Swanqueen
Visualizações 145
Palavras 6.006
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela
Avisos: Homossexualidade, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Então, pessoal, a one maravilhosa de hoje foi escrita por uma pessoa que admiro muito, a DuperQueen.

Achei a one extremamente maravilhosa e como as outras já postada, deixa um espaço para o desconhecido também...como amo isso, esse espaço...salve meu lindo e querido Brad Pit em Sr. e Sra. Smith...mas bom, voltando a one, sei que vão gostar, pois eu simplesmente amei e mais uma vez DuperQueen me ganhou nas primeiras linhas...Menina, você não cansa de fazer isso comigo não!?!

Não vou deixar o link do perfil dela, pois por alguns motivos pessoais ela o excluiu, mas assim que voltar eu já posto.

Aviso importante:
Galera, várias autoras entraram em contato comigo, dizendo que aprovaram e curtiram muito o projeto, que querem participar. Ou seja...cerveja...zuação. Logo logo teremos mais e mais ones então...fiquem sempre de olho.

Deixa eu parar de divagar e vamos á estória.

Si, amei de verdade e obrigada por aceitar participar, fiz o convite não só por mim, mas algumas meninas te indicaram também e pode ir escrevendo mais, hein...kkkkkk

Capítulo 4 - Coração Valente - Por DuperQueen


Quando perdemos alguém, perdemos a nós mesmos durante o adeus. Foi assim que eu me senti quando entrei por aquelas portas. O meu coração batia acelerado e minha mente buscava colocar ordem no caos que se tornou estar viva. Enquanto corria pelos corredores em busca de uma resposta, meus pés perdiam o contato com o chão. Minhas pernas trançavam-se e minha boca parecia ser incapaz de emitir qualquer som.

Eu não podia passar por isso novamente. Perder-me novamente seria o mesmo que me entregar à escuridão. A vida não poderia fazer isso comigo, não depois de tudo. Não depois de ter uma segunda chance. Minha mão trêmula tateava por portas e rostos estranhos. Meus olhos logo reencontram seu antigo refúgio. Lágrimas. Lágrimas que sempre me impediam de ver o que estava além.

Não sou uma mulher amarga, mas também não sou uma mulher que ama fácil. Não posso ser. Quando nos acostumamos com a partida, acabamos esquecendo-nos da chegada. E eu me esqueci por longos anos. Esqueci-me do toque, do beijo... Da batida de um coração além do meu próprio, que de alguma forma estranha, parecia bater dentro de mim. Como se no lugar onde antes existia um, pudesse alocar confortavelmente dois.

Seco meus olhos em vão. Eu sei que é! Assim como é em vão tentar manter o controle. Nunca temos controle algum sobre nossas vidas, nem mesmo quando fazemos de tudo para ter. Nossos caminhos são interligados por linhas invisíveis, que a cada novo encontro, novo abrir de olhos se altera. Sequer temos controle sobre nossa respiração. Um corpo meu, cujo qual responde ao dela, ainda que eu venha assim não querer. Eu sei que falando assim parece estranho. Mas existe algo mais estranho do que a vida? Pense bem... Crescemos achando que somos donos de nós mesmos, e assim acreditamos ser...

Apaixonamos e dizemos para o amor: Estou me entregando a você. Olhamos dentro dos olhos de alguém e dizemos: sou sua. Gostamos de pensar que temos tal escolha. A escolha de se entregar a quem e ao que queremos, mas não temos. Não podemos escolher o que pensamos, o que desejamos e muito menos a quem amar, por mais que reafirmamos a nós mesmos a todo momento que temos tal escolha.

Eu pensava assim. Pensava que se me afastasse, que se fosse dona de mim, jamais teria que dizer adeus a qualquer outra pessoa que não fosse eu mesma. A primeira perda de um grande amor é algo que julgamos jamais ser possível esquecer, e de certa forma é! Tentando novamente tomar o controle, dizemos em alto e bom som: Jamais amarei!

Acreditamos nisso com todo o nosso corpo e passamos a criar regras, uma proteção para que nos impeça de novamente dizer adeus. Comigo funcionou por um tempo. Eu vivi anos acreditando ter o controle do meu coração. Na minha tristeza, eu era a Rainha da minha dor. A cultivava como uma mãe que alimenta seu filho, como um bebê que suga o bico de uma mamadeira. Essa era eu. Dona de mim... Dona... Até que a vi pela primeira vez.

Continuo correndo em busca de reencontrá-la. Passo por corredores que já conheço com precisão, ainda que sejam outros. Pareço não precisar de ajuda para encontrar o caminho para velhas dores. Meu corpo sabe, ainda que minha mente desejasse todas as noites esquecer. Quando enfim abro a porta, sinto meu próprio coração ser arrancado do peito, ainda que ele bata dentro de mim.

