História Wrong - Capítulo 21


Escrita por: ~ e ~TeGuke

Exibições 170
Palavras 5.582
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Romance e Novela
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


AYAOALALAOA9OOOOOOOOOOOOOOKKEOOOOOLOLOLLLLLL
.
EAI GWNTE COMK CEJS TÃO.??? a gente fava mukto ansiosa pra postar isso entao nao vai ter nada aqjk portanto VÃO LER


TCHAU

Capítulo 21 - Serendipty


“Eu tenho a impressão de que você poderia ter acendido o fusível

Que eu estava tentando não acender

Você era um estranho na minha agenda telefônica, que eu estava agindo como se não conhecesse

Porque, apesar de tudo, eu não tinha nada a perder

Quando o inverno está em pleno andamento e meus sonhos simplesmente não estavam se tornando realidade

Eu descobri que você me aqueceu nesse frio congelante e passou a se tornar o meu novo sonho

E esse sonho estava se tornando realidade, transformando meus pensamentos e teorias a cada vez que eu dizia que você não fazia diferença

Mas você fazia e eu não tenho mais tempo de me arrepender de ter dito aquelas palavras.

Portanto, me desculpe.”

 

 

 

 

 

____

 

 

 

Hora da morte, nove e trinta e sete da manhã.

 

Os bipes da máquina que indicava os batimentos cardíacos eram agudos e o barulho emitido a cada vez que a linha subia e descia dessincronizada dava a sensação de caos no ambiente e, como tendo mentes acostumadas à frustração de não conseguir salvar uma vida, os médicos já não tinham mais desespero — e nem esperança — por saber que ali haveria um fracasso e mais uma vida seria perdida porque, acreditavam eles, que o destino desejava que fosse dessa forma. E seu desejo fora realizado. 

A vida já foi perdida e, juntamente com a frequência dos batimentos do coração, o movimento da linha verde na tela do monitor cardíaco já desapareceu e agora apenas uma faixa ereta e fina segue no visor. Ele já morreu.

 

— Desliguem os aparelhos e chame os enfermeiros para informar a morte dele à garota que está o esperando lá fora.

 

— Parece ser uma parente ou namorada dele, doutora. — O cirurgião a corrige com uma calma voz, olhando para o corpo do rapaz de cabelos castanhos em cima da maca. Morto. — Quantos anos de idade? — Indaga de forma curiosa, iniciando ali uma conversa com a médica enquanto termina de desativar todos os aparelhos eletrônicos da sala medicinal de cirurgia, atendendo ao pedido de sua parceira de trabalho.

 

— Leia a ficha que está no papel fixado à pauta, pendurada na cabeceira da maca do rapaz. — Ela informa e aponta seu olhar ao objeto antes citado. O doutor assente e caminha até a folha de papel, tomando-a em suas mãos e passando a ler os dados pessoais do jovem morto.

 

— Vejamos...

 

Ele começa a ler para si mesmo enquanto segura a pauta, usando sua voz para analisar os detalhes da ficha de dados.

 

— Kim Minseok, vinte e quatro anos... e meio. — Lê em voz alta os primeiros dados do paciente falecido. — Quem foi o atirador? — Pergunta pela informação para a doutora enquanto folheia os papéis presos na pauta, que terminava de desconectar o rapaz, agora sem vida, dos aparelhos. O homem anotava no final da ficha o horário da morte do castanho com uma caneta de tinta permanente preta. 

 

Nove e trinta e sete da manhã”

 

— O sobrenome do atirador e traficante é Kwon, fora isso não existem mais informações. Os investigadores conseguiram o sobrenome do atirador porque esse garoto conseguiu soletrar quando ainda tinha seus últimos quinze segundos de vida. Deprimente.

 

— Realmente... — Volta a olhar para a ficha, suspirando. — “Minseok foi morto por um atirador de sobrenome Kwon aos seus vinte e quatro anos. Ele faria aniversário no próximo mês e sua paquera era chamada de Kim HyunMi.” — Ele simula uma reportagem. — O que se esperar de uma alma que dependia das drogas e da mulher do mafioso Kwon para se satisfazer?

 

— Morte, doutor Jeon. Apenas pela morte.

 

 

 

 

___

 

 

 

Um dos traficantes mais poderosos de Seoul matou um jovem comprador do produto que não pagou o valor devido pela compra de dois quilos de cocaína.”

 

— Chato.

 

O jovem de vinte e quatro anos foi morto por um Revólver Colt na manhã de quarta-feira, na cidade de Daegu.”

 

— Chato... — Fico um pouco surpreso por ser justo onde moro, porém continuo passando para os próximos canais procurando por uma programação divertida para assistir enquanto sustento o olhar entediado.

