História What Comes After - Capítulo 28


Escrita por: ~

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Categorias Jogos Vorazes (The Hunger Games)
Personagens Annie Cresta, Cinna, Coriolanus Snow, Effie Trinket, Finnick Odair, Gale Hawthorne, Haymitch Abernathy, Johanna Mason, Katniss Everdeen, Madge Undersee, Paylor, Peeta Mellark, Personagens Originais, Plutarch Heavensbee, Rue
Tags A Esperança, Drama, Hunger Games, Jogos Vorazes, Katniss Everdeen, Mockingjay, Peeta Mellark, Pós A Esperança, Pós Mockingjay, Romance
Exibições 110
Palavras 4.797
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Científica, Poesias, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 28 - Capítulo 25


Estou correndo. Correndo desesperadamente, como já cheguei a correr muitas vezes; quando fugia dos carreiristas nos primeiros jogos, do fogo que se alastrava na floresta da primeira arena, dos gaios tagarelas no quartel quell... A única possível diferença que enxergo agora, então, é que a corrida não representa uma fuga. Desta vez, é uma busca.

Reconheço a mata na qual me embrenho, o caminho que percorro, a busca incandescente... Todas as sensações, e a situação como um todo, são muito familiares, e isso parece triturar meus ossos tamanha a dor.

Rue.

Há quase 17 anos, eu estive buscando-a durante a 74° edição dos Jogos Vorazes. E a encontrei presa. Logo depois, morta pela lança de Marvel.

Meu fôlego vai para o espaço. Não porque estou cansada, mas sim porque o desespero é colossal e a visão que tenho é um soco no estômago.

Não é Rue quem está sob uma rede. É Peeta e um pacotinho rosa que chora em seus braços.

Ele não me vê. Está ocupado demais tentando cortar as cordas da rede com uma faca, enquanto a bebê se agita mais e mais no seu colo. A expressão dele é desoladora e comprime ainda mais o meu peito. Tento correr, chegar até eles. Grito pelos dois, no entanto parece haver uma parede à prova de som nos separando. Seria fácil demais se fosse um daqueles sonhos onde não corro rápido o suficiente, que o chão é feito de areia movediça e, portanto, cada passo é um empurrão para baixo. Comigo a coisa toda tem que extrapolar os limites do aceitável e do padrão; eu sou rápida o suficiente para chegar até as pessoa que mais amo no mundo, eu sou capaz de salvá-las. É só que, na linha de chegada, alguém me impede de fazer isso.

Esperneio, bato, desfiro uma série de golpes, embora eu não seja páreo. A aflição me consome e minha garganta fecha; estou engasgando com o choro, sentindo o refluxo provocado pela dor de perdê-los.

Em algum lugar, distante dali, ainda que eu sinta seu cheiro muito mais próximo do que gostaria, Snow ri da minha impotência. A risada macabra chega ao fim depois de assistir Coin matar os dois com flechas. A de Peeta, cravada em seu coração enquanto ele olha para a nossa filha temendo pelo que acontecerá. Os olhos dele estão abertos, sem vida, quando a outra flecha começa a voar na direção da bebê.

Abrir os olhos é um presente. Continuo gritando, numa versão bem similar à do meu pesadelo, notando aos poucos que não estou na maldita floresta. Na verdade, o cenário é totalmente oposto; é feliz. Peeta está me envolvendo em seus braços, como fazia com a nossa filha em meu pesadelo. Eu me encolho em seu peito, me tornando uma pequena bolinha que só faz soluçar. Ainda dói se fecho os olhos, mas não preciso me esforçar para saber que quero, mais do que nunca, mantê-los abertos.

Procuro pelo volume em meu abdômen, buscando a confirmação de que ela ainda está ali. E encontro: minha filha está protegida na minha barriga de sete meses. O alívio é arrebatador.

Estou chorando tamanho o bálsamo que se apodera de mim.

— Está tudo bem. Está tudo bem agora, meu amor. Não é real.

