História Walking Men - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias South Park
Personagens Kenny McCormick, Kyle Broflovski, Stan Marsh
Exibições 88
Palavras 3.995
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Lemon, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá. Essa história trabalha com diversas músicas que vão ser apropriadas para esse universo ficcional. Todas as músicas e todos os artistas usados estarão sempre nas notas da história (na ordem em que foram usadas), eu recomendo muito que os capítulos sejam lidos com as músicas sugeridas como trilha sonora. Mas você ouve o que quiser :)

"Man of constant sorrow" - Bob Dylan
"The boy who wouldn't hoe corn" - Alison Krauss

Segurem minha mão porque essa vai ser longa. Ótima leitura.

Capítulo 1 - The boy who wouldn't hoe corn


Primavera de 1974 – Nashville, Tennessee

 

A casa na colina talvez tivesse sido a melhor (e única boa) escolha que ele fizera em toda a sua vida. Havia chovido mais cedo naquela manhã, aquela chuva fresca de primavera que regava as plantas e alimentava o ciclo das coisas. Ele estava parado em frente à janela aberta, a brisa suave adentrando a casa e acariciando seu gosto, levantando um pouco as cortinas brancas. Ele fechou os olhos. As olheiras profundas e escuras pintavam sua pele. Seus cabelos estavam sebosos, ele já não os lavava há mais de duas semanas. Não parecia haver razão. Havia coisas mais importantes a serem feitas, como ficar ali de pé em frente à janela contemplando a vista iluminada pelo sol que seguia a chuva, banhando as flores que desabrochavam com a mudança de estação, um tapete colorido enfeitava seu jardim. Era incrível como aquelas flores brotavam sem que ninguém precisasse tomar conta delas. Ele não conseguia mais tomar conta nem de si mesmo.

Deixou que nas pálpebras pesadas voltassem a se abrir, sentindo necessidade de olhar pela janela mais uma vez, pelo menos mais uma. O sol iluminava seu rosto, mas agora, já não parecia mais ruim. Ele podia ver a silhueta do outro homem ficando cada vez menor conforme ele descia a colina, de costas para a casa, caminhando como se nunca mais pretendesse olhar para trás. Podia sentir em seu corpo, eles não se veriam novamente. Era isso que sentia. E estava tudo bem. Ele estava cansado demais para isso.

Mas a melodia da voz do outro ainda estava presente na vitrola, preenchendo todos os espaços daquela sala. Ele virou o rosto de lado, encarando a capa do disco. O rosto de nenhum dos três estampava aquele disco. Em vez disso, era a pintura de um urso bebendo água do rio, o fundo da capa repleto de árvores laranjas do outono refletidas nas águas correntes do Cumberland, “Walking Men” escrito em branco no topo da capa. Era uma das suas capas preferidas. Eles haviam gravado aquele álbum em 64, quando tudo era mais simples, quando eles eram mais jovens, quando tudo parecia possível. E aquela voz, a voz mais bela que existia, continuava a intoxicar os seus ouvidos exatamente da mesma forma.

 

It's fare thee well my old lover
I never expect to see you again
For I'm bound to ride that northern railroad
Perhaps I'll die upon this train

 

O homem fechava os olhos de novo, seus lábios murmurando o verso junto com aquele que não queria mais ouvir, e no entanto, não conseguia desligar a vitrola. Não conseguia quebrar os discos, não conseguia esquecer. Não queria esquecer, só queria dormir. Arrastou os pés pela sala de decoração singela, as paredes de madeira pintadas de branco repletas de quadros, de memórias. Seus pés descalços roçavam pelo tapete azul escuro, levando seu corpo cansado em direção ao quarto. Ele repassava os gritos em sua cabeça, e por mais que tentasse abafá-los com o som da música, não era forte o bastante para que esquecesse todas as coisas que foram ditas. Sua mão, uma extensão da musicalidade que carregava em seus genes, estalava no ritmo da música. Ele quase dançava, arrastando-se como um homem sentenciado, apertando os olhos de dor.

