História Youkai - Capítulo 19


Escrita por: ~

Postado
Categorias Inuyasha
Exibições 115
Palavras 9.580
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Fantasia, Festa, Hentai, Luta, Magia, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Shounen, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


დ Olá, minna-san!!

დ Primeiro de tudo, quero pedir desculpas pela demora, MAS estava editando o visual dos capítulos, cm vão notar nesse. Não sou do tipo que muda uma coisa num capítulo só e deixa os outros cm estão. Odeio essa desordem u-u

დ Espero que curtam, mesmo que eu sei que vocês vão querer me matar - ou matar o Sesshy - depois desse capítulo uhauhauhauahuah

დ Enfim, boa leitura ^^

Capítulo 19 - Capítulo XIX


. . .

Capítulo XIX

Nada Seria Diferente

ϾϿ

“O príncipe das trevas é um cavalheiro.”

. . .

 

Sengoku Jidai

1467 —— 1573

.

Kagome arqueou a sobrancelha para o houshi, ouvindo as risadas de Sango e Shippou ecoarem logo ao lado. Enquanto a taijiya tentava cobrir os lábios para evitar soar estrondosa, o pequeno kitsune, em contrapartida, não se importava em rolar pelo chão de terra, gargalhando como se o mundo fosse acabar.

—— Que merda é essa Miroku? Desse jeito eu nunca vou adivinhar! —— O hanyou cruzou os braços sobre o peito, indignado com a incapacidade do amigo de tentar transmitir uma ideia por meio de gestos.

Kagome dera a ideia de brincarem de mímica para passar o tempo. Já era noite, e a fogueira estava enorme e os esquentava daquele vento fresco do anoitecer. Sem nada melhor para fazer além de esperar a noite passar para seguirem viagem, pensou que, pelo menos uma vez, poderia deixar aquela pausa um pouco mais divertida.

Formaram duplas, meninas contra meninos, e cada um tinha que fazer a outra pessoa da dupla adivinhar o que ele, ou ela, estava pensando.

—— Você é idiota, Inuyasha? É claro que é um coelho! —— O hanyou e a miko, franziram o cenho.

—— Um coelho com ataque de tremedeira? —— A pergunta de Inuyasha fez Sango voltar a gargalhar com força, a ponto de lacrimejar e abraçar o próprio estômago.

—— Eu achei que você estava tentando imitar uma flor... Sendo carregada pelo vento!

O houshi olhou para a miko, com uma expressão enfezada na face, ainda mais quando a viu mover os braços em ondas.

—— Sério... Vocês são péssimos nessa brincadeira!

—— Você que é péssimo! —— Ralharam os dois ao mesmo tempo, enquanto as risadas da taijiya e do kitsune reverberavam pela floresta.

Miroku voltou a se sentar, puxando uma das vasilhas com chá e bebendo um gole.

—— Você não é a próxima, Kagome?

—— Ah? Não quero mais brincar... Miroku-sama tirou toda minha motivação.

—— Com aquele coelho esquisito! —— E a taijiya voltou a gargalhar, para desespero interno do houshi.

—— Sério... Vocês são amigos terríveis. —— A miko o olhou, sorrindo.

Shippou se ergueu do chão, limpando as lágrimas nos olhos e tendo suas costas acarinhadas pela bakeneko, como se ela quisesse ergue-lo do chão.

—— O quê? Como assim? Somos ótimos amigos ‘pra você. —— Ela lhe apontou um dedo, fingindo choque. —— Você com esses costumes esquisitos e sua mania pervertida, não deveria ser exigente!

—— Nisso eu concordo!

—— Ah! Agora você parou de rir? —— Sango riu, dando de ombros.

Shippou se aproximou de Kagome e logo teve a atenção da miko. A morena lhe sorriu e lhe puxou para seu colo, abraçando-o com força como uma criança que aperta seu urso de pelúcia num ataque de fofura ou carência.

—— A verdade, Houshi-sama! Onde mais você encontraria pessoas que aguentem essa sua personalidade?

—— Agora você está sendo cruel! —— Ele choramingou, e a taijiya riu, quase sadicamente.

—— Qual é... Sabe que é verdade, Miroku! —— Inuyasha murmurou, num tom jocoso. —— Se não fôssemos nós, com quem você estaria agora?

O houshi se calou, e os cinco pares de olhos, contando os de Kirara, estavam fixos no homem sério e emburrado, sentado sobre um toco de madeira.

Ele virou o rosto, inconformado, e uma risada foi abafada.

—— Provavelmente com o Hachi... E talvez... Algumas mulheres?! —— Uma veia estourou na testa da taijiya, mas ela nada disse.

—— Vamos lá... Tirando sua mão amaldiçoada e seu papo furado e nada confiável, o Miroku-sama tem algumas qualidades.

—— Obrigado Kagome-sama. —— Ele sorriu agradecido, olhando para a amiga com brilho nos olhos em expectativa.

—— É mesmo? —— Sango a olhou, ao seu lado, com um arquear sugestivo e travesso.

—— Diz aí, então. —— Inuyasha fez um movimento brusco com a cabeça, vendo-a rolar os olhos, erguendo um dedo em frente ao corpo e fechando as pálpebras.

—— Ele é forte, corajoso e... —— Ela se calou, engolindo a própria língua. Abriu os olhos, olhando para a mata ao redor deles, depois para o chão. Shippou ergueu a cabeça para ela, vendo que a adolescente demorava a responder. —— Desculpe, comecei achando que tinham três coisas...

Os três riram, enquanto Miroku fechava a expressão, desolado ao ter perdido até mesmo o apoio daquela que ele achou que o defenderia.

.

Tóquio

10:13

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Ela invadiu a sala com uma calma absurda.

Ao contemplar a cena que corria no cômodo logo à frente, seu cenho se franziu em confusão e incredulidade. Não podia estar vendo aquilo, podia? Quer dizer... Sério mesmo?

—— Vocês estão brincando de twister... —— Não fora uma pergunta.

Quando Daichi, que girava um tipo de roleta num pedaço de papelão branco, ergueu o rosto e sorriu, sentado no sofá, ela soube que não estava tendo uma alucinação graças aquele chá esquisito que Rei a deu naquela manhã, para “limpar sua aura”, e afastar o mau carma que a seguia desde a morte de seu avô.

A ruiva ficava tirando coisas de cima de sua cabeça como se fossem mosquitos, e como se realmente tivesse algo ali. Era assustador o tanto quanto irritante. Teve de espalmar a mão dela umas poucas dúzias de vezes, até a outra ver que Kagome queria continuar com a “aura suja”.

—— Sim! Maiko achou no sótão. —— Logo seus olhos dourados correram para o grupo de Inu-youkais, empoleirados um sobre os outros, em poses que iam desde dolorosas a cômicas. Todos parecendo bem esforçados em não caírem sobre o enorme plástico branco cheio de bolas coloridas. —— Yasuhiko, sua vez! —— Apontou, depois girou o ponteiro vermelho no pedaço de papel em suas mãos, num único toque do dedo. —— Pé direito, vermelho!

O Inu-youkai o lançou um olhar enfezado. Com as mãos e pernas apoiadas no chão, tinha Hanako à suas costas, de pé, e Kumi de quatro ao seu lado.

—— Poderíamos ter jogado monopólio... Mas nããããão! —— Resmungou alongando a última palavra, com um falso sorriso nos lábios. Ergueu a perna direita e a pôs sobre a esquerda, ficando-a com ela cruzada e numa posição tanto desconfortável quanto engraçada.

A Higurashi, de repente, quis tirar uma foto daquilo e colar no Mural da Vergonha.

—— Quer entrar Kagome? —— A miko arqueou as sobrancelhas, logo sorrindo da forma que dizia que estava prestes a negar. Mesmo aquele olhar esperançoso de Satoru, totalmente apoiado pela perna e braço direitos, tremendo feito doido, não a faria mudar de ideia.

—— Tenho um sério problema em me contorcer dessa forma. —— Caminhou até próxima da mesa da cozinha, sentando num dos bancos altos e apoiando os cotovelos no mármore. Podia ver bem os youkais a brincarem como se fossem crianças.

—— Homens não gostam de mulheres não flexíveis. —— Alfinetou Hisashi, de pé atrás de Hanako.