 

Kim Minseok foi levado para o hospital próximo da estrada onde foi baleado, a remoção da bala foi operada pelo doutor Jeon. Infelizmente, o jovem não resistiu e faleceu às nove e trinta e sete da manhã de quarta-feira.”

 

O corpo de Minseok foi encontrado caído no chão da rua quatorze, litros de sangue já se espalhavam pelo chão quando achado pela guarda às nove horas.”

 

Minha mente tenta processar a informação recebida pela voz que sai das caixas de som da televisão enquanto meu coração se assemelha a uma metralhadora dentro do meu peito e o controle escapa de minhas mãos, caindo sobre o chão enquanto estou com a boca aberta num 'O'. Consigo ouvir meu coração batendo dentro do peito de uma forma inexplicavelmente rápida e me encontro perdido em um colapso mental, ponderando entre ligar para Yuna, ligar para Jeongguk ou ficar parado com a boca aberta enquanto minha saliva escorre pelos cantos da boca.

 

 

 

 

 

— Eu estava comprando revistas de maquiagem quando vi e acabei por encontrar isso... eu não sei o que dizer. — Yuna diz baixo, com uma voz exatamente desanimada e arrastada, como se estivesse com sono, e um suspiro sai de sua boca pesadamente. — Jiya está em choque agora, eu diria para dar um tempo, mas ela precisa de você, Taehyung. 

 

Finalmente ergue seu olhar a mim e eu abro um sorriso sem mostrar os dentes, apertando-a em um abraço reconfortante e afagando seus cabelos castanhos. 

 

Eu sei o quanto Yuna deve estar mal com isso, afinal, ela viveu aquilo ao lado da Jiya. Por isso, eu sinto que ela precisa do abraço de um amigo e eu estou aqui para isso. Um sorriso satisfeito toma meus lábios quando ela retribui o aperto.

 

— Pode deixar.

 

Separo nosso abraço e a encaro nos olhos, sustentando o sorriso.

 

— Eu vou estar ao lado dela, não se preocupe. — Bagunço seus cabelos com a minha mão e pisco um olho. Ela sorri de volta e isso, de alguma forma, me faz sentir melhor. Só eu sei o quanto eu odeio ver as pessoas que amo sofrendo.

 

Ao momento em que Yuna se retira e some dentre as portas que dão acesso ao corredor para quem está do lado de fora do prédio da universidade, eu suspiro o ar audivelmente e, enfim, encaminho-me para o interior da sala de aula que contém acima de sua porta de entrada o número nove.

 

Meus olhos percorrem por todo o ambiente escuro e desanimado da sala, buscando pelo olhar de Jiya. Ao encontra-lo, eu passo a andar em passos lentos até ela, que se encontra com suas pernas esticadas abaixo da mesa de madeira escura, sentada de forma relaxada enquanto seu olhar é fixado em um ponto da mesa, onde se faz presente gravado na madeira um desenho de cachorro muito, muito mal feito.

 

E é claro que fui eu quem o fiz.

 

— Ei... — Chamo sua atenção com uma voz calma e em tom baixo, com a intenção de não assusta-la. Ela se desperta dos longínquos pensamentos que deve ter a levado provavelmente a outro mundo, me olhando e, instantaneamente, sorrindo.

 

O sorriso que contorna seus lábios delineados por um tom rosado parece ser de conforto, como se estivesse me dizendo que está satisfeita ao me ver presente e sentado ao seu lado na mesa da sala ainda vazia, onde apenas nós dois ocupamos o espaço. Mesmo não mostrando seus dentes e sendo um sorriso fechado, eu sinto meu coração acelerar e sinto ainda mais forte a necessidade de fazê-la sentir-se bem.

 

— Como você está? — Indago calmamente, enquanto meus dígitos buscam por sua mão apoiada em cima da mesa. Pego suas duas mãos e acaricio as mesmas com meus polegares, a olhando nos olhos a fim de transmitir à Jiya o sentimento de que estou ao seu lado e não sairei tão cedo. Ela me olha nos olhos de volta e suspira.

 

— Normal... — Ela responde. — Apenas... eu estou apenas instável, chocada e sem uma reação adequada ao que ouvi e vi hoje pela manhã. Eu não sei o que dizer. Ou o que fazer. Eu só...

 

— Calma, Jiya... — Sussurro, aproveitando do contato entre nossas mãos e puxando-a sutilmente para um abraço onde ela não hesita em enlaçar minha cintura com seus braços e me apertar, suprindo a necessidade que a castigava por dentro de um abraço verdadeiro. — Eu estou aqui. Eu sempre estive. — Digo, levando agora minha mão direita até seus cabelos morenos, afagando os fios sedosos em uma carícia gostosa e reconfortante.