 

You can bury me in some deep valley
For many years where I may lay
Then you may learn to love another
While I am sleeping in my grave

 

Adentrou o quarto pequeno, bagunçado. Sentou-se na beirada da cama desfeita, o cobertor de retalhos vermelho e marrom esparramado sobre o colchão de qualquer jeito. O homem piscou devagar algumas vezes. A mão trêmula alcançou a mesa de cabeceira, abrindo a pequena gaveta com alguns frascos de remédio dentro. Não fechou a janela, queria que o sol continuasse a invadir a casa. Não desligou a música, queria que a voz do outro continuasse invadindo seu corpo. Aquela voz… As coisas que aquela voz já o levara a fazer, Deus, as coisas que aquela voz ainda era capaz de fazer com ele. Aquela voz lhe arrancou o juízo e a razão, fez dele um servo, um retalho patético de homem. E ainda assim, encarando o frasco de remédio em sua mão, ele procurava por arrependimentos. Não conseguia encontrá-los. Piscou devagar, sorrindo pela música. Era um sorriso cansado. Ele virou o frasco em sua palma, enchendo a mão de pequenas pílulas brancas, respirando fundo. Ainda havia uma garrafa de pinga no chão, bem ao lado da cama, próxima ao seu pé descalço, com líquido o suficiente para que ele pudesse engolir aquilo que finalmente lhe daria descanso. Ele só queria dormir.

 

Ele só queria dormir.

 

Maybe your friends think I'm just a stranger
My face you'll never see no more
But there is one promise that is given
I'll meet you on God's golden shore

 

Verão de 1958 - Nashville, Tennessee
 

-Mais uma vez.

O bar estava particularmente lotado, mesmo para uma sexta-feira. Todos os tipos de sons preenchiam o ar; copos brindando e batendo na mesa, quebrando no chão, urros de bêbados felizes e lamentos de bêbados tristes, risadinhas finas de mulheres bonitas e feias, sons de crianças correndo lá fora, mães brigando com seus filhos, fogos de artifício explodindo no céu. Kenny esticou o pulso para olhar o relógio, confirmando aquilo que já sabia, mas o álcool roubara de sua memória: ele não usava relógio. Eram cinco para as sete da noite e eles estavam lá desde quatro da tarde. A caixa de som produzia um rockabilly de Buddy Holly baixinho demais para ser dançado, mas algumas pessoas tentavam mesmo assim.

Kenny não era uma dessas pessoas. Assoprava a gaita, produzindo sons mais agudos do que pretendia, muito mais estudando o som do que propriamente tocando o instrumento. Molhava os lábios de saliva acidentalmente, os olhos azuis curiosos procurando pelo homem do outro lado da mesa. Ele dedilhava o banjo de cabeça baixa, também a procura das notas certas, sem perceber que era observado. A franja dos cabelos negros de Stan estava longa demais, caindo sobre seu rosto de dezenove anos, as mechas desfiadas por uma navalha quase sem fio que ele usava para cortar o cabelo em casa. Kenny percebeu um sorriso pensativo no rosto do homem, revelando a língua entre os dentes antes de Stan assentir com a cabeça.

-Certo, vamos lá.

Stan tinha dedos rápidos, feitos para tocar todos os instrumentos de corda que existem. Fechou os olhos como se estivesse em algum tipo de transe, a cabeça balançando sutilmente com a melodia que produzia do banjo, os lábios em uma linha reta que deixava sua expressão muito séria, extasiada. Kenny sorriu, enchendo os pulmões de ar para entrar com a gaita. A voz suave de Buddy Holly cantando Everyday ao fundo não era incômodo. Os estouros dos fogos de artifício lá fora também não. As vozes ecoando pelo ambiente fechado do bar também não. Tudo isso era parte da composição; eram dois homens com ouvidos particularmente sensíveis. Kenny batia o pé contra o chão de pedra sujo, porque, diferente de Stan, tinha uma habilidade natural para a percussão. Desde criança, estava sempre batucando em todas as coisas que tivessem superfície, produzindo som de qualquer objeto, até mesmo do próprio corpo. Tudo era batida, tudo era pulsação. Era nisso que Kenny McCormick acreditava fielmente.

