História You are my perdition - Capítulo 15


Escrita por: ~

Postado
Categorias Once Upon a Time
Personagens Capitão Killian "Gancho" Jones, Emma Swan, Lilith "Lily" Page, Malévola, Mary Margaret Blanchard (Branca de Neve), Regina Mills (Rainha Malvada), Ruby (Chapeuzinho Vermelho)
Tags Once Upon A Time, Romance, Sadomasoquismo, Swan Queen, Swanqueen
Exibições 248
Palavras 4.440
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Orange, Romance e Novela, Violência, Yuri
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Olá, babys. Então... Chegamos ao penúltimo capítulo, é. :(
Antes de deixar vocês lerem eu só queria poder dedicar esse capítulo ao amor da minha vida, minha namoradinha, Adrielle. Mor, te amo muito. (É presente de aniversário, mas veio atrasado)
Bem, agora só aproveitem...

(PS: eu havia postado uns minutos antes, mas houve erros na formatação e eu ajeitei, mas pode ser que não tenha visto algum. Se acharem, por favor, me avisem)

Capítulo 15 - Capítulo 15


 Precisou de alguns minutos para respirar, retocar o batom, lavar as mãos, deixar que a água fria escorresse em seus pulsos. Suas maçãs do rosto ainda estavam coradas quando ela saiu do banheiro, mas ela não queria deixar os dois esperando mais tempo. Não queria que ninguém fizesse perguntas. Felizmente eles estavam profundamente envolvidos em uma conversa quando ela retornou à mesa.

Regina levantou-se para que ela entrasse na cabine, mal olhando para ela, embora tenha estendido o braço sobre seus ombros quando ambas estavam sentadas. A morena inclinou- se para frente, falando com Killian.

 

– Descobri alguns ótimos lugares para ficar quando formos para lá. Uma bela mistura. Há aquele extraordinário espaço sobre o qual me falou um amigo, bem na praia. Apenas  grama  sobre a  areia, realmente  primitivo,  mas eu achei que você não se importaria.

– Não, de jeito nenhum. Você me conhece. Posso dormir em uma cama de pregos se for preciso.

– Dizem que a comida é incrível e que lá tem uma das melhores praias. E, no caminho, podemos parar em São Francisco, no primeiro dia, e depois talvez em Santa Bárbara.

– Gosto de Santa Bárbara. – Killian falou, tomando seu saquê. – Há uma pequena galeria com uma coleção de antigas esculturas eróticas japonesas de marfim e osso. Espere até vê-las. Você vai ficar louca por elas. Onde quer parar em São Francisco?

– Vocês irão para São Francisco? – Emma perguntou, pegando sua comida com os hashis, na tentativa de agir normalmente. Na esperança de evitar que sua cabeça girasse. E de não se lançar sobre o corpo de Regina, ali ao seu lado, simplesmente desistindo de lutar e derretendo-se nela.

– Não. Vamos para a Baixa Califórnia dentro de poucas semanas. São Francisco será apenas uma parada de uma noite.

– Baixa Califórnia? México?

– Sim. – Killian respondeu. – Uma viagem de carro. Temos planejado isso há muito tempo. Finalmente conseguimos uma pausa no trabalho, tenho um período aberto em minha agenda no tribunal. Você já esteve lá?

– Eu... não. – seu estômago deu um nó, que foi ficando cada vez mais apertado.

 

Regina. Em seu carro. Viajando para longe, em direção ao México. Quantos dias na estrada, no carro? Quantas chances de ela sofrer um acidente de novo? Desafiando as probabilidades. Naquele dia, ela se saíra bem. Mas da próxima vez…

Imagens de Lily, seu corpo massacrado. Sua irmã caçula. Ela que teve de ir ao hospital. Sua mãe não tinha condições de enfrentar aquilo. Ela teve de identificar o corpo. Seu pobre e lindo corpo irremediavelmente ferido. Ela jamais conseguiria tirar aquela imagem de sua cabeça. Nem de seu coração.

Seu coração também ficara danificado e sem cura.

De novo não!

Como é que ela podia fazer isso? Não agora. Não quando tinha seu amor. Era tremendamente perigoso. Ela poderia perdê-la.

Você vai perdê-la de qualquer jeito. Na verdade, não ia mesmo ficar com ela. Não agora, que a ama. Porque você não pode amar ninguém.

