História What Could Have Been - Capítulo 32


Escrita por: ~

Postado
Categorias Amor Doce
Personagens Alexy, Ambre, Armin, Bia, Castiel, Charlotte, Iris, Kentin, Kim, Leigh, Lynn, Lysandre, Melody, Nathaniel, Peggy, Personagens Originais, Priya, Professor Faraize, Professora Delanay, Rosalya, Senhora Shermansky, Violette
Tags Amor Doce, Drama, Nathaniel, Romance, Transtornos Psicológicos, Violencia
Exibições 103
Palavras 4.561
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


1- o tempo voou e eu nem vi. A última atualização aqui foi há 15dias
2- essa demora foi por causa da monografia. O prazo final dela ts bem próximo e eu tô loka virando noite escrevendo ela
3- não achava que o capítulo fosse ficar enorme. Mas é que agora estamos chegando na metade da trama e vem tretas e reviravolta por ai

Capítulo 32 - Mon Ange


 

Para a minha surpresa, acordei uma hora antes do despertador. Bufei irritada com a cabeça enfiada no travesseiro. “Agora vou ficar com sono o resto do dia… Como se eu tivesse dormido bem pra caramba também, né”. Durante a noite despertei várias vezes, esperando um roçar de pele, labios, cabelo, qualquer toque sútil que denunciasse a presença de alguém ao meu lado. Outras vezes eram minhas mãos que se moviam pela extensão do colchão procurando o corpo de Nathaniel, mas então me dava conta que estava só e voltava a recolhe-las. Eu me sentei na cama, prendi o cabelo que estava bagunçado e peguei meu celular. Não sabia ao certo se deveria ligar ou mandar mensagem, não queria acorda-lo antes da hora ou qualquer coisa do tipo. “Melhor tomar um banho e assim que eu terminar de me arrumar,se der tempo, falo com ele”.
 
Sai do quarto e entrei no banheiro. Lavei o cabelo com calma e aproveitei para passar um creme hidratante neles pois meus cachos estavam precisando de um cuidado especial. Não me demorei muito embaixo do chuveiro. Fechei o registro, me enrolei na toalha e voltei para o quarto pra me arrumar.
 
Como tinha muito tempo até chegar na escola, pela primeira vez em anos, eu me preocupei com o que eu ia vestir. Sentei no chão de frente pro guarda roupa e fui revirando tudo atrás de alguma peça mais diferente. “Já usei, já usei, não serve em mim mais...muito velho... muito pequeno….Nossa, pra que eu comprei isso? Nunca usei nem vou usar….Rasgado demais, roupa de frio, mais roupa de frio... Não….Mais peça que não serve. Preciso tirar um dia pra doar isso tudo….Velho, manchado de água sanitária , estampa estranha… Hunf. Nada..”. Fiz uma careta de desagrado enquanto olhava a pilha de roupas sobre o chão e o guarda roupa praticamente vazio agora. “Tá. O que eu faço?”. Foi então que eu reparei num tecido branco bem escondido no fundo, uma peça que eu nem me lembrava que tinha. Puxei com a mão e vi que era um vestido de renda com diversas padronagens geométricas. Demorou algum tempo até lembrar que quem  havia me dado o vestido fora Zaida. Nunca o tinha usado e nem sabia se caberia em mim. “Não custa tentar né”. Levantei do chão, vesti calcinha e sutiã e coloquei o vestido. Pra minha surpresa, ele coube perfeitamente.  
 
Fui até o espelho e fiquei encarando a minha imagem por um tempo. Eu nunca tinha me visto daquela forma antes, nem mesmo quando Rosalya me produziu para o festival. Claro, ela fez um ótimo trabalho, eu adorei o resultado e eu estava bonita mas quando me vi no espelho,não me senti diferente. Eu era a mesma pessoa mas com uma capa bonita. “Castiel, sem nem perceber, estava certo quando disse que aquela não era eu.”. Mas dessa vez, eu vislumbrei algo em mim mesma. Algo novo, algo bom. “Talvez eu esteja mudando. Talvez dessa vez saia desse ciclo de dor e caos”.
 