 

Tell you a little story and it won't take long
'Bout a lazy farmer who wouldn't hoe his corn
The reason why I never could tell
That young man was always well
He planted his corn in the month of June
By July, it was up to his eyes
Come September, came a big frost
And all the young man's corn was lost

 

A voz de Kenny era uma bastante particular. Uma coisa que não podia ser discutida era o fato de que Kenny cantava todas as coisas com o peito aberto e o espírito investido na canção que fosse. Era um início doce, mais uma brincadeira do que qualquer outra coisa, tentando encontrar o tom certo, rindo quando desafinava, mas não parando jamais de cantar. Ele erguia um pouco as sobrancelhas de uma forma cômica, as pálpebras pesando com a sutileza da voz, apertando a gaita nas mãos. Stan mordia a própria língua, concentrado em percorrer os dedos pelas cordas do banjo, ganhando força. O casal sentado ao lado já havia interrompido a conversa para escutá-los.

Quando a canção ganhou intensidade, Kenny largou a gaita sobre as coxas e começou a bater na superfície da mesa no mesmo ritmo que batia com o pé no chão. A mesa do boteco era bamba, os copos de vidro emitiam um som que se dissipava no ambiente conforme as coisas sobre a mesa dançavam na superfície, locomovendo-se. Kenny estava bêbado demais pra se importar.

 

His story, kith, had just begun
Said: "Young man, have you hoed some corn?"
"Well I tried and I tried, and I tried in vain
"But I don't believe I raised no grain"
He went down town to his neighbour's door
Where he had often been before
Sayin': "Pretty little miss, will you marry me?"
"Little miss what do you say?"

 

O lugar era bastante familiar aos dois jovens, especialmente porque conseguiam comprar bebida ali desde os dezesseis. Também porque eram amigos do garçom, um rapaz alto e mal encarado que se chamava Craig Tucker, mas ele não estava trabalhando aquela noite. Era um bar pequenininho, que provavelmente não cumpria com nenhuma lei de vigilância sanitária. Atrás do balcão, havia uma parede dispondo diversos tipos de garrafas de uísque, licor e conhaque. Uma bandeira enorme dos Estados Unidos estava erguida sobre uma das paredes de madeira, e não era apenas pela ocasião especial. O chão de pedra tinha uma cor alaranjada, bem como as luzes fortes do balcão e das luminárias, mas havia todo tipo de cor dentro daquele bar. Era decorado com quadros com paisagens turísticas de Nashville em cores vibrantes, e isso bastava de decoração.

Durante o solo do banjo, Kenny segurou o copo de conhaque e dançou com ele um pouco antes de entornar o último gole, batendo-o com força na mesa, soltando uma gargalhada repleta de alegria barata que revelava o quão embriagado ele estava de verdade. Fez um breve aceno com a mão, dizendo ao amigo:

-Canta comigo.

Mas como já havia imaginado, Stan apenas sorriu com timidez e ignorou o convite. Não era como se ele nunca cantasse, mas ainda não estava no nível etílico para isso. Mesmo que estivesse, não o faria em público. Kenny não conseguia entender porquê. Gostava muito de ouvi-lo cantar. Também não o forçava.

 

"Why do you come for me to wed?
"You, can't even make your own corn grain
"Single I am, and will remain
"A lazy man, I won't maintain"

 

Kenny sorriu para a garota da outra mesa que olhava para ele, erguendo o copo vazio em um cumprimento carregado de flerte, o que fez com que ela risse e não desviasse o olhar. Isso era um bom sinal. Kenny teve certeza de que era para Stan que ela estava olhando, mas isso não importava. Ao colocar o copo de volta sobre a mesa, com as mãos livres, ele começou a bater palmas no ritmo, interrompendo ao fim dos penúltimos versos, erguendo as mãos e fechando os olhos como se cantasse uma oração. Stan achava engraçado como Kenny conseguia se emocionar com o final da mesma música toda vez que a cantava. Interrompeu a melodia constante para retomar a sutileza do início, apenas usando as pontas dos dedos para acariciar as cordas do banjo.

 

He turned his back and walked away
Sayin: "Little miss, you'll rue the day
"You'll rue the day that you were born
"For givin' me the devil, 'cos I wouldn't hoe corn"

 

O final da canção era muito mais falado do que cantado, pelo menos pela maneira com que Kenny sempre a interpretava. Ele levou as duas mãos por entre as laterais do cabelo para puxar seus fios para trás, tirando-os do rosto. Precisava cortá-lo, estava ficando longo demais. Não perdia muito tempo para voltar ao normal depois que o transe da música terminava.