Não consigo me mover... Ela está deitada... Cercada de lençóis brancos. Como uma prenda entregue a algum Deus que no momento renego. Como uma oferenda com a promessa de fartura. A mulher que eu amo... Aquela a quem nunca escolhi amar... Aquela que me tem como eu nunca quis dar.

Meus lábios se movem em um som mudo – Emma – tento dizer em vão. Alguém me puxa para longe dela e eu tento impedir. Não posso deixá-la ir... Não quero. A porta se fecha a minha frente e eu estou sentada. Vejo um copo sendo colocado entre meus dedos trêmulos e uma voz me dizendo para beber. Não tenho tal escolha...

Fecho os olhos e tento encontrar abrigo. Minha mente é invadida por lembranças das quais não quero lembrar. Não agora. Nunca acreditei em destino. Nunca acreditei que uma força maior existisse, mas se eu não tenho controle algum, que eu me conceda a ilusão de ter enquanto pronuncio estas palavras “Daniel, não a leve de mim”.

 

Kupang – Província de Sonda Oriental – Indonésia – 01 ano atrás

Eu sempre gostei de olhar para o mar e ao contrário da maioria das pessoas, o movimento das ondas nunca me abalou. Quando pequena, costumava passar horas sentada na praia, apenas olhando para a água se movendo. Meu pai costumava dizer que qualquer dia a água me levaria para algum lugar desconhecido e eu poderia ser como a Ariel, uma pequena sereia.

Durante muito tempo acreditei nisso e desejei, contudo, por mais que ficasse parada na areia, a água nunca me alcançava, portanto, nunca serei a Sereia de algum reino encantado. Foi assim que o conheci e foi assim que o perdi. O mar não me levou, mas levou uma grande parte de mim.

Sou americana por natureza, mas precisava recomeçar. Não sabia muito ao certo o que era necessário para tal façanha. Talvez apenas um coração partido, talvez a sensação de não ter nada me prendendo, que me impedisse de tirar aquele velho cartão postal da parede de minha antiga cozinha. Seja qual for o motivo que me trouxe até aqui, desembarco no pequeno porto de Kupang.

Há pouco mais de três anos perdi meu eixo. Tive que aprender a engatinhar, pensando se um dia seria capaz de andar, correr... Sorrir. Vendi tudo o que tinha no Maine e vim em busca de um recomeço, se é que tais coisas existem, o que acho difícil. Sempre fui cética.

O caminho que me leva até a minha nova casa é cercado por verde. Fecho os olhos e busco sentir a brisa, quando dou por mim, estou parada na entrada do pequeno casebre. Minha antiga vida era ... Era perfeitamente cansativa, exceto por ele. Daniel. Li uma vez, em algum livro que não lembro qual, que para recomeçar é preciso criar novas raízes. Então, aqui estou eu. Nova casa, novo país, mas a velha Regina Mills de sempre.

Retiro do pequeno jipe todas as minhas malas. Duas, para ser mais precisa. Caminho em direção ao meu novo lar. Tenho que dizer, a casa não é das melhores. Se parece e muito comigo. Surrada, com as paredes descascando, uma cerca sofrida pela maresia, mas sobrevivente ao tempo.

Determino a partir daquele dia, que irei reconstruí-la, enquanto espero que seja reconstruída no processo. Trocarei o corrimão, as cores das paredes, limparei a lareira, arrumarei o balanço na entrada. Darei um jeito, seja qual for esse jeito e me sentarei na praia à espera do meu reino encantado.

Na primeira semana, encontrei muita dificuldade. Tive que brigar algumas vezes pelo espaço com animais que pareciam não estarem satisfeitos com a minha chegada. Encantada com a possibilidade de um futuro, vou em direção a cidade. A distância não é muito grande e Kupang em si é menor do que muita cidade em que já estive.

As pessoas me cumprimentam e sorriem mesmo eu não conhecendo praticamente ninguém naquele lugar. Com suas roupas leves e chapéus, eles levam sua vida alheios a minha dor. Abro a porta da pequena venda e sinto cheiro de mato. Veja, talvez por uma escolha inconsciente, Kupang seja um exemplo de mim. A Terra em que piso, abrigou refugiados durante conflitos. Talvez seja isso que me trouxe aqui. Estar em um lugar que mesmo depois de tantos motivos para sucumbir, permanece se reconstruindo a cada novo amanhecer.

Pretendo fazer de meu novo lar um lugar onde possa criar cavalos. No Maine, eu tinha um belo haras, muito conhecido pela região. Aqui? Aqui só quero viver no lugar mais seguro que posso encontrar neste momento. Meu passado. Minha infância.