Peeta está me dando o espaço de sempre, ainda me abraçando, esperando eu me acalmar para poder dizer o que vi. O que não o impede de tentar tornar tudo melhor, me trazer de voltar à realidade.

— Eu te amo. – É só o que consigo dizer. Afasto nossos corpos minimamente para, no breu, olhar nos seus olhos e buscar refúgio neles.

Ele acende as luzes do abajur na cabeceira da cama, do lado dele, e me olha surpreso. Ele não tem ideia do que está havendo comigo. Ele não sabe o motivo dos gritos: meu medo de existir num mundo no qual ele não viva.

— Eu também te amo. Eu te amo muito. – Peeta afirma, segurando minha cabeça entre suas duas mãos, como se para assegurar-se de que eu compreenda isso.

Minhas lágrimas descem mais escassamente enquanto ponho minha mão esquerda sobre minha barriga, deixando claro para a minha filha que ela também não está esquecida na equação. Que ela é parte fundamental de quem sou agora. E o sol que nasce para mim, nasce porque ela existe, porque é como se ela fizesse o mundo girar outra vez; pondo tudo em suas devidas órbitas.

Peeta acaricia o meu ventre e põe sua mão sobre a minha, ainda aflito com o que acaba de acontecer.

— O que há, meu bem?

— Eu só precisava me certificar que vocês estavam bem. Saudáveis. Comigo. – Respondo, acariciando o rosto dele com a mão livre. Peeta olha para o monte sob os meus seios e depois para mim, compreendendo o que quero dizer. Os pesadelos dele eram iguais, afinal. Eram sobre me perder ou perder a nossa filha.

— Nada vai acontecer com a gente, tá legal? Nada. Vamos ficar todos os juntos, como tem que ser.

— Eu vou me esforçar para me lembrar disso. – Ele sorri, inclinando-se para frente, para unir nossos lábios. E o que era para ser um beijinho, se torna um movimento desesperado das nossas bocas, agindo como ímãs que não podem ser separados.

Quando perco o meu fôlego, acaricio a mandíbula dele com os meus lábios. Não quero Peeta longe de maneira alguma. Quero uma confirmação de que ele é real, de que ele está aqui, de que o que temos vivido é bom demais e, ainda assim, verdade.

— Sei que não tivemos nenhum problema com isso recentemente, mas, até então, você não estava com vinte e oito semanas de gestação. – Ele murmura no meu ouvido, mordendo o lóbulo da minha orelha e me arrancando um suspiro sôfrego.

— Tarde demais, de qualquer forma. Eu estou querendo pular em cima de você. – Sussurro, e ele ri, beijando meus ombros à medida que afasta as alças da minha camisola.

— Ah, por favor, não faça isso. – Implora, fazendo com que eu abra a boca em puro ultraje ao ouvi-lo insinuar que eu estou gorda. Afasto a cabeça dele do meu corpo, ignorando o formigamento nos lugares que ele me tocou.

— Peeta Mellark, se meu corpo não fosse composto somente por hormônios nesse momento eu juro que você nunca mais iria me tocar outra vez. – Ele gargalha, quase contorcendo o corpo. – Você está duvidando?

— Meu amor, eu te conheço desde os 5 anos. Você acha que eu seria capaz de duvidar de qualquer coisa que você diga? Sem falar que você é a grávida mais linda desse mundo. – Ele diz, roubando um selinho no meio tempo. – Você precisaria de algo muito mais substancial, além, é claro, de carregar um dos motivos da minha existência dentro de você, para fazer com que eu recusasse qualquer pedido seu ou mesmo recusar um momento como este. Você pode me quebrar agora, se quiser, e ainda será uma dádiva.

Preciso assegurar a mim mesma de que respirar é uma obrigação básica do meu corpo depois do que ele diz. Quando consigo, seus olhos brilhantes, azuis e ansiosos esperam por uma resposta. Tudo que sai é:

— Você não sabe brincar!