-Essa música precisa de violino, cara. - Comentou, deixando a gaita em cima da mesa para se levantar, puxando as calças para cima porque havia se esquecido de colocar o cinto ao deixar a casa naquela amanhã. Todas as suas calças gostavam de cair pelo seu quadril estreito, as pernas magras. Ele pegou um palito de dente de cima da mesa para tentar tirar um pedaço de galinha do canino, fazendo uma careta enquanto palitava. - E uma segunda voz. Não é a mesma coisa sem isso.

-Você vai aprender a tocar violino, garoto? - Stan perguntou.

-É pra esse tipo de coisa que eu te tenho, Stanny-boy. Você aprende as coisas, eu só encho a cara. - Kenny deu um apertão no ombro do outro, oferecendo uma piscadinha antes de girar os calcanhares em direção à porta. - Eu vou lá mijar.

-Lá fora? - Stan franziu a testa. - Tem um banheiro bem ali, você sabe, né?

-Ah, sempre tem fila nessa merda. - Kenny respondeu, andando de costas para não tirar os olhos dele. - O mundo é meu banheiro.

Stan riu.

-Tá bom, Kenny.

 

Lá fora, havia crianças fantasiadas correndo e até mesmo alguns adultos ainda trajando as roupas do desfile. Pessoas passeavam pela rua segurando bandeirinhas, o hino americano era entoado ao longe pelos bêbados de algum outro lugar. Havia uma pequena varanda do lado de fora do bar, onde dois caras conversavam de um lado e um garoto com os cabelos mais ruivos e armados que Kenny já vira em toda a sua vida tentava acender um cigarro do outro lado, afastado. Era difícil não encará-lo. Ele vestia uma camisa de gola toda abotoada em um tom amarelo-claro, parecia um tecido mais caro do que o trailer em que Kenny morava, um colete azul-marinho por cima, uma calça xadrez impecavelmente passada. Não era apenas a maneira do rapaz se vestir que chamava a atenção, mas também o fato de que ele parecia incrivelmente puto. Kenny passou por ele sem fazer contato visual, pois o garoto não percebeu que era observado. Kenny deu a volta na construção capenga do bar para encontrar um cantinho escuro onde pudesse se aliviar, longe dos olhos das crianças.

Abriu o zíper da calça em um lugar isolado nos fundos, próximo a uma árvore, escuro demais para enxergar algo além de silhuetas. O céu continuava se iluminando com fogos de artifício que explodiam em todas as cores, e agora, Kenny podia vê-los. Sorriu enquanto botava o pau pra fora, fechando os olhos de alívio, tomado pela tontura da embriaguez. Ele teria que trabalhar no dia seguinte, mas ainda estava cedo. Ele teria tempo de ir para casa, tomar banho, beber muita água e ter uma boa noite de sono para estar em condições de tratar dos cavalos do Sr. Denkins, ou talvez ele apenas fosse direto trabalhar sem dormir e sem ficar sóbrio. Aquele pareceu um excelente plano no momento.

Quando terminou, Kenny fechou a calça e voltou para a varanda, fazendo menção de entrar e pedir uma cerveja, mas percebeu que o garoto ruivo batia com o isqueiro na cerca da varanda raivosamente.

-Puta que pariu. - Ele murmurou, voltando a tentar acendê-lo, o cigarro preso na boca.

Kenny umedeceu os lábios, subindo os dois degraus da varanda, enfiando a mão no bolso do jeans rasgado em busca do próprio isqueiro. Em vez de oferecê-lo, Kenny apenas o acendeu e se aproximou devagar do rapaz que emanava uma energia violenta, bêbado demais para se importar com grosserias. Quando o garoto se virou para ele, Kenny se deparou com o par de olhos mais verdes do mundo. O olhar que recebeu não foi muito amigável, como esperava, mas gesticulou com o isqueiro aceso como se pedisse permissão, uma expressão gentil em seu rosto. Entendendo, o rapaz se aproximou dele, chegando com o rosto mais perto da chama do isqueiro, inalando até que o cigarro acendesse. Satisfeito, Kenny soltou o dedão do botão para que ele apagasse.