Ela riu, tendo os olhos de Daichi sobre si.

—— O dia que Isao me disser que quer uma mulher flexível, mandarei ele ir atrás de uma contorcionista de circo. Até lá... Estou bem assim! —— Piscou, sorrindo.

Ouviu-os dizerem algo entre si, em meio a risos e falas abafadas, quando algo vibrou sobre o mármore. Girou o rosto para o celular com a capa de um copo de café. Puxou-o, vendo que havia apenas número, nada de nomes.

Atendeu mesmo assim, sabendo que os outros estavam ocupados, e também por que se sentia no direito.

—— Alô?

—— Senhorita Yamaguchi, aqui é do cartão VISA! —— Franziu o cenho.

—— Só um segundo... —— Afastou o aparelho do ouvido, olhando para o amontoado youkai. —— Hanako... É pra você! —— A albina ergueu a vista.

—— Substitui-me? —— Perguntou calma, e logo Kagome voltava a pôr o celular no ouvido.

—— Esta bem. —— Deu de ombros. —— Aqui é a Hanako!

—— Não! —— Em dois segundos a outra estava à sua frente, rindo de forma contida e puxando o aparelho para si. Kagome a olhou confusa, sendo praticamente puxada do banco. —— No twister! —— Apontou, e a careta da morena foi claro sinal de que não estava nem um pouco a fim daquilo. —— Vá lá, só um pouco!

Kagome não pôde retrucar muito, pois logo a Yamaguchi se afastava com o celular no ouvido. Caminhando em direção ao grupo, que a olhava como à espera de algo surpreendente, se embrenhou no meio deles, ficando na posição que a albina estava antes.

—— Que sorte Kagome, você é a próxima! —— Ela trincou o maxilar, estalando a língua no céu da boca em seguida. —— Mão direita, azul! —— Olhou de forma enfezada para Daichi, amaldiçoando-o por nada em especial.

Curvou-se para frente, ficando com as pernas erguidas e uma mão no círculo enorme.

Hisashi logo atrás, olhou para a posição da miko e sorriu malicioso, murmurando um “muito bem” e alisando o queixo ao ter ampla visão da traseira da outra. Daichi o lançou um olhar repreensivo, negando com a cabeça. O mais novo ainda ria, satisfeito com a visão.

Yasuhiko balançou a sua em descrença, ao ser quase esmagado por Kagome e Kumi do outro lado.

Daichi girou a roleta outra vez.

—— Mão esquerda. Verde, Satoru! —— O castanho se curvou um pouco sobre a irmã, e tentou alcançar a coluna do outro lado, batendo a cabeça com a da miko e quase a fazendo cair sobre os demais.

O Inu-youkai a dar ordens riu alto.

—— Kumi, pé direito no amarelo!

—— Desse jeito vou ter que passar por cima do Yasuhiko! —— Ralhou, não muito satisfeita ao ter seu quadril de cara com o rosto de Maiko, que a olhou de forma irritada, quando a culpa não era dela. —— Se for me olhar dessa forma, pense duas vezes. Foi você que achou esse negócio de velho e trouxe pra cá!

A Inu-youkai não pôde resmungar de volta, sabendo que ela tinha razão.

Kagome tentou mover a perna que começava a formigar, quando deu um joelhaço em alguém, que ralhou consigo e deixou o braço escapar, escorregando sobre alguém e fazendo-a ser soterrada por uma montanha albina de Inu-youkais. Se fossem filhotes de cachorro, ela não ligaria nem um pouco, mas meio que ter Yasuhiko caído sobre ela a desagradava de várias formas diferentes.

Ouviu-se resmungos e xingamentos, empurrões e chutes, enquanto Inu-youkais, junto dela, rolavam pelo chão depois de serem jogados de cima dos outros. Mirou Maiko com irritação, pronta para reclamar depois de ter sido jogada sem cuidado algum para o lado, quando ouviu o som da porta se abrindo e uma fala baixa.

Não demorou para reconhecer Kaneki, assim como para identificar que a outra presença com ele era Sesshoumaru, aquele por quem ela estava à procura. Se pôs de pé rapidamente, correndo para o meio do corredor e vendo apenas o Yamaguchi seguir em sua direção, enquanto o Dai-youkai subia as escadas.

—— Marido! —— Cumprimentou-o com pressa, vendo-o rir e fazer uma breve mesura.

—— Senhorita Kagome!

A morena apressou-se para as escadas, subindo-as de dois em dois e vendo o Dai-youkai prestes a virar o corredor. Segurava uma pasta negra na mão direita, e ela ousava dizer que estava distraído ou com pressa, para não ter parado e perguntado-a o que ela queria.

Era melhor do que admitir que ele apenas estava sendo cruel e grosseiro como sempre.

—— Sesshoumaru! —— Chamou, e ele parou de andar, mas seus próprios passos ainda mantinham o ritmo apressado.

Quando ele girou o rosto para ela, Kagome sorriu inconscientemente, desacelerando a corrida apenas quando parou ao lado dele. O Dai-youkai ainda a mirava à espera de sua resposta, mas a miko apenas enfiou as mãos dentro dos bolsos de seu calção, e deu sinal de que deveriam continuar andando.

Não dissera nada pelo percurso, sendo o único som o de seus passos calmos e rítmicos, ecoando pelo corredor suntuoso e encoberto por um tapete vermelho. Por mais estranho que poderia lhe parecer, Kagome não se sentiu incomodada a caminhar lado a lado com o outro, mesmo que nunca o tivessem feito antes. A única vez que verdadeiramente acompanhou Sesshoumaru, fora na luta contra Naraku, e por nenhum momento andara ao lado dele. Ombro com ombro.

Nunca havia reparado como ele era alto. Naquela época ele não era tanto, pois, possivelmente, Sesshoumaru não deveria ser um completo adulto na aparência, em comparação aos humanos(23), por isso ele não era tão alto assim. Talvez um palmo e meio.

Mas vendo agora, Kagome batia em seu ombro. Como se já não bastasse Shippou estar mais alto que ela.

Era estranho se lembrar daquela época, e comparar com a de agora. Em comparação com o kitsune, Sesshoumaru não havia mudado quase nada além de sua altura e das feições em seu rosto, que tornaram-se mais austeras e robustas, atenuando-o como um homem, e não como um garoto, igualmente na Era Feudal. Ele havia perdido completamente as linhas pueris daquela época, e mesmo que Kagome achasse que elas deixariam as coisas mais fáceis entre os dois —— vendo que ela quase não reconhecera Sesshoumaru de cabelos curtos na primeira vez que o viu, no hospital ——, julgava que também não era de todo ruim esse Sesshoumaru.

—— O que quer? —— Piscou duas vezes, olhando em volta e reparando que já estava na sala do Dai-youkai, parada de pé em frente à mesa dele.

—— Huum... Shippou pediu os documentos sobre a última transferência que vocês fizeram. —— Suspirou, puxando a poltrona e se acomodando nela, ao ver que o Dai-youkai fazia o mesmo. Viu-o começar a abrir alguma pasta antes guardada em uma de suas gavetas, e puxar uma caneta ao lado.

Estreitou o olhar. —— Você, por um acaso, não assinou? —— Ao não ter resposta, ela soube que não, ele não havia assinado.

O que era estranho, convenhamos. Sesshoumaru estava negligenciando o trabalho? A língua de Kagome chegou a coçar com a possibilidade de caçoar dele um pouquinho, mas apenas crispou os lábios e desviou os olhos, reconfortando-se com o pensamento de que todos tinham seus dias ruins e seus dias bons.

Evidentemente o poderoso Sesshoumaru Taisho, também.

Ou talvez ele tivesse feito de propósito para irritar Shippou? Afinal, o Senhor do Sul, mesmo não parecendo, era bem organizado com suas coisas, e muito pontual, igualmente. Ele odiava atrasos, e bastava uma semana convivendo com ele para saber disso. Ele quase colocou horários para usar os banheiros.

Então não seria surpresa nenhuma que Sesshoumaru soubesse, certo? Uma vez que até trabalharem em cooperação eles já trabalharam.

Acomodou-se melhor na poltrona, assistindo-o compenetrado na tarefa. Ele não parecia do tipo que faria algo tão infantil, mas ao mesmo tempo Kagome já estava convencida daquilo.