 

— Eu sei disso... — Ela se pronuncia. Um sorriso contente surge em meus lábios e eu nem mesmo sei o motivo. Jiya me faz sorrir com qualquer ação ou gesto. Essa é a minha explicação para o sentimento que cresce cada dia mais dentro do meu peito e já me fez sorrir, rir, chorar, ficar alegre, triste ou pensativo. O sentimento que eu carrego dentro de mim por onde quer que eu vá, o amor.

 

 

— A pergunta “o que é música?” tem sido alvo de discussão há décadas. — Mayumi começa sua aula, colocando-se de frente para os alunos. — Alguns autores defendem que música é a combinação de sons e silêncios de uma maneira organizada. Vamos explicar com um exemplo...

 

A professora passa a andar em passos curtos e lentos de um lado para o outro da sala durante sua explicação.

 

— Um ruído de rádio emite sons, mas não de uma forma organizada, por isso não é classificado como música. Essa definição parece simples e completa, mas definir música não é algo tão óbvio assim. Podemos classificar um alarme de carro como música? Ele emite sons e silêncios de uma maneira organizada, mas garanto que a maioria das pessoas não chamaria esse som de música. Então, o que é música afinal?

 

Minha mente trabalha com a pergunta de Mayumi, onde eu, silenciosamente, procuro sozinho pela resposta mais direta para a pergunta proferida retoricamente para os alunos da sala nove.

 

— Taehyung, pode me responder?

 

— Uh... — Coço a nuca, um pouco nervoso por ter me tornado o foco dos olhares alheios e então respondo o óbvio para a questão — De uma maneira mais didática e abrangente, a música é composta por melodia, harmonia e ritmo. — Respondo, engulindo em seco ao receber um olhar pensativo da mais velha e um sorriso sarcástico de Jiya, como se estivesse dizendo que estou pagando de inteligente.

 

— Kim Taehyung, o que é música? — Indaga novamente, dessa vez proferindo meu nome e olhando-me nos olhos. Franzo o cenho. — O que realmente significa música para você?

 

— Bom...

 

— Então, Taehyung... — Yuna começa e Jeongguk revira os olhos, olhando para mim. — Por que escolheu a música?

— Uh... — Olho para minhas mãos, umedecendo os lábios. — Quando eu era menor, tinha o sonho de ser mágico. Assistia vídeos de homens vestidos numa capa preta com um chapéu longo de mesma cor sobre o topo da cabeça, eu queria ser igual...

 

— Talvez a música não tenha de todo um significado totalmente correto e definitivo. Ela pode funcionar como um remédio anti-depressivo para pessoas que tentam buscar por ajuda onde não podem encontrar; a música é capaz de ajudá-las. — O olhar de Mayumi e do restante da sala está voltado para mim, prestando toda a atenção ao que falo.

 

— Eu queria mostrar para as pessoas que estavam a minha volta, uma realidade diferente da delas. Na minha cabeça, seria um mundo onde tudo é possível, desde descer ao mais profundo do mar sem se afogar, até subir ao mais alto de uma montanha do Pólo Norte sem se sentir esfaqueado pelos ventos gelados que circulam por lá [...]

 

— É como se a música pudesse funcionar de muitas formas, para muitas e diferentes pessoas. Quando você ouve uma canção composta por um artista que gosta e então pesquisa pela letra, você lê e seu coração pode adotar ou não essa canção como algo que conseguiu resumir a sua situação no momento, independentemente dela ser difícil ou boa. Essa música pode relatar o estado de um rapaz que está enfrentando um problema amoroso, ou alguém que está procurando pelo amor verdadeiro. Para esse coração, música pode significar inspiração.

 

[...] causando a horrível sensação de ter o frio como o inimigo cujo você não tem como se defender e, nesse mundo, você pode fazer seu próprio fogo.

 

— O que eu realmente quero dizer é que, independente do que um livro ou um website defina o que realmente é música, cada pessoa pode dar seu próprio significado para essa palavra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jiya, pela primeira vez, parece estar muito interessada no trabalho que nos foi dado para fazermos. A atividade que faremos é basicamente uma composição baseada na minha resposta à sua pergunta de hoje mais cedo. Jiya escreve várias palavras que não consigo ler nas linhas pretas da folha do caderno e apaga assim que termina a frase, como se nada estivesse bom.

 

— Você quer ajuda?

 

— Não precisa, obrigada — Suspira. Jeongguk olha para trás com uma cara espantada, me encarando.