O ruivo deu uma tragada demorada, afastando-se dele, murmurando um “obrigado” baixo que Kenny mal pôde ouvir sob o estouro dos fogos e a alegria das pessoas festejando.

Ele ofereceu a mão ao rapaz.

-Kenny McCormick.

Quase teve vontade de rir com o olhar esquisito que recebeu como resposta, e teve quase certeza de que o garoto não apertaria sua mão, mas talvez ele fosse educado demais para isso. Ele agarrou a mão de Kenny para um aperto rápido, porém firme.

-Kyle. - Esperou um segundo. - Broflovski.

-Broflovski? - Kenny perguntou intrigado, passando a língua pelo lábio inferior enquanto guardava o isqueiro de volta no bolso. - Isso é o quê, judeu?

-Ahn? - Kyle perguntou distraído, segurando o cigarro entre o indicador e o dedo médio. Era visível em seu rosto que ele não esperava que a conversa continuasse. Ele franziu de leve as sobrancelhas. “Por que você continua falando comigo?”, Kenny podia ouvir os pensamentos dele. - É. É sim.

Kenny passou alguns segundos o observando melhor de perto, achando as roupas dele cada vez mais esquisitas, mas de um jeito que o fazia sorrir. Ele tinha um sotaque diferente também. Kyle olhava para frente, para o chão, ignorando o fato de que um estranho o estudava.

-Você não é daqui, é? - Kenny perguntou, mas era mais como uma afirmação.

-Ah, você acha? - Foi a primeira vez que Kenny viu aquele garoto sorrir. Ele tinha dentes grandes, muito brancos.

Ele tinha uma aparência peculiar, independente das roupas. Ele tinha um rosto delicado, mas não como o de uma mulher, e sim como o de uma criatura sem gênero. Tinha aquela curva no nariz tão característica dos judeus que Kenny conhecera em sua vida, e não foram muitos. Os lábios eram bem desenhados, não muito grossos, a cor muito próxima da pele dele. O inferior parecia machucado. Seu rosto era oval, coberto de sardas muito sutis nas maçãs, quase imperceptíveis. As sobrancelhas eram retas, as orelhas pequenas cobertas por uma quantidade excessiva de cabelo crespo. O contorno de seus olhos era tão delicado quanto o resto do rosto, mas eram ferozes. Aquela delicadeza não lhe dava uma aparência frágil, pelo contrário. Havia uma dureza no rosto dele enquanto fumava, talvez fosse a iluminação de merda da varanda ou o estado etílico de Kenny.

-De onde você é? - Ele perguntou, apoiando-se na cerca.

-Houston.

Kenny franziu a testa, o sorriso entretido crescendo em seu rosto.

-E o que você faz perdido aqui, hein?

A ponta do cigarro se iluminou no escuro da varanda. Os dois caras que estavam antes conversando ali já não estavam mais presentes, talvez tivessem entrado. Soprava uma brisa fresca de verão sobre eles, o que fez Kenny fechar os olhos e deitar a cabeça para trás.

-Não foi exatamente por vontade própria. - Kyle respondeu depois de algum tempo, o que fez com que Kenny endireitasse a cabeça para encará-lo, apoiando os cotovelos na cerca.

-A nossa pequena Nashville não é do seu gosto, é?

-Sei lá, eu cheguei não tem nem uma semana. - Ele respondeu com um suspiro paciente, soando menos irritado agora. - Não tem nada de errado com a sua pequena Nashville.

-Eu nem sou daqui, na verdade. Meus pais são de Dayton.

-Dayton, Ohio?

-Dayton, Tennessee. - Kenny respondeu rindo.

-Ah. - Kyle disse com uma expressão em branco de quem não fazia a menor ideia de que isso existia.

-É num condado. Você, rapaz de cidade grande, não deve conhecer. Eu me mandei de lá com catorze anos.

Pela primeira vez durante toda a troca de palavras, Kyle parecia realmente interessado no que ele estava dizendo. Um pouco incrédulo, até.

-Sozinho?

-Sim senhor.