É assim que passo meus próximos seis meses. Entre tabuas e pregos, feno e ração. Entre anoitecer olhando o mar. Com o tempo, meu corpo parece se acostumar à região. O calor não me assusta tanto e até aqueles animais, que antes pareciam me detestar, agora se tornam parte da minha vida. Arrisco dizer que poderia tê-los como família. Armando, o pequeno macaco que insiste em me roubar o lençol toda manhã. Tem a Safira, ela não é muito de conversar, mas aceita um bom cafuné. Eu a ganhei em uma tarde, quando buscava um homem simples – Anshe – que mais tarde tornaria um grande ajudante. Resumindo, minha nova família é Armando, Safira - uma kakatua travessa - e Anshe. Um homem velho, mas que gosta de sorrir e me chamar de Indah Kuda *, o que mais tarde vim a descobrir que é como chamam quem cria cavalos.

Por que eu preciso dizer tudo isso? Porque é quando eu achava ter o controle sobre a minha nova vida, descobri que nunca o tive. Em uma manhã, enquanto eu acariciava Safira, na varanda da minha casa, Anshe aparece, mas diferente de todos os dias, ele não está sorrindo.

-Indah... Senhorita Indah – Apesar de ensiná-lo todas as tardes um pouco sobre inglês, em momentos de raiva, Anshe acaba esquecendo que pouco entendo do idioma local e começa a falar rápido.

- Devagar Anshe – desço o degrau caminhando em sua direção e deixo que Safira voe para o varão que segura à cobertura de minha varanda.

Ele tenta novamente falar, mas ao ver a minha testa franzida, opta por pegar minha mão e me levar em direção ao pequeno estábulo que estou construindo.

- Awas... Awas Indah Kuda** – ele fala, apontando para um ponto entre os fenos.

Eu peço que ele se acalme e volte para suas funções. Coloco a caneca de café sob a madeira de uma das baías e caminho em direção a um par de pernas desconhecidas. Paro em frente ao corpo de uma garota e para minha surpresa, ela não acordou com a gritaria de Anshe. Pelo contrário, dorme tranquilamente com uma camisa de linho por cima do peito.

Não é comum encontrar estranhos por aqui. O lugar é pequeno e as pessoas tendem a praticar a boa vizinhança. Bato com delicadeza em seus pés, esperando acorda-la, mas ela permanece confortavelmente entre meu feno. Agacho e examino seu rosto com curiosidade. Sua pele é branca e seu rosto é marcado por pequenas manchinhas, provavelmente do sol. Levanto e olho ao meu redor, em busca de algo que pudesse usar para acordá-la. Sorrio ao ver um balde de alumínio, que geralmente utilizo para trazer água do pequeno poço, que fica próximo ao estábulo.

Ela acorda assustada ao ver a água invadindo sua boca e molhando seu cabelo. Não gosto de estranhos e muito menos dos que usam minha casa como lugar para dormir. Esperando que assim como Anshe, ela comece a falar coisas que pouco entendo, a penetra me olha emburrada.

- Não é educado acordar alguém com água, Senhora Indah.

- Oh, você fala meu idioma – Deixo o balde cair no canto da parede e coloco as mãos na cintura, sempre faço isso quando estou nervosa – Que ótimo! Agora saía da minha propriedade.

- Isso não muda o fato de que acordar alguém assim é errado – ela me responde, enquanto sacode sua blusa.

- Saia – ordeno, dando as costas para essa estranha garota.

Ela me segue pelo caminho de volta a minha casa. Tenho que admitir, essa é uma de suas características que mais tarde se tornaria a que mais odeio. Teimosia. Paro no primeiro degrau da minha varanda, disposta à expulsa-la a força se assim fosse preciso.

- Você é surda? – lhe pergunto com meu habitual tom severo.

- Não – me responde tranquilamente – mas você não se parece nada com uma Indah.

- E você deveria voltar para a sua casa – revido desconcertada.

Entro em minha casa, convencida de que fui grossa o bastante para assustá-la. Porém, me deparo depois de algumas horas, com uma garota sentada na minha varanda. Empurro com força a porta de entrada, pronta para xingá-la.

- Vai embora – aponto para o caminho que leva até a cidade. Ela apenas levanta a cabeça e me olha. Seu rosto de contrai e as sardas desaparecem - Qual a sua idade? – pergunto ainda em pé, mantendo uma distância segura.

- 17 – responde sem me olhar.

- Não tem uma família a sua procura?

- Sim, mas eles estão acostumados com o meu sumiço – ela sorri com naturalidade. Um sorriso aberto, que não estou acostumada a receber, principalmente quando deixo meu lado gentil dar lugar a minha real personalidade.

