História Wrong - Capítulo 20


Escrita por: ~ e ~TeGuke

Exibições 345
Palavras 6.062
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Atualização com capítulo 20, esperamos que gostem. Até o próximo ❤


~ Zelda, Nay

Capítulo 20 - Hypnotism


Fanfic / Fanfiction Wrong - Capítulo 20 - Hypnotism

O sangue que corre nas minhas veias numa velocidade que consigo sentir o seu percurso pelas artérias ferve e borbulha com a raiva presente em cada parte de mim.

Sinto meu rosto queimar ao olhar o sorriso enorme a minha frente e mesmo sendo esse o sorriso que me acalma nos últimos dias é este o que me deixa com vontade de avançar no seu pescoço nesse exato momento.
Levanto meu corpo do sofá lentamente, sem o olhar nos olhos e deixando que meu cabelo molhado tape meu rosto.

— Taehyung. Corre. — Alerto. Se ficar parado com esse copo de vidro na mão, pode acontecer algo pior caso eu tome o ítem dele.

— Não — Ele deixa que o copo agora vazio descanse sobre a mesa e coloca suas mãos nos bolsos esperando pelo momento em que eu o colocaria em perigo. Sinto meu corpo estremecer quando a água gelada presente no meu rosto e cabelo desliza em linhas por meu pescoço, adentrando minha camisa e tocando minha barriga.

Taehyung não pode ter feito isso. Não comigo.

Me encaminho para o banheiro e procuro ali as toalhas, nem me importando em observar o ambiente do cômodo da casa que ainda não havia visitado. Aliás, eu ainda não vi o restante da casa porque o belo dono e recepcionista não me apresentou.
Não que eu me importe com isso agora.

Uma toalha branca descansa em torno do meu pescoço, caindo sobre meus ombros; uma menor e de cor vermelha é usada para secar a camisa atingida também pela água do copo de vidro transparente que Taehyung usou para se vingar de mim. Volto à sala de estar.

O castanho está sentado sobre o chão, mas logo já se encontra andando para a cozinha apressadamente, provavelmente para desligar o fogo que aquecia uma das panelas que estão sobre o fogão.

Depois de alguns minutos observando-o — com um olhar um tanto raivoso —cozinhar, desperto minha curiosidade de saber se ele cozinha bem ou não.
Sustentando sobre ele o olhar de quem quer cometer homicídio, eu me sento na mesa e dou a primeira garfada nos ovos cozidos e temperados que ele acaba de preparar. O sabor... apesar de diferente, é bom. Muito bom.

Tento disfarçar o quanto estou me deliciando com a refeição, mas acabo por fechar os olhos e saborear o prato como se nunca houvesse experimentado antes. Parece que quando estou com ele tudo se torna novo.

Mas ele jogou água gelada em mim, não dá pra perdoar.

— Você dormiu bem? Está bem descansada? — Ele deposita um beijo em minha bochecha e se senta ao meu lado. — Eu coloquei um cobertor em cima da gente e te abracei para você não sentir frio.

— Dormi bem.

— Está gostoso? Eu posso fazer mais se você quiser! — Ele sugere animado para me ver dizendo que sua refeição está boa.

— É.

— Está faltando sal? Se estiver, você tem um saleiro do seu lado para colocar sobre os ovos e assim fica com mais sabor. — Um sorriso gentil e irritante brota em seus lábios, ao mesmo tempo que ele umedece os mesmos com sua língua.

— Não precisa.

— Quer namorar comigo? — Sua voz sai mais grave por estar falando mais próximo de mim. Lanço um olhar de indiferença para ele e volto a comer.

— Não.

Ouço de Taehyung uma risada irônica e abafada. A raiva que antes já sentia agora se mistura com irritação e eu pego o saleiro indicado por seu dedo, despejando sal em excesso em cima dos ovos e os espetando com agressividade. Ao colocar na boca, sinto meus olhos lacrimejarem por causa do sabor que toma quando o sal entra em contato com minha língua. Engulo tudo.

Mais uma risada.

— Bem, não importa. Você já aceitou uma vez, vai aceitar mais uma facilmente.

Paro de comer.

— Você está me chamando de fácil, Taehyung? — Pergunto, dessa vez o olhando enquanto minhas mãos esfregam o guardanapo por minha boca na intenção de retirar dali os minúsculos grãos e vestígios do sal.

— É claro que não. — O cinismo está estampado em sua cara — Acha mesmo que eu seria capaz de dizer que você é uma pessoa fácil?

Dou de ombros e afasto o prato para longe da minha visão.