Quando mirou a mão dele a se mover com a caneta habilmente posta entre os dedos, algo lhe surgiu na mente como um rompante. Entreabriu os lábios, engolindo em seco e depois desviando o olhar. Não queria perguntar, sabia que ele não responderia. E se o fizesse, sabia que muito provavelmente não a agradaria. Conhecia aquele Dai-youkai e sua língua afiada. Mesmo que ele estivesse sendo apenas sincero consigo mesmo e com os demais.

Mas sua sinceridade era como um coice de mula.

Suspirou, remexendo-se na poltrona e erguendo uma perna, pondo-a embaixo da outra. Deixou a sapatilha no chão, para melhor sustentar-se. Pousou as duas mãos sobre as pernas, movendo os dedos e olhando para o albino como se esperasse que ele respondesse sua questão mental sem que ela precisasse falar.

—— Hum... —— Baixou o rosto, coçando a bochecha. —— Posso fazer... Uma pergunta, Sesshoumaru? Outra além dessa! —— Emendou rápida, antes que ele fosse espertinho e dissesse “você já fez”.

—— Sim, você está sendo irritante. —— Ela abriu a boca ultrajada, pousando as duas mãos na mesa.

—— Não era isso que eu ia perguntar, maldito! E valeu pelo aviso! —— Grunhiu, respirando com tanta força que pareceu um bufo. —— O que quero perguntar tem a ver com aquela festa em que todos os Senhores estavam, e as coisas foram pelos ares. —— Ele parou de escrever, erguendo os olhos para ela. Kagome quase ficou satisfeita com a atenção. Quase. —— Você se lembra? Você impediu que um pedaço da parede caísse sobre mim.

Pôs uma mecha da franja para trás da orelha, e ela voltou a cair em seu rosto, mas não incomodando a visão. Sesshoumaru pousou as duas mãos sobre a mesa, como ela. Esperando pela pergunta decisiva, sabendo que não era aquilo propriamente que ela queria saber.

—— Por quê? Por que me salvou naquele dia? —— Kagome pôde jurar que seu sangue gelou ao vê-lo estreitar a vista.

Jurou que sua alma tremeu em expectativa, e jurou que um arrepio lhe subiu a espinha de forma lenta, quase a fazendo tremer ali mesmo. Jurou que seu corpo inteiro doía por manter contato visual com ele. Jurou que suas mãos começavam a suar e seu pescoço a queimar.

Respirou fundo.

—— Por que convinha manter você viva. —— A miko estreitou os olhos, vendo-o voltar a assinar os pápeis numa calma absurda, como se aquilo fosse o bastante.

—— Convinha me manter viva?! O que quer dizer com isso?

—— Se você realmente não entendeu, eu posso explicar. Mas se está apenas sendo inaturável, poupe meu tempo. —— Ela realmente sentiu aquilo doer. No fundo da alma.

—— Por que você tem que ser tão-

Não conseguiu terminar, sentindo-se tomada por uma ira colossal, que não lhe era comum. Por isso não sabia como lidar com aquele sentimento. Preferiu apenas se calar, respirar fundo, e então voltar a mirá-lo, ignorando aquela ira logo atrás de si, a cutucando para que simplesmente jogasse tudo de cima da mesa dele, para fora da janela, e depois ateasse fogo.

—— Está dizendo que apenas me salvou por que eu era um propósito?

—— Exato. —— Ele não a olhou em nenhum segundo.

Kagome começava a sentir um gosto amargo em sua garganta, dando-a a sensação de que queria muito vomitar. Ele logo continuou:

—— Você tem algo valioso consigo. Por isso precisa permanecer viva. —— Ele trocou de folha. —— Se fosse um simples animal lá... Nada seria diferente.

Examinou-o por mais segundos, estreitando o olhar e sentindo a vista arder. Engoliu o choro, querendo se conformar de que aquele era Sesshoumaru falando como Sesshoumaru. Que sabia que aquela era sua forma de falar, distorcendo as coisas e fazendo-as parecerem superficiais, quando ela sabia que não era.

—— Eu não acredito em você! —— Apenas naquele segundo notou que prendia o ar, completamente dura sobre a poltrona. —— Está ouvindo, Sesshoumaru? Não acredito em você!

Ele a mirou de repente, com quase ira nos âmbares.

—— Pois é uma pena. Esta é a verdade que você queria ouvir. Acostume-se com ela e a engula! —— Kagome respirou fundo, tentando pensar com razão, tentando ignorar aquela indiferença e aquelas palavras duras e cruéis, abaixo daquele olhar frio e do barítono cortante. Ela queria pensar que ele realmente mentia, pois era um sádico filho da puta. Mas não conseguia mais se convencer daquilo.

Sesshoumaru havia mudado. Desde que se viram, além daquele momento que a salvara, ele a afastava com mais e mais afinco. Cada vez com mais frieza e um espírito mordaz. Machucando-a de uma forma que ele apenas conseguia. De uma forma que ela nem sabia que ele era capaz.

Não queria dar aquele tipo de poder a ele. Não queria dá-lo o gostinho de vitória.

Mas ela havia cansado. Havia cansado de fingir que podia salvar aquele youkai dele mesmo.

Sesshoumaru havia sido quebrado. Ela sempre soube que ele o era, pois se não, não agiria daquela forma vil e atroz de sempre. Mas uma parte sua tinha esperança que, mesmo após a morte de Rin, algo ainda vivesse dentro dele. Algo de bom. De saudável. Algo que ela pudesse usar para acordá-lo. Algo que pudesse usar para tocá-lo. Algo que sobrevivera há todos aqueles séculos sem a menina em seu encalço.

Mas via que Sesshoumaru estava fora de seu alcance. Quando estendia a mão para tocá-lo, suas costas voltavam a parecer um pouco mais longe. Não tinha nada lá além de um quadro vazio.

Estava cansada de perseguir uma memória já indiscutivelmente, morta.

Ela havia perdido algo que nem sabia estar jogando para ganhar. Mas era esse sentimento que entalava em sua garganta naquele segundo.

O som do elástico batendo contra a pasta foi alto o bastante para fazê-la pular na poltrona. Quando mirou a mesa, vendo-o jogar a pasta fechada para perto dela, e se erguer enfurecido, saindo do cômodo pela porta acoplada, foi que ela notou a vista embaçada.

Ela estava chorando? De novo?

Bufou, limpando o rosto com as costas da mão, e puxando a pasta. Com raiva, vestiu a sapatilha e marchou para fora da sala, caminhando a passos rápidos para fora daquela mansão, enquanto tentava impedir que mais lágrimas descessem, quando elas simplesmente não paravam.

Desceu os lances de escada quase correndo, saindo pela porta da frente sem se despedir. Batendo-a atrás de si quando viu a luz do sol da manhã. Cobriu o rosto com a mão, caminhando para fora da mansão, atravessando seu jardim glamoroso, seus portões enormes e dourados. E parando na calçada.

Respirou fundo. Uma, duas, três vezes, baixando a cabeça e tentando se acalmar.

Odiava Sesshoumaru por conseguir deixa-la naquele estado deprimente tão facilmente, e com apenas algumas palavras frias.

Puxou seu celular do bolso, procurando pelo aplicativo de mensagens. Limpou o rastro de lágrimas, e tentou focar a visão na tela.

“Pode vir me buscar na mansão do Sesshoumaru? Usui deve ter retornado com a minha moto, e disse a ele que demoraria mais aqui. Por favor!

—— Kagome”

Sentou-se no meio fio, sentindo o calor abaixo de si confortá-la de alguma forma. Pousou a pasta em seus joelhos e a cabeça ali, tentando entender qual era a merda do problema de Sesshoumaru por tratar a todos como se fossem moscas que caíram na maldita sopa dele.

Seu celular vibrou, e destravando a tela, viu a resposta, sorrindo de canto.

“Estou a caminho.

—— Isao”

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. . .

.

—— Droga! Eu estou com seus malditos documentos, Shippou! Você ‘tá surdo?

—— Autch! Querida, tem veneno escorrendo da sua boca, provavelmente. Pede um paninho ‘pro Isao! —— Ela rolou os olhos, enfezada, mas logo os baixou para o chão encerrado e com propensões de fazê-la resvalar e cair, sendo desastrada como era, e com aquelas sapatilhas derrapantes, ela sentia que ainda ia pagar um mico enorme naquele shopping.