Ela colocou a mão na cabeça, subitamente dolorida.

 

– Emma? – havia preocupação na voz de Regina. Ela não conseguia nem olhar para a morena. – Você está bem? A comida não está assentando bem?

– Eu estou... Não, eu estou bem. Muito bem.

– Você não parece bem. Dá a impressão de que acabou de ver um fantasma.

 

É porque eu vi mesmo.

Ela afastou a mão da outra quando Regina tentou lhe oferecer um gole de água.

 

– Que tal se eu a levar para casa? Killian, nos encontramos na próxima semana para concluir nossos planos.

– Sim, está bem. Emma, lamento que não esteja se sentindo bem. Foi um prazer. Vamos nos ver de novo, tenho certeza.

–  Sim. Desculpe.

 

Ela balançou a cabeça. Não sabia o que dizer.

Calada, seguiu Regina pelo restaurante, pegou seu casaco, jogando-o sobre os ombros. Não disse uma só palavra enquanto cruzavam a rua nem quando a morena a conduziu ao banco do passageiro de seu próprio carro. Regina estava cortês como sempre, preocupada, o que fez seu coração doer mais ainda.

A chuva começou quando elas saíram pela rua. Batia forte contra as janelas.

 

– Você vai ficar bem?

 

  Ela assentiu com a cabeça.

 

– Sim. Com certeza.

 

Não podia olhar para ela. Não podia suportar aquela onda de emoção sempre que a via. Mal podia respirar porque isso a faria mergulhar no perfume de Regina. Mas, obviamente, tinha de respirar. No carro estava espalhando-se aquele cheiro de floresta e oceano. Doce e feminino e terreno e Regina.

Ah, meu Deus!

Não queria pensar nisso até que estivesse em casa, sozinha. Não podia fazer isso diante da outra. Porque, se fizesse, teria de admitir o motivo.

Impossível.

Mordeu o lábio, apertou os dedos até que as unhas se enterrassem em suas palmas, forte e ferindo o suficiente para distraí-la.

Ela ficou olhando em frente, deixando que sua visão ficasse embaçada, até que a chuva e as luzes das ruas se misturassem completamente em um tipo de mancha aquarelada. Regina se aproximou e tentou pegar sua mão, porém ela a evitou, fingindo que precisava pegar algo na bolsa, limpou a garganta.

Surpreendentemente, a morena não tentou mais falar com ela, nem fez nenhuma pergunta. Enfim, fez uma manobra alguns prédios depois do apartamento dela e estacionou. Ela começou a abrir a porta, mas Regina segurou seu braço.

 

– Olhe só, Emma. Você vai me dizer agora o que está acontecendo. – A voz firme, autoritária. Obviamente, sabia que algo estava errado e que ela não estava se sentindo mal.

– Regina...

– Não, Emma.Conte-me.

– Não posso. 

– Ao menos pode olhar para mim?

 

Emma balançou a cabeça, olhando para frente.

 

– Não.

– Vai ser outra cena, como aquela em que você se recusou a me contar sobre sua mãe?

– Não haverá cena nenhuma. E, por favor, não mencione minha mãe agora. Não é justo.

– Por que não? Não vou saber, a menos que você me conte, Emma. Que diabos é isso? Eu disse algo que a ofendeu? E Killian?

 

Emma riu um pouco, um riso curto e cortante que feriu sua garganta ao sair.

 

– Não. Você não me ofendeu, Regina. Posso ir agora?

– Não, de jeito nenhum. A menos que eu suba com você. E pressinto que isso não vai acontecer.

– Não, não vai.  – disse baixinho. – Terei de pedir um táxi para levá-la em casa. Pode me dar minhas chaves?

– Porra, Emma! – as estendeu e ela tremeu ao sentir o calor dos dedos da outra quando pressionou as chaves em sua mão.

 

Regina ficou quieta por um instante, mas ela podia ouvir sua respiração em meio ao tamborilar da chuva no teto do carro. Ela queria sair do carro, correr, mas não tinha bastante fôlego nem força para se mover.

Talvez porque você saiba que é isso. A última vez que vai vê-la.

Um soluço escapou... assim, de repente, inesperadamente. Ela não teve nem tempo para tentar engolir.

 

– Jesus, Emma!