 

— Ela disse “obrigada”? — Me dirige a pergunta em voz baixa. Jiya finge não ouvir.

 

— Talvez — Respondo com um sorriso divertido nos lábios, seguido de uma risada abafada.

 

— Jeongguk, você sempre teve o hábito de falar das pessoas na cara delas como se fossem invisíveis? — Lee indaga, passando algumas mechas de seu cabelo para trás da orelha. — Você é incrível, sabia? Admiro esse seu talento de disfarce. Me dê um autógrafo. — Sorri.

 

— Claro que dou. — Pega um papel e uma esferográfica, pronto para assinar o autógrafo solicitado quando ouve o suspiro irritado de Jiya e minha gargalhada. — Que foi?

 

— Jeon Jeongguk, você conhece a palavra “sarcasmo”?

 

— Atenção, alunos, à chamada de presença, responda claramente para que eu ouça que está presente ou pode resultar numa falta que prejudicará seu histórico. — Mayumi alerta e eu estico minhas pernas debaixo da mesa, relaxando na cadeira e bocejando ao sentir meus olhos pesando. — Número um, Kim SooNah.

 

— Presente!

 

Continuo encarando o forro de madeira recém-pintada acima de mim como se fosse a coisa mais interessante do mundo. As lâmpadas brilham como se quisessem nos cegar pela intensidade que ilumina a sala onde estudamos e, mesmo não sendo de fato interessante, ajuda a se distrair de tudo a volta e te torna pensativo.

 

Por muito tempo eu pensei que não iria conseguir estar feliz numa sala de aula, mas a presença da pessoa que eu amo ao meu lado me deixaria feliz até mesmo se estivéssemos dentro de um córrego. Ela me faz feliz.

 

Jiya me faz feliz.

 

— Número sete, Kim Yuna.

 

— Presente.

 

E mesmo que tudo tenha sido tão difícil e demorado, valeu a pena esperar tanto tempo para ter seu coração aberto a mim e aos meus sentimentos. Talvez seja correto pensar que as divergências entre nossas opiniões e pensamentos nos aproximou e não tornou ainda mais difícil que nos abríssemos um para o outro. Eu enfrentei duras palavras para descobrir que o amor era capaz de machucar e eu deixei de lado todo o meu orgulho para receber Jiya em meus braços quando ela aceitou e assumiu seus sentimentos que possui por mim. É o que o serendiptismo significa.

 

— Número vinte e um, Lee Kyung.

 

— Ausente.

 

Embora seja uma palavra um pouco estranha e diferente, carrega um significado enorme, extenso e difícil de se discutir. Pode ser interpretada de forma errada quando definida a alguém e muitos levam para o lado do grupo de pessoas que pensam que serendipitia é sinônimo de sorte. Nos dias de hoje, é considerado como uma forma especial de criatividade, ou uma das muitas técnicas de desenvolvimento do potencial criativo de uma pessoa adulta, que alia perseverança, inteligência e senso de observação.

 

Parece muito difícil de entender, é meio óbvio que eu li isso de um site e agora fico pensando no texto como se tudo estivesse explícito.

 

O que eu realmente quero dizer, é que houve o acaso. Como dito anteriormente, eu tive de me machucar para então ter meu sentimento correspondido. Eu sofri por Jiya e agora eu a amo. Basicamente, o amor que sinto é a consequência do sofrimento. Em palavras mais simples, se eu tive meu coração ferido, foi justamente para tê-lo curado pela pessoa que o feriu.

 

E essa é a coisa que eu mais gosto de pensar.

 

É tão complexo e têm tantas formas de explicar que me deixa mais curioso e me deixa com vontade até mesmo de pesquisar sobre o amor. São tantas perguntas que rodeiam na minha cabeça e teorias que eu nunca tive que, repentinamente, fazem-me ficar eletrizado e às vezes constrangido com meus próprios pensamentos.

 

Talvez eu possa só deixar todo esse papo de lado e ter apenas o pensamento de que Jiya é a pessoa com quem quero passar o resto da minha vida, sem “mas”.

 

— Terceira chamada, número vinte e dois, Kim Taehyung. Está ausente?

 

— Eu estou aqui. — Levanto meu braço pela metade, despertando-me das longínquas viagens que fiz apenas pensando em Jiya.

 

— Você é surdo? — A morena pergunta, encarando-me com seus intensos olhos negros e abrindo um sorriso de lado quando eu reviro os olhos.

 

Por que tão linda?

 

— Vinte e quatro, Jeon Jeongguk.

 

— Eu não sou surdo, só estava meio que... eu só estava um pouco longe. — Concluo.