— Quer mais? — Ele pergunta, apoiando o queixo na palma da mão que está com o cotovelo apoiado na mesa e um sorrisinho ergue os cantos de sua boca enquanto seus olhos brilham me fitando.

O que eu faço pra conseguir sentir raiva de você de novo, Kim Taehyung?

— Não, eu não quero.

— E namorar comigo?

— Também não. — Me levanto, afastando a cadeira com a parte de trás das pernas com a ajuda das mãos e andando de volta para a sala. Sinto-me ser delicadamente puxada e meus pés param bruscamente de caminhar para o destino cujo eu defini como o lugar em que eu poderia me sentar bem longe do sujeito que segura minha mão agora e impedir que a raiva temporária que sinto se esvaisse até que eu estivesse novamente sobre os encantos de seus lábios, que não tardam a selar os meus calmamente como se não necessitasse de mais espera.

Ele separa o nosso breve beijo e eu olho para o lado oposto do seu, mas meu queixo é sutilmente virado por seus dedos para a direção a qual eu tenho de olhar em seus olhos.

— Eu vou perguntar mais uma vez, Lee Jiya... — Seu hálito de creme dental de hortelã e menta bate contra meu rosto quando sussurra a frase e ele se aproxima do meu ouvido para segredar sua pergunta. — Você quer namorar comigo?

A folha de papel avulsa que balanço em minhas mãos é preenchida pelas rasuras de tinta de caneta azul e preta, acompanhadas pelas manchas de corretivo e o grafite do lápis que sujou também a ponta dos meus dedos.
Eu preenchi corretamente os espaços disponibilizados para a resposta das questões, então se Mayumi vier reclamar de falta de cuidado e capricho com o teste eu vou soltar meus cachorros em cima dela.

— Senhorita Kim, me acompanhe por favor? — O olhar baixo da professora é direcionado à Yuna, que cheira a preocupação até de longe. A morena concorda com a cabeça e se encaminha lentamente, receosa, até a mesa onde a loira dos óculos redondos de bordas cor safira se senta.
Inclina-se levemente para ouvir o que sua superior tem a lhe dizer, sorrindo no momento em que o faz. Parece ter recebido uma boa notícia..

Yuna volta a se sentar e eu a olho com as sobrancelhas erguidas, esperado para ouvir qual é merda que tá deixando ela toda elétrica desse jeito.

...

— Eu vou participar do grupo de eventos! Dá pra acreditar? — Ela grita animada.

— É claro que não, quem olha pra sua cara imagina que você é no máximo do grupo de maquiagem da escola.

Reviro meus olhos quando ela faz cara de cadela irritada. Pra quê todo esse drama?

— Eu tô brincando, cacete. — Falo de boca cheia, sem paciência, e olho pro garoto distraído ao meu lado. Taehyung está usando seus fones de ouvido no último volume e balançando sua cabeça seguindo o ritmo do som, é possível até mesmo ouvir a batida do som que ouve por causa do volume. — Tomara que fique surdo.

— Não fale assim com seu namorado! — Yuna me repreende e eu arqueio a sobrancelha.

— Que tal a vossa senhoria cuidar do seu? Não fode, Kim. Você entrou pro grupo de eventos, não pra terapia de casais. — Termino de comer e empurro o prato para o lado, esbarrando no braço do Kim involuntariamente.

— Falou comigo? — Ele pergunta ao tirar um de seus fones e segura-lo ainda perto do ouvido para recolocar assim que minha resposta for “não”.

— Sim.

— Yuna!

— Pode repetir, então? Eu não estava te ouvindo — Taehyung sendo sarcástico. Essa é boa.

— Não é só ele que tem o sobrenome Kim,  Yuna. — Reviro os olhos, levando a garrafa do suco à boca, quando minha mente se recorda involuntariamente de Jeongguk e seu apelido por causa do gosto por morangos.

— Ela disse que ama muito o namorado que tem. — Yuna ignora o que eu disse anteriormente e volta sua atenção para Taehyung, que abre um sorriso de canto. Arregalo meus olhos.

— Eu nunca disse isso.

Assim que termino de falar, ele logo desmancha seu sorriso e tira o outro lado do fone de ouvido, desconectando-o da entrada de seu celular e guardando dentro do bolso de seu moletom cinza, deixando as mãos lá mesmo. Abaixa sua cabeça até que seu queixo encoste na mesa e encara o nada como se fosse totalmente interessante.

— Você é uma namorada horrível, Jiya. — Yuna me repreende e eu começo a me sentir culpada. Qual é? Isso é frescura.