- Tenho certeza que eles estão a sua procura – ela concorda, mas permanece sentada. Irritada com sua insistência, me sento ao seu lado.

- Vá – ordeno novamente.

- Irei... – responde com um meio sorriso, mas ao contrário do que suas palavras dizem, ela se acomoda em meu degrau – A propósito, me chamo Emma – estende sua mão e eu recuso a apertá-la. Não tenho interesse em ter uma adolescente como amiga – Não é muito boa em fazer amizades, né? – me pergunta, e eu continuo lhe encarando.

- O que preciso fazer para você sair da minha frente?

- Não pretendo sair – diz tranquilamente. Minha raiva aumenta, mas ela me olha e percebe que não compreendi o que disse – Eu quero aprender com você.

- Aprender o que? – pergunto enfurecida – Não tenho nada pra lhe ensinar.

- Acho que começamos pelo lado errado – leva uma das mãos aos lábios, como se estivesse pensando em algo – Voltarei amanhã, ok? E tente ser gentil, senhorita – Ela se levanta, bate as mãos na calça e caminha tranquilamente em direção à saída de minhas terras.

- Não volte. Não quero que volte – grito, esperançosa de que ela me escute. Não olha para trás e muito menos responde. Apenas continua caminhando.

Veja, eu, em minha nada humilde existência, acreditava que aquela garota não voltaria. Eu realmente achava ter sido hostil o bastante para afastá-la. No dia seguinte fiz o meu habitual ritual. Café, carinho em Safira e olhar para a minha vista. O mar há alguns metros de distância.

Emma? Ah... Ela estava sentada em meu banco, me observando com seus olhos e suas pintas. Lembro-me de ter levado um grande susto ao virar e me deparar com sua imagem. Usava uma blusa rosa e uma camiseta branca por baixo. Ao contrário do dia anterior, estava com um short e dada a sua idade, suas pernas pareciam dois gravetos, belos, mas gravetos.

- Pronta para conversar? – Naquele momento eu admirei a sua petulância. Eu, em meus 28 anos, não conseguia ter a coragem para fazer o que ela estava fazendo.

Eu a ignorei e voltei a entrar. Ela ficou ali por horas, enquanto eu chegava frequentemente à janela da minha sala, apenas para constatar que Emma permanecia no mesmo lugar. Com o cair da noite, ela se foi, para retornar no dia seguinte e no seguinte... E no seguinte. Sempre com o mesmo sorriso e a mesma pergunta.

Ela era extremamente irritante e por mais que a ignorasse ou espantasse com a mangueira, a garota sempre voltava. Nada parecia abalá-la em sua impetuosa juventude e ousadia. No décimo dia, eu não estava brava. Abri a porta da minha casa com duas canecas na mão e coloquei a sua sob a madeira da sacada, esperando que se aproximasse. Olhei para o lado, quando ela puxou a caneca delicadamente e a levou aos seus lábios.

- Por que volta mesmo eu não estando interessada?

- Porque eu estou e isso é motivo o bastante.

- Seus pais sabem que passa o dia na varanda da minha casa? – ela sorri e nega com a cabeça.

- Diga o que quer e acabamos com isso de uma vez – eu virei em sua direção.

- Eu quero que me ensine o que sabe – diz com firmeza.

- E o que eu sei? – pergunto com tom de mistério.

- Veja, meus pais não gostam que eu falte a aula e bem... Eu tenho feito isso a mais de uma semana – penso em repreendê-la, mas antes que faça tal coisa, ela continua a falar – e eu não quero faltar à escola, mas quero aprender a ser uma Indah assim como você – coloca a caneca perto de mim e se afasta. Passa por Safira, lhe acaricia e retoma seu costumeiro caminho para a cidade.

- Ei! – ela para e me olha com uma das mãos sob o rosto – Esteja aqui após a escola – ela sorri vitoriosa por ter conseguido o que queria – Mas não pense que serei gentil com você – ameaço.

- Estarei aqui – coloca a mão no bolso de seu short e eu de alguma forma tenho certeza que Emma sorri.

Como era o esperado, ela volta e eu tento, tento ao máximo ser cruel o bastante para que ela desista dessa ideia. Contudo, a garota aparece toda tarde, com uma disposição para um trabalho árduo. Ela nunca reclamou de fazer a parte pesada. Não. Emma fazia sorrindo. Cuidando dos cavalos sorrindo... Com chuva ou com sol, Emma sorria.

Sem que me desse conta estava sorrindo também. Ela era estabanada e vivia se machucando. Um dia apareceu com o olho roxo e eu lhe perguntei insistentemente o motivo. Emma sorriu e disse que era o risco de uma encantadora de cavalos.