Sentiu-se minimamente culpada. Minimamente. Não tinha culpa absoluta, pois fora o próprio kitsune que decidira lhe ligar quando estava de mau humor. Sabia que era prudente — sem falar educado, civilizado e sensato — manter a calma em momentos de irritação, e tentar a todo custo manter a boca fechada, ou pelo menos, suavizar o palavreado; mas quem disse que ela conseguia se controlar? Ainda mais depois do que aconteceu na sala de Sesshoumaru?

Só de lembrar seu sangue fervia nas veias e seu rosto esquentava.

—— Foi mal! —— Pelo menos ela não tinha tanto orgulho assim, quando se tratava de amigos próximos. —— É o efeito colateral “Sesshoumaru”. —— Isao ao lado dela, a olhou sobre o ombro, com os dois braços apoiados na proteção de vidro. Antes olhando para as pessoas a andarem pelo piso térreo do shopping, sentindo-se tão poderoso que o sentimento de esmaga-las com a sola do sapato, corria solta pela sua cabeça.

Crianças costumavam parar ali, no sétimo andar do shopping, e terem o mesmo passatempo sádico e cruel do kitsune. Viam-se várias delas espalhadas por ali, penduradas no corrimão de metal, batendo os joelhos no vidro reforçado, algumas até mesmo ameaçando começar a cuspir — mas não o fazendo apenas por que guardas passavam por ali frequentemente.

Sabia que Kagome havia ficado realmente magoada naquela visita. Tanto, que quando a encontrara, a mulher estava apenas com os olhos e as bochechas vermelhas, mesmo que fosse evidente que havia chorado fazia tempo, os cílios ainda estavam molhados e a vista nublada, mas parecia determinada em negar.

Quis tirar algo dela naquele momento, perguntando-a quem fora o infeliz que a fizera chorar, mas orgulhosa, a maldita apenas dissera que não deveria se preocupar e simplesmente seguirem para o shopping e comprarem logo as coisas para a festa de aniversário surpresa de Misao.

Fácil pra ela falar, queria apenas invadir aquela mansão sarnenta e arrebentar a cara do primeiro que se metesse em seu caminho. Isao nunca fora do tipo que sabe conter os próprios anseios.

Mesmo que fosse contra o Senhor do Oeste. E mesmo que fosse, provavelmente, apanhar um pouco.

—— Eu tento me dizer que é a forma dele de ser. Mas cada vez isso se torna mais difícil. —— Shippou riu baixo do outro lado da linha, e Kagome passou a raspar a sola do sapato entre a divisa dos azulejos brancos, com a mão livre dentro do bolso do calção jeans floreado.

—— Sinto muito por isso! Mas você é a única que consegue lidar com aqueles cães sarnentos da mansão Inu.

—— Eu sei! Não estou culpando você nem ninguém... Apenas o Sesshoumaru. —— Tentou rir, mas saíra algo rouco e falho.

—— Prometo cortar relações com o vira-lata assim que der.

—— Se Sesshoumaru descobre que você o chamou assim, ele arranca uma de suas caudas, Shippou-chan! Você tem seis mesmo, não vai fazer falta.

O outro riu, parecendo um pouco incrédulo.

—— Ele pode tentar. Mas sei que vai crescer outra no lugar! —— Suspirou com descaso.

Kagome ergueu os azuis para Isao, vendo-o erguer uma moeda em frente ao corpo e sustenta-la no ar com a ponta dos dedos, mirando o andar lá embaixo, e ameaçando querer deixa-la cair. Chutou sua perna, vendo-o mirá-la com irritação, antes de revirar os olhos e voltar a guardar a moeda.

Murmurou um “só queria fazer um experimento” com total expressão de seriedade, que ela quase riu. Mas sabia que aquilo ia alimentar o espírito infantil e traiçoeiro de kitsune dele.

—— Como sabe disso? Já aconteceu? —— Balançou a cabeça e murmurou um “comporte-se”, como se estivesse falando com uma criança que não pode estar no sétimo andar de um lugar, e quer sair jogando bexigas d’água em cima de cabeças.

—— Assim como é de senso comum que pé de coelho da sorte para os humanos, é de conhecimento empírico para os kitsunes que a cauda vai crescer de novo. Ou que uma cauda nova cresce a cada cem anos. —— A miko franziu o cenho, olhando para o ruivo próximo.

Quando notou que era mirado, a fitou. Viu a pergunta explicita nos olhos azuis, e soube naquele segundo que ela não dava o menor crédito para Shippou, e isso o fez sorrir ladeiro, assentindo como quem diz, “pois é”.

—— Huum... Bom saber! Mas eu gostaria de testar. —— Sorriu de forma sinistra.

—— Você está andando muito com Isao! Ou está olhando demais aquela série escrota de canibais homossexuais! —— Ela fechou a cara.

—— Eu não ia comer sua cauda depois, seu nojento! Não ofenda o Hanni e o Will, maldito! —— Isao a olhou, sabendo que ela estava pondo a culpa inteira nele, ao momento que não o defendeu. Rolou os aquamarine, sem se importar realmente. —— Enfim, vou desligar, a gente tem que comprar algumas coisas ainda.

—— Certo, certo! Não façam nada que eu não faria!

—— E o que você não faria? —— Ele riu.

—— Ajudar uma velha a atravessar a rua, provavelmente. Essas malditas têm que aprender a fazer sozinhas! —— Ele parecia bravo. —— Te vejo depois, baby! —— Kagome desligou, rolando os olhos e estalando a língua no palato. Ergueu os olhos para Isao, e sem dizer mais nada, começaram a andar.

Guardou o celular na bolsa, e ocupou a mão com a do ruivo.

—— O que devemos comprar? —— Indagou-o, olhando para algumas lojas de roupa masculina, e tentando pensar em um presente que agradaria o moreno. Nem mesmo sabia quantos anos ele estava fazendo, mas julgava que talvez fossem 24 ou 25, uma vez que ele não parecia tão mais velho que ela.

—— Kaoru me enviou uma lista. Estou sem vontade de olhar agora. —— Kagome rolou os olhos, rindo, e o encarou.

—— Tenho medo que sua preguiça seja contagiosa. —— Isao a olhou de canto, logo depois de sorrir ladeiro, dando de ombros. —— O que eu deveria comprar pra ele?

—— Uma mulher inflável? —— Kagome riu alto, balançando a cabeça em negação.

—— Falo sério!

—— Talvez uma bengala, ou um daqueles andadores para velhinhos? —— Ela riu mais, batendo em seu braço. —— Podemos rachar e comprar um pacote de fraldas geriátricas, que vem umas trinta ou quarenta...

Kagome apoiou-se nele, não acreditando que o ruivo conseguia fazer piada com aquela expressão séria.

—— De onde vieram essas ideias?

—— Hiroshi e Katsuo estavam pensando em comprar um kit de sobrevivência para idosos! Usui e Kiyoshi queriam fazer camisetas personalizadas, mas Imogen não permitiu. Akane e Chiharu estavam colecionando folhetos sobre asilos, enquanto Rei e Kaoru falavam sobre o fundo de aposentadoria dele com o Senhor S. —— Deu de ombros outra vez, olhando a multidão. —— Apenas discutimos o que comprar, para não aparecermos com as mesmas coisas. —— Ela franziu o cenho, ainda risonha.

—— Por que estão implicando com a idade dele? Misao deve estar na casa dos vinte ainda.

O olhar com que o kitsune a mirou, a fez ter dúvidas sobre o que dizia.

—— Aliás... O pai dele está vindo.

—— Quem?

.

. . .

.

13:24

Mansão Kitsune

.

Kagome não estava entendendo mais nada.

Quando chegou à mansão, como ordenado por Shippou, Katsuo e Hiroshi ficaram encarregados de distrair Misao até a hora que tudo estivesse pronto. O problema realmente, é que quando ela tentara conversar com o Senhor do Sul sobre o que estava acontecendo ali com Misao e sobre quem diabos era o pai dele, o ruivo apenas desconversara e se afastara, alegando que estava ocupado com algumas coisas, e que se ela queria realmente saber algo mais sobre aquilo, deveria esperar por Misao e perguntar a ele.

Isso não a alegrou, claro. Nem um pouco.