— Eu apenas não disse isso. Quem está mentindo é você. — Arqueio a sobrancelha.

— Ei, quem magoou ele foi você, não eu. — Defende-se, arrastando a cadeira e se levantando da mesma. — Responda por si mesma! — Lança-me um último olhar antes de caminhar até a porta do refeitório, sumindo pela mesma. Puta que pariu, eu mereço mesmo isso?!

Olho para Taehyung e ele continua com a mesma expressão. Solto em suspiro baixo e pergunto:

— Você está realmente chateado com isso? — Ele ignora. — Vai me ignorar? — Continua calado. Bufo, rolando os olhos — Você está parecendo uma criança, Tae! — Cruzo os braços e encosto minhas costas na cadeira, ainda esperando uma resposta do moreno. — Tae!

Cansada de esperar ele me responder, eu me levanto de meu lugar a passo a andar tranquilamente para fora do refeitório. Não existem motivos para ele ficar assim comigo, portanto não irei me desculpar.
Mal começamos a namorar e já tivemos nossa primeira briga. Bem, não seria nossa primeira briga já que eu fazia questão de afastá-lo, o que me faz sentir um total idiota por isso. Ele me faz tão bem... Mas agora eu realmente quero soca-lo por ter me ignorado sem motivos.

E talvez eu seja bipolar.

Estou prestes a entrar em minha sala quando sinto braços rodeando minha cintura, puxando-me para perto.

— Você realmente me deixou sozinho naquele refeitório? Tsc. Isso foi cruel, Jiya...

Sua voz grossa e rouca adentra meus ouvidos. Choques elétricos percorrem todo o meu corpo, paralisando-me. Sua voz é bem sensual quando quer. Grande filho da puta você é, Taehyung.

— Tanto faz. — Me recomponho.

— Não precisa ficar assim. — Põe-se em minha frente, olhando dentro dos meus olhos. Seus olhos escuros são tão intensos e únicos, isso chega a ser desconfortável. Simplesmente não consigo olhar em seus olhos por muito tempo sem me sentir totalmente estranha.

— Não estou “assim”.

— Sério? — Indaga e eu assinto com um acenar de cabeça. — Então me dá um beijo. — Sorri divertido.

Penso em responder um “não”, mas seus lábios são realmente atraentes...

Sim, ele está me testando.

Aproximo-me lentamente, segurando seu rosto e deixando um selar calmo em seus lábios, logo me afastando de novo.
— Mais um... — Pede com a voz manhosa e eu reviro meus olhos, porém repito o ato anterior. — O que eu pedi?

— Um beijo? — Pergunto retoricamente, com a sobrancelha arqueada.

— Sim. — Seus lábios se comprimem em uma linha, num sorriso fechado, enquanto seus olhos são semicerrados — Por que não fez?

— Eu fiz. — Franzo o cenho.

— Você me deu selinhos. 

— Cala a boca, Taehyung. — Reviro os olhos e seguro em sua mão, puxando-a para que ele me siga para a sala de aula. — Vamos entrar.

— Só se me der um beijo. — Fecha os olhos e faz um biquinho fofo. Solto uma risada baixa e saio andando, deixando-o naquela mesma posição quando adentro a sala





— Você já ligou para o Jeongguk? — Taehyung grita da cozinha.

— Já. Ele disse que vai passar na casa de Yuna primeiro. — Grito de volta para que ela possa ouvir de onde está. Olho para o lado e vejo que ele mostra seu polegar.

Decidimos fazer algum tipo de “tarde entre amigos” na casa de Taehyung. Eu até notei que falo com Jeongguk, mas não sou tão próxima assim dele.

É engraçado como tudo se ajeitou com o tempo. Não digo sobre eles, mas sim de mim, de como eu passei a confiar mais em quem achei que não deveria. Chega a ser engraçado até mesmo quando eu acreditava que ninguém podia mudar nada em ninguém. Já fiz muitas escolhas erradas na vida, Taehyung pareceu ser uma delas no início. Como é possível? Se eu tivesse insistido mais um pouco em me fechar, talvez ele tivesse desistido de mim. Ele foi paciente e me fez ver que eu posso superar meus medos.

— Nunca percebi o quanto você fica linda assim, distraída. — Sua voz aparece repentinamente no ambiente em que me encontro e isso me desperta de meus devaneios. Eu nunca sei como responder a seus elogios, então sorrio. — Pensando em mim?

— Talvez.

