História Young Remembrance - Capítulo 5


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Festas, Jovens, Lembranças, Loucuras, Pegação, Romance, Sexo, Skins, Universidade, Violencia
Exibições 8
Palavras 7.468
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Fantasia, Festa, Ficção, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Violência, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Começarei a postar todos os dias.
Espero que gostem.
Valeu.

Capítulo 5 - Conflitos


Fiquei acelerada pra caralho, corri feito doida tirar a Carol daquele bando, que porra tava acontecendo?

Cheguei empurrando dois negrões muito grandes que tavam na minha frente, pra poder passar:

Eu: Que isso, caralho?! Eu sou amiga dela, que porra toda é essa?

Negão1: Ahhhhh então é tu?! - o cara levantou o peito pro meu lado. Ele era mesmo muito maior que eu.

Negão2: Não, po. Era uma piá oxigenada pra porra, já te falei. - respondeu o amigo dele.

Negão1: Então sai fora, magrela. É assunto nosso. - ele me empurrou.

Eu: Vai te foder, caralho. O que vocês tão fazendo com ela? O que foi que ela fez?

Olhei pra cara da Carol, ela tava suando pra caralho, com um olho roxo. Um dos caras ficou me xingando e perguntando que satisfação ele devia pra mim, mas o outro decidiu explicar.

Negão: Essa sapatão é amiga de uma filha da puta loira que tava alastrando na nossa boca ontem.

Eu: Como tu sabe, cara? Do que tu tá falando? - tava ficando em choque de ver a Carol daquele

Jeito, mas aí comecei a pensar. Eles tavam falando da Cait, e da porra toda que aconteceu ontem. Que merda.

Negão: A gente viu elas juntas hoje, merda! Sorte da loirinha que ela partiu assim que viu a gente, entrou num beco qualquer, mas a gente conseguiu pegar essa otária aqui, que não quer cooperar e falar onde a filha da puta tá.

Eu: Tu não tá vendo que ela não sabe, porra? Ela já teria falado. Sai fora, cara. Tu tá com a pessoa errada.

Depois de muito discutir, os caras deram um último murro no meu estômago, só pra botar medo. Bando de putos do caralho. Deram as costas pra gente, jurando que quando encontrassem a Cait ela ia tá fodida. E ia mesmo. EU ia foder com ela, que filha da puta! Carol tava toda quebrada, e nem foi idéia dela, ela nem tava junto ontem. Fiquei lá sentado com ela por um tempo, tentando explicar o que tinha acontecido. Ela nem me ouvia, só reclamava que tava doendo pra caralho. Coitada, velho. Já tava tarde. Carol ligou pra mãe dela dando uma desculpa qualquer, e eu a levei pra minha casa que, finalmente, tava vazia. Ela ficou lá no sofá com um saco de gelo na cabeça, enquanto eu tentava ligar pra puta da Cait, que não atendia. Dormimos na sala mesmo, assistindo um filme velho do 007 que tava passando na TV.

De manhã, o despertador da Carol tocou, e fazia um barulho dos infernos. Se eu tivesse um despertador daqueles ia acordar muito de mau humor todos os dias. Mais do que eu já levanto, mas que porra de horas eram?! Ah. Era quarta-feira. A gente tinha aula.

Dormi igual uma pedra nas duas primeiras aulas, nem fiquei sabendo o que aconteceu. Acordei com o sinal do intervalo. Me virei pra carteira onde a Cait sempre senta, mas ela tava vazia. Carol ainda tava na minha frente, e ela me deu um tapinha na cabeça pra que eu levantasse. No intervalo, a gente sentou na canto da quadra, onde tava batendo um solzinho bom, até que alguém apareceu pra fazer sombra na gente. Era a Vitória.

Vitória: Bonita maquiagem, nerd.

Eu: Por que tu não te fode?

Vitória: Então os caras deram o recado, não foi?

Eu: Foi tu que mandou! - me levantei num impulso só, de raiva.

Ela deu uma risada escrota, daquelas abafadas. Não conseguia olhar pra cara dela sem imaginar ela pegando o Tales.

Vitória: Tu acha que eu não ia reconhecer tua silhueta de puta e o cabelo oxigenado da Cait?

Eu: Foda-se, mano. O que tu tinha que mandar os caras baterem nela?

Vitóra: Eu não mandei, eu paguei.

Uns amigos dela começaram a aparecer logo atrás.

Eu: Tu é escrota pra caralho mesmo.