— Ok, chega de devaneios senão eu me atraso.
 
Prendi o cabelo num rabo de cavalo alto, quase até a frente do cabelo. Ajeitei os cachos para que eles caíssem na frente como uma franja. Dei mais uma olhada na aparência final mas não fiquei satisfeita. Faltava algo. “E se…”. Fui até o banheiro e peguei meu estojo velho de maquiagem que eu usava raramente e só em dias de péssima aparência. Passei um pouco de base, corretivo embaixo dos olhos e um pouco de pó bronzeador. Depois passei rímel, lápis marrom, blush e finalizei com um batom cor de boca, quase imperceptível.  
 
Olhei as horas no celular e vi que ainda era 07h15min. Coloquei minhas coisas em outra bolsa, desci para a cozinha, tomei minha medicação e separei um iogurte pra beber no caminho pois não estava com muita fome. Olhei pelos cantos da casa atrás da minha sapatilha vermelha e a encontrei embaixo do sofá. Peguei tudo e sai de casa.
 
Ao contrário do que sempre fazia, fui pelo caminho mais longo. O dia estava agradável, o sol não estava muito quente e ventava bem. Enquanto andava, contemplava o movimento das ruas, o vai e vem das pessoas, o burburinho intenso de mais uma semana que começava. Estranhei não me irritar com aquilo, nem mesmo ficar levemente incomodada, muito pelo contrário: eu estava gostando. Aquele sentimento de leveza e paz repentina era novo pra mim. “Seria por causa do Nathaniel, talvez? Não sei, mas é bom me sentir assim”.
 
Vi que me aproximava da escola. Meu coração acelerou e minha boca ficou seca. Eu não tinha a menor ideia de como seria voltar pra escola depois de ter me ausentado, se conseguiria disfarçar e esconder que eu e Nathaniel estávamos juntos, se conseguiria ficar longe dele estando tão perto.  
 
Já estava numa distância em que conseguia ver o portão da escola. Não demorou muito até identificar Nathaniel recepcionando os alunos, sempre educado e sorridente. Fitei o chão e tentei segurar o riso fácil que ele provocava em mim quando agia daquela forma. “Vai ser mais difícil do que eu pensava”.
 
— Tea? É você? - ouvi uma voz atrás de mim que me fez assustar  
 
— ah... Lysandre...é você… - disse aliviada - como vai?
 
— Eu vou bem. E pelo visto você também - sorriu - Como foi a viagem?
 
— Foi tranquila. Pude descansar, passar um tempo com minha família do coração, turistei...Essas coisas...Alguma novidade em Sweet Amoris?
 
— Não sei dizer...Eu realmente não presto muita atenção em coisas que não são do meu interesse. E claro, sou distraído demais pra isso. - sorriu pra mim.
 
— É claro que é... Você é o Lysandre  
 
Com a conversa, mal notei que já estavamos na porta da escola.  
 
— Bom dia Lysandre...Teodora… - disse Nathaniel movendo a cabeça num cumprimento.
 
— Bom dia! - respondeu Lysandre
 
Congelei por um instante, meu rosto formigando enquanto eu piscava meio boquiaberta, perdida se respondia, se sorria ou desviava os olhos sem responder nada. Nathaniel riu discretamente e arqueou a sobrancelhas me encorajando a responder.
 
— Oi … - ergui a mão e passei apressada, indo na direção do corredor. “Ugh. Que atitude idiota, Tea!”. Bati a mão na testa me repreendendo.
 
— Está tudo bem?  
 
— Tá sim, Lys. só fiquei surpresa com Nathaniel falar comigo de forma amistosa.
 
— De fato. - observou ele - Tea, eu irei para sala. Incomoda-se se eu a deixar sozinha?
 
— Claro que não. E eu também ia passar no meu armário e esvaziar o peso da bolsa. Te vejo na aula do Patrick!
 
Caminhei até o armário, destranquei e fui tirando o material da bolsa para guardar. Enquanto empilhava tudo, um papel amassado caiu no chão. Eu me agachei com cuidado e o peguei. Estava prestes a abri-lo quando ouvi alguém se aproximar.
 