— Bom ou ruim? — Senta-se ao meu lado, onde eu não me afasto mas sim deixo com que ele fique próximo.

— Péssimo.

— Para quem? — Junta as sobrancelhas, franzindo a testa numa expressão confusa.

— Para mim.

— Pensar em mim é algo ruim, então? — Me abraça de lado. Apoio minha cabeça em seu ombro, suspirando e deixando o ar sair aos poucos.

— Considerando o fato de eu não entender por que namoro você, sim.

— Você me rejeitou hoje. Disse que não iria namorar comigo, então tecnicamente, nós não somos namorados.

— Então desgruda. — Empurro-o para o lado, afastando Taehyung de mim.

— Amo você. — Beija minha bochecha.
E novamente eu fico sem saber o que responder.

Por sorte — pode-se dizer assim — a campainha toca e Taehyung se levanta rapidamente para abrir a porta, sabendo que Yuna e Jeongguk esperam do lado fora. O castanho a frente da porta os convida para entrar, enquanto cumprimenta Jeongguk com um abraço apertado, Yuna vem até mim e senta ao meu lado.

— Que feio não cumprimentar os amigos, Jiya. — Taehyung me repreende.

— Eu vejo vocês quase todos os dias.

— Boa tarde para você também, Lee. — Jeongguk me cumprimenta e eu aceno com a cabeça.

— São cinco e meia da tarde. O que vamos fazer, crianças? — Yuna pergunta enquanto brinca com alguns dos meus fios de cabelo.

— Podemos comer enquanto planejamos algo nada produtivo. — Sugiro.

— Você só pensa em comida? — Taehyung finge incredulidade, forçando-me a revirar os olhos.

Ela pensa em você também. — Provoca Yuna. Bato forte em seu braço, tirando risadas baixas de Taehyung e Jeongguk.

— Eu vou ligar agora para pedir uma pizza pra gente. Pode ser? — Jeon avisa e todos assentimos com a decisão. — Do que vão querer?

Quatro queijos! — Taehyung e eu falamos juntamente. 

  Qual o sabor da pizza que vamos comer? — Yuna pergunta alternando o olhar entre mim eos dois garotos.

— Quatro queijos! — Taehyung e eu gritamos ao mesmo tempo. Arregalo os olhos e nós trocamos olhares assustados, desviando os mesmos no mesmo instante. Abaixo a cabeça e sinto vontade de me enterrar viva.

— Vocês são malditos clichês... — Yuna diz, revirando seus olhos enquanto Jeongguk apenas assente e passa a realizar o pedido por chamada.

— Quem é que fica grudada quase vinte e quatro horas por dia no pescoço do namorado mesmo?

— Taehyung!  — Jeongguk e Yuna gritam em uníssono.

— Vocês são malditos clichês. — Repito a frase de Yuna, imitando sua voz de forma exageradamente irritante.

— Eu não fico grudado nela, apenas aproveito o tempo que tenho com ela. — O castanho se defende.

— Você é um cara apaixonado demais, digamos assim. — Jeongguk comenta após desligar o telefone. — Nunca vi Taehyung tão pensativo desde que te conheceu, Jiya. Toda vez que fala comigo ele coloca você na conversa, independentemente do assunto. Se eu disser que quero beber água, ele diz “ela adora água”. São fatos reais!

— Você não precisava dizer isso... — Taehyung repreende, aparentando estar um pouco envergonhado.

— Ocultando a parte da água, Jiya é basicamente do mesmo jeito. Não é, Jiya? — Indaga Yuna, tocando meu ombro.

— Cala essa boca.

— Como andam as coisas na aula de dança? — Ela ignora o que eu digo, perguntando sobre um assunto totalmente diferente. Dou de ombros.

— Acho que estou melhorando bastante. — Já dançou pro Taehyung alguma vez? — Yuna pergunta naturalmente e eu arregalo os olhos.

— Yuna!

—Não dançou exatamente para ele, mas Taehyung me disse que ela é extremamente linda e sexy enquanto dança. — Jeongguk comenta.

— Eu vou expulsar vocês antes da pizza chegar. — Alerta Taehyung, olhando ameaçador para os dois ao meu lado.

— Quando a Jiya era menor, ela pegava algumas das saias grandes da avó dela e ficava na frente da televisão, dançando. Quando a avó dela passou a trancar o guarda-roupa, ela pegava sacolas e cortava pra fazer saia e blusa. — Yuna conta, fazendo-me a olhar e erguer uma sobrancelha.

— Quem disse isso?