 

Regina a puxou para seus braços – seu braço bom, pelo menos –, mas ela resistiu, afastando-o o mais que podia.

 

– Pare, Regina. Pare! Agora não se trata de seu trabalho. Não é uma cena de submissão e sadomasoquismo. Você não é a dominante.

– O quê? Não pensei que fosse, neste momento. Trata-se, apenas, de nós.

 

Ela, então, olhou para Regina, viu o choque em seu rosto. E uma ponta de pura raiva.

 

– Não,  não  é, Regina.  Não  existe  essa  coisa  de “nós”. Tenho de ir. Por favor, deixe-me ir.

– E não vai me dizer por quê?

– Por quê? Porque você não é o tipo de mulher de relacionamentos, Regina. E eu também não sou o tipo de garota que tem relacionamentos. O que torna isso impossível, de cara. Mas agora… é mais impossível do que nunca. E eu não posso fazer isso.

Lágrimas escorriam por seu rosto. Ela nem se preocupava em secá-las. Era tarde demais para isso. Tarde demais para tudo.

 

– Emma, é disso que se trata, do estado de nosso relacionamento? Olhe, temos de falar sobre isso.

– Chega de conversa.– ela disse em voz baixa, a garganta apertada.  Estrangulando-a.

 

Os  olhos  marrons  estavam cintilando.  Parecia  atordoada. Bem do jeito como Emma se sentia. Era doloroso vê-la assim.

Ela virou-se. Abriu a porta. Parou um instante; o suficiente para descer, os pés batendo no chão molhado.

Desceu a rua o mais rápido que pôde em suas botas de salto alto, indo na direção de seu prédio. A chuva encharcou seus cabelos em poucos segundos, escorrendo pela gola do casaco.

Regina  não  veio  atrás, senão ela  teria  ouvido  a  batida da porta do carro e o barulho de seus passos.

Venha atrás de mim, maldição! Não venha atrás de mim.

Maldição!

 

 

Passaram-se três ou quatro dias. Emma perdeu a noção. Ficou dormindo a maior parte do tempo, acordando para fazer uma caneca de chá, uma torrada; depois voltava para a cama, aninhava-se embaixo das cobertas, umas mantas a mais, empilhadas. Entretanto, não conseguia se esquentar, não importava o que fizesse.

Não tinha lido nenhum livro nem visto televisão ou falado com alguém ao telefone. E, certamente, não trabalhara... Estava sem escrever uma só palavra. Não conseguia cair em si nem ficar fora de si. E falar sobre aquilo com alguém, até mesmo com Ruby... Era impossível dizer as palavras em voz alta.

Sentou-se na cama enrolada no edredom branco, os travesseiros empilhados em torno dela, como uma fortaleza macia. Havia uma caneca de chá na mesa de cabeceira, uma caixa de lenços de papel. E uma pilha deles amassados e amontoados no chão como flocos de neve.

Ela havia aberto as cortinas naquela primeira noite e nem se incomodara em fechá-las. Tinha ficado olhando o céu, enquanto este passava do negro profundo da meia-noite à névoa da cor do arco-íris da manhã, e desta ao cinza pálido do meio-dia. Mas sempre havia sombras escuras no céu, exatamente como ela se sentia interiormente. Escura e parcialmente entorpecida, quando não estava dormindo ou chorando como um bebê.

Os piores momentos eram aqueles em que os soluços saíam em golfadas, agoniando-a, ferindo sua garganta, até que ela era obrigada a envolver seu corpo com os braços, tratando de manter-se fisicamente íntegra. Ela nunca deveria ter deixado aquilo ir tão longe. Estava muito envergonhada. Desgostosa com sua própria fraqueza. Era tão… óbvio. Tão literal. Tão horrível. Mas continuou acontecendo, muitas e muitas vezes, como se nunca fosse suficiente. Ela parecia não conseguir se esvaziar do luto.

Pensava em Regina continuamente. Suas mãos delicadas e fortes, sua bela face feminina. O contraste de sua rudeza com a gentileza que lhe destinava. Sua risada, sempre tingida com uma ponta de maldade. Seu perfume.

Ela jurava que ainda podia senti-la por todo o apartamento. Em sua própria pele. Como algo que se integrara profundamente à sua cama, suas paredes, seu corpo e jamais iria embora. Talvez ela pensasse que era verdade.