Poderia ter trucidado aquele maldito kitsune cheio de segredinhos, se a música que retumbou nas caixas de som, quase a tivessem privado de sua audição. A caminho do quarto do ruivo, estava até mesmo fantasiando formas de tortura, que a seu ver, pareciam bem eficazes.

Olhou de forma alarmada para Kiyoshi, que ao fundo da sala, estava atrás do que parecia uma mesa de DJ improvisada em cima de uma caixa de som enorme. Com os fones no ouvido, ele parecia desatento do verdadeiro volume daquela joça, testando uma playlist para mais de noite.

Aproximou-se do garoto rebelde e cheio de “últimas palavras”, e puxou-o os fones dos ouvidos, recebendo os olhos âmbares sobre si. Curiosos.

—— Diminui o volume! Está querendo ensurdecer todo mundo aqui? —— O loiro revirou os olhos, mas não reclamou em seguir a ordem.

Quando o botão jazia abaixado, ergueu a vista, sorrindo ladeiro.

—— Está bom assim, Senhora? —— Ah, ela queria trucidar aquele garotinho.

—— Senhora se eu fosse sua mãe! —— Ele sorriu mais, baixando a vista para o aparelho sobre a caixa de som.

—— Minha mãe já morreu faz mais de sessenta anos. Se puder não ofendê-la, eu agradeceria.

Kagome arfou chocada, olhando-o num misto de incredulidade e desconfiança.

—— Como você pode ser mais velho que o Hisashi e ainda parecer mais novo que ele?

—— Tudo depende da genética, Senhora! A genética!! —— Ela grunhiu, agarrando sua gola e puxando-o para perto. A atitude brusca pareceu animá-lo um pouco, não se importando quando os fones escorregaram dos ouvidos e ficaram em volta do pescoço.

Parte de seu corpo, esta que, ela estava louca para apertar com as duas mãos e asfixia-lo ali mesmo.

—— Pare de me chamar de Senhora.

—— Eu paro... Quando você aparentar ser mais nova do que eu... Senhora! —— Ela soltou-o, sabendo que não tinha nada que pudesse fazer, ou qualquer coisa a seu alcance, que o faria retirar aquilo.

Como uma faca ou uma arma.

—— Irritante... —— Se virou, girando nos calcanhares e se afastando.

Caminhou até a cozinha, vendo as kitsunes todas ocupadas em afazeres. Pensou em ajudar, mas apenas se acomodou em um banco alto, assistindo-as.

Pensou.

—— Que horas os doces e salgados chegam?

—— Às três. —— Respondeu Kaoru parecendo estar no automático, pois nem ergueu os olhos do que ela fazia voltada para a pia.

—— Então o que estão fazendo? —— A ruiva ergueu a vista, levantando uma tigela de metal onde ela batia algo.

—— Vamos fazer um bolo caseiro especial apenas para o Misao... Ele é diabético e tem Alergia Alimentar. Então... Nós temos um cardápio bem meticuloso apenas pra ele. —— A miko franziu o cenho, apoiando o rosto no punho e o cotovelo no balcão.

—— Hum... Não me lembro de vê-lo passar mal quando fizemos aquele jantar com pizzas, e sorvete...

Kaoru riu.

—— É um tipo diferente de alergia, Kagome. Ela costuma afetar as pessoas com febre, vômitos e diarreia... Com Misao acontece apenas o último, por isso ele não é muito rigoroso com o que come.

—— Ele não se importa de ficar horas no banheiro, então? —— A ruiva negou, ainda rindo.

—— O problema é que depois temos que esperar horas para querermos usar o mesmo banheiro que ele. —— Akane se pronunciou, rindo de forma divertida. Atarefada com alguma coisa que Kagome não soube especificar.

—— Bem... Eu não precisava saber de tantas informações, mas obrigada pelo alerta. Vou ficar atenta a partir de agora. —— Akane gargalhou, balançando a cabeça.

A morena pensou em iniciar um novo tópico para a conversa, mas quando ouviu passos se aproximarem, seu rosto girou na direção da entrada para a cozinha, vendo quando Shippou passou por ela. Vestido com uma camisa de gola e estampa florida em verde escuro, e branco. E por cima, um blazer de tom neutro. A estampa da camisa social parecia a cara de Shippou, flores cobrindo quase todo centímetro do tecido.

Não era de se surpreender que o kitsune gostava de usar roupas mais chamativas e ao mesmo tempo, nele, discretas. O ruivo sempre combinou com coisas do tipo.

Uma calça jeans escura, e sapatos dockside em tom semelhante à calça, completavam a visão. Não parecia formal, nem mesmo casual. Parecia apenas Shippou.

Sorriu para ele, esquecendo a irritação, vendo-o se aproximar com um sorriso galante nos lábios, e beijá-la o topo da cabeça, parando de pé ao seu lado. Kagome achou que ele fosse lhe dizer algo, mas os esmeraldas estavam presos às costas de sua consigliere atarefada.

—— Kaoru! Vou buscar o Rokujou no aeroporto. Aquele velho tem um senso de direção terrível... Me surpreende ele ter conseguido pegar o avião certo em Londres. —— A mulher ergueu o rosto sobre o ombro, mirando-o de forma séria, antes de suspirar e deixar a tigela de lado, puxando um pano branco sobre a pia, e aproximar-se do balcão.

A seriedade nas íris verdes deixou a miko intimidada brevemente.

—— Tem certeza que é uma boa buscar o Okumura-san? Não acha que vai ser ruim para o Misao?

—— Não, e sim eu acho. Mas Rokujou insistiu, e eu não podia simplesmente dizer não e negá-lo a vir aqui. Se ele quisesse, poderia muito bem ter aparecido sem pedir permissão. Você conhece a figura! —— A ruiva assentiu, pesarosa.

Vendo o breve silêncio entre os dois, Kagome pigarreou.

—— Quem é...?

—— O pai do Misao. —— Responderam os dois, olhando-a firmemente.

—— Ah... Então o sobrenome dele é Okumura? —— Shippou assentiu, rindo.

—— Ele não conheceu a mãe, pois ela morreu no parto, e o Rokujou nunca lhe falou sobre ela. Por isso ele não sabe seu sobrenome, e odeia ser tratado por Okumura. Ás vezes ele inventa sobrenomes... —— Deu de ombros, divertido. Passou a mão pela franja caindo sobre a testa, deslizando os dedos pelos fios ruivos e subindo-os até o topo da cabeça, onde as madeixas curtas voltaram a cair.

Kagome achou adorável. Tanto quanto estupidamente sexy.

Shippou sabia o que fazia.

—— Acho que Misao já usou uns treze ou quatorze sobrenomes diferentes... Tem que ver a quantidade de cartões de crédito que ele tem na gaveta. Parece até coisa do Dean e do Sam. —— Akane se intrometeu, rindo como uma criança. Puxou o pano que Kaoru segurava e secou as mãos molhadas. —— Posso ir junto, Senhor S? Eu adoro aquele homem!

Shippou riu, assentindo e ouvindo a empregada gargalhar de felicidade, já correndo para fora da cozinha.

Kagome não entendeu como Misao poderia odiar tanto o pai, enquanto tinham outros que o adoravam. Alguma coisa não estava certa.

—— Bem, vou indo...

Shippou lhe deu um beijo estalado no topo da cabeça, e deixou a cozinha no mesmo instante que Isao passava pelo portal. Kagome sorriu ao vê-lo vestido para a festa, pensando que já deveria aprontar-se também.

—— Eu deveria usar uma roupa mais formal?

—— É claro que não. —— Kaoru ralhou, olhando-a com seriedade antes de aproximar-se da pia e puxar a tigela de metal para si outra vez. —— É o Misao...

Disse com tamanho descaso, que fez a miko rir. Quando Isao parou ao seu lado, pousando a mão em sua cintura, ela o olhou de forma travessa, descendo do banco e apoiando-se nele apenas por se apoiar.

—— Me ajuda a escolher algo?

—— Prefiro você sem roupa alguma. —— A miko riu sem jeito, desviando os olhos com um bico inconsciente, fazendo um sorriso ladeiro e malicioso surgir nos lábios masculinos, enquanto a analisava com indisfarçado interesse.