Nunca tirava sua camiseta branca. No verão, passava as mãos por sob o rosto secando o suor. No inverno, ainda que não precisasse dela com tanta frequência, Emma aparecia com seu habitual brilho nos olhos e passava horas andando em círculos com Keras Kepala***. Um potrinho que como o próprio nome dizia, era teimoso como a sua treinadora.

- Você sempre cresceu aqui? – perguntei após um dia de expediente. Estávamos como de costume, sentadas em minha varanda. Emma comia um sanduíche.

- Não – Limpou a boca de forma desajeitada e bebeu de seu suco – Meus pais são americanos. Eu me mudei pra cá quando tinha 14 anos.

- Por quê? – pergunto antes que me dê conta.

- Eles me disseram que seria um bom lugar para me criar – Emma inclina seu corpo para trás e dá uma gargalhada. E eu acabo fazendo o mesmo – Acho que eles não tinham muita noção da filha que tinham.

- De fato – concordo. Emma jamais estaria fora de perigo, não quando ela era o seu maior perigo.

- E você?

Eu mordo meu lábio inferior e respiro fundo. Não quero falar dos motivos que me trouxeram até aqui. Emma parece entender.

- Até amanhã? – me pergunta e eu assinto sem prestar muita atenção.

Ela se vai e eu volto para a minha solidão. A noite, frequentemente chove e eu gosto disso. O cheiro do mato é algo que me faz dormir quando os pesadelos se fazem presentes. Quando a dor de estar só insiste em roubar meu sono, eu pego uma caixinha simples que guardo embaixo da cama.

Passo horas olhando para velhas fotos. Daniel. Eu o conheci quando pequena, crescemos juntos. Ele... Ele era meu melhor amigo e me lembra Emma. Sempre teimoso, sempre corajoso. Nunca brigava. Eu até tentava irrita-lo, mas Daniel apenas sorria e me abraçava. Seus braços se envolviam em torno de mim e qualquer coisa que eu quisesse fazer perdia o sentido.

Não existiam segredos entre a gente. Não tinha como existir. Daniel me conhecia melhor do que eu mesma. Seus olhos sabiam o que buscar nos meus. Seu abraço sempre protetor. Seus olhos... Era o que mais amava. Não existia mau humor quando ele estava presente. Nos poucos momentos em que brigávamos, ou melhor, que eu tentava brigar por algum descuido, Daniel se sentava no chão e apenas me olhava pacientemente. Ele gostava de dizer que a vida deveria ser mais do que momentos ruins. E que não era justo perder o tempo se preocupando com pequenos detalhes.

Emma diz que quer aprender comigo tudo o que sei, mas a grande questão é que não sei o que sou depois da partida de Daniel. Aprendi a amar com ele, aprendi a sorrir com o seu sorriso, aprendi a ser Regina enquanto crescia em seus abraços. Eu poderia lhe dizer que não há nada para ensinar, que sou apenas um corpo que busca sobreviver sem sua alma, mas quando estou com Emma, meu corpo não parece tão vazio.

Em suas confusões e quedas, ela me faz rir. Não aquele tipo de sorriso que damos apenas por fora. Emma de fato me faz sorrir por inteiro. E sem que eu tenha me dado conta, em algum ponto, aquela garota petulante coloriu meus dias. Preencheu lentamente o que eu julgava não mais existir.

Eu passei a esperar por Emma. A fazer duas xícaras de café e sentar na varanda de minha casa, aquela velha casa, com as paredes não mais descascadas, assim como sua dona. Ela me contava sobre a sua vida. O quanto seus pais a amavam e insistentemente tentavam proibi-la de arrumar confusão. O quanto ela amava cavalos desde pequena, mas sempre os temia. Dizia que sonhava um dia competir... Às vezes, com os olhos brilhando sob a luz da lua, Emma me confidenciava que seu maior sonho era cavalgar sem rumo certo. Porém, eu conseguia ver que por trás daquele brilho em seu olhar, algo lhe machucava. No começo, achei que era coisa da minha mente. Eu não poderia conhecê-la tão bem assim. Mas, quando eu ficava em silêncio, ouvindo-a dizer sobre seus sonhos e fantasias, eu via e sabia que na forma como seus lábios se curvavam ao término de sua fala. Como seus olhos se fechavam lentamente, antes do sorriso surgir. Eu via que Emma parecia carregar muito mais do que uma garota de 17 anos.

- Você lembra alguém – eu disse em um desses momentos. Ela inclinou sua cabeça para a direita e eu sabia que estava esperando por uma resposta.

- Uma boa lembrança? – me pergunta com sua voz suave, eu confirmo – Você acredita... – Ela brinca com os dedos da mão, e eu volto a ter a certeza de que Emma me lembra dele.