Quem sabe ela realmente estivesse perdendo a cabeça.

Quase desejava que pudesse enlouquecer. Talvez assim não fosse devastada pela dor em cada momento em que permanecia acordada, seu peito se contorcendo como um nó apertado que não parecia se desatar.

Dormir  não  era  muito  melhor.  Sonhava continuamente com a morena. Sonhos eróticos em que ela a tocava, beijava, espancava. Sonhos terríveis em que estavam discutindo ou em que ela a segurava e gritava que era louca e que iria deixá-la. Ou, pior ainda, sonhos em que alguém sem face chegava a ela para dizer que Regina estava morta, em que ela via seu corpo inerte e pálido, exatamente como vira o de sua irmã.

Ela não sabia o que era pior: acordar desejando-a ou chorar porque ela havia ido embora. De qualquer forma, sentia-se absolutamente à deriva. Perdida. Abandonada, mesmo tendo sido ela a deixá-la.

Iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Fosse como fosse, Regina a deixaria. E ela não poderia aguentar isso. Melhor acabar logo com tudo.

Para viver o luto ao perdê-la e encerrar a coisa toda, porque, quanto mais longe fosse, quanto mais a amasse, mais havia de se machucar.

Pegou o telefone dezenas de vezes para ligar-lhe, mas recolocou no gancho em seguida. O que havia para dizer? Nenhum das duas ficou diferente apenas porque ela a amava. Não, isso era mentira. Ela era diferente. Estava em frangalhos. Fora de controle. Chorona. Paralisada como não se sentia desde que perdera Lily. E, mesmo naquela ocasião, ela agira, mesmo que de algum jeito mínimo, porque era obrigada, pelo bem de sua mãe. Alguém tinha de ajeitar as coisas.

Mas desta vez não. Não havia ninguém para cuidar, exceto ela mesma.

 

 

Regina já havia admitido isso para si mesma? Adiantava que jamais tivesse contado a ninguém?

Mas ela queria contar a alguém. Queria dizer a ela. A Emma. Se ao menos não tivesse estragado tudo com aquele tipo “Senhora Antirrelacionamento”. Ela sempre pensou que estava sendo simplesmente honesta com as mulheres com quem se encontrava. Gostava de manter a porta de saída sempre aberta. Mas nada mais era do que um recurso defensivo. Assim se mantinha à distância. E agora encontrara alguém de quem queria ficar bem perto... Mas como é que Emma seria capaz de confiar em seus sentimentos depois das coisas que ela mesma lhe dissera?

Ela mal confiava em seus sentimentos por Emma e sentia como se houvesse uma faca em seu peito: aquela intensidade, aquela sensação cortante, profunda.

A amava.

Emma.

Imaginou seu rosto, aquelas maçãs altas, arredondadas, aquela boca lasciva, seus imensos olhos verdes, tão claros como se fossem puro oceano. Aqueles cabelos como raios de sol emoldurando sua face, selvagens e com um perfume tão bom que ela sentia vontade de saboreá-los, tocar aquelas ondas sedosas com a língua. E um corpo fluido, flexível pecado.

Reagia como uma submissa natural. Mas sob a superfície era puro fogo, muita inteligência, com um toque de raiva persistente para desafiá-la de um jeito como ela jamais fora desafiada antes.

Não queria nunca mais sentir aquilo de novo. Não com outra pessoa. Era só com ela.

Emma.

Queria entrar em seu carro e sair sem rumo diante daquela percepção. Daquela verdade. Sentia-se atordoada por ela. Assombrada. Mas a chuva estava muito forte lá fora. E seu carro não resolveria nada, por mais longo que fosse o passeio.

Ela a amava.

Seu coração martelava. De amor. Com um medo estranho, agudo. E ela percebeu, subitamente, que tinha sentido exatamente medo e por isso passara sua vida inteira correndo. Que, por causa do amor, tinha tido de mudar suas ideias sobre o próprio amor, as ideias que aprendera com seu pai, que ela tanto adorava. Talvez demasiadamente, percebia agora. Teve de tirar o pai do pedestal onde o colocara desde que era uma criança. Um pedestal que foi ficando cada vez mais alto, desde que seu pai morreu, até se transformar em uma espécie de imponente e irreal monumento.