Nós rimos juntos e quando o meu olhar cruzou o dele outra vez, eu agarrei os cabelos de sua nuca e o puxei para mim como se fosse a última coisa que eu fosse fazer. Não importei com o rompante de desejo que me dominou, e Peeta muito menos, respondendo a cada carícia minha com o dobro de paixão.

— E só para constar: você não está gorda.

Em vez de discutir, eu sorrio. Talvez mais encantada do que nunca.

Minha camisola logo perde as alças e fica na altura do meu ventre. Peeta tira a camisa de seu pijama quando arranjamos tempo para uma rápida pausa, só para nos beijarmos furiosamente em seguida.

— Ok, ok – eu digo, em lufadas de ar, tentando adquirir alguma concentração no meio das suaves mordidas que Peeta desfere em minha boca. – Como vamos fazer isso?

— Você realmente está com medo de me quebrar, hm? – Ele ri contra o meu pescoço, conforme sua mão passeia pelos meus seios, fazendo o contorno deles, já que, há algumas semanas, quando ele pressionou os meus mamilos, saiu leite. E nós ficamos gargalhando como crianças, esquecendo de tudo que acontecia antes.

Ao sentir sua outra mão no interior das minhas coxas, eu solto um gemido baixo, de antecipação, e Peeta nota que esta é a única resposta que conseguirá.

— Acho que de lado fica mais confortável para você. – Eu acabo rindo, sem motivo aparente. – O que foi?

— Eu não sei. Bobeira minha, talvez. – Outro gemido quando ele encontra a umidade na minha peça íntima. Minha única reação é cravar as minhas unhas curtas em seu peito.  – A gente estar conversando sobre posições. Há alguns anos, eu estaria me escondendo sob o cobertor de vergonha. Agora só estou um pouquinho vermelha, quase não dá pra ver no meio da penumbra.

Um suspiro irrompe por entre meus lábios antes que eu consiga assimilar o porquê. Penso que seja o trabalho dos dedos de Peeta, mas, em contrapartida, suponho que seja alívio por ter conseguido formular tantas frases no meio dos espasmos que sinto no corpo.

— Isso com certeza é motivo de comemoração! – Ele garante, com um beijinho na minha bochecha.

Eu viro meu corpo na direção dele, com certa dificuldade, e então puxo o cós de sua calça, dizendo a ele o que quero. Peeta não levanta - todo o seu foco está no meio das minhas pernas e clavícula -, inclina o seu corpo para cima enquanto desliza o restante de suas roupas para os seus pés.

Eu lhe dou um último beijo nos lábios antes de me deitar e ficar de costas para ele, fazendo com que minha camisola não seja nada além de uma faixa na altura do meu quadril. Tocando-me como se eu fosse porcelana, Peeta se encaixa atrás de mim, engancha uma das minhas pernas em seu quadril e puxa a última peça do meu corpo para baixo.

Ele beija meu pescoço, meu cabelo, suspira no meu ombro. Eu tenho dificuldade de respirar com o prazer que sinto. Suor brota na minha testa conforme vou sentindo-o e o calor vai se espalhando com ainda mais facilidade que antes.

Eu envolvo seu pescoço com a minha mão, deixando-o grudado a mim, à medida que puxo os fios de seu cabelo macio. Solto um gemido alto quando sua mão atrevida acha, outra vez, um lugarzinho em minha feminilidade. Com a minha mão livre, retiro todo o cabelo que gruda em minha nuca, e meu marido vê isso como um convite para encher de beijos a região recém-descoberta. Eu mordo meus lábios para não gritar quando a sensação maravilhosa de se estar desmontando começa a tomar conta de mim.

— Eu te amo. – Ele sussurra, baixinho, a voz tremulando.

Só consigo respondê-lo tempos depois, quando os espasmos estão desaparecendo, pouco a pouco, e ele só está me abraçando. O corpo suado ainda junto ao meu e a mão acariciando a minha barriga.

— E eu amo você, querido. – Murmuro, sabendo que, graças ao sono e à calmaria, eu o deixei incomensuravelmente feliz pelo apelido. Mas, afinal, é a grande a verdade.