Vitória levantou o dedo e abriu a boca pra responder, quando surgiu a voz:

Cait: E o que tu vai dizer pra ela agora, sua escrota? "Te pego na saída"? AHAHA

A escrota só sorriu, e deu as costas pra gente. Pude ver Tales bem de longe, com um cigarro na mão, esperando ela voltar. Tales tava fumando? Que cena bizarra. Ele reclamava se eu fumasse qualquer coisa. Cait se virou pra nós:

Cait: aeaaae, idiotas. Que porra é essa no teu rosto, Carol?

Eu: Vai te foder, Caitlyn. - me virei pra Carol, deixando ela falando sozinha.

Cait: É sério, mano. Você só aprontam quando tão sem mim, que porra foi essa?

Carol nem olhava pra cara dela. O sinal tocou, e nós voltamos pra aula. Cait insistiu mais um pouco pra que a gente contasse o que aconteceu, mas eu ia xingar pra caralho se abrisse a boca pra falar com ela, e não era a hora. A gente tava no meio de uma aula de... que era aquilo ?!

Cait: Diz aí, Sab, porra.

Não aguentei.

Eu: Vai tomar no cu, Cait, que porra! - falei meio alto demais.

A professora, que tava escrevendo na lousa, me procurou pela sala com os olhos, até que:

Silvana: VOCÊ!!! - ela apontou pra mim daquele jeito louco dela.

Gelei.

Silvana: Eu me lembro de ti!!! E da guria da tua frente. Como vão? Hahah quem se importa?

Soltei uma risadinha nervosa, enquanto a sala inteira me olhava.

Silvana: Qual teu nome mesmo? SABRINA! Ei, Sabrina, tu leu Dom Casmurro?

Eu: Tipo...

Silvana: O que tu acha de quem mantem um segredo? Tipo a Capitu do livro.

Minha boca secou.

Silvana: Tu acha que ela traiu o marido?

Eu: Acho que ela traiu muita gente, professora.

Cait me olhou sem entender nada. Fiquei pensando no meu pai, na Alice, na Cait, e em mim mesmo, nessas porras todas de segredo.

*

Isso tudo era mesmo uma porra. Já eram umas 4h da tarde, e eu tava de saco cheio de ficar fumando maconha no sofá de casa. Tava me angustiando. Resolvi ir tomar uma cerveja no bar da Alice. Não podia chamar a Cait mesmo, mas pelo menos teria ela pra conversar. Quando cheguei, ela tava na porta fumando um cigarro.

Alice: Sab! - ela sorriu, encostada na parede de fora do bar.

Eu: Vim aí tomar uma.

Alice: Te acompanho, espera só eu terminar esse cigarro.

Resolvi acender um também, pra esperar ela. Mas os nossos cigarros não terminaram nunca. Dali, acendemos um atrás do outro, ficamos muito tempo conversando, o assunto nunca acabava. Contei pra ela da Cait, do olho roxo da Carol, da Vitória. Ela sorria de um jeito que me deixava melhor.

Alice: Foi muito boa tua resposta pra professora hoje. Tu leu mesmo o livro?

Eu: É claro que não. E não te preocupe, não foi uma indireta pra ti, sabe? O negócio do segredo, e tal.

Alice: Não tem importância, mas sabe, Sabrina, queria que tu me contasse um segredo teu agora.

Eu não ia contar porra nenhuma pra ela, ela tava pensando que era quem? Ignorei o pedido. Acendi outro cigarro.

Eu: E por que eu te contaria?

Alice: Porque eu te contei o meu.

Eu: Eu não pedi pra tu me contar.

Alice: Eu...

Eu: Tu contou porque quis.

Ela parou de me encarar. Olhou pra um ponto que parecia não existir. O olhar dela parecia muito perdido, e ela abraçou o próprio corpo, como se sentisse frio. Finalmente ela resolveu falar:

Alice: Tu não é diferente dos caras, é? - ainda sem olhar pra mim.

Eu: Diferente como?

Alice: Tu sabe. De tratar uma guria como ela merece.

Apaguei o cigarro na parede e voltei pra casa, não tava a fim de ter aquele tipo de discussão, não aquela hora. Tu não pode demonstrar um mínimo de consideração pela guria que ela já começa a te cobrar coisas. Foda-se mesmo. As luzes da minha casa tavam acesas no andar de baixo. Tava com muita preguiça de encontrar meus pais, mas lá fui eu. Já tava de noite, queria deitar e ficar ouvindo música de cabeça pra baixo na minha cama. Quando tava chegando perto de casa, vi o cabelo loiro da Cait. Ela tava sentada no degrau da frente. Assim que me viu, fez sinal com a cabeça. Eu me sentei do lado dela. Ficamos sem falar nada uns minutos.