Depois que seus pais se divorciaram, seu pai permaneceu sozinho pelo resto da vida. Ficou concentrado no trabalho, excluindo tudo mais, exceto o tempo que passava com a filha. E Regina percebia, agora, que esse tipo de comportamento devia ter sido a causa do fim do casamento.

Tinha sido um bom pai. Ele a levou a algumas de suas primeiras viagens, a sítios arqueológicos amadores no México e também para estudar os vulcões no Havaí. Mas, ao contrário de Regina, o homem jamais  havia amado  realmente alguém. Seu amor era devotado exclusivamente à ciência pura. Tinha dito muitas vezes que precisava apenas de sua filha e de sua ciência e que nada mais lhe importava. Regina precisou de trinta e seis anos para perceber que havia algo errado com aquilo.

Só porque seu pai vivera sem amor não significava que isso fosse o ideal ou mesmo o desejável. Tinha de admitir pela primeira vez que seu pai, mesmo brilhante como era, não sabia tudo.

Essa percepção foi como um chute no estômago. Forte e doloroso. Mas, afinal, era a verdade.

Seu pai nunca soube que o amor também era importante. E Regina, apesar de todas as suas buscas espirituais, nunca havia questionado a aleatoriedade do universo que seu pai tanto pregava. As viagens de Regina em missões para o Nepal, a Tailândia e por toda a Europa nada haviam lhe ensinado no final das contas. Nada do que era realmente importante. Tinham feito com que ela se enchesse do falso orgulho de ter realizado todas aquelas coisas extraordinárias, dedicadas à abertura de sua visão. Suas idas ao Tibete, à Índia e a Israel, aos centros espirituais do mundo. Procurou aquelas intensas e iluminadoras experiências: excursões ao Himalaia ou mergulhos com tubarões próximos dos recifes, encarando a morte por algum estranho tipo de necessidade de provar que a aleatoriedade do universo não a venceria, tal como ocorrera com seu pai. Mas ela jamais chegara à raiz da autoconsciência. Agora, subitamente, percebia, e com dolorosa clareza, que a verdadeira raiz era o amor.

Ela amava Emma Swan. Tinha de contar a ela.

Sua cabeça estava girando, repleta de revelações, quando pegou suas chaves e saiu na chuva.

 

 

O telefone de Emma tocou. Ela olhou e viu que as luzes de chamada estavam acesas. Seu coração disparou, a respiração ficou suspensa: queria – desejava – que fosse Regina.

Mas o nome que aparecia no mostrador do aparelho era o de Ruby. Naquele momento não conseguia se lembrar por que evitara ligar-lhe. E percebeu que tinha de falar com sua melhor amiga.

Precisava.

Apertou o botão com o polegar, aceitando a chamada.

 

– Ruby, graças a Deus é você! Não sabia que precisava... precisava de você até você ligar, agora mesmo. Quero dizer... Deixei uma mensagem ridícula na outra noite...

– Mensagem? Não recebi nenhuma mensagem sua, Emma. Nada sei a seu respeito há dias. Você está bem? O que está acontecendo? Você parece muito mal.

 

Emma engoliu um soluço.

 

– Estou muito mal.

– Conte o que foi que houve.

– Eu a deixei. Não que houvesse realmente uma razão para isso. Jamais falamos a respeito. Não demos um nome para a coisa. Mas eu... eu saí do carro na outra noite e simplesmente... terminei com ela.

– Você não está mais vendo a Regina? É isso que está querendo dizer?

 

Ela sentiu uma dor aguda ao ouvir o nome dela.

 

– Sim. Não, não estou mais. Nunca mais.

 

Sua amiga ficou quieta do outro lado da linha.

 

– Você tem certeza, querida? Porque não parece convencida disso.

– Sim, estou certa. É para o bem... – lágrimas escorriam sobre sua face, sufocando-a de tal maneira que ela mal conseguia falar. – É isso.

– Lamento, Emma.

 

Ela assoou o nariz, secou os olhos, porém mais lágrimas surgiam tão logo acabava de passar o lenço.

 

– Desculpe... Eu estou tão confusa. Não acredito que estou desse jeito. Chorando que nem uma criancinha.

– Isso é normal depois de um rompimento. Não que eu queira dizer com isso que você não era normal antes.

– Ah... eu não era. Sei disso. Mas é que isso é muito diferente para mim. Não sou eu.