- Diga – estimulo, sem tirar os olhos de seu gesto infantil.

- Eu ia perguntar se você acredita na morte – Seu olhar é sereno e eu me vejo em silêncio. Sem saber o que responder. Se eu acreditava na morte? Não foi ela quem me tirou Daniel? Emma interrompe seu brincar de dedos e me olha atentamente – Você acredita se eu dissesse que lhe conheço como se... – Seu semblante se franze e Emma morde o canto dos lábios, como sempre faz quando está prestes a dizer alguma loucura – Ás vezes eu acho que lhe conheço, antes mesmo de conhecê-la.

- Não fale bobeiras K.K – eu digo e ela encolhe seus lábios em sinal de irritação. Foi um apelido, uma abreviatura para Keras Kepala “teimosa”. Ela nunca gostou, mas não me proibiu de chamá-la assim.

- Não é bobeira – Me adverte com seu olhar sério – Eu apenas sinto...

- E quem lhe disse tal loucura? – pergunto entrando na fantasia.

Emma me encara em silêncio, com delicadeza pega minha mão a guia até seu peito.

- Você sente? – me pergunta e eu balanço a cabeça em sinal positivo. Eu sinto seu coração batendo e meus olhos se fecham por um breve momento. Quando volto a abri-los, Emma me olha e sorri – Eu também.

Eu também. Duas palavras, oito letras e uma respiração. Eu não tiro a minha mão de seu peito. Permanecemos assim. Sentindo. Ela me sorri com suas pintas em volta do nariz e minha mente vaga, vaga por uma sensação estranha. Sinto-me segura, me sinto eu, me sinto a Regina de Daniel.

- Eu preciso ir – ela diz serena.

- Não! – Eu grito, para só depois curvar as sobrancelhas. Não sei por que disse não, mas eu disse. Não sei por que meu peito está apertado, mas ele está... Não sei por que sinto, mas eu sinto e não quero que ela vá. Emma retira minha mão de seu peito e a acaricia.

- Amanhã eu voltarei – fala com seu costumeiro sorriso.

Eu a sigo com os olhos e sinto meu corpo estremecer. Busco por explicações para o que acontece. E tudo o que encontro é que enquanto Emma caminha pela terra, eu sinto que estou indo com ela. Seguindo seus passos tranquilos e confiantes.

Naquela noite, me peguei olhando a velha caixinha de lembranças e sorri. Não senti dor, era como se Daniel não tivesse partido. Cheguei a pensar que ele ainda estivesse vivo. Que fosse entrar pela porta do meu quarto e erguer os braços, esperando que eu corresse em sua direção e pulasse em sua cintura. Naquela noite eu senti que não estava morta.

Na manhã do dia seguinte, corri para a porta a espera de Emma. Precisava compreender o que estava acontecendo. Esperei por horas a sua chegada. Anshe apareceu dizendo que ela não viria. Que pediu para me avisar que estava passando mal.

Eu passei por ele e corri sem motivo algum. Corri em direção ao mar. Meus pés tocaram a areia e meu peito arfou em busca de ar. Eu estava ficando louca e estranhamente essa insanidade me fazia rir. Meu corpo girava, acompanhando o movimento de minha mente. O som do mar invadia meus sentidos e eu me senti viva. Eu senti além do que minha alma fosse capaz.

Adormeci naquela encosta e acordei com dois pares de olhos me mirando com curiosidade.

- Eu pensei que teria que jogar água em você – Eu deixei que minha cabeça caísse sob a areia e meus olhos sentissem o calor do sol. Emma estava ali. Ela deitou-se ao meu lado em silêncio e fechou os olhos.

- Emma... – a chamei, mas ela levou a mão ao lábio em sinal de silêncio.

- Consegue escutar? – me pergunta. Eu nego com a cabeça e ela vira o corpo de lado para me olhar – Eu nunca gostei do mar... Mas de um tempo pra cá ele passou a não me assustar.

Meus olhos deslizam pelo corpo dela até que param próximo ao seu peito. No vão de sua camiseta branca, eu vejo a ponta de uma cicatriz. Ela percebe o meu olhar, mas não puxa o pano para tampá-la.

- Eu tinha 13 anos – responde a minha pergunta, mesmo que não a tenha feito – Desde os 10 anos eu vivia no hospital... Minha mãe me dizia que o meu coração era muito grande, tão grande que meu peito tornou-se pequeno para guarda-lo – Ela sorri tão em paz consigo.

- Você... – eu não consigo dizer. Emma sempre foi forte. Jamais imaginaria que algo assim tivesse lhe acontecido.