— Bilhete de boas vindas, hein
 
— O que você quer, Peggy? - falei curta e grossa sem encara-la
 
— Tá de volta mesmo à cidade? Ou vai voltar a vida de fugitiva, sempre se mudando
 
Aquelas palavras fizeram meus instintos apitarem. Analisei o rosto sardento de Peggy tentando descobrir se aquilo tinha sido um deboche aleatório ou se estava jogando verde pra ver minha reação e à partir disso, iniciar alguma investigação maluca pro jornal da escola.
 
— O gato comeu sua língua?
 
— Sim. Eu tô de volta mesmo. E pra constar, eu não fugi, eu fiquei uma semana descansando com minha família pra esquecer o inferno que ta sendo essa cidade pra mim ultimamente.
 
— Caramba, pra que esse discurso? Eu não ligo pro que você fez ou deixou de fazer... Só perguntei porque minha mãe pediu pra te dar um recado dela assim que eu te visse.
 
— Então fala logo
 
— Ela quer encontrar com você sábado agora no mesmo horário de quarta.
 
— Só isso?
 
— Um “obrigada” não mata ninguém  
 
— Obrigada - sorri forçado.
 
Peggy revirou os olhos e seguiu para a aula. Peguei o bilhete e o guardei na bolsa para ler quando chegasse em casa, provavelmente era de Nathaniel me desejando bom dia ou algo do tipo. Deixei a bolsa no armário, peguei meus cadernos das aulas da manhã e o tranquei. Fui andando para a sala de aula B, desviando dos alunos pelo corredor. Achei curioso o fato de ter passado despercebida na multidão considerando que muitos desses rostos estavam bastante interessados na minha vida recentemente. “O que um tempo fora, um penteado novo e uma roupa nova não fazem….”.  
 
Abri a porta da sala mas ela estava vazia. “Mas o que…”. Senti mãos nos meus quadris e segundos depois o som da porta se fechando. Eu não estranhei pois conhecia aquele toque.
 
— Você é louco de se aproximar assim de mim - protestei enquanto deixava Nathaniel me pressionar contra a parede - Esqueceu que estamos na escola?
 
— Relaxe...Ninguém me viu entrar. E além disso - se aproximou e me beijou com vontade - você está irresistível hoje!
 
—  Você sempre diz isso… - pus os cadernos sobre uma das carteiras para que eu pudesse abraça-lo. - Como posso saber se você está falando sério? - disse sorrindo
 
— Eu sempre falo sério quando te elogio.
 
— Se você diz…
 
Puxei seu rosto para mim e o beijei. Nathaniel deslizou sua mão em minhas costas, me abraçando e me puxando para mais perto enquanto seguia o ritmo dos movimentos da minha boca. Seus lábios macios tocando e se separando por segundos dos meus antes de voltar a encosta-los novamente. O ritmo do seu peito subindo e descendo sob a palma da minha mão, a respiração irregular, seu fôlego a um fio de acabar...Ele parecia não se importar. Ele parecia não querer interromper aquele momento por nada.
 
Nathaniel passou a controlar a situação quando começou a prolongar os beijos, puxando demoradamente meu lábio inferior com os dentes enquanto sua mão direita pousava em meu rosto. Senti seus dedos tocarem minha nuca e meu corpo se arrepiou por inteiro. Ele então passou a me torturar um pouquinho, demorando a me beijar depois de terminar de puxar meu lábio. Seu polegar deslizava da minha boca para a lateral do meu maxilar enquanto mantinha seu rosto colado ao meu, me deixando sentir o ar quente de sua respiração. Permaneci de olhos fechados, implorando mentalmente que ele me beijasse de novo mas ele só roçava sorrateiramente sua boca na minha , aumentando minha vontade. E então voltava a repetir o processo.
 
— Por que fica fazendo isso? - perguntei em uma das pausas. Minha voz saiu tão fraca que jurei que demoraria a recuperar as forças para falar novamente.
 