– Talvez seja agora. E não é uma coisa ruim. Sentir faz bem, querida. Você não pode manter tudo trancado em seu interior a vida inteira.

– Tinha funcionado muito bem até agora.

 

Ruby fez uma pausa e depois perguntou baixinho:

 

– É mesmo? De verdade?

 

Emma soluçou.

 

– Talvez. Não sei. Deus… Talvez não. Porque até conhecer  você,  há  alguns   anos,  eu   sequer  tinha  tido verdadeiros amigos. Nem mesmo quando era criança. Estava ocupada demais tomando conta de minha mãe e da minha irmã. E muito envergonhada por causa de Mary Margaret. Minha situação. Depois eu conheci você e… Como foi triste esperar tanto tempo para ter uma amiga, não é? E mesmo agora eu só tenho você. Isso nunca tinha sido um problema até agora. Nunca percebi que precisava... de alguém.

– Você tem outros amigos escritores. Você me conheceu, e também E. F. e Anna, no mesmo congresso do qual todos participamos.

– Não foi a mesma coisa com elas. Não ficamos tão amigas.

– Acho que elas gostariam, se você permitisse. Eu sei que elas apreciariam. E, Emma, o fato de ter pessoas em sua vida agora é diferente, como você mesma disse. Demonstra que você quer isso. Revela mudança. Crescimento. Não fique presa ao passado. Concentre-se no que está acontecendo agora. Na pessoa em que você se transformou.

– Já nem sei mais quem eu sou. Não sou essa pessoa fraca...

– Por que acha que seja fraca?

– Porque... porque eu me deixei apaixonar por ela.

 

As lágrimas viraram profundos soluços, que ela só conseguiu engolir alguns instantes depois.

Ruby falou delicadamente:

 

– Emma, não sei como você conseguiu ir tão longe em sua carreira de escritora falando sobre relacionamentos e sexo e mesmo assim acredite que amar alguém é um sinal de fraqueza. Simplesmente é algo que fazemos. Faz parte da condição humana. O amor não é algo que você possa controlar. Já deveria saber disso.

– Eu sei. E é por isso que é tão terrível para mim.

– Bem-vinda ao gênero humano, querida. – Ruby disse, mas não havia sarcasmo em sua voz, apenas preocupação.

– Deus do céu... Sou tão patética.

– Não é. Só está amando.

 

Emma balançou a cabeça. Era inteiramente diferente ouvir alguém mais dizer aquilo. Tornava a coisa mais verdadeira.

 

– Eu também estou... morta de medo. Ruby, ela teve um acidente com o carro. Nada grave, mas foi para o pronto-socorro, e isso me derrubou. Quero dizer que, de fato, confundiu minha cabeça. E naquela mesma noite ela me contou que está indo para uma longa viagem de carro rumo à Baixa Califórnia... Não consigo lidar com isso. Não posso enfrentar uma coisa que me deixa tão apavorada.

– Por Deus, eu lamento. Deve ter sido horrível para você.

– Foi muito mais que horrível. Ruby, o que vou fazer agora?

– Tem certeza de que vocês dois não podem resolver isso?

– Sim, tenho. Se ela quisesse, teria entrado em contato, mas não fez nada. E não espero que venha a fazer.

– As mulheres, às vezes, são teimosas. Têm todo aquela manha e aquele ego feminino.

– Mas... se ela  sentisse a mesma  coisa que eu  não  iria deixar a coisa ficar assim e... Deus do céu... isso é tão estúpido. Eu sou tão idiota. Eu a amo e mesmo assim fui embora. Sem lhe dar a menor chance. Porque estou muito apavorada.

– O medo pode ser uma coisa poderosa. Mas você não pode deixar que ele a domine, Emma.

 

Ela concordou com a cabeça, soluçando.

 

– E, de fato, dominou. Por toda a minha vida. A necessidade de controle tem tudo a ver com o medo. Se eu não cuidasse de tudo, quem cuidaria?

– Talvez você precise dar a ela a oportunidade de fazer isso. E, por causa daquele ego feminino e dominante ao qual me referi, é possível que você tenha de dar o primeiro passo para dizer a ela como se sente. Se você a ama, vale a pena correr o risco, não é mesmo?

 

Emma precisou de alguns instantes para absorver o que Ruby estava dizendo. Mas, bem lá no fundo, sentia que era verdade.