- Sim – Sentou-se na areia da praia e retirou a camiseta. Virou seu corpo para que eu pudesse vê-la. 15 cm de uma linha rosada marcava sua pele branca – Eu o recebi um dia depois dos meus 14 anos.

Eu me levanto e não consigo deter a vontade de tocar sua cicatriz. Seus olhos me observam, mas não vejo estranhamento. Meu corpo estremece ao sentir seu peito subindo e descendo.

- Você sabe... – tento dizer, mas meus olhos se enchem de lágrimas e a voz me escapa.

- Quem me deu? – pergunta e eu confirmo – Não... Mas eu sei que desde que o recebi, muita coisa mudou – se cala enquanto sente novamente meus dedos alisarem sua cicatriz – Antes de mudar pra cá, meus pais me disseram que pertencia a um homem... Alguém que morreu em um acidente de carro – eu puxo minha mão, como se tivesse levado um choque. Emma percebe a minha reação e volta a vestir sua blusa – Desculpa... – me pede com seus olhos confusos.

Balanço a cabeça e tento recuperar minha voz. Eu perdi Daniel em um acidente de carro, há anos atrás.

- Eu queria um dia saber quem era... – Emma volta a falar, me despertando do choque – Uma vez li que algumas pessoas conseguem sentir o que seu doador sentia – Fecho meus olhos, tentando impedir que as palavras de Emma continuem a me afetar – Você acredita?

- Não! – respondo de forma rude.

- Pois deveria – Olho para ela irritada, querendo que desapareça, mas Emma está sorrindo – Depois disso aprendi a gostar do mar... Perdi o meu medo de cavalos e às vezes tenho a certeza de que vivi mais do que 17 anos... Às vezes sinto que tenho...

- 30 anos – falo sem perceber. Não quero olhar para Emma, mas por algum motivo meus olhos buscam o seu.

- Isso – responde animada.

Eu me calo sem saber o que dizer. Não sei o que pensar. Tudo é tão surreal. Digo a mim mesma que é só mais uma loucura de Emma, ainda que meu coração bata acelerado. Ainda que nos últimos meses eu me sinta tão eu como costumava ser com Daniel.

Depois daquele dia, não consegui tirar da mente o que Emma disse. Passei a evitá-la sempre que possível, contudo, Emma se sentava pacientemente no degrau de minha varanda e comia seu sanduíche. Eu a olhava por entre as cortinas da sala.

Anshe me perguntava se estava tudo bem. Frequentemente me entregava bilhetes que Emma mandava através dele. Safira parecia gostar de sua companhia. Ela pousava em seu joelho e ficava longos minutos esperando a noite cair. Emma lhe acariciava a cabeça em silêncio.

Conforme os dias passavam, as visitas de Emma diminuíam. Anshe me dizia que ela frequentemente ficava cansada e pedia para sair mais cedo. Senti vontade de ir até a sua casa para saber como estava, entretanto, o medo era maior. Do quê? Eu não sei.

Frequentemente sentia meu peito queimando, minha cabeça doía e nada do que comia permanecia em meu estômago. Como sempre, acostumada com a dor, me negava a ir ao encontro de Emma. Eu não acreditava que a vida de alguma forma pudesse ter feito algo assim. As chances do coração que bate no peito de Emma pertencer ao homem que amei, eram escassas, improváveis e impossíveis de serem reais. Ainda assim, eu precisava me manter longe.

E assim o fiz por três semanas. Procurava manter a minha mente ocupada com livros e concertos na residência. Vez ou outra a via passando ao longe. Não sustentava o seu olhar, pois se assim o fizesse, minhas pernas tremeriam.

No dia 15 de novembro, o dia que a Província de Sonda Oriental comemorava a sua libertação dos tempos da guerra, me arrumei, obstinada a passar uma tarde agradável pelas ruas de Kupang. Peguei meu jipe e fui à busca de refúgio.

Pessoas me abraçaram, em sua maioria moradores regionais. O dono da pequena vendinha na qual comprava ração para meus cavalos. Sua mulher, a conhecida Senhora Kah. A única que vendia a melhor torta de carne de siri que eu conhecia. A cidade estava cheia e eu com o meu vestido vermelho de linho, passeava pelas estreitas ruas, cumprimentando aquelas pessoas.

Quando cheguei à praça central, onde uma bandinha tocava música local, avistei Anshe com sua família. Uma esposa e duas crianças. Eu e Daniel sempre brigávamos por isso. Ele gostava de implicar e dizer que uma Regina em sua vida já era o bastante. E eu respondia dizendo que o mundo precisava de quantas Reginas fossem possíveis.