— Seus pais. Ainda lembro quando você dançava nos eventos escolares. Ela era tão gordinha e fofa. — Aperta minha bochecha com os dedos e eu dou um tapa em sua mão para parar de fazer isso, como se eu ainda fosse uma pessoa extremamente fofa. Odeio isso.

— Taehyung era engraçado durante a infância dele. A única coisa que não mudou foi o tamanho da testa. — Dessa vez é Jeongguk quem começa a tirar sarro e rir como um idiota.

— Taehyung era engraçado durante a infância dele. A única coisa que não mudou foi o tamanho da testa.

— É grande? — Indago alternando meu olhar entre eles.

— Dá pra escrever o novo testamento todo nela. Quem sabe o velho testamento também?

— Deixe-me ver, Tae. — Peço.

— Não. — Taehyung me responde de imediato, com uma expressão séria.

— É capaz da luz bater nela, refletir na sua cara e te deixar cega. Tome cuidado! — Jeongguk avisa e Yuna começa a chorar de tanto rir.

— Minha barriga já está doendo. Me desculpa, Tae. — Ela tenta dizer em meio aos risos, com dificuldade.

— Não sei como seu nariz não atrapalha na hora de beijar sua namorada. — Zomba Taehyung.
Essa foi pesada.

— Eu sofria bullying na escola por causa disso, Tae. E isso é desumano. Parece que estamos no fundamental.

— Se algum dia vocês sentirem falta de ar saibam que foi o Jeongguk quem tirou todo o oxigênio.

— Você não quer que eu vá preso por cometer homicídio, quer? — Ameaça.

— Qual é, Jeon Jeongguk, você não machucaria nem uma mosca. — Antes que Taehyung continuasse, a campainha da casa soa intrometida e nós paramos por alguns segundos, nos encarando uns aos outros sem piscar. Em menos de quatro segundos, quatro jovens desesperados de fome começam a brigar para quem abre a porta e pega a caixa de pizza primeiro.
Obviamente, eu pego a caixa, Jeongguk e Yuna se contentam com a derrota e Taehyung apenas paga ao entregador o valor da pizza. Otários.

Nos sentamos no sofá e eu corto as fatias, que por incrível que pareça, não somem todas de uma vez, já que estamos todos esfomeados.

— Coma de boca fechada, Lee Jiya — Yuna sussurra, me repreendendo.

— Vai tomar no cú — Peço gentilmente, continuando a comer da forma que sempre comi. Até parece que me resta paciência pra comer de forma educada, ainda mais quando estou entre amigos meus. Ninguém merece isso. Ninguém merece uma Yuna na vida.

Taehyung balança a cabeça negativamente, segurando o riso enquanto nos olha. Ele está sentado do outro lado, de frente para nós, Jeongguk está ao seu lado.

Termino de comer minha fatia e limpo a boca com as costas das mãos, recebendo de Yuna um guardanapo de papel. Agradeço, porém ao invés de limpar a boca, eu limpo minha mão que foi suja quando a usei para tirar os vestígios de molho e queijo da boca. Vejo em seus olhos que está me chamando de burra e ignoro. Ela me estende outro guardanapo e eu o aceito, limpando dessa vez, minha boca.

Todos parecem ter finalizado suas refeições e eu suspiro cansada, me encostando mais para trás no sofá e deixando que minha nuca encontre o encosto do móvel. Meus olhos então fitam o teto branco da sala de estar, encontrando algumas áreas descascadas. Isso, de alguma forma, me faz sentir em minha própria casa. E eu não sei por quê.

— Vamos jogar, Jeon? — Yuna interfere em meus pensamentos, desafiando Jeongguk para uma partida sei lá do quê. O mais novo assente animado e os dois passam a se sentar no chão da sala enquanto Taehyung ativa os itens necessários para que seu vídeo-game ligue e possa ser usado.
Meus olhos encontram o castanho perto da televisão me fitando como se eu precisasse mesmo ser perfurada por seus dois olhos negros.
Encaro o garoto de volta, com os olhos semicerrados.

Antes que eu pudesse perguntar ou dizer qualquer coisa que buscasse pelo motivo dessa troca de olhares tão intensa, Taehyung não mostra seus dentes, mas projeta no canto dos lábios um sorriso de lado, piscando o olho direito.

— Moça, seu namorado não avisou que já pagou o restante do valor dessa bolsa? — Ela me olha com uma certa dúvida e minha mente tenta buscar o motivo de Yuna ter dito que era meu namorado. Que merda ela tem na cabeça? Parece até que... Ah não. Ele não fez isso.