Cait: Vitória me falou.

Fiquei calada.

Cait: Desculpa, cara.

Eu: Tu não tem que pedir desculpa pra mim. Já falou com a Carol?

Cait: Não.

Minha rua era bem escura. Enquanto a gente conversava, um carro apareceu e parou alguns metros da minha casa, com o farol aceso, chamando atenção pra caralho, e a gente teve que olhar. Logo o farol apagou, e eu vi que era o carro do meu pai.

Cait: Victória disse que os caras vão me esfolar, to pagando pra ver.

Ele não tava sozinho, tinha uma guria do lado dele.

Cait: E que uns oito caras diferentes socaram a Carol, mas isso eu duvido...

Continuei olhando fixamente, e deu pra ver que era a mesma loira, a tal da Cássia. Não esqueço o nome dela nem fodendo.

Cait: ... ela só tinha um roxo na cara, não é? E além do mais...

Ele começou a beijar o pescoço da guria, enquanto ela ria pra caralho, mas não dava pra ouvir.

Cait: ... eu consigo acabar com uns 8, tu me ajuda, daí...

Ele subiu em cima dela. Meu coração já tava acelerado pra caralho, e minha garganta fechada. Meus olhos começaram a doer, bem no fundo. Sentia meu corpo todo queimando.

Cait: Ah, e a Victória mandou te avisar que ela dá pro Tales todo dia.

Eu: MAS QUE PORRA?!?!?!?!?!

Dei um soco na Cait.

Minha cabeça tava girando, e a gente começou a se socar. Não tava entendendo mais porra nenhuma, só precisava socar alguma coisa, e a Cait tava ali. Não sei quanto tempo aquilo tudo durou, mas quando finalmente entendi onde eu tava, vi ela com a boca sangrando, enfiando as mãos no próprio cabelo, como pra se recompor. A gente respirava ofegante.

Cait: Que porra, Sabrina?!?!? Ficou maluca?!

A gente tava quase caindo, eu ainda tava me sentindo muito mal.

Eu: EU TO CANSADO DE TI, CAITLYN! É SEMPRE A MESMA PORRA!

Ela fez sinal de quem não entendia, como se eu tivesse ficando louca.

Cait: Cara, calma lá, tu bebeu? Não é brincadeira agora, to preocupada contigo, eu...

Eu: Tu só pensa em tu, mano, é sempre a mesma merda! Tu pouco se fode! Pra tudo!

Cait: Do que tu tá falando, caralho? Tu tá brigando comigo por causa de homem? Só porque eu falei do Tales?

Eu: Não, cara! Tu pouco te fode pra todo mundo, tem a Carol, a Maiara, a Alice!

Cait: TU ME DEU UM SOCO POR CAUSA DE MINA, SABRINA!

Parti pra cima dela de novo, mas ela se defendeu.

Cait: Tu não supera o Tales, e agora ainda tá a fim da Alice. Mas que merda.

Eu: Eu não to a fim de porra nenhuma.

Cait: Tu tá sim, tu é um bosta que briga com teus amigos por causa de mulher. Como se valesse alguma porra. Essa Alice aí, cara. Tu não sabe de metade.

Eu: Sei sim, porra. Ela me falou, a guria não merece o jeito que é tratada. Ela me fez pensar hoje, quando a gente conversou.

Ele riu. Riu alto.

Cait: Pelo Tales eu entendo, mas a ALICE, Sab?! Até eu já comi essa Alice!

Eu: Tu acha que come todo mundo.

Cait: Eu comi, e mandei ela fazer videozinho pra mim ainda, e ela fez! Adivinha só.

Eu: Tu o que?

Cait: Tu acreditou naquela história babaca? Ela fez, e fez pra mim, e eu espalhei, porque ela é uma vadia.

Fiquei ali parado por uns minutos. Tava difícil respirar. Minha cabeça tava doendo pra caralho e meu ouvido tava zunindo. A puta da Cait me deu um soco bem na orelha. Sentia gosto de sangue na boca.

Cait: Pensa bem antes de trocar os amigos por buceta, Sabrina!

O carro do meu pai já tinha sumido. Ele deve ter me visto quando comecei a brigar com a Cait, e se mandou.

Cait: Elas te fodem, cara! Te fodem pra caralho! - ela gritou, indo embora.