 

**

— Você tem sentido ela se mexer um pouco menos pois ela está ficando com menos espaço dentro do seu útero. Ela já tem 41, 2 centímetros e está pesando 1, 6 quilos. – Doutor Art diz, enquanto começa o ultrassom. Eu me mantenho atenta às suas palavras, embora, como de costume, meu rosto esteja voltado para o monitor. Sinto uma pontada no abdômen, o que não passa despercebido pelo doutor nem por Peeta. Ele sorri ao falar: –  É uma menininha muito agitada, não?!

Minha filha, que já está em sua incrível trigésima primeira semana de vida, está com a corda toda, mesmo sem estar. Ela realmente está se movimentando menos, em comparação ao tanto que fazia, mas o pouco que faz ainda é muito. O que fica bem nítido durante toda a consulta - e nas noites que passo em claro com Peeta por conta disto -, quando ela continua com os movimentos bruscos dos pés, mãos e cotovelos, fazendo com que o incômodo das pequenas pancadas seja esquecido automaticamente assim que me dou conta do quão saudável ela está.

Sorrio para o meu marido o tempo todo, sem conseguir disfarçar a felicidade. Peeta, em contrapartida, está a um passo de soluçar, graças à excitação. O som do coraçãozinho dela ecoa pela sala, à medida que o doutor Art nos mostra o pulmão dela e os outros órgãos já bem desenvolvidos.

Fico extasiada na cama, admirando a vida da minha filha que aflora dentro de mim. Saber que ela depende totalmente de mim ainda é assustador, mas agora já posso admitir também que é a coisa mais maravilhosa que poderia ter me acontecido.


— Katniss, você, a partir de agora, deve ganhar pelo menos meio quilo a cada semana, até o fim da gravidez. Está tudo ótimo com a sua saúde! Para diminuir o inchaço nos seus pés e tornozelos, você pode fazer caminhadas. No entanto, não é nada recomendável ir à floresta, antes que pergunte. – Doutor Art afirma ao nos dar um envelope com todo o ultrassom. – O importante nesta fase é ingerir bastante cálcio, para garantir a rigidez dos ossos. Você já sabe que nada em excesso é bom, e agora alimentos com alta concentração de sal e açúcares estão no topo dos que devem ser evitados. Coma muitas frutas e legumes, evite guloseimas.

Eu assinto, radiante, mesmo sabendo como Peeta trabalhará arduamente ao lado da minha mãe para monitorar tudo que irei ingerir a partir de agora.

— Muito obrigada, doutor. Nos vemos em duas semanas! – Me despeço, levantando-me da cadeira junto a Peeta, quem também sorri à toa.

**

— Katniss, meu bem, você precisa ficar de repouso. Não é como se Effie estivesse vindo para ficar somente por alguns minutos.

Rolo os olhos, fazendo certo esforço para manter a postura ereta por conta da minha barriga. Estou na trigésima segunda semana da gestação, e isso tem me feito perder todo o equilíbrio que um dia eu acreditei que tivesse. Não existe nada com mais de cinco centímetros que eu não tropece em, e, por conta disso, fui obrigada a trocar as caminhadas por massagens de drenagem linfática uma vez por semana.

Ainda assim, eu continuo odiando ter que ficar deitada dentro de casa o tempo inteiro, até porque, não bastando a ausência das caminhadas, tive de substituir a ioga no centro por vídeos de alongamento na minha própria sala, porque tenho sentido uma dor absurda nas costas.

No fim das contas, a verdade é que ficar em casa tem sido como um tipo de cárcere.

— Eu já disse que vou. – Peeta bufa com a minha objeção.

— E eu já lhe disse que a Effie não irá embora só porque você não irá buscá-la na estação. Muito pelo contrário, ela vai entender a razão. Até porque é palpável e muito visível. – Ele diz, apontando para a minha barriga, tentando me persuadir pela quinquagésima vez nesta manhã. Meu rosto se contorce numa carranca.