— Por sua causa - ele respondeu sorrindo de canto
 
— Não entendi…
 
— Reparei que você sempre sorri no meio dos nossos beijos Queria só ter o privilégio de ver com mais calma…
 
— Nossa, eu sou muito estranha não é?  - disse envergonhada - Eu devo parecer ridícula sorrindo…
 
— Não... Você fica mais bonita.
 
Nathaniel sorriu com o rosto inteiro, seus olhos dourados brilharam e eu acabei sorrindo junto. Passei os dedos entre seu cabelo, penteando ele para trás e quando acabei, Nathaniel beijou o dorso da minha mão. O sinal do início das aulas tocou e ambos fizemos cara de desagrado
 
— Hora de ir - murmurei
 
— Hora de ir….. - suspirou - Eu vou odiar fazer esse papel.
 
— Qual?
 
— Do cara que te odeia e te ignora.
 
— Vai ser só por enquanto….Logo não vamos precisar nos esconder. - recolhi os cadernos.
 
— Vamos nos encontrar de novo hoje?
 
— Claro, depois da escola se quiser passar lá em casa - disse indo na direção da porta.
 
— Não vou aguentar esperar tanto…
 
— Nathaniel, temos que ser cuidadosos, esqueceu?
 
— Eu costumo passar um tempo sozinho na biblioteca durante o intervalo. E você precisa colocar seus estudos em dias então... Não sei. O que acha? - ele me olhou com malícia
 
— Teimosia de aquariano é foda! - bufei - Vou pensar no seu caso, Ok? Pensar, viu?
 
— As aulas do Patrick são no segundo andar agora. Na sala em frente ao laboratório.
 
— Obrigada
 
— Pensa com carinho!
 
Sai da sala e revirei os olhos enquanto fechava a porta. Subi as escadas e fui para a nova sala. Ao contrário das outras, esta era bem mais colorida e decorada e as mesas eram feitas para ficarmos em grupos e tinha bastante espaço pra facilitar nossas atividades. Procurei pelos meus amigos e os encontrei mais ao fundo, como eu imaginava.
 
— Olá!
 
Com exceção de Lysandre, todos me olharem surpresos, me fitando da cabeça aos pés. Rosalya parecia intrigada mais que os outros.
 
— Por que tão com essa cara?
 
— Quem é você e o que fez com a Tea? - exclamou ela
 
— Não seja exagerada, Rosa - pus os cadernos na mesa - Nem tô tão diferente assim…
 
— Você ta usando um vestido incrível de renda com uma padronagem super moderna, ótima combinação sapato-outfit, penteado maravilhoso, maquiagem completa em plena segunda feira de manhã e sou eu quem tô exagerando?
 
—  Não era você que dizia que eu devia me cuidar mais e parar de andar por aí de pijamas?
 
— Era. Eu tô feliz amiga, juro! Só tentando entender essa mudança repentina.
 
— Não foi repentina. Levou uma semana
 
— E não é como se essa não fosse a Tea - interrompeu Castiel - Ela está mais ela assim do que no dia do festival.
 
— Aí, seu tosco grosseiro, fazendo pouco do meu trabalho - reclamou Rosalya fazendo beicinho.
 
— Você foi maravilhosa, Rosa - disse com firmeza - Mas Castiel tem razão. Eu me sinto mais eu assim. E bem melhor também.
 
— É verdade…. - observou Lynn - Você ta bem mais feliz. Aconteceu alguma coisa especial?
 
Todos me olharam desconfiados, até Lysandre que estava escrevendo em seu bloco de notas.
 
— O nome disso se chama: viagem fora de época pra por a cabeça no lugar e esquecer das responsabilidades. Vocês podiam tentar fazer o mesmo qualquer dia desses.
 
— Bom dia! - ouvi a voz de Patrick - Tomem seus lugares pois vamos retomar a atividade do círculo cromático
 
Sentei na cadeira lateral que ficava perto da janela na mesma mesa que o pessoal.  O professor fez um breve resumo da aula passada e disse que agora teríamos que compor o máximo de combinações de cor e criar uma paisagem, explorando tons complementares, cores análogas tomando como base o círculo cromático.  
 