— Ele disse que somos namorados?! — Pergunto e consigo sentir o sangue subindo nas minhas veias pela raiva que sinto.

— Não, mas vocês parecem muito! — A balconista sorri gentilmente.

— Está certo. Muito obrigada. — Olho na direção da porta e vejo Taehyung piscar um olho pra mim, logo depois passando pela porta e atravessando a rua.

Nós somos malditos clichês.

Após sua pequena provocação, Taehyung morde o lábio e vem até mim, sentando-se ao meu lado para observarmos os mais novos se divertirem no vídeo-game.
Meus dedos são entrelaçados aos seus sem que eu note o começo de seu ato, mas permito que pegue em minha mão por me sentir confortável dessa forma.

Nós estamos nos abrindo um ao outro de uma forma mais natural, consigo sentir sua mão ser envolvida à minha sem sentir vontade de me enterrar com Yuna e Jeongguk por perto, consigo ouvir o casal a nossa frente dizer que nós somos um casal sem sentir vontade de me levantar e agredi-los até a morte por estar com vergonha.
De alguma maneira, nosso namoro está começando a ganhar uma forma mais aberta, e isso me deixa contente comigo mesma.
Se eu parasse para pensar em todas as coisas que foram melhoradas em mim após a chegada de Taehyung, com certeza ficaria surpresa com a quantidades de respostas para esse pensamento.

Taehyung aperta minha mão carinhosamente e eu retribuo a carícia, então ele aumenta a intensidade de forma que cause dor e eu me vingo pressionando as laterais da sua mão com o máximo de força que consigo, retirando do castanho um grito de dor. Abana a mão no ar como se estivesse pesquisando nela algo que indique que não foi amputada naturalmente por minha força, e sinto que se ele tivesse retribuído isso, com certeza eu estaria sem minha mão agora. Apesar de ele não parecer muito forte, ainda aparenta ter um pouco mais de força que eu no quesito “quebrar a mão do parceiro”.

— Vamos — Ele aproveita nossos dedos entrelaçados para me puxar e levantar meu corpo do sofá a força, sorrindo enquanto me leva para algum lugar do outro lado da sala. Meu olhar sobre si já indica minha pergunta e ele não tarda a responder: — Karaokê.

— Isso é sério?

— Com toda certeza. — Me puxa pela mão e deposita um beijo estalado em minha bochecha, sorrindo logo depois. Reviro os olhos. Pra quê ser tão fofo desse jeito? Não tem necessidade de fazer isso comigo.

— Eu te odeio, Kim.

— Eu te amo, Lee.

O jogo de Karaokê se inicia com uma música americana desconhecida por mim, de um grupo igualmente desconhecido, quando passo a prestar mais atenção à letra dessa música sendo cantada pela voz suave e rouca de Taehyung, sinto meu coração começar a derreter aos poucos dentro do meu peito.

Com dezembro vem o brilho em seu rosto
E

eu fico um pouco nervoso...

Eu fico um pouco nervoso agora.

Nos meses em que você fez amizade com a mudança,
quando todo mundo era perfeito, nós apenas começamos tudo de novo.

Os playgrounds enferrujam e seu

coração bate mais dez mil vezes antes que eu tenha a chance de dizer que...

Eu te amo.”

Minha atenção é dada somente e exclusivamente a Taehyung, que me encara sem piscar os olhos enquanto sua voz que é capaz de ser doce e arrastada ao mesmo tempo canta a música da letra que aparece na tela, e meu coração diz que ela está sendo improvisadamente escrita pelas mãos de Taehyung, dedicada a mim. A forma que me olha ao cantar a letra da música faz com que tudo a nossa volta se torne menos que um nada e meus olhos não conseguem fazer um mínimo esforço para piscarem enquanto Taehyung canta. É como se, em momentos como esse, nada nesse mundo mais existisse além da garota antipática dançarina e o garoto de cabelos castanhos que possui uma incrível e viciante voz.

E eu estou viciada numa pessoa chamada Taehyung.

Ao que tudo indica, já faz alguns três minutos desde que a música foi finalizada e Taehyung não desgruda seus olhos de mim, assim como eu também não sou capaz de desviar o meu olhar no seu. Apesar de estarmos a alguns centímetros de distância um do outro, é como se nossos olhares se conectassem não importa qual seja o obstáculo.

Seus passos largos e rápidos fazem com que ele chegue mais rápido até mim. Em menos de meio segundo que seu corpo me alcança, seus dedos levantam meu queixo ao mesmo tempo que meus lábios são tomados por um beijo roubado.