Kagome ergueu a vista quando sentiu sua destra ser puxada com carinho, e aproximada dos lábios dele, tendo os nós de seus dedos beijados com tanta delicadeza, que algo pareceu explodir dentro da cabeça dela. E Kagome sentia que era sua sanidade indo pelos ares.

—— Oh, que lindos! —— Ambos os rostos se voltaram para a ruiva, vendo-a mirá-los com um sorriso tão falso e irritadiço que chegava a doer. —— Caiam fora da minha cozinha!

—— Oxe... —— Kagome riu, ouvindo Isao resmungar um “mal amada” enquanto circundava agora, seus ombros e a puxava para fora dali.

Seguiram em direção às escadas, subindo os lances com lentidão, quando ouviram Kiyoshi gritar por cima do volume da música eletrônica, para se fazer ouvir:

—— Querem que eu coloque uma trilha sonora enquanto... Vocês sabem...

Kagome se virou para ele, completamente horrorizada.

—— Deixo por sua conta!

—— Isao! —— Bateu em sua barriga, tendo os aquamarine sobre si como uma inocência quase comovente. Estreitou a vista para ele.

—— Gosta de Blues, Senhora? —— Kagome rolou os olhos, depois parou-os sobre o rapaz na sala, olhando-os com aquela diversão sádica intrínseca de todo kitsune. Sua vergonha venceu a raiva, e ela apenas se viu apoiando a testa no braço de Isao e suspirando derrotada.

—— Acho que ela gosta, Kiyoshi. —— O mais velho sorriu, voltando a subir as escadas e conduzindo a embaraçada miko consigo.

—— Então vamos de Muddy Waters...

.

. . .

.

Kagome sentia que seu rosto ia explodir, enquanto descia as escadas de volta para a sala, duas horas depois de ter subido para o quarto com Isao, no intuito de “se arrumar”.

Óbvio que o ruivo não permitiu, e ainda se convidou para tomarem um banho juntos. O banho fora muito vago, pois o que quer que tenha acontecido naquele banheiro não fora nada parecido com tomar banho, realmente.

—— Oh, que bom que finalmente desceram, coelhinhos! —— A miko crispou os lábios, impedindo-se de rosnar pela vergonha e pelo descaradamento que estampava o rosto do Senhor do Sul.

A vontade de esganar Kiyoshi aumentando conforme o olhar malicioso dele, e aquele sorrisinho de canto, a informavam de que ele não se preocupou em contar aos quatro ventos o que tinha rolado. Tudo bem que a miko era uma adulta, e era super normal ter uma vida sexual ativa, mas não queria dizer que era o tópico de conversa mais normal no mundo.

Sorriu, tentando esconder o embaraço por trás de uma fachada de “foda-se, transei mesmo, algum problema?” quando sua única vontade era voltar para o quarto e esquecer todos aqueles pares de olhos em cima de si, aguardando ansiosos por sua resposta.

Aproximou-se da mesa onde Shippou estava sentado, e acomodou-se no banco ao lado dele, ficando entre o ruivo e Usui, que mantinha as duas mãos sobre o granito escuro, e fitava os nós dos dedos a moverem-se com lentidão uns sobre os outros. Olhou-o, estranhando que o moreno não tivesse alfinetado-a como ele gostava de fazer, frequentemente.

—— Onde está Imogen? —— O nome da mulher pareceu despertá-lo do transe, erguendo o rosto para a miko. Os castanhos mel brilharam por breves momentos, mas foi logo ao passo de uma piscada, e o brilho sumiu.

—— Está com o Rokujou... —— Deu de ombros, a voz saindo trovejada e rouca.

—— Ele vai ficar alguns dias aqui, Usui. Deveria melhorar essa cara. —— O aviso de Kaoru não pareceu surtir nenhum efeito, apenas acabando com o homem a grunhir, virando o rosto e cruzando os braços.

—— Você também é um dos haters? —— O guarda-costas não respondeu, mas Kagome não precisava realmente ouvi-lo. Estava estampado em seu rosto, em seus ombros tensos, naquela aura opressora.

—— Quando Misa-chan veio pra cá... Foi Imogen-san e Urameshi-san quem mais cuidaram dele. —— Kagome girou o rosto para a baixinha apoiada na pia em frente, ao lado dela Kaoru, Akane e Kiyoshi, pareciam calmos com a situação. Enquanto o homem à sua esquerda parecia só faltar transpirar.

Olhou para Shippou, que parecia muito tranquilo (quase indiferentemente tranquilo) a beber de um copo de milk-shake, ficou à espera que ele a olhasse e visse a questão explícita nos olhos azuis. E quando notada, os esmeraldas se voltaram para ela sem o mover da cabeça.

—— Ele devia ter uns quatro anos... Na época Rokujou estava no exército e trabalhava para mim... Ele era ocupado demais pra cuidar do filho. —— Ela assentiu como se aquilo fosse completamente normal. Se voltou para frente e olhou Millie outra vez, em claro sinal de que ela deveria continuar a falar, mas ao vê-la redirecionar seus castanhos para o homem corpulento e intimidante ao seu lado, sua atenção a acompanhou.

—— E quanto a mãe?

—— Ela era jovem quando conheceu Rokujou. Acredito que os pais dela não permitiram o envolvimento deles, e ela acabou fugindo com aquele cara. —— Ele resmungou baixo, como se quisesse impedir que os demais ouvissem.

Kagome não apreciava saber da vida de alguém, pela boca dos outros, mas ela também não era do tipo que chegava perguntando as coisas na telha. Sempre preferiu dar espaço às pessoas, e confiança. No momento que elas decidissem que podiam lhe contar algo íntimo, elas contariam e Kagome seria um túmulo.

Mas no momento, ela só queria entender porquê de Misao odiar tanto o pai, e ter aquela divisão na casa. Sentia que os motivos eram mais sérios do que apenas um mal entendido, ou o esquecimento do presente de aniversário.

Quando Isao passou pelo portal, ela o olhou brevemente, vendo-o se aproximar da geladeira e dela tirar uma maçã pequena, e se apoiar à porta depois que a fechou. Ele a olhou por alguns segundos, antes de piscar e sorrir diante a expressão enfezada que ela assumiu.

—— Eu não sei vocês, meninas, mas eu vou dançar até o sol raiar hoje! —— A gargalhada grosseira, acompanhada de risos mais leves, que ela identificou como sendo de Rei e Chiharu, acabou ecoando pela cozinha antes mesmo que os quatro passassem pelo portal.

A miko ergueu os olhos por sobre os ombros de Usui, e surpresa estampou sua face, em segundos.

O pai de Misao podia ser várias coisas, na mente de Kagome, mas em nenhuma delas, ele era como aquele ali.

Era um homem alto, e chamativo. Não era o tipo de cara que passa despercebido na multidão. Se você o visse, você sem dúvida viraria o rosto para acompanhar sua pessoa até ele não ser mais possível de ser visto. Aparentava ser um homem de meia idade, conservado e magro (por algumas vezes o imaginou gordo, calvo, baixo e muito severo). Tinha uma pele pálida, para quem trabalhava no exército, como Shippou dissera, normalmente se têm uma tez mais bronzeada e marcas pelo corpo, diferenciando a cútis em tons diferentes.

Tinha uma expressão séria na face, mesmo que sorrisse de forma maliciosa. Maçãs do rosto salientes, um cabelo negro áspero e longo, caindo sobre o ombro, mas presos com um elástico apenas na parte mais superior, e amarrado em um coque firme. Uma barbicha no queixo, e um bigode estreito, que não chegava a cobrir a parte sobre os lábios. Era o tipo de barba que homens estilosos optariam.

Tinha os braços em volta dos ombros da humana e da kitsune ruiva, enquanto Imogen, mais atrás, não parecia satisfeita com a conversa dos três, e prontamente se aproximara do marido, abraçando-o pela cintura e não condizendo com a expressão fechada no rosto jovem e bonito. Talvez compartilhasse de seu ódio pelo Okumura.

Seu traje era composto por uma camiseta branca, de botões abertos até a altura do peito, com pelos bem visíveis, e um colar dog tag(24), com as labaredas em negro. Os punhos da camisa estavam dobrados até o antebraço, evidenciando duas tatuagens na parte interna dos mesmos. Kagome não pôde identificar como eram, mas pareciam ter alguma semelhança. Uma calça negra, com botas coturno marrom escuro, e um sobretudo preto longo e com gola alta.