 

— Uh-hum. — Praticamente ignora tudo o que eu digo e guarda sua lapiseira – bem gasta, pelo visto – de volta no seu estojo onde algumas esferográficas, borrachas e marcadores de cores fluorescentes estão tampados e guardados. — Terminei o trabalho.

 

— Posso ler? — Pergunto, praticamente já tomando a folha avulsa em minhas mãos e correndo os olhos pelas letras rabiscadas nas linhas azuis do papel que teve os encaixes dos arames rasgados pela folha ter sido brutalmente arrancada. — “Porque agora não estou mais...”

 

— Taehyung! — Chama minha atenção, pegando sua folha de volta com uma certa irritação e indignação na expressão, parecendo me proibir definitivamente de ler a sua composição para a nota de Mayumi.

 

— “Aberta a me arrepender...” — Repito o que consigo me lembrar que estava escrito antes de Jiya tirar a folha de mim, porém não me recordo de mais nada. Suspiro o ar audivelmente e ela coloca a folha entre duas partes separadas do seu caderno, juntando-as logo em seguida. — Egoísta.

 

— Eu não quero que veja.

 

— Então também não vai ver a minha.

 

— Você nem fez! Ficou olhando pro nada a aula toda e não compôs uma só palavra.

 

— Eu fiz sim, a diferença é que eu terminei bem mais rápido que você. Quantas folhas você fez? Quatro? — Indago Seis?!

 

— Duas! — Exclama, interrompendo-me. Reviro minimamente as minhas órbes e permito meus braços e mãos descansarem por cima das variadas e bagunçadas folhas de papel por cima da mesa. — Eu estou inspirada hoje. Com licença. — Escuto o barulho do banco em atrito com o piso de arenito afastando-se da mesa e logo o espaço que antes fora ocupado, agora está vago.

 

Ao momento em que Jiya passa por mim e se aproxima do meu rosto a fim de apanhar a segunda folha que havia deixado em sua mesa a minha esquerda eu sinto uma espécie de choque, como se nossas cargas fossem opostas e nossos corpos se atraíssem naturalmente.

 

Ela recolhe o objeto esquecido e caminha em passos lentos até a mesa da professora, e mesmo que eu me sinta muito culpado e inconvenientemente idiota, meus olhos se prendem por míseros segundos à região atraente da parte de trás do deu corpo.

 

Aperto fortemente minhas órbes e esfrego com a ponta dos dedos das minhas mãos em mesma intensidade na região dos olhos, balançando a cabeça em negativa e suspirando pesadamente.

 

— Taehyung. — Jeongguk chama, tocando meu braço e me assustando com a fala repentina que invade e interrompe meus insanos e longínquos pensamentos sobre alguns atos que gostaria de colocar em prática.

 

— O que foi? — Franzo o cenho, observando o moreno me encarar preocupado.

 

— Tudo bem com você? Parece que está com dores de cabeça.

 

— E estou. — Não é totalmente mentira. — Essa mulher...

 

— Que mulher? A professora Mayumi? — Sua expressão migra de curiosidade para malícia —... Jiya?

 

— Sim, Lee Jiya. Está me deixando maluco. — Segredo em voz baixa, arrastando minha unha de um lado para o outro numa curta distância pela madeira da mesa em que meus braços estão apoiados, causando pequenos ferimentos na carne em volta do dedo e pequenos pontos de dor e formigamento nas falanges distais.

 

— Você já é maluco por ela faz tempo, não é novidade nenhuma. — Dá de ombros.

 

— Eu sei, mas... eu não sei... — Sopro o ar pela boca e encaro meu dedo indicador com a unha quebrada — Defina “maluco”.

 

— Ora, “maluco” diz-se daquele que perdeu a razão; alienado, doido, louco. Por que está me perguntando isso?

 

Ergo meu olhar para o moreno e me encosto na cadeira.

 

— Ela está me fazendo perder a razão. Entende? Eu estou me sentindo em outro mundo só de estar no mesmo espaço que ela e, — me desencosto novamente, inquieto falando com o garoto que está virado para prestar atenção no que falo — talvez eu já esteja louco de verdade. O que você acha?

 

— Taehyung, você está me perguntando se eu acho que você está louco, ou o quê? — Indaga, denunciando não estar entendendo nada do que digo. Suspiro.

 

— Deixa pra lá...

 

Jiya olha de soslaio em direção a mim, fazendo-me sentir como se meu rosto estivesse em chamas e tão vermelho quanto um tomate e, contudo, desviando seu olhar novamente para a professora que corrige sua canção a qual eu devo ter visto de relance a frase “Porque agora não estou mais disposta a...”  e, por suas expressões faciais, deve estar mesmo muito bem feita. Jiya é uma compositora e cantora como nunca vi, e esse é apenas um dos inúmeros e infinitos mínimos detalhes que eu amo nela e que me fazem amar ela. Cada dia mais.