 

– Você tem razão. Tenho sido muito teimosa. Presa a essas velhas concepções apenas porque eram familiares. Recusando-me a aceitar que minha vida mudou. Como eu simplesmente mudei. Como ela me mudou… Preciso falar com ela. Preciso mostrar a ela. Preciso correr o risco de que ela me rejeite totalmente. De que ela vá embora. E na certa vai, especialmente depois da forma como eu a abandonei na outra noite. Mas tenho de fazer isso. É melhor do  que  ficar aqui sentada, sentindo  pena  de  mim.  Já me entreguei suficientemente a isso nos últimos dias, e isso valeu para o resto de minha vida. Já está bem na hora de parar de deixar que o medo controle tudo.

– Bom para você, Emma. Você vai conseguir. E eu estou aqui, não importa o que aconteça. Se você precisar que eu tome um avião e vá até aí, eu irei. Seja para celebrar ou ajudá-la a superar isso. Não importa. Apenas me avise.

– Obrigada, Ruby. Você é uma mulher muito sábia.

– Provavelmente não. Mas sou uma autora de romances. Presume-se que deva saber sobre amor. Da mesma forma que você. Já é hora de você ter sua própria experiência a respeito. Você merece e sabe disso.

– Vou levantar, me recompor e sair para encontrá-la. Sei o que devo fazer.

– Ótimo. Ligue para me dizer como foi. E... Emma? Você vai ficar bem, de qualquer forma.

– Talvez. Honestamente, não acho que possa ficar bem sem Regina. Mas tenho de tentar para ver o que acontece. Obrigada, Ruby.

 

Elas desligaram, e Emma deu um pulo e foi até o banheiro, abriu o chuveiro, deixando fluir aquele jato de água quente. Entrou e saiu o mais rápido que pôde.

Olhou seu reflexo no espelho enquanto se secava com uma daquelas toalhas brancas tão macias. Parecia pálida, e havia círculos escuros sob seus olhos avermelhados  de tanto chorar. Parecia horrível. Mas não havia tempo para fazer muita coisa a respeito. Estava com medo de que, se esperasse muito, mesmo  só o  suficiente  para  se  maquiar, perdesse a coragem. E, se Regina ainda a quisesse, teria de tê- la tal como era.

Ela ainda estava lutando. Mas parou de resistir ao inevitável. A luta foi canalizada para fazer alguma coisa acontecer em vez de teimar em fugir. E parecia uma coisa boa. Ela se sentiu mais forte do que de costume. Talvez mais forte do que nunca!

Penteou os cabelos, deixando que secassem livremente, e foi até o quarto para vestir um par de calças jeans, botas e uma malha macia de caxemira, colocando um lenço em volta do pescoço para se proteger do frio e da umidade.

Pegou seu casaco de couro, sua carteira e as chaves. Seu pulso estava acelerado. Com ansiedade. Com medo. Com a absoluta necessidade de dizer a Regina que a amava.

Ela poderia ou não amá-la. E não havia nada que ela pudesse fazer a respeito.

Mesmo assim, tinha de fazer aquilo.

Pegou o grande elevador do antigo armazém para descer, e o trajeto pareceu demorar uma eternidade, as engrenagens se movimentando, o velho ruído metálico. Ela já podia sentir o cheiro das calçadas molhadas e do mofo espalhado  sobre o concreto e as antigas madeiras do próprio prédio. Os aromas da passagem do tempo, da história.

Ela havia deixado passar muito de sua vida sem realmente apreciar tudo. Tinha se preocupado em correr, ignorando a história, as pessoas, a vida.

Acabou. Sua vida começava agora. Boa ou ruim.

O elevador chegou ao térreo e, com o coração martelando na garganta, esperou que as portas se abrissem. O que finalmente aconteceu, e ela se precipitou em direção à larga porta de entrada, que tratou de abrir para chegar à rua. Para o que quer que a vida lhe reservasse. Não estava mais fugindo. Não, estava indo diretamente no rumo que a vida lhe reservara.


Notas Finais


Wow. Diferente dos outros, não é? Agora eu só quero saber o que vocês acharam e o que esperam do último capítulo.
Volto assim que puder com o final dessa história. <3
No mais, me encontrem no twitter: @parrillamader_


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