— Teodora, como você esteve ausente na semana, vou pedir que faça a atividade do círculo e entregue ainda hoje e ainda esta semana, finalize a atividade que o resto da turma fará hoje.
 
— Claro!
 
Patrick veio até mim e me entregou um papel com um círculo com apenas as 3 cores básicas e ao lado na paleta, as mesmas cores dispostas nos recipientes redondos, além de um círculo completo como guia.
 
— Boa sorte!  
 
— Professor? - ouvi a voz de Nathaniel. Todos olharam na direção da porta - Posso entrar?
 
— Por favor, tome seu lugar - indicou a mesa de Melody e Peggy que ficavam do lado oposto a minha mesa
 
“Ambre não veio. Ela deve estar bem mal ainda”
 
Patrick deu mais algumas instruções e distribuiu os materiais entre nós. Peguei um dos pincéis e comecei minha atividade. Tirando as cores laranja, verde e roxo, eu não tinha a menor ideia de como fazer o restante. Tentando acertar, misturava num pedaço de papel as cores mas só atingia uns tons estranhos.
 
— É mais difícil do que parece, não é? - disse Castiel
 
— Muito!
 
— Tente pensar na proporção e quantidade de cada cor na mistura. - ele piscou pra mim
 
Pensei um pouco e fiz alguns testes com magenta e ciano e acabei encontrando uma das cores
 
— Consegui ! - bati palmas animada  
 
— E….? - Castiel me olhava debochado
 
— Muito obrigada Castiel por ter ajudado.
 
— Bem melhor
 
O restante da aula foi tranquila. Depois fomos para a sala de aula B para o resto das aulas da primeira parte da manhã. Como eu estava uma semana atrasada, fui obrigada a manter a concentração e anotar o máximo de informações possíveis, até porque em breve teríamos as provas e entraríamos em recesso de fim de ano. Não queria tirar notas ruins e ter que me preocupar com elas nas férias quinzenais. Mas uma parte do meu cérebro sempre se distraia do meu foco e levava os meus olhos ate onde Nathaniel estava sentado. Eu ainda estava sentada no fundão e ele na frente, mas ele escolheu um lugar em que ficássemos na mesma diagonal.  
 
Observando bem, achava estranho ninguém reparar na gente. Qualquer dez minutos observando nossas posturas corporais seriam suficientes para concluir o que estava acontecendo. Mesmo debruçado sobre a mesa, seu tronco estava levemente direcionado pra mim. A cabeça estava baixa mas inclinada de tal maneira que eu podia ver mais da metade de seu rosto. Fitei os olhos de um jeito que parecesse que eu estava olhando pro nada e pude perceber o movimento discreto dos olhos de Nathaniel. Quem fosse desatento pensaria que ele estava fitando o chão pensativo quando na verdade ele estava tentando olhar pra mim usando a visão periférica. Foi algo tão rápido e sutil como o bater de asas de um beija-flor. Mas eu notei. Eu vi sua íris dourada sob suas pálpebras semicerradas. Um sorriso , por pura teimosia, surgiu em meu rosto. Devagar, cobri a boca com a mão e abaixei a cabeça. Lancei um último olhar paras ele é vi que ele estava sorrindo também. “Dois ridículos…”
 
— Desse jeito seremos descobertos …. - murmurei baixinho
 
— Perdão? - perguntou Lysandre
 
— Nada, tava falando sozinha…
 
Lysandre ter me interrompido me fez pensar sobre como eu diria a novidade a eles. Não que eu devesse me preocupar pra valer, afinal eles são meus melhores amigos. Talvez, de todos, só Rosalya ficaria meio chateada, mas definitivamente surpresa não seria a reação deles. Minha preocupação maior estava sentada em outra mesa. Olhei a carteira onde estava Melody e Peggy e o lugar vazio ao lado de Nathaniel. “Preciso esperar o momento dele já que ele vai lidar com muito mais coisa e muito mais gente que eu”.  
 