Sem mencionar os óculos escuros semi-transparentes, em tom amarelado.

Contrastando perfeitamente com a imagem séria e quase carrancuda que ele exalava.

—— Então você é a Kagome-chan! —— Ele se soltou das duas, dando passos em direção à miko.

Kagome não soube como reagir, prontamente, nem mesmo havia notado que ele a encarava. Não soube se erguia-se, ou apenas o cumprimentava com um manear de cabeça. Achou que seria falta de educação, mas ela não queria gostar daquele homem se ele tivesse feito algo para Misao. Seria como traí-lo, não seria? Ela sentia que sim.

Desceu do banco, estendendo a mão para o homem quando ele ofereceu a sua, sorrindo calmamente. Afastou o óculos escuro, mostrando a ela olhos azuis cobalto frios e meticulosos. Não o tipo de olhar que ela esperava ver.

—— Sou Okumura Rokujou! —— Ele tinha uma pinta de pervertido, que a dava nos nervos desde já.

Ele vinha da linhagem de Sango e Miroku, era bem provável que os genes daquele houshi estivessem bem fortes nele, como estavam em Misao. Essa desconfiança tinha fundamento, afinal.

Sua pele formigou com o toque da dele. Como se fossem dois fios desencapados se roçando. Estreitou a vista.

—— É um prazer, Senhor...

—— Vamos deixar o prazer para mais tarde, querida! —— Ela arregalou os olhos ao ser puxada para o peito dele, quase tropeçando nos próprios pés e sendo obrigada a se agarrar a ele para não cair. —— Estou ansioso para nosso treinamento.

Kagome mal teve tempo para assimilar as coisas, quando ele ergueu seu queixo com a ponta dos dedos, tão gentilmente que ela poderia quase ignorar o puxão brusco de agora a pouco. Seu coração falhou a batida quando ele aproximou-se o bastante para misturar sua respiração com a dela.

Sua reação imediata foi tentar espalmar a mão no rosto dele, mas com sorte, não fora necessário, pois logo seu braço era puxado outra vez e ela afastada do homem.

Quase suspirou em alívio, olhando para Isao a circundá-la de forma protetora e gentil. Mas não pôde fazê-lo com completude, ao passo que as íris avermelhadas do kitsune e aquele youki a escapar de seu corpo eram um claro sinal de que, se Rokujou não desse um passo atrás, Isao o forçaria. E não seria tão amigável assim.

—— Calma, filhote! —— O moreno ergueu as duas mãos em frente ao corpo, ouvindo o rosnado que Isao libertara da garganta. Kagome apertou a mão em volta de sua camisa, circundando melhor sua cintura. —— Eu só a estava cumprimentando.

—— Cumprimente como uma pessoa normal. —— Rosnou entredentes, olhando-o com a mesma fúria do início, sem amaciar a visão mesmo que Kagome estivesse claramente o pedindo para baixar a bola, ao apertar-se contra ele de forma apreensiva.

Rokujou sorriu, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo, não parecendo afetado pela ira do kitsune. Nem mesmo pelos demais que entraram em posição de ataque ou guarda, ao passo que o youki de Isao os deixava em completo estado de alerta. Era instintivo responderem assim. Ele sabia. Até mesmo Shippou tinha as pupilas afiladas e os lábios crispados. O copo de milk-shake caído aos seus pés, aberto e sujando o chão branco.

Nada ali naquela cena, que pouco tinha de favorável a sua pessoa, o deixava intimidado.

—— Sabe... Futuramente seremos apenas ela e eu... E um pouco de aproximação corporal vai ser necessária. Até talvez... Um pouco de troca de calor... —— Isao deu um passo à frente, e tanto Kagome que o segurara com dificuldade, quanto Usui, tentaram impedi-lo de arrancar a cabeça de Rokujou ali mesmo.

Pois eles sabiam que era isso que ele faria.

—— O que esse cara ‘tá fazendo aqui? —— A voz a retumbar pela cozinha pareceu acalmar todos os ânimos atiçados. Os rostos se voltaram para o moreno na entrada, e os outros dois em cada um de seus flancos.

Katsuo firmava a mão calmamente em volta do ombro de Misao, enquanto uma expressão num misto de horror e ira animal, tomavam conta do rosto bonito.

Ninguém respondeu prontamente. Shippou desceu do banco, pensando numa forma de acalmar as emoções ali, mas sabendo que não seria de nada útil, quando Rokujou parecia rir de tudo como uma criança sapeca. Se ele dissesse as coisas erradas... Isao, ou Misao, tomariam a frente. E independente de quem fosse... A coisa ia feder.

—— Misao, eu-

—— Por que o convidou, Shippou? —— O tom cortante, e a falta do chamado respeitoso, comumente impregnada na voz de todos quando falavam com o Senhor do Sul, deixaram bem óbvio que Misao não estava disposto a tolerar qualquer coisa.

Kagome suspirou, olhando para Isao e vendo as íris de volta ao tom aquamarine. Usui se afastou, ao notar também, e todas as atenções voltaram-se para Misao e Rokujou.

—— Eu não o convidei. —— O Senhor do Sul parecia confuso em como agir, e Kagome meio que entendia. —— Mas ele é seu pai, e ele-

—— Ele não é nada meu. —— A voz o cortou outra vez, beirando a insanidade.

Kagome pôde ver como Kaoru e Imogen se aprumaram. Ambas notando, pelas costas rígidas do Senhor do Sul, que ele não estava gostando de ser tratado com desrespeito na frente de todos. Era tão óbvio quanto o céu ser azul.

Kagome podia sentir a pressão no cômodo aumentar drasticamente.

Ninguém ali se incomodava com um pouco de tensão pairando por suas cabeças, mas a miko sabia que não fazia bem para Imogen ficar num lugar daqueles por muito tempo. O bebê era youkai, claro, mas ela estava a dois meses de parir, e tamanha pressão e mistura de youkis, podiam força-la a um parto espontâneo.

Afastou-se de Isao, tocando o ombro de Usui com gentileza. O moreno a olhou rapidamente, e depois de um mover de cabeça na direção da esposa, ele seguiu seus olhos, entendendo brevemente o que ela queria dizer. Suspirou, assentindo e desarmando a postura rígida. Tocou a mão de Imogen, e depois de trocar um breve olhar com ela, deixaram a cozinha a passos rápidos.

—— É assim que fala com a pessoa que te deu a vida?

—— É assim que eu falo com merdas como você. Não o quero aqui, caía fora! Você não perdeu nada nessa casa! —— Rokujou soltou uma fungada anasalada, olhando o filho quase com pena.

—— Garoto tolo... Shippou me chamou, pois tem um trabalho pra mim. —— Os olhos azuis de Misao se fincaram no Senhor do Sul. O ruivo, agora parecendo mais enfezado, não desviou o olhar ou deixou-se mostrar confuso e hesitante como antes.

—— Por quê? —— Balançou a cabeça, descrente de que o outro não o havia falado daquilo. Shippou sabia que a pergunta não era “por que o chamou?”, mas sim “por que não me contou?” e o kitsune queria ter a resposta para aquilo, mas sentia que se dissesse que não achou a coisa certa, não seria o bastante. Não para Misao. Não naquele segundo.

—— Ora, não seja infantil, filho. Não o ensinei a agir como um homem? —— A voz cortante reverberou pelo cômodo. Tão repreensiva, que até Kagome e Chiharu sentiram que estavam sendo retaliadas pelos próprios pais. —— Esses anos que estive longe, te fizeram mal.

—— Eles me fizeram muito bem, obrigado! Não que eu espere que você ligue, mas me faria melhor ainda se você simplesmente voltasse para a toca do mal de onde saiu. —— Misao sentiu a mão sobre seu ombro sumir, ou talvez ele o tenha afastado num movimento brusco, não sabia precisar. Deu três passos à frente, parando diante do pai facilmente. —— Não ligo se o Senhor S o chamou, se pediu para que pague um broche(25) pra ele, ou se tem que fazer algum trabalho... Apenas suma da minha frente, e faça o que tem que fazer bem longe de mim.

Rokujou sorriu, e atrevidamente, apoiou a mão sobre o ombro do filho, aproximando os rostos e tendo de curvar-se um pouco para ficar à altura do menor.