Continuei ali enquanto ela ia embora. Logo dobrou a esquina, e eu continuei parada, como se não tivesse em frente a minha própria casa. Parecia que eu não tinha lugar nenhum pra ir, e realmente não tinha. Nenhum lugar onde eu me sentisse bem, pelo menos. Minha mãe não tava em casa, e eu nem conseguia imaginar onde ela estaria, mas era melhor assim. Não sei eu queria que ela soubesse do meu pai, aquele filho da puta. Eu daria um jeito de matar ele antes da minha mãe descobrir. Quem me dera. Quando vi meu pai no carro fazendo aquela cena bizarra, pensei de verdade em voltar pro bar da Alice, pra gente continuar conversando. Senti até vontade de contar pra ela sobre aquilo tudo, pra ver se melhorava. Enquanto a gente conversava e ria, eu nem lembrava desse tipo de coisa. Quem sabe ela fizesse passar. Que nada. Era só mais uma, e daquelas que sabia mentir. Cait é uma egoísta, mas ela não mentiria pra mim. Não esse tipo de coisa. Deitei na cama, de cabeça pra baixo, assim como eu queria. Resolvi que ia pular a cena da Cait no meu portão, do meu pai, e da gente se socando. Eu teria voltado do bar da Alice, e deitado aqui, tipo to agora, mas o gosto de sangue na minha boca não me deixava esquecer. To cercado de filhos da puta.

Botei o fone de ouvido, apertei play, e a música que tava tocando antes continou.

"Pack up; I'm straight; Enough;

Oh say, say, say;

Oh say, say, say;

Oh say, say, say;

Oh say, say, say;

Oh say, say, say "

Acordei de madrugada e não consegui mais dormir. Fiquei olhando pros meus pôsters pregados no teto, de um monte de bandas que eu já nem ouvia mais, mas ainda tavam por lá. Acho que com algumas coisas tu só se acostuma. Tava sozinha em casa, com certeza. Meu pai não teria a cara de pau de aparecer agora. Ou teria. Foda-se. Eu já não tava ligando mais pra aquilo. De repente já era 7h, e eu tava atrasada. Eu não muitos motivos pra ir pra lá, mas muito menos pra ficar em casa. Comi qualquer coisa que ainda restasse no armário e me mandei. Cheguei quase no meio da primeira aula, e resolvi ficar lá fora fumando um cigarro. Quem sabe não aparecia mais alguma professora louca pra me distrair.

Nada.

Chegou o horário da segunda aula, e eu podia entrar. Aqui tem essas frescuras de tu não poder entrar entre uma aula e outra. Coisa do diretor. Entrei na sala, e vi que meu lugar tava vazio. Ao lado da Cait, atrás da Carol. Elas tavam por lá também, sempre nas mesmas posições. A Cait dormindo, e a Carol ouvindo música olhando pro próprio tênis. Não quis ver se a Alice tava por lá.

A aula passou como se eu tivesse apertado o botão do controle pra adiantar o filme. Ainda bem. Entrei e saí da sala sem falar com ninguém. Carol deu uma desculpa qualquer pra ir embora mais cedo, e eu não falo muito com o resto das pessoas mesmo. Cait dormiu o tempo todo, e continuou quando eu fui embora. Resolvi esperar ela na saída, pelo menos. Acendi um cigarro, e fiquei na esquina da padaria, onde a gente costumava ficar, longe daqueles babacas com carro. Fiquei olhando pra uma bonitona que passava, o que eu tinha imaginado que fosse namorada do Julio. Acertei em cheio. Fiquei olhando quando ele saiu do portão, arrumando o cabelo. Aí ele atravessou a rua correndo quando viu a bonitona, que tava encostada no carro. Bom pra ela, que tava pegando o Julio, enquanto eu tava aqui esperando a babaca da Cait sair. Má idéia. Esperei pela Cait, mas quem surgiu saindo da padaria foi a Alice. Que ótimo. Ela parou do meu lado esperando que eu dissesse qualquer coisa, o que não aconteceu. Ela resolveu tomar a iniciativa:

Alice: Ei.

Ignorei.

Alice: Aceita um chocolate, Sab?

Eu: Valeu.

Ela continuou ali, e a presença dela já tava começando a me incomodar. Vi Cait do outro lado da rua, acenei pra ela. Assim que ela viu que eu tava do lado da Alice, me mostrou o dedo do meio e seguiu pela outra calçada. Ótimo. Agora a idiota tava achando que eu tava de boa com a Alice.

Alice: Sabe, Sab, sobre ontem...

Eu: Não teve ontem, Alice.

Aquilo já tava começando a me irritar.

Alice: Do que tu tá falando?