O sinal do intervalo tocou, me tirando dos meus pensamentos. Levantei e fui recolhendo minhas coisas
 
— Vai comer com a gente? - perguntou Lynn
 
— Não dá, tenho que tirar o atraso das matérias, adiantar outras. Apesar de ter sido ótimo ficar longe, eu tô meio ferrada. Preciso ir estudar na biblioteca
 
— Tudo bem. A gente se vê depois.
 
Não era tudo mentira, eu estava ferrada. Apesar de ter feito as tarefas e trabalhos, eu não dominava o conteúdo ainda. Claro que a oportunidade de ficar com Nathaniel também teve seu peso na decisão de ir à biblioteca. Peguei minhas coisas e fui andando até o local.
 
Entrei, cumprimentei a bibliotecária e botei meus cadernos na mesa individual que ficava no canto próximo às prateleiras. Caminhei reto olhando os corredores procurando por Nathaniel e o encontrei no último corredor onde tinham as janelas que davam para o lado externo da escola, encostado na parede mexendo no celular. Dei passos largos para chegar até ele.
 
— Oi - sussurrei
 
— Oi… - respondeu guardando o celular no bolso - Que bom que veio...Vem,senta aqui.
 
Ele se sentou primeiro e apoiou as costas na parede, flexionando uma das pernas e pondo o braço apoiado no joelho. Eu preferi me sentar de frete pra ele com as pernas dobras de lado.
 
— Se eu soubesse que ia ter que sentar no chão, tinha vindo de calça. E pra piorar o vestido ainda é branco... Só você mesmo….
 
— Não tenho problema com isso, se quiser sentar de perna aberta, tanto faz.  
 
— Uhm... Tô surpresa com sua resposta. Com esse teu jeito certinho e tudo mais….
 
— Não sou certinho. Eu tive que me tornar um…
 
Seu rosto ficou melancólico e eu me senti mal por ter aberto a boca.
 
— Eu tinha que canalizar o que eu sentia pra alguma coisa que me ajudasse a sair de casa o mais rápido possível sem precisar depender do Francis... Não funcionou muito mas pelo menos não sai perdendo...O conhecimento que ganhei me ajudou a não fazer alguma loucura.
 
— Você é melhor que eu então...Eu só fiz foi meter o pé na porta e correr o mundo feito louca. Acumulei muita raiva da vida, sabe? Grég até tentou me orientar, por juízo...Mas não funcionou também.
 
— Não existe maneira certa ou errada de lidar com isso. Você fez o que pode...
 
— ...pra continuar viva
 
— É…

Nathaniel estendeu a mão pra mim e eu a segurei. Depois, ele me puxou para perto de si. Encostei em seu corpo e apoiei uma das minhas pernas na sua, deitando a cabeça em seu ombro. Com seu braço, ele envolveu meu tronco e  afagou minhas costas.
 
— Nós éramos crianças... É cruel pensar que não pudemos crescer como uma. Não acha?
 
Ele olhou demoradamente pra mim, os olhos tristes procurando algum conforto. Levei minha mão até seu rosto, afundando um pouco os dedos no cabelo. Nathaniel recostou a cabeça sobre minha palma e soltou o ar dos pulmões com pesar. Me movi e o abracei pousando meus braços atrás do pescoço dele. Nossas testas se tocaram e eu o beijei. Quando me afastei, ele ainda estava de olhos fechados.
 
—  Não há nada que a gente possa fazer sobre isso. É passado. Tá feito, ta morto…Já passou…Tenta não pensar muito nisso.
 
— Você não pensa no seu passado? Em como seria sua vida sem seu pai? Ou se ele fosse diferente ou bom pra você?
 
— É claro que eu penso. Até demais às vezes. E não só sobre meu pai mas sobre outras coisas também...Por isso tô te dizendo pra tentar deixar pra lá um pouco. Isso pode desgraçar sua cabeça.
 
— É o que acontece contigo?
 
— Sim e não. Depende, na verdade. Algumas coisas eu não controlo porque são sintomas de depressão então… - dei de ombros - Só dá pra esperar passar e tal.
 