-E de todos os lugares do mundo, você escolheu vir pra cá? - Ele perguntou com um sorriso de provocação, levando o cigarro até a boca novamente. Havia um brilho novo em seus olhos, talvez porque os cantos de seus lábios se erguiam espontaneamente agora.

Kenny encolheu os ombros.

-Era o que eu podia pagar. Eu só queria dar o fora. - Ele coçou o olho, pensando por um segundo. - Ei, olha só. Eu tenho um camarada lá dentro, você não quer entrar e tomar uma cerveja com a gente? Digo, se você estiver sozinho… Os caipiras podem ser muito legais se você der uma chance, sabe?

Kyle sorriu muito mais por educação diante do convite, assentindo com a cabeça, soltando a fumaça azulada para o outro lado. Ele deu uma espiada pela janela suja do bar quando Kenny disse que estava com um amigo, mas havia muita gente lá dentro para ele saber a quem isso se referia. Ao mesmo tempo, Stan observava as silhuetas pela janela, dedilhando seu violão despreocupadamente, um brilho curioso em seus olhos. Foi assim que Kyle e Stan se viram pela primeira vez. Quando cruzaram o olhar, Stan sorriu timidamente por educação, mas Kyle não retribuiu.

-Eu tenho certeza de que sim. Mas eu já estava indo embora, na verdade… Eu nem gosto dos desfiles de 4 de julho. É muito barulhento.

-Ah, sai fora. Quem é que não gosta do 4 de julho?! - Kenny perguntou com uma gargalhada, mantendo a boca aberta em um sorriso largo e bêbado, socando de brincadeira o braço de Kyle com uma intimidade que eles não tinham. Kyle deu um passo instintivo para trás.

-Eu odeio os fogos, só.

Kenny estreitou um pouco os olhos, assentindo em compreensão. O sorriso foi diminuindo em seu rosto, dando lugar a uma expressão mais calma, os olhos pesando pela embriaguez. Kenny dava graças a Deus por aquela cerca na qual podia se apoiar. Olhava o garoto ruivo de canto, bastante entretido por ele. Ele tinha uma excentricidade típica de quem não pertence ao lugar, parecia tão arrogante e mal-humorado de uma maneira muito charmosa. Era uma companhia interessante. Kenny imaginou se ele se comportaria da mesma forma bêbado.

Por algum tempo, nenhum dos dois se moveu. O assobio de um fogo de artifício subindo aos céus deixou os ombros de Kyle tensos, e logo em seguida, veio o estouro. Kenny virou a cabeça para olhar o brilho rosado no céu cheio de estrelas.

-É bonito, vai.

-É. - Kyle admitiu, dando a última tragada antes de jogar o cigarro no chão e pisar nele. - Bom, eu acho que vou pra casa.

Kenny fez que sim com a cabeça, colocando as mãos nos bolsos da calça, tombando a cabeça um pouco de lado enquanto Kyle levava alguns segundos para começar a se mexer. Isso fez Kenny rir, mas àquela altura, qualquer coisa faria.

-Obrigado pelo fogo. - Kyle disse, já começando a andar.

-Foi um prazer.

Kenny passou algum tempo parado ali na varanda, assistindo ao outro descer os dois degraus e sair andando pela rua estreita. Nashville era uma cidade de muitas cores, mas à noite, com as luzes acesas, parecia outro lugar. Quando Kyle desapareceu de vista, Kenny esperou que a cidade fosse pequena o suficiente para que trombassem novamente. Ele era uma figura difícil de esquecer.

Então, voltou para dentro do bar, caminhando até a mesa que dividia com Stan. A garota que os assistia cantar antes continuava ali, conversando com uma amiga. Kenny puxou sua cadeira, espreitando a moça com os olhos, mas logo voltou a atenção ao melhor amigo.

-Você foi mijar em Memphis ou o quê? - Stan perguntou. Ele já tinha pedido mais duas cervejas, o copo estava cheio até a boca, da cor mais bonita que Kenny já vira. Ele se sentou.

-Tava batendo um papo, só.

Stan segurou seu copo e o observou por alguns segundos.

-Você parece alegre. - Comentou despretensiosamente.

Kenny também pegou sua cerveja para brindar com ele, sorrindo, então entornou um gole longo, repousando a cerveja na mesa para pegar sua gaita.

-Vamos mais uma.



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