Eu: Não teve ontem, e nem anteontem, e nem nenhum dia que eu tenha falado contigo. – traguei fundo o meu cigarro, pra ver se me acalmava. Ilusão.

Alice: Por que tu tá dizendo essas coisas?

Eu: Tu acha que me compra com um chorinho e um suco de limão.

Alice: Eu só queria...

Eu: Tu quer é sumir. - eu ainda não tava olhando pra cara dela.

Alice: Sabrina, me diz o que tá acontecendo.

Eu: Eu sei porque tu odeia a Cait.

Alice: Porque ela é uma...

Eu: Ela não é muito diferente de ti, Alice.

Alice: Olha, eu não sei o que ela te disse, mas..

Eu: Ela me disse o que eu já esperava de ti, bem no fundo.

Ela ficou quieta.

Eu: E eu não trato as gurias como elas merecem. Trato como elas pedem pra ser tratadas.

Alice: Isso não fez o menor sentido.

Eu: Tu não me faz o menor sentido.

Do outro lado da calçada, tava Victória me encarando. Como se eu fosse passar lá e pegar o namorado dela a qualquer momento. Só se fosse pra mandar ele se foder. Essas gurias adoram ficar encarando a gente, como se isso provasse alguma coisa. Sou magrinha, mas eu quebroela em dois tempos, e ainda corro mais rápido. A Alice continuou falando, como se eu ainda tivesse a fim de ouvir ela:

Alice: Foi tudo verdade, Sab. Eu só não te falei a parte que o cara era a idiota da Cait.

Eu: Que te comeu depois.

Alice: Como tu é grosso!

Eu: E os dedos dela? Também são? - finalmente olhei pra ela. Sorri enquanto pisava pra apagar meu cigarro no chão.

O melhor que eu tinha a fazer era ir embora. Fui pra pista, Cait com certeza estaria lá, pra que eu pudesse, sei lá, pedir desculpas.

E ela realmente tava. Sei lá de onde ela tinha tirado um skate se foi pra aula sem nenhum, mas ela tava dando umas manobras. Carol tava ali do lado também, num banco, fazendo sei lá o que. Nunca dá pra saber o que ela tá fazendo.

Eu: Ei.

Cait: E aí. Tudo te resolveu na tua casa?

Eu: Do que tu tá falando?

Como ele sabia do meu pai?! Que porra era aquela?!

Carol: Cait me contou. Agora todo mundo tá com algum machucado de briga, olha que legal. - ela sorriu, mas eu não sabia se tava sendo irônica. Mais uma vez: nunca dá pra saber. E não era do meu pai que ela tava falando, por sorte.

Eu: Ah, é. Relaxa, cara. Tá tudo bem. Falei com a Alice.

Carol: Tu esquece, cara.

E aí ela tirou mais um baseado já bolado do bolso, dessa vez com um isqueiro junto. Eu gosto da Carol porque ela nunca fica te perguntando muita coisa. Eu disse que tava tudo bem, e ela concordou.

Cait: Tá doendo! - ela gritou do meio da pista, sorrindo pra mim e mostrando o corte na boca.

Eu amo elas.

Passamos a tarde lá como de costume, entre baseados e tombos de skate, dando muita risada de qualquer coisa. Me sinto bem babaca quando to fumado. A gente tava numa rodinha: eu, Cait, Carol e mais uns três conhecidos que tavam sempre por lá.

Cait: Daí tu imagina, cara. Tipo. - ela travou.

Cara1: Fala, Caits.

Cara2: AHAHAH CARALHO, ELA TÁ TIPO.

Cara1: Ela travou mano.

Cait: AHAHAHAHHAHAHAHAH.

Todos: HAHAHAHAHAHAHAHAH

Eu: Que porra foi essa HAHAHAH

Cait: Eu não sei, mano HAHAH - ela já tava deitada no chão. - Eu só, tipo, travei. HAHAH

Eu já tava ficando com dores abdominais de tanto dar risada, tava foda, doía tudo, até que apareceram umas gurias novas do outro lado da grade da pista. Era uma grade velha, bem velha.Puro tétano.

Cara1: Caralho, olha os peitos daquela guria de cabelo curto.

Eu tive que olhar. Eram bonitos pra caralho mesmo, numa blusa de estampa de oncinha. Sem ofensas, mas essas estampas de onça são um atestado de vadia, se tu usa demais. Ela tava com uma blusa dessas, e um cinto de zebra.

Cait: Tá usando um sutiã foda, o peito dela não é nada de mais.

Cait me impressionava com essas coisas às vezes.