 

Há alguns dias, Jiya vem provocando mudanças em mim que eu posso classificar como mudanças emocionais, já que eu não sei mais o que significa ter batimentos cardíacos normais e adequados para um ser humano cada vez que ela se aproxima. E o mesmo se aplica a mudanças.... físicas.

 

E eu espero de forma desesperadora que você me entenda e entenda bem o que eu quero dizer com a palavra físicas

 

 

 

“Porque agora não estou mais disposta a me arrepender por nada do que fiz ou falei.

Nós nos tornamos apenas um, inspirados na teoria de colisão estrelar da sua velha...

Então por que nossas mentes precisam trabalhar com o passado?”

 

 

 

 

Lá fora chove forte e o vento balança as árvores, fazendo-as dançar fora de sincronia enquanto as lufadas da brisa gelada e a água da chuva as atinge sem prévia e aviso, as movendo de um lado para o outro e espalhando folhas verdes e folhas secas pelo chão e ar. Papéis e panfletos voam por todo lado, ora grudando e escorregando até o solo pelo vidro da janela, ora tapando a visão das pessoas que caminham sem o auxílio de um guarda-chuva ou capa contra o vento.  Com a chegada do inverno, o tempo passou a se tornar cinza. Eu odeio dias assim. 

São tão tristes e quase não há crianças pelas ruas. Sinto saudades da estação de outono justamente por ver as pessoas passeando com seus filhos na cidade, casais namorado e sendo felizes juntos ou ver até mesmo os cachorros pelos parques. Agora, tudo está calmo, silencioso e sem movimento algum. Aqui ou acolá passam algumas pessoas encolhidas em suas sombrinhas por conta do forte vento acompanhado da chuva barulhenta.

 

— Eu vou morrer de tédio aqui... — Faço uma careta de desgosto.

 

Estou entediado, com cara de entediado e na posição de alguém que está entediado. O queixo apoiado na mão direita, com o lábio inferior um pouco mais a frente e os ombros curvados.

 

— Eu estou quase para ir lá fora e ficar na chuva com a esperança de que um raio me atinja e mate o meu tédio. — Yejun surge por trás das prateleiras de barras de chocolate, limpando as mãos num lenço e jogando o mesmo em cima do balcão.

 

— Não acho que mataria apenas seu tédio. — Comento, soltando um riso desanimado.

 

— Se eu for junto não terá problemas, contanto que eu fique entediado lá no céu.

 

— Só não concordo em fazer isso com você porque ainda tenho sonhos.

 

— Esses sonhos incluem Lee Jiya? — Imita a expressão maliciosa que Jeongguk fez na nossa última conversa, na universidade.

 

— Obviamente. Ela já é meu sonho... — Reviro os olhos, soltando um suspiro apaixonado logo em seguida.

 

— Que brega você é. Se eu fosse ela, já teria te deixado só por conta dessas tuas frases clichês. — Yejun solta uma risada histérica e se senta num banco ao meu lado, atrás do balcão.

 

— Ya, eu não falo essas coisas pra ela. Não desse jeito! — Rebato.

 

— Se falasse ela te deixaria. Certeza! — O agora ruivo confirma, cruzando os braços a frente do peito e as pernas em cima do balcão, se aproveitando da ausência de qualquer freguês.

 

— Vai pra puta que pariu, Yejun. — Profiro a frase, estressado com sua chatice. — Deixa de ser chato. Isso tudo é só porque você não tem namorada.

 

— Não preciso. — Dá de ombros , ignorando minha falta de respeito que eu nem estaria ligando caso ele achasse ruim e se levanta, virando a esquina do corredor da sessão de higiene e indo para a puta que pariu.

 

Volto a encarar a rua, notando que a chuva está dessa vez mais fraca e mais fina. O que será que Jiya está fazendo agora? Deve estar trabalhando...

 

Já passei por lá algumas vezes apenas para vê-la, porém a mesma não me notava ali. É engraçada a forma como ela atende os clientes. Sempre com a mesma cara, não fazendo questão de sorrir gentilmente para eles. Tão única e minha.

 

Me inclino para o lado, tiro o celular de meu bolso traseiro, desbloqueando a tela do mesmo e procurando pelo contato de Jiya. Resolvo mandar uma mensagem para ela apenas para saber como está. Talvez para conversar com ela enquanto ninguém veio me perturbar.