— Sinto muito…
 
— Tudo bem….Sabe, acabei de pensar aqui que se não fosse pelas coisas ruins que aconteceram comigo, eu não teria vindo pra cá. E nem conhecido você... Né?
 
Nathaniel riu descontraído  
 
— Tá diferente…
 
— Como assim, diferente?
 
— Além de ta mais produzida , não que eu me importe com o que você faz com sua aparência, ta mais otimista, conselheira…O que deu você?
 
— Ah... Não sei. Acordei num bom dia, eu acho.
 
—  E eu não faço parte dessa transformação? - disse me roubando um beijo.
 
— Convencido….. - o beijei de volta
 
— Fico feliz em te ver melhorando.
 
O sinal tocou e nós dois reclamamos juntos. Nathaniel se levantou primeiro e ajudou a me erguer. Limpei e ajeitei o vestido.
 
— Tá sujo aí atrás?
 
— Não - ele veio ate mim e me abraçou por trás, beijando minha bochecha - Limpíssima!
 
— Shhh...Estamos na biblioteca e não na sua casa - sorri enquanto tapava com o dedo a boca dele.  
 
— Infelizmente não estamos, porque se estivéssemos - ele me moveu até a prateleira - nós faríamos tantas coisas divertidas - sua mão subiu pela minha coxa e ele deslizou até minha bunda, erguendo um pouco o vestido. - É uma pena mesmo… - sussurrou no meu ouvido.
 
— Melhor parar…. - disse ofegante e me desvencilhando dele - Você sai na frente e depois eu vou.
 
Nathaniel concordou com a cabeça e foi andando de costas olhando pra mim. Antes de sumir completamente, ele me mandou um beijo e avisou que passaria lá em casa à tarde e ficaria até um pouco antes de anoitecer.
 
— Se quiser usar essa mesma calcinha mais tarde, eu vou adorar. - disse num tom não tão alto mas que eu conseguisse ouvir.
 
Balancei a cabeça rindo. “Maluco…”. Sai logo depois e encontrei o pessoal esperando por mim na sala de aula A.
 
O resto do dia passou bastante rápido. Quando notei, já estava na hora de ir embora. Fui até meu armário e peguei minhas coisas. Preferi ser mais esperta e deixar o material de aula dentro dele e levei só os livros que precisaria pra revisar seus conteúdos. Botei a mochila nas costas, os livros no braço e fui direto pra casa, pois estava com sono e faminta. Antes de comer, tomei um banho relaxante
 
Passei a tarde estudando pra passar o tempo até dar a hora que Nathaniel apareceria. Ouvi o barulho de ligação e peguei meu celular na bolsa.
 
— Tô usando uma calcinha mais bonita que a de hoje de manhã
 
— Hmhm….. Então vou perder muita coisa hoje mesmo
 
— O que quer dizer?
 
— Ambre piorou, ela teve uma crise de choro intenso agora a pouco - ele deu uma pausa para tomar fôlego - Eles ligaram pra ela e disseram algo.
 
— Putz, que merda….Tomara que não seja nenhuma ameaça.
 
— Eu também...Desculpa por não poder passar aí. Não vai ficar zangada já que eu fiz você escolher uma lingerie pra mim….vai?
 
— Claro que não. Se existe uma vantagem em ter passado por abuso parental é que eu entendo a situação de vocês. E além disso, você não fez nada, eu botei porque quis. Sabemos que você não liga pra calcinha, só naquela parte em que você tira ela de mim.
 
Ouvi o riso abafado de Nathaniel do outro lado da ligação, tentando não fazer barulho e Ambre acabar desconfiando de algo, provavelmente.
 
— A gente vai se falando na semana. Preciso ver como ela está. Boa noite.
 
— Vai lá…. Boa noite.
 
Desliguei e voltei para meus estudos. De relance, vi o papelzinho que estava no meu armário hoje pela manhã. Eu tinha esquecido completamente da existência dele. “Vamos ver o que ele escreveu…” . Fui desdobrando o papel com um sorriso nos lábios. Que morreu assim que li  
 
Eu disse que sempre estaria por perto,
                        Mon Ange
 
 
 

 



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