Pra nossa surpresa, uma das quatro gurias que tavam junto com a oncinha era namorada de um dos caras que tava com a gente. Por sorte a gente não tinha falado da mina dele. Logo vi que uma das gurias também era conhecida nossa, a Maiara. Ele chamou as gurias pra falarem com a gente. Tentamos disfarçar a brisa, mas até o fio do cabelo da guria que tava fora do lugar me fazia dar risada. Carol era a que disfarçava melhor.

Maiara: Que olho vermelho, Sabrina.

Eu: O que? - eu queria rir na cara dela, já tava lacrimejando.

Maiara: Teu olho. Vocês fumaram, tem mais aí?

Eu: Tem mais o que? - ela tava com uma cara muito engraçada, meu Deus!!

Maiara: Nada. Cadê a Cait?

A Vadia já tinha se mandado. Não pode ver guria no pé que some. A Maiara era meio mala mesmo.

Carol: Que Cait?

Eu: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHSJDFJ

Tive que sair da roda. Pra variar, não sabia se a Carol tava falando sério, mas foi foda. Fiquei deitada na grama do canto da pista, brisando no que aconteceria se uma frutinha da árvore caísse bem no meu olho. Seria muito azar. Azar. Azar é uma palavra muito louca. Muito louca. Acabei dormindo ali na grama mesmo, minha cabeça tava pesada pra caralho. Se alguém me chutasse eu nem ia sentir. Nem sei como eu acordei com Carol me chamando:

Carol: Sab. - ela tava em pé do meu lado, cobrindo o poste de luz. Nem dava pra ver a cara dela.

Eu: Quem é?

Carol: O Spock do Jornada nas Estrelas, cara.

Eu: Ahn? - Sentei, pra ver se conseguia ver quem era.

Carol: A gente tem uma missão. Mff.. - só podia ser a Carol pra mandar essa de nerd.

Eu: Cala a boca. - Ela me ajudou a levantar.

Carol: AHHAHAHAHAH

Os viados devem ter continuado a fumar enquanto eu dormia, tava todo mundo passado.

Carol: Ei, Sab. Cait tá chamando pra ir na casa dela.

Eu: Que horas são, mano?

Cait: Para de ser encubada, Sab. - ela sempre brotava do chão - To a fim de pegar a zebrinha, ela tá dando um mole do caralho e não tem ninguém em casa.

Eu: Essa guria deve dar mole até pra um pedaço de madeira. E nunca tem ninguém na tua casa.

Cait: Cala essa boca e vamo nessa, vai.

Eu não sei porque eu ainda discuto. Os dois caras e a Cait foram na frente com as quatro gurias. Eu e Carol andamos logo atrás, como sempre. No caminho, a gente passou pra comprar vinho num único mercadinho esquisito que ainda tava aberto. Daqueles com cheiro de coisa errada mesmo. Era escuro e Carol não parava de espirrar, devia tá puro mofo. Eu odeio vinho, acho muito bebida de fresco, coisa de riquinho ou de gótico que vai fazer cena bebendo no cemitério, em cima do túmulo. Uau, tu é foda mesmo, que bela bosta. É isso que eu tenho vontade de dizer pra esses caras.

Carol: Quer dividir umas Heinekens?

Eu: Cala a boca, onde tu tá vendo Heineken, sua put...

Elas tavam bem na minha frente, brilhando. A melhor cerveja já feita na história da história do mundo das cervejas do universo da galáxia toda. Eu beijaria na boca o cara que a inventou. Eu sorri como não sorria há muito tempo. Tu nunca encontra Heineken em lugar algum. A noite tinha mesmo que ser boa. Abracei umas garrafas no braço, e tava pronto pra qualquer coisa. No sobrado velho da Cait, ficamos todos na sala assistindo um pornô daqueles bem trash que tava passando na TV. Já devia ser tarde mesmo.

Cait: HAHAHAH Que fail. O cara mal encosta na mina ela já começa "AAAAAAAWWWWRR" – ela simulou um gemido alto pra caralho.

Todo mundo caiu na risada, mas tava bizarro mesmo. Às vezes eu acho que esses roteiristas de pornô trash são todos virgens. O melhor é o contexto: a guria precisa de alguém pra consertar o encanamento, e aí aparece um mecânico todo bombadão, com óleo no corpo. E ela diz: "posso pegar no teu cano?". Aí a coisa começa.