Pessoas com roupas rasgadas e rosto sujo me puxam pelas mãos para dançar no meio da população de Kapung. Eles comemoram a libertação da morte e a presença da vida. Minha cabeça dói. Percebo que não sou capaz de carregar a alegria que eles trazem dentro de si. Envergonho-me por ver que muitos dos que estão com a roupa rasgada e o rosto sujo de carvão, provavelmente são descendentes daqueles que morreram lutando por um bem maior.

A multidão se agrupa em um ponto especifico da praça e minha atenção se prende em um par de pernas que escapam do círculo formado. Eu corro em direção àquelas pessoas, empurrando quem encontro pelo caminho, para me deparar com o corpo de Emma estendido no chão. Seu lábio está roxo e eu grito, assim como Anshe, por socorro.

 

 

A espera na sala é insuportável. Lá dentro médicos olham para monitores e tudo o que eu consigo pensar é na morte. Quando fui ao encontro de Daniel, eu cheguei apenas a tempo de ver o seu corpo passar por mim, com um lençol branco o cobrindo.

Minha boca está seca como se estivesse revivendo tudo aquilo novamente. Vejo o pai e a mãe de Emma do outro lado do corredor, assustados como eu estou. Eu a afastei, buscando ter as rédeas da minha dor. Eu que tanto desejei um recomeço, estou agora rezando por algo que não acredito. Rezo para que a vida não me impeça de senti-la novamente. Para que a vida não me roube o seu sorriso, nem suas pintas e nem seus olhos calmos.

Anshe aperta minha mão com força, como se me dissesse que está ali. Que assim como eu, também espera que a vida não se vá. Que Emma levante e seja a garota teimosa que sempre foi.

Quando o médico passa em direção à família eu corro para dentro do quarto, determinada a acordá-la. A retirar todos aqueles fios que lhe prendem, que lhe roubam o sorriso que me faz viver. Anshe me puxa para fora, antes que algum policial me convide a sair do pequeno hospital.

Ele diz que amanhã voltaremos, que Emma não irá a lugar algum. Eu quero acreditar em suas palavras. Eu quero acreditar que ela estará lá. Na manhã do dia seguinte, eu me esgueiro por entre as paredes, aflita para revê-la. Anshe permanece na porta e me diz que terei o tempo necessário. Não posso deixar de me perguntar se isso será verdade. Eu terei?

Abro a porta temerosa e vejo que Emma está com os olhos fechados. Os fios permanecem conectados ao seu corpo, que sob e desce. Puxo a cadeira para sentar ao seu lado e me agarro a sua mão imóvel. Ela está tão pálida. Escondo meu rosto em sua mão, enquanto meus dedos cravam em sua pele.

- Regina... – escuto Emma sussurrar. Espantada, olho para seu rosto e vejo um sorriso.

- Não faça mais isso – ordeno nervosa. Emma passa a língua pela boca seca e volta a sorrir, dessa vez com mais firmeza.

- Definitivamente não pretendo – fala pausadamente e me arranca um sorriso – Mas você tem que me prometer uma coisa – sua fala está arrastada por causa do medicamento e eu aproximo meu rosto de sua boca para ouvi-la melhor.

- O que quiser.

- Não se afaste... O médico disse que não tenho motivos para ter desmaiado – espero que ela engula a saliva – Mas eu sei que o motivo é você! – aperto com força os dedos de sua mão e puxo o ar.

- Não fale bobeiras – digo sem força.

- Não é bobeira quando se sente – ainda com os olhos fechados, Emma leva a sua mão e consequentemente a minha, até o seu coração – Não se esqueça... Ele é muito velho para aguentar a sua ausência – Emma murmura e eu a olho sem compreender o que está dizendo – Eu não quero partir... Assim como ele não quer. Então facilite o nosso trabalho e permaneça ao meu lado – Balanço a cabeça afastando as lágrimas que caem dos meus olhos. O que Emma está dizendo não faz sentido algum – O que mais precisa acontecer pra você perceber que o meu coração é seu? – me pergunta.

- Emma... – eu começo a dizer, mas ela aperta os dedos da minha mão.

- Você sente? – me pergunta com a voz cansada.

- Sim – respondo com toda a minha força- Eu sinto – repito, beijando os nós de seus dedos.

- Eu também – Emma solta os dedos de minha mão e eu percebo que o medicamento a levou para longe. Permaneço ao seu lado, enquanto ela repete incessantemente – Eu não vou a lugar algum.

 

GLOSSÁRIO

* Indah Kuda : Encantadora de Cavalos.

** Awas: Cuidado

*** Keras Kepala : Teimoso.


Notas Finais


Então, o que acharam?
Eu sou meio suspeita para falar, pois desde "Esfinge" eu sou apaixonada por tudo que essa guria escreve.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...