 

— “Estou morrendo. Por favor, salve-me, Jiya!”.

 

Eu realmente estou morrendo nesse supermercado. Não gosto de mandar um “Oi” ou “Olá”, muito menos um “Oi, meu amor” ou “Oi, querida”. É estranho porque nunca sei como começar uma conversa com ela. Jiya odeia essas coisas e eu sei que provavelmente me deixaria sem resposta caso eu enviasse uma mensagem assim para ela.

 

O celular vibra indicando a chegada de uma nova mensagem. Volto rapidamente minha atenção para o aparelho, lendo a mensagem que acaba de chegar. 

 

— “Depois.”

 

— “Você é fria demais comigo.”

 

— “Foi a resposta mais curta que achei. Meu pulso está doendo e está difícil digitar. Me ligue se quiser falar comigo.”

 

Suspiro o ar audivelmente, nunca deixo de ficar nervoso quando sei que vou ouvir a voz dela. É quase automático. Um pouco a esquerda do nome salvo de contato de Jiya na tela do celular, encontra-se mais um ícone, dessa vez com um desenho de telefone na cor branca. Pressionando meu dedo contra esse botão, uma chamada é realizada.

 

Oi — Ouço a voz dela do outro lado da linha, um pouco anasalada e rouca.

 

— Olá. O que aconteceu com a sua voz? 

 

Acabei pegando um resfriado e não fui trabalhar hoje. Meus pulsos doem um pouco e minha cabeça também. — Explica.

 

— Você tomou remédio? Desde que horas está assim? 

 

Não. Não sei

 

— Jiya! Você precisa tomar algum remédio. — Meu tom soa como se eu estivesse dando um sermão e ela pode considerar assim mesmo, pois eu não suporto vê-la doente e já estou inquieto de preocupação.

 

Deixe de drama. — Diz desinteressada.

 

— Eu vou aí agora. 

 

Não precisa, Tae. É sério. E você está no trabalho

 

— Não quer me ver? 

 

Sim, mas você pode vir depois

 

— Você sabe que eu vou agora mesmo assim.  — Estalo a língua e sorrio de lado, andando às pressas para o balcão ao lado a fim de apanhar

 

Odeio você. 

 

— Amo você. 

 

 

 

 

 

“Iremos viver o nosso presente e nos tornarmos necessitados do amor que carregamos dentro do peito

O amor que eu pensava nunca ser capaz de carregar.”

 

 

 

— Suspresa!

 

— Caralho, Kim Taehyung! — Seu grito ecoa em todo o cômodo e ela sobressalta para trás com o susto, tropeçando nos próprios pés e caindo de bunda no carpete vermelho do chão. — Vai dar susto na mãe, filho da puta.

 

— Não vai querer os chocolates? Eu comprei só pra você.

 

— Quero. — Se levanta na velocidade da luz e começa a caminhar até mim conforme eu me distancio, logo ergo meu braço e ela começa a pular para alcançar os doces. — Tae!

 

— Você acusou uma mulher morta de prestar serviços sexuais em troca de dinheiro, não está merecendo chocolate.

 

— Ah, é? — Jiya desiste de tentar pular para pegar o saco plástico de minhas mãos e, antes que eu consiga dizer algo, uma dor insuportável e aguda se alastra nas minhas partes baixas meio segundo após eu receber um chute da morena. A sacola imediatamente vai pro chão e minhas mãos são posicionadas na região do meu membro por cima da calça quase que automaticamente. 

 

— Filha da.... — Minha voz sai falha e eu sinto dificuldade até mesmo de falar, agora foi comprovado que a dor de um chute nas partes íntimas de um homem pode ser mais de cinco vezes mais forte que a de um parto. — Lee Jiya!

 

— Não brinque comigo, eu podia ter chutado mais forte. — Ela pega os doces do chão e se senta no sofá, sendo seguida por mim.

 

— Você não sabe brincar...

 

— Não mesmo.

 

Suas mãos delicadas — diferentemente da sua personalidade. Nossa, muito diferentemente — buscam pela embalagem vermelha que se encontra no fundo do frágil e facilmente “rasgável” saco plástico repleto e preenchido de chocolates de vários tipos. 

 

— Qual o melhor, o chocolate preto ou o branco? — Pergunto com uma enorme curiosidade, desencadeando mais trinta perguntas e questionamentos de coisas e detalhes que eu gostaria de saber sobre Jiya.

 

— Preto. — Responde imediatamente. Seus dentes puxam uma das pontas do plastico vermelho que cobre o roce, rasgando o mesmo sem piedade e emitindo um som irritante conforme ela joga no chão a embalagem vermelha com um rasgo bem feito na parte superior. O chocolate entre seus dedos é colocado na boca e ela mastiga lentamente, tendo seu corpo relaxado e os olhos fechados.