Quando o filme acabou eu já tava bem bêbada, e tive certeza disso quando comecei a conversar com a Carol, sem perceber que ela já tava dormindo. Tava sentada do meu lado no sofá, com uma Heineken entre as pernas, e a cabeça tombada pra trás. O guri com a namorada já tinham subido pra qualquer quarto lá de cima, e a Cait tava investindo na zebrinha. Dava pra ver que a Maiara tava olhando com ódio pra ela. Nem imagino onde estariam as outras duas gurias.

Eu tava quase dormindo também, quando decidi levantar pra fumar um cigarro lá fora. Eu gosto do frio que fica de madrugada nessa época do ano, que faz um calor do caralho durante o dia. Peguei a Heineken que tava no colo da Carol. Nunca se pode desperdiçar uma Heineken, por mais quente que esteja. E por mais que tenha germes da Carol. Aff.

A casa da Cait tinha um projeto esquisito, tu saía e dava direto na garagem, que obviamente não tinha carro nenhum, só uma bagunça generalizada. Fiquei lá mesmo, fumando, encostada na parede, intercalando uns goles de Heineken. Ouvi uns passos logo atrás de mim. Nem me preocupei em olhar pra trás, tava bem louca mesmo. Achei que já tivesse passado o efeito do beck quando dormi na grama, mas o pouco que restava foi misturado com a bebida e eu tava daquele jeito. Tava tenso até pra segurar o cigarro. Numa dessas, já fumei o cigarro do lado errado e queimei a boca. Nem foi legal. A garagem da Cait era bizarra mesmo. Fiquei pensando que se eu chutasse qualquer pilha de caixas que tinha lá ia sair um zumbi, ou qualquer coisa parecida. Quem sabe não saíssem os pais dela.

Maiara: Ai, Sabrina. Não sei mais o que fazer.

Os passos eram da Maiara. Fiquei quieta pra ver se ela esquecia que eu tava lá. Coisa de bêbada.

Maiara: Cait já tá pegando a Aline.

Quem porra era Aline? E daí que a Cait tá pegando qualquer pessoa? Ela continuou:

Maiara: Sabe, eu não sei o que há de errado comigo. Eu sou bonita, não sou, Sab?

Ela tava tropeçando nas palavras, falando arrastado, como qualquer bêbada dessas.

Maiara: Caralho! Aquilo é um Twister?

Eu: Twister? - resolvi falar.

Ela foi até uma pilha de caixas, que tava coberta com aquele jogo bizarro, Twister, das bolinhas coloridas. Nunca joguei. Fiquei olhando enquanto ela tentava tirar o Twister de cima das caixas, toda desajeitada e bêbada. Por pouco não vi a calcinha dela naquele vestido preto e curto que ela tava usando. Ela jogou aquela porra empoeirada no chão e sorriu.

Maiara: Isso me lembra minha infância. - ficou em pé do lado do twister, olhando pra ele e sorrindo.

Assenti.

Maiara: Mas sabe, Sab. A Cait fica com todo mundo, por que comigo não? Qual o problema comigo? E eu nem gosto dela, sabe.

Deve ser porque tu fala demais. Fiquei olhando pro Twister, tentando entender aquela porra. Maiara: Eu só queria que ela me ensinasse, Sabrina! Sabe, essas coisas. Eu sou virgem. Queria saber como funciona. E todo mundo fala bem dela, que manda bem, e tal, e que me pegaria com certeza, mas eu já dei todos os sinais e...

Eu: E como funciona?

Maiara: Ah, tu sabe, eu sei que tu já não é mais virgem.

Eu: Não, o Twister.

Maiara: Ah! Tu quer jogar? - ela sorriu feito menininha.

Tava lá sem fazer nada mesmo, e não tava a fim de ficar ouvindo desabafo. Ela me explicou rapidinho como se jogava, e me pareceu bem idiota, mas eu nunca tinha jogado, nunca tive. Ela dava risada a cada coisa que o jogo nos mandava fazer. Agora pé direito no verde, mão esquerda no amarelo, tava ficando impossível, tanto que comecei a rir junto com ela. A gente tava todo torto, uma em cima da outra. Às vezes a bunda dela ficava bem na minha cara. Dessa vez, sim, eu vi a calcinha. Por fim, eu tava totalmente vulnerável, quase caindo. Duas mãos minhas tavam pra trás, e eu tava quase deitada de barriga pra cima, com os pés sei lá onde, enquanto ela tava em cima de mim. Nosso rosto tava bem perto. Ela pegou o cigarro da minha boca e deu um trago. Fiquei olhando enquanto ela soltava a fumaça. Até que era bonita a tal da Maiara.

Eu: Ei, Ma.

Maiara: Fala.

Eu: Tu quer que eu te mostre?

Maiara: O que?

Eu: Tu sabe. Como funciona.

Ela ficou olhando nos meus olhos, bem fundo, com uma expressão estranha. Eu sorri pra ela. Ela apagou o cigarro no próprio Twister, me olhou de volta e me deu um beijo. Eu puxei o vestido dela pra cima, e até que foi fácil de tirar. Vestido é um porre pra tirar, pior que camisa de botão. As gurias podiam usar umas roupas mais fáceis. Ela tava com um sutiã bonitinho, era verde, com umas bolinhas que eu não sei se eram roxas, ou rosas. A garagem da Cait tinha uma luz estranha Voltei a beija-la, ela sentou no meu colo. Tirei minha camisa também, a abracei enquanto a gente se beijava, e aproveitei pra deitar ela no Twister, pra que eu ficasse por cima. Beijei o pescoço dela, enquanto massageava os peitos dela. Eram bons, grandes. E ela era bem branquinha. Desci pelo seu corpo devagar, beijava cada parte. Cheguei até a calcinha, passei um dos braços por baixo da coxa dela, pra levantar a sua perna, enquanto eu beijava. Olhei pro rosto dela pra ver o que tava acontecendo. Ela tava de olhos fechados, sorrindo, um tanto ofegante. Abaixei a calcinha dela devagar. Tudo ocorreu bem, foi gostoso.

Não fiz nada de mais, só um "mamãe e mamãe" e uma tesoura numa boa, porque era a primeira vez da guria, não ia pedir pra gente testar nenhuma nova posição do Kamasutra. Ela tinha um corpo bonito, apesar de não ser magrelinha como eu gosto. Quando terminamos, saí de cima dela e deitei pro lado. Ela me abraçou por trás, querendo dormir de conchinha. Dormi em um segundo. Ela quis conversar sobre alguma coisa, mas eu tava bêbada, cansada e tinha acabado de gozar. Não tinha força pra mais nada. Eu não sei porque as pessoas insistem em ficar conversando contigo depois do ato, quando tu só quer dormir. Dormi gostoso, no chão, em cima do Twister mesmo.

Quando acordei, a Maiara ainda tava lá. Caralho. Eu tava com muita preguiça de olhar pra cara dela de manhã, mas foda-se. Me levantei, meu corpo tava todo dolorido, e eu tava cheirando a garagem. Voltei pra dentro de casa, já não tinha mais nenhum filho da puta por lá. O relógio velho da sala marcava quase 2h da tarde. Os viados já tinham se mandado pra aula e me largado aqui, com a Maiara. Devem ter achando que a gente tivesse ido embora.

Maiara: Bom dia. - ela disse enquanto se espreguiçava. Levei um susto.

Eu: E aí. - não fiz questão de sorrir, tava tudo doendo.

Maiara: Deixaram a gente aqui, não é? Eu preciso ir pra casa, já perdi a aula mesmo.

Eu: Pode crer. Também já vou.

Ela veio logo atrás de mim. Só faltava essa guria querer me seguir até em casa, igual cachorro quando tu dá um pouco de atenção. Por sorte, ela parou na frente da casa da Cait:

Maiara: Valeu mesmo, Sab.

Sorri de volta pra ela dessa vez.

Eu: Não tem de que. É só tu fazer aquelas coisas que eu te disse, e não vai ter erro. Logo tu pega mais experiência, daí...

Ela me deu um beijo. Sorriu, um pouco tímida, e se mandou. Eu continuei ali mesmo, aproveitei pra acender um cigarro, quem sabe as dores não passassem. Uma voz surgiu de trás de umas moitas de plantas da casa do vizinho.

Alice: Oi. - ela me cumprimentou, seca pra caralho.

O que essa maluca tava fazendo na porta da casa da Cait?!

Eu: Tu me segue pra onde eu vou, é?

Alice: A Maiara mete bem?

Não consigo nem explicar a cara que eu fiz quando ouvi aquilo.

Alice: Aposto que não. Era por isso que ela vivia atrás da Cait, e falava com ela por webcam, pra ver se conseguia alguma coisa.

Eu: Mano, chega dessa história. Por que tu só não desaparece?

Alice: Porque...

Eu: Eu não me importo contigo, cara. Se for verdade, se for mentira, tu me traz dor de cabeça, que é a última coisa que to precisando agora.

Alice: Tu é como todas as outras.

Eu: Eu nunca te falei que eu era diferente.

Ela sorriu, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas, e ela ficava cada vez mais vermelha. Isso é foda