—— Você deveria controlar essa língua... Já mostrei uma vez a você que independente daquilo, eu sou muito melhor. —— Misao grunhiu internamente, fechando as mãos em punho. A ira lambendo seus olhos como fogo. —— Não é a toa que Shippou chamou a mim.

—— Oe, Rokujou! Já chega, certo? —— O kitsune interveio, notando que o outro parecia empenhado em tocar na ferida de todos, enfiando o dedo até o fundo com a ponta cravada em sal. Para ter certeza de que seria uma experiência, no mínimo, memorável.

—— Você pode ter vivido por muito tempo, mas não viu nada do mundo. Ainda é uma criança aprendendo a andar, comparado a mim. Lhe falta muito para querer estar à minha altura. —— Misao o empurrou com brusquidão, pelos ombros, e Shippou interveio, segurando-o os braços enquanto Rokujou tentava recuperar os passos.

Seu óculos caiu da cabeça, quebrando-se no piso num som que encheu a cozinha.

—— Você fez isso comigo... —— A voz do mais novo Okumura era ferida. Irritada. Rouca e doída.

Kagome não entendia mais nada do que estava acontecendo, mas ela sentia a dor do amigo, e no fundo, queria apenas afastá-lo do pai. Afastá-lo da pessoa que o transformava em alguém que ela não conhecia.

—— Você foi o único que fez algo aqui, Misa-chan... —— Rokujou não sorria mais. —— A sua fraqueza não é culpa minha.

—— SE VOCÊ NÃO TIVESSE ME COLOCADO NAQUELA SITUAÇÃO, ISSO-

—— “Não teria acontecido”? —— Shippou teve de usar o corpo para impedir que Misao avançasse contra o pai. Katsuo o ajudou, segurando um dos braços do moreno. —— Poderia ter escolhido a morte. Teria sido menos vergonhoso para a nossa linhagem... Você a corrompeu.

—— Menos vergonhoso? Corrompi a nossa linhagem? —— Riu de forma zombeteira. —— Pode até ter sido, pra você... Mas eu curti! E esse poder veio a calhar... E virá ainda mais quando eu finalmente conseguir mata-lo!

—— Você é mole, Misa-chan... Não vai conseguir erguer uma mão contra mim. —— Riu, enfiando as mãos nos bolsos do sobretudo outra vez. —— Se você quisesse me machucar, não deixaria que ninguém aqui te impedisse. E todos sabem... Eu sei... Você sabe... No fundo você ainda me ama.

Misao urrou, empurrando Katsuo de si com tamanha força, que Kagome arregalou os olhos ao ver Hiroshi ter que parar o loiro e impedi-lo de bater as costas na parede oposta. Shippou libertou parte de seu youki, alertando Misao, mas o moreno estava tão cego pela ira que simplesmente liberou energia em resposta, purificando o ruivo e o afastando de si como se sua pele o tivesse queimado.

Rokujou abriu os braços, pronto para receber o filho, quando Usui apareceu detrás das costas do moreno, e bateu com a mão aberta em sua nuca. Misao deu mais um passo antes do corpo simplesmente apagar e tombar contra o azulejo limpo num baque alto e surdo, como em câmera lenta.

Shippou olhou a cena com uma careta de dor, balançando a mão como se ela queimasse. A fumaça a sair da palma intensificava o pensamento, mas a cútis encontrava-se apenas vermelha.

O moreno olhou para o corpo caído de Misao no chão com um tipo de indiferença que não condizia com a atitude calma e gentil ao erguê-lo do chão, circundando sua cintura com um braço, e firmando a outra mão em frente ao seu ombro, para melhor equilibrá-lo. Não dissera nada, nem mesmo dispensara um olhar à Rokujou, mesmo que cada célula de seu interior berrasse para que atingisse seu punho no rosto sorridente dele. Cada centímetro de sua alma desejando trucidar aquele homem, por fazer Misao agir de forma tão incomum, por feri-lo de uma forma irreparável.

Kagome soltou o ar dos pulmões, nem sabendo ao certo quando o prendera, olhando para Usui a arrastar um Misao desacordado para fora da cozinha.

—— Você não é o pai dele! —— A voz de Rokujou reverberou, alta e cortante. Furiosa.

Kagome não entendeu. E ninguém ali também.

Usui parou de andar, mas não virou-se.

—— Você não é nada dele. —— Continuou solene, aproveitando que tinha a atenção do kitsune.

—— Eu sou mais para ele, do que você foi em toda a vida desse garoto. —— Olhou-o finalmente. Uma sombra pairava sobre seus olhos vermelhos em sangue, as pupilas estreitas e a voz arrastada, embedada em cólera. —— Não me interessa se não sou realmente seu parente... Eu o criei... E se você ameaçar tocá-lo e feri-lo outra vez... Eu vou arrancar toda sua pele, parte por parte, e fazer os vermes comerem-no lentamente, ainda vivo... Vai implorar para nunca ter nascido.

Kagome tremeu ao sentir o youki de Usui alastrar-se por toda a casa de forma ameaçadora. Os pelos em sua nuca e braços se eriçando, e seu houriki oscilando em resposta a ele. Sentia-se pronta para a briga.

Usui voltou a andar, deixando todos em silêncio. Com exceção de Rokujou que, pouco parecendo ameaçado, apenas sorriu desafiador e enfurecido. A mesma expressão assassina no rosto do guarda-costas, estampada na do homem.

—— Eu gostaria de vê-lo tentar...

Kagome não precisava dizer nada, mas sentia que depois daquilo tudo, a festa fora cancelada.


Notas Finais


Shippou - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/68/13/4d/68134d19d155d75b62e277808871fe8a.jpg

Isao - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/c2/30/15/c2301532086a7016591df91848320ab0.jpg

Misao - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/48/e6/32/48e63295be6e343790eab35bc478a798.png

Kiyoshi - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/fc/0d/1d/fc0d1d19d7dfa7c41720ba829fb2a465.png

Millie - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/52/5e/b0/525eb0c365649164123c04bfe45f14f6.jpg

Imogen - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/44/d5/98/44d59840e805b931a55eeaf7167b4123.jpg

Usui - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/5e/62/34/5e6234323277ac692f15b1eb7217c9f8.jpg

Rokujou - https://s-media-cache-ak0.pinimg.com/originals/9f/c9/f0/9fc9f0a1cf3d6593da28b42c8d7e2823.jpg

(23) Como digo isso? Huum, não sei vcs, mas quando fiz uma pesquisa sobre os personagens de Inuyasha, vi num site, ou na Wikipédia, sei lá, que Sesshoumaru deveria ter uns 18 anos humanos no Anime/Mangá, levando em conta sua aparência. Convenhamos que ele parece mais velho e ao mesmo tempo não, mas por via das dúvidas, vou ficar com essa explicação, cappici?

(24)Um dog tag é o nome informal para as plaquetas de identificação usadas por militares, por causa de sua semelhança com coleiras de cachorro (do inglês, dog tags). Tais plaquetas são usadas primariamente para a identificação de falecidos ou feridos e para serem providenciadas as informações médicas básicas para tratamento: num dog tag está contido o tipo sanguíneo e histórico de tratamentos usando substâncias químicas (através de vacinas e afins). Um soldado geralmente possui dois dog tags... Não sei pq, mas adoro esses colares ♥ ♥

(25) Broche é sexo oral, só que essa definição é somente usada quando a mulher chupa o homem... Misao nem estava chamando o pai de mulherzinha kkkkkkkkkkkk

დ Sim, Rokujou é o tio Zangetsu, de bleach uhauahuahuahuah EU AMO ESSE CARA!! Mesmo depois de saber quem ele pareia... Anyway, o estilo dele é muito top, não concordam? kkkkk

დ E sobre a idade do Misao, será revelado o motivo das zoações mais tarde, deixei assim, pq gosto u-u Inclusive e principalmente sobre o motivo dele não se dar bem com o pai. Não se preocupem, tudo será esclarecido.

დ E não se preocupem, quem gosta de IsaoKah não ficará só nesses momentos "subentendidos", mais pra frente terá mais hentai, kay? kkkkkk

დ Eu tinha algo mais para falar, mas acho (tenho ceretza) q esqueci. Então até a próxima ^^


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