— Pela última vez: eu estou grávida, não inválida! Esse tópico não está mais aberto à discussão.

— Claire! – Peeta chama. – Uma ajudinha aqui?!

Minha mãe aparece na sala num piscar de olhos, com um copo enorme de vitamina. Ela estende-o para mim, que o pego sem pestanejar. Sendo bem honesta, eu amava as vitaminas de frutas que ela fazia.

— Ainda teimando em ir à estação? – Minha mãe questiona. Vejo Peeta assentir enquanto eu dou grandes goladas no suco.

— Olhem só, já estou tomando minha vitamina, seguindo à risca tudo que pedem, é tão difícil assim saírem do meu pé?

Peeta olha bem nos meus olhos, e eu o encaro com a mesma intensidade, deixando claro que não irei desistir. Por fim, ele solta um suspiro alto, e se volta para a porta.

— Pois bem, então vamos, antes que Haymitch decida arrebentar a nossa porta por causa de um atraso.

Minha mãe pega o copo vazio da minha mão e se despede logo depois, enquanto eu lanço um sorriso vitorioso para Peeta ao passar pela porta que deixa aberta para mim. Ele acaba rindo com a minha provocação e me agarra, com todo o cuidado possível, murmurando, por fim:

— Você é a criatura mais teimosa que já pisou no mundo!

— E você a mais persistente. – Rebato, abraçando-o. – Embora você tenha que aprender que não se pode ganhar sempre.

— Senhora Mellark, eu acho sinceramente que você deveria parar de provocar o seu bondoso e amável marido. Lembre-se de que é ele quem acorda no meio da madrugada para cuidar dos seus desejos esquisitos.

Eu solto uma gargalhada alta.

— Senhor Mellark, você está chantageando uma mulher grávida? A mulher que está concebendo a sua única filha?

— Bem, é a convivência com a senhora.

— Está tudo na conta do Haymitch! – Retruco, a fim de me defender, rememorando do dia em que eu não estava com vontade alguma de ir à ioga e precisei convencer Peeta através de chantagem emocional, dizendo que nosso ex mentor quem me ensinara a usar esse tipo de técnica.

— É só falar nele... – Peeta diz, movendo a cabeça no sentido da casa ao lado. Eu desfaço-me, contra vontade, do nosso abraço, para me virar na direção do nosso vizinho.

— Isso é um buquê? Eu não acredito! – Coço meus olhos propositalmente.  – Quem diria, hein, Haymitch?!

— Foi minha ideia. – Peeta declara, fechando a porta da nossa casa e vindo para o meu lado na rua da Vila dos Vitoriosos. Eu volto minha atenção para o buquê com, pelo menos, sete tipos de flores diferentes que meu ex mentor tem em mãos. É lindo. Como os incontáveis que ganhei do meu marido ao longo dos anos, independente da ocasião - ou mesmo na falta dela.

— E eu espero que dê em alguma coisa. – Haymitch retruca e se vira para Peeta, esquecendo-se momentaneamente da minha presença. – Mas, levando em consideração que funcionou até com esse poço de doçura que você chama de esposa, com certeza funciona para qualquer um.

Eu o fuzilo com os olhos. Peeta me aperta em seus braços, rindo.

— Isso tudo é medo de levar um pé na bunda? – Cutuco.

— Medo eu tenho que ter de você, docinho. Qualquer outra coisa deveria ser considerada carnaval.

— Engraçado você dizer isso agora, porque a minha filha está pra nascer e eu quero deixar registrado desde já que você está proibido de ter contato com ela.

Haymitch desdenha, e se põe a caminhar para a cidade. Na verdade, para a estação de trem da cidade. Desde o dia em que Effie ligou, há quase duas semanas, perguntando se poderia fazer uma visita - em partes por causa da bombástica notícia do final da minha gravidez -, e obteve como resposta imediata um sonoro sim, tudo que Haymitch faz é se comportar como um adolescente. Contudo, eu não reclamo, apenas tiro sarro, pois, para ser sincera, eu não poderia perder esta oportunidade.