Ao separar os lábios delicadamente dos meus, Taehyung não corta a proximidade entre nós, mantém-se perto e próximo do meu rosto e sua mão mão abandona meu queixo, é apenas levada até minha bochecha e deixa carícias leves por lá. O sorriso que se abre em seu rosto vale mais do que qualquer palavra que poderia ser dita pelo garoto agora, e isso, inevitavelmente, me faz sorrir também.

Guio Taehyung até o sofá e percebo que não cantamos mais de uma música. O castanho então se curva e começa a fazer graças para atrapalhar Jeongguk e sua quase-vitória sobre Yuna. Rio pelo nariz, observando a cena e suspirando.
Me levanto e vou até a cozinha, deixando-os sozinhos na sala.

Me coloco de frente para a janela grande que fica ao lado da pia e apoio minha cabeça nos braços, debruçando sobre a base de metal da janela que dá para a rua e a visão do céu onde a cor laranja se estende no horizonte, nos dando assim a bela vista do fim da tarde de terça-feira. Abro um sorriso satisfeito e solto um longo suspiro, deixando então minha mente ser tomada pelos pensamentos que dessa vez eu permito irem longe.

É muito difícil sentir raiva de alguém que mora na sua mente e coração todos os dias. Existem os momentos de raiva, estresse e ira. Mas o amor sempre vai vencer todas essas três emoções, não importa quanto tempo leve para que isso aconteça.

Taehyung é como uma criança que mesmo bagunçando, irritando, provocando artes e causando confusões com simples detalhes, nunca deixa de ser amada. E é claro que o amor supera um copo de água gelada matinal.

Quando nós conversamos, eu consigo ouvir tudo o que diz com atenção e chega até mesmo a ser difícil desviar meus olhos dos seus. Tudo nele é como um ímã. Seus olhos, seus lábios, os fios finos e tingidos de castanho do seu cabelo. Eu não sei se já parei para dizer isso a mim mesma, mas eu sou apaixonada por Taehyung e sua beleza inexistente. Porque ele parece não existir.

Eu poderia estar apenas tendo uma alucinação, ou um sonho bem longo. Ou será que ainda estou presa no transe da sessão hipnótica que participei aos onze anos de idade? Porque ele parece não existir mesmo.

Nos últimos meses em que Taehyung entrou em minha vida, percebo que o universo esteve do meu lado. Mas o que exatamente ele deseja que eu faça para retribuir isso?

O melhor de tudo, é o quanto Taehyung foi capaz de mudar a maior parte do meu eu que, hoje, não reconheço mais como a Jiya de agora. E pelo menos parte do que eu precisava de mudança, ele veio e mudou.

Enquanto minha própria noite caia, Taehyung se aproximava de mim em silêncio, removendo a minha escuridão para me acordar do sono que eu havia dormido por anos, sem me esforçar para ser desperta do mesmo. E então, ele acabou me deixando com as janelas abertas.
Eu havia perdido o meu caminho novamente... E ele me encontrou. Foi ele quem voou para mim quando essa noite caiu, mesmo eu tendo feito suas asas se molharem.

E mesmo que ainda não admitido em voz alta, eu amo Kim Taehyung.

Eu o amo.

Meus olhos ardem pelo contato repentino com a claridade, já que estavam acostumados ao escuro monótono das noites, o escuro que já estou familiarizado.

Eu quase não tenho sonhos, então minhas noites são como uma sessão de hipnose em que eu entro em transe e fico olhando pro escuro até que meus olhos se abram novamente e eu acordo disposto a ter um novo dia.

Minha mente então me leva a pensar na incrível noite que eu tive ontem com meus amigos. Eu nunca me diverti tanto. Foi insano.

Jogo minhas pernas para o lado e arrasto meu quadril para a ponta do sofá, levanto meu corpo fraco ainda sentindo algumas dores na região das costas, pernas e braços. Devem ser pelos socos que levei de recompensa por ter errado a carta no jogo... Sou um desastre.

Com um pouco de dificuldade, caminho até o banheiro e, ao chegar em frente a pia e encarar meu reflexo bonito no espelho, eu abro a torneira, que passa a jorrar a água gelada. Levo minhas mãos com o líquido refrescante até meu rosto e esfrego, me despertando por completo do sono.
Sem demora, eu troco minhas roupas por roupas limpas e calço meus tênis vermelhos. Olho para os lados e vejo se não falta nada, observando então o papel em cima do sofá em que eu dormia. Coloco-o em meu bolso.