 

— Eu prefiro o branco. É mais gostoso que o preto porque o gosto parece ser mais doce... 

 

— Joga açúcar no preto que fica tudo certo. — Sugere de forma simplista. Ignoro seu comentário irônico, partindo para outra pergunta.

 

— Qual é o seu livro favorito? 

 

— São muitos. Eu gosto de Harry Potter e de If I Stay. E os seus?

 

— É... — Faço uma expressão pensativa e logo ergo a sobrancelha, lembrando-me de uma saga que eu gostei muito de acompanhar. — Wizards and Bitches.

 

— Você não quis dizer Wizards and Witches? — Concordo com a cabeça, dando de ombros — Meu Deus, Kim Taehyung... Se o autor ouvir você confundir os nomes dessa forma vai te classificar o pior fã do mundo.

 

— Não é porque eu sou ruim em inglês que você ganha o direito de me taxar como um péssimo fã, hm? Muitas pessoas amam essa saga e mesmo assim não sabem falar o nome em inglês. 

 

— É impressão minha ou você tá tentando passar a sua burrice pro resto da população mundial? Só você confunde W com B, Taehyung. 

 

— Ah, cala a boca e come o chocolate, você já está começando a me ofender.

 

— Burro pra caralho. 

 

— Tudo bem, eu já sei. Agora come. — Reviro meus olhos com a tentativa da mais nova de me provocar.

 

— Taehyung. — Ela se aproxima de mim repentinamente, obrigando-me a prender a respiração com a quase inexistente distância entre nós. 

 

— O q-que você...

 

— Cala a boca.

 

É tudo o que ela diz. Se levanta do sofá e caminha em direção a cozinha enquanto suas mãos descem a barra da camisa que havia mostrado pouquíssimos centímetros do seu abdômen.

 

Abruptamente, seus pés escorregam no piso úmido de silestone e a lateral de sua cabeça se encontra com a parede forrada por uma cor preto fosco, tendo seu corpo se chocando com o chão.

 

— Jiya! 

 

Incorporando a capacidade de velocidade alta do herói de desenho animado Flash, eu corro até Jiya que já se sentou no chão e está com uma mão no local onde sua cabeça bateu. Uma crise de risos toma conta de mim e eu começo a gargalhar alto, soltando uma risada histérica que ecoa pela cozinha e tentando — desesperadamente — respirar, mas a cada segundo que a tentativa de parar de rir é colocada em prática, mais uma gargalhada se faz presente e então é formada e completa a cena de dois idiotas rindo porque um deles caiu no chão e bateu com a cabeça na parede.

 

Honestamente? Eu não sei o quão mais idiota eu conseguirei ficar estando perto de Lee Jiya.

 

— Taehyung... — Ela se recupera da crise de risos – já que havia sido contagiada pela minha – e eu também me acalmo, então me sento de frente para ela no chão da cozinha, com as pernas cruzadas e as costas curvadas para ter nossos rostos próximos um do outro.

 

— Você é bem mais bonita de perto...

 

— Eu também acho. Digo isso toda vez que me olho no espelho — Sorri de lado.

 

Não sorria assim... É só mais uma forma de me torturar.

 

— Taehyung... — Jiya aumenta nossa proximidade e a frequência dos meus batimentos cardíacos.

 

— Sim?

 

— Eu te amo.

 

 

 

“E não há nenhuma pessoa no mundo ou arma de fogo que possa matar a paixão

Que existe dentro de nós dois.”


Notas Finais


Antes de tudo, visite os nossos perfis e vejam que nós já temos fanfics novas:

Game Over: https://spiritfanfics.com/historia/game-over-6972591 (Isa)

Perdas: https://spiritfanfics.com/historia/perdas-6400571 (Nay)

___
Depois de um mês e meio, chegamos com o capítulo vinte e um aliviando o coração dos leitores que pensaram que a morte no final do cap. anterior era do menino Tae.

Nós somos cruéis, mas não a esse ponto.

Se vocês gostaram do capítulo, por favorzinho, deixem algumas palavras aqui para nos incentivar e mostrar a sua opinião e o que você achou. Eu agradeceria muito!
Obrigada a todos que não desistiram de Wrong, nós amamos vocês e tudo nesse capítulo foi escrito com nossos sentimentos e tudo o que nós vivemos baseado na inspiração que buscamos na música.
Espero que tenha inspirado você também.

Muito obrigada e até o próximo capítulo, tchaaau~~


~Zelda, Nay


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