Lembro-me, inclusive, de ter feito questão de contar para Peeta tudo o que eu sabia da história dos dois, fazendo-o vir para o meu lado, e incitando sua memória não-telessequestrada. Falei até sobre o beijo deles, quando eu e Haymitch voltamos ao 12, muitos anos antes, logo depois da rebelião. Nós perturbarmos o nosso ex mentor o almoço inteiro daquele dia.

— Ei, quer jantar comigo amanhã? – Meu marido questiona, conforme eu brinco com nossos dedos entrelaçados. Busco seus infinitos azuis antes de responder.

— A gente não faz isso todos os dias? – Seus olhar indica um ceticismo cru. Eu sorrio quando ele desiste de me encarar com uma raiva forçada, e me puxa para perto, envolvendo-me com seus braços, beijando meus cabelos soltos ao dizer:

— Um jantar romântico, docinho.

— Você vai cozinhar? 
— Bem, eu pretendo. – Ele brinca.

— E o que você está preparando?

— Muitas verduras, salada e possivelmente peixe. Talvez um bom macarrão ao molho branco. Ainda não estou certo sobre.  – Ele diz.

— Se você quer mesmo que eu vá, terá de melhorar esse cardápio.

— O que você tem em mente?

— Batata recheada com morangos. E, para você não chiar, eu como até a salada.

— Eu não sei por que eu ainda tento. – A voz de sofrido que ele faz me arranca uma risada e eu o abraço, inspirando seu cheiro de sabonete. Ele retribui meu afago com a mesma intensidade, e, embora eu esteja com o rosto enfiado eu seu peito, posso ver Haymitch observar-nos de rabo de olho. Entretanto, nesse último trimestre da gestação eu ando cada vez mais necessitada de Peeta e todo mundo já se acostumou com isso.

É uma necessidade que me corrói de dentro para fora. Todas as vezes que ele sai para trabalhar eu me sinto a pessoa mais carente do planeta, e fico sentada conversando com a nossa filha até que ele volte. Ela parece sentir tanta falta dele quanto eu. E toda vez que Peeta está perto eu quero abraçá-lo, beijá-lo, tocá-lo e senti-lo. Na maior parte das vezes, não há conotação sexual alguma. Eu apenas quero o calor de seu corpo, e a sua presença, a sua voz, e o seu cheiro me basta. Mas nas outras... Em todas as outras malditas vezes, um desejo tão antigo quanto a própria vida me consome e eu sou incapaz de me reconhecer. Ele entra pela porta de casa e, ignorando completamente o fato de minha mãe estar dormindo no quarto ao lado, eu quase rasgo suas roupas. Às vezes me sinto um coelho.

Mas, de qualquer modo, essa bolha de amor não dura o tempo todo, por mais que eu queira. Então quando a dor me leva embora por dias inteiros, eu tenho no que me agarrar para sair da eventual depressão. Só que não é fácil. Nossa filha já quase sofreu as consequências disso em um dos meus surtos. E só eu sei quanto esforço é preciso para que Peeta não quebre cadeiras, quadros e vasos muita das vezes.

**

Ficamos esperando na estação uns bons trinta minutos. Haymitch havia nos feito sair de casa com o máximo de antecedência possível, embora, se alguém perguntar, ele vá negar até o último instante.

Quando o trem chega, eu me levanto num pulo, já exausta de ficar sentada. Não é grande a quantidade de pessoas que vêm para o 12 - apesar da valorização do distrito ao longo desses anos -, então, numa rápida olhada, consigo supor que o número de passageiros desembarcando não passe de setenta.

Ao nos avistar, Effie saltita. Sua aparência pode ter mudado, mas nada além disso fora embora.

Haymitch tem seu buquê escondido nas costas, e eu sou a primeira a receber um caloroso e eufórico abraço. Me pergunto como Effie ainda tem essa disposição. Ou como não vomitei com o brusco aperto.

— Minha querida! Você parece tão bem! Olhe só para esse rostinho. – Ela exclama, sem elevar o tom, ao me deixar respirar novamente. Seu olhar desce para o imenso volume na minha barriga, que entra em um perfeito contraste com o restante do meu corpo que ainda continua com a mesma delineação desde os meus 18 anos. – E como está essa garotinha aqui?! Virando a vida de vocês de cabeça para baixo?

— Descobrimos que esse, na verdade, é um dos passatempos prediletos dela. – Eu digo. Ter esta animação de Effie por perto é contagiante.

— Mas isso não é uma reclamação. Acabou se tornando um dos nossos passatempos favoritos também. – Peeta afirma, abrindo os braços para receber Effie.

— Você cresceu! – Ela diz, sorridente, analisando-o com brilho nos olhos. Eu noto que já não há tanto sotaque em sua voz.

— Na verdade, Effie, acho que foi você quem abriu mão dos saltos. – Ele responde e Effie pondera por um segundo. Logo depois, ela põe a mão na testa teatralmente.

— Já faz tanto tempo que nem reparei. – Ela dá de ombros, feliz da vida. – Mesmo assim, você está maior. E mais bonito também! E aí se volta para Haymitch, quem está do meu lado tentando esconder a excitação.

Effie sorri e dá um abraço nele, juntamente a um beijo em sua bochecha. Ele, um tanto receoso, mostra o buquê para ela.

— Para você.  – Diz, entregando-o.

— Oh, obrigada! É lindo!

Eu sorrio para Peeta, quem observa os dois cheio de admiração. Ele me abraça de lado, dizendo baixinho:

— É estanho, de um jeito bom, ver esses dois se paquerando.

Eu rio da maneira mais contida que posso.

— Pra mim, é só estranho.

— Bem, crianças, vamos. Eu trouxe presentes!

Haymitch e Peeta pegam as três malas que ela trouxe - exagero, portanto, é algo que não mudou -, e nós voltamos à Vila dos Vitoriosos, tentando pôr toda a conversa de anos em dia.

**

Depois de Effie ter se instalado, num quarto de hóspedes na casa de Haymitch, fomos todos para a nossa casa, onde ela fez questão de nos dar presentes, e almoçamos. Prometemos sair mais tarde, ir ao centro, talvez ao teatro, e até minha mãe concordou em nos acompanhar. A grande questão dessa tarde foi, de fato, a pergunta que Effie fez enquanto comíamos: “Qual é o nome dessa princesinha?”.

Algo que, até então, nem eu nem Peeta havíamos notado é que nossa filha teria um nome e não seria torradinha. Enquanto a maioria dos pais a esta altura do campeonato - neste caso, dois meses de distância do nascimento dela - já teriam escolhido o nome, nós nos sentamos no sofá e começamos a folhear o livro de nomes que Effie nos deu - assim como diversas mantas, roupinhas, e até mesmo uma câmera fotográfica. 

— Você pensou em algum? – Perguntei.

— Sim, há algum tempo. – Me aconcheguei em seus braços para lhe dar a devida atenção, ignorando o livro que ele segurava a nossa frente. – Na época, nem imaginava que um dia chegaríamos às vias, de fato, porque você batia o pé e eu não gostava de insistir. Bem, de qualquer forma, nos meus mais profundos sonhos eu imaginei que fôssemos manter a tradição da sua família caso fosse uma menina.

— Tradição da minha família? – O encarei confusa, fazendo-o sorrir.

— Sim, amor, nomes de flores, plantas, coisas relacionadas à floresta...

E então tudo fez sentido.

Eu sorri para Peeta, vendo como subitamente minha cabeça passava a trajar os mais diferentes tipos de flores, com as colorações mais variadas, enquanto eu as associava aos possíveis nomes da nossa filha.

— É perfeito! – Digo entusiasmada, virando-me agora totalmente para ele. – Tem algum que te atraia?

— Eu gosto de Lilly, Violet e Rose. São simples e delicados. Além disso, as flores são muito bonitas. – Ele responde, pondo o livro no braço do sofá e entrelaçando nossos dedos com a mão livre. – Mas imaginei que você fosse me dar muito mais opções, e, com certeza, melhores.

— Georgia, Fleur, Dahlia... – Antes que eu pudesse continuar a propor uma lista exorbitante de nomes, uma lembrança antiga me ocorreu. Precisei de meio segundo para saber qual seria o nome da torradinha. Comecei a falar mais rápido do que pensei que poderia: – Um verão antes do incidente nas minas, eu estava na floresta com o meu pai. Era um dia agradável, os animais estavam mais propensos a sair, as árvores frutíferas estavam no ápice, e enquanto caminhávamos para o lago, vimos um pequenino jardim. Era um pedacinho da Campina que havia aparecido ali. Eu fiquei tão encantada que desatei em perguntas para o meu pai a respeito das espécies que haviam florescido. As mais bonitas se chamavam Aster.

Não sei como perdi esta memória, mas não posso evitar a felicidade em ver que ela voltou no momento mais propício.

— Aster. – Peeta disse, testando o som em sua boca. – São como as margaridas, não são? Mas com pétalas em várias cores?

— Sim, isso mesmo. As que eu vi eram roxas e brancas. Eram tão bonitas que quis roubar todas, mas só levei uma, porque me senti mal em tirá-las todas de lá, onde pareciam perfeitas.

Peeta me puxou para perto, beijando minha bochecha, com um sorriso tão grande quanto o meu em seu rosto.

— Está decidido, então. Pintarei toda a porta do quarto com estas flores.

Meu sorriso, de alguma forma, alargou ainda mais. Eu abri o livro, que ainda estava nas mãos deles, e passei a buscar pelo significado do nome que havíamos elegido. E lá estava ele.

— Estrela. – Murmurei.

— Aster Everdeen Mellark, um pequeno pedacinho do céu que decidiu ser nosso.

Pus a mão em minha barriga, procurando a opinião de nossa filha. E logo meu marido estava fazendo o mesmo, com a sua mão sobre a minha. Esperamos pela cotovelada, o chute, ou qualquer sinal que batesse o martelo. Quando veio, nós dois sorrimos como bobos, e eu fui com Peeta até seu ateliê buscar as tintas para a porta.

 


Notas Finais


Oi, oi, oi!
Fugi das notas iniciais dessa vez porque sei como tomo muito tempo nelas, entonces. Quero que vocês saibam que eu tive muitos imprevistos depois das férias, sendo um deles, inclusive, meu celular. Estou sem celular desde agosto, estava sem computador, como já tinha dito, e tive uma briga feia com meu pai. Não estamos nos falando até agora. Como se não fosse o bastante, descobri (FINALMENTE!) o que raios eu quero fazer no ensino superior, mas, em compensação, parece que tenho que estudar duas vezes mais para conseguir uma vaga numa universidade pública, então tenho ficado no colégio até às 16h/17h todos os dias, o que tem destruído meu psicológico.
De qualquer modo, o lado bom de tudo isso é que já está acabando. E no próximo capítulo já poderemos dar as boas vindas à torradinha (ou seria melhor chamar de Aster?).
Sei que a Suzanne, em algum momento, escolheu Willow para o nome da filhote everlark, mas eu associo esse nome à Willow Shields, so... here we are.
Enfim, se preparem porque 1. próximo capítulo é POV do Peeta! e 2. Katniss vai ter um problema bem sério durante o parto.
Bem, até o próximo. Obrigada por serem os melhores leitores do mundo, por me esperarem e me darem todo esse apoio. Minha meta é finalizar WCA até o final de dezembro e, se Deus quiser, em 2017 nos vemos livres disso aqui, hahaha. Me desejem sorte!
Beijos e mais beijos! Falem comigo, quero muito saber tudo o que vocês têm para me dizer. E se quiserem apenas conversar, falem também. Vocês já me apoiam tanto que se precisarem de um ombro amigo isso é o mínimo que posso oferecer.


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