Pego as chaves da porta de casa que pousavam sobre a mesa de centro de vidro e madeira da sala e, em dois minutos, já me encontrava caminhando com pressa em direção à rua quatorze. Pelo menos essa deve ser a rua que me informaram.

Observo que hoje as ruas estão mais vazias que o normal e, mesmo que não seja do meu feitio, isso me deixa um pouco amedrontado por não saber o que exatamente eu encontrarei. Pode-se dizer que eu me encontro num breve estado de choque, meus olhos nunca presenciaram nada igual ao que vi numa noite que não me lembro agora, mas havia sido na mesma rua para a qual estou caminhando agora.

Eu não costumo sentir medo, então por que agora? Qual é, deixe disso... Eles vão entender que eu não tenho dinheiro agora.

Viro a esquina com minha mão suada apertando a barra da camisa branca que trajei com pressa, avistando, então, os “amigos” que estariam lá.

O olhar furioso dele sobre mim me faz olhar para baixo, sentindo a vergonha que eu nunca senti em todos os meus anos de vida, mesmo que não tenham sido mais de vinte.

Uma onda de calafrios que me atinge e  percorre minha espinha arrepia todos os fios do meu braço, até meu último fio dos meus cabelos castanhos. Eu já vi muitas de perto, mas saber que eu posso ter atingido por isso me faz pensar no quanto pagava de durão sem saber que na verdade, eu sou um fracassado. O mais velho torna a levantar parte da sua camisa, mostrando parte de seu abdômen e metade de seu revólver.

— Não tem necessidade disso não, cara... — Tento dizer, mas minha voz sai, infelizmente, mais falha do que eu pensei que meu medo deixaria sair. Eu sabia que deveria ter trazido algo a mais. 

— Você pensa que eu sou uma pessoa que se ilude fácil com desculpas e “Oh, eu pago depois”? Você acha que eu sirvo pra te fazer dar risada? O que eu pareço pra você? Um palhaço, não é?!

Me assusto com sua repentina série de perguntas cujas quase todas as respostas seriam “Não” e, ainda assim, eu mal consigo abrir a boca para responder.

— Eu disponibilizei dois quilos e você prometeu um mês para o meu pagamento. Cadê o meu dinheiro?! — Berra.

Meu coração batuca dentro do peito e eu sinto o vômito querer sair por todos os orifícios do meu corpo, menos pela boca.

— Se não quis pagar com o dinheiro, então pague com a vida miserável que você tem. Daqui adiante, você será só mais um Kim morto por minhas mãos e pode ter certeza que eu vou procurar sua garotinha pra meter a bala nela também.

Curvo minha cabeça e aperto meus olhos, segurando fortemente as lágrimas acumuladas nos olhos.

— H-Hyung... — Minha voz embargada sai mais como alguém que pretende abrir a boca a chorar — Por favo-

Antes que eu pudesse concluir o suplício, o revólver preso no coldre de couro marrom amarrado em sua cintura e perna esquerda já havia sido retirado apressadamente pela grossa mão do rapaz, e todas as minhas forças se esvaem ao prazo atingido do projétil disparado pela arma de fogo apontada para mim, onde a mira é meu peito.

Sinto a bala ser enterrada dentro de mim e tudo o que antes rodeava nos meus pensamentos é apagado por uma borracha invisível mais conhecida como dor.

Sinto minhas pernas perderem todas as forças que as mantinham em pé sobre o chão e eu caio de joelhos no chão, sentindo o impacto me impulsionar para baixo e o sangue começar a jorrar. O choque entre meu corpo e o chão me faz tentar pensar em quantos segundos de vida ainda me restam para que eu leve o desgraçado para a morte junto de mim.

Meus olhos ganham a visão turva e embaçada dos pés calçados de tênis brancos que caminham para longe me deixando para trás, caído no chão e com uma poça de sangue abaixo do meu corpo, saindo dele.
Nenhuma dor se compara à que estou sentindo agora. Minha carne parece ter sido rasgada de dentro para fora, e agora eu sei o significado de estrar entre a vida... e a morte. A morte nunca foi temida por mim.

Mas, não ter medo da morte nunca significou não querer viver.

Permito que uma gota de lágrima caia de meus olhos, e então minha visão começa a se escurecer novamente. Dessa forma eu percebo que mal acordei e já estou de volta ao escuro monótono.

Eu quase não tenho sonhos, então minhas noites são como uma sessão de hipnose em que eu entro em transe e fico encarando o escuro até que meus olhos se abram novamente e agora, infelizmente, não vou mais poder acordar disposto a ter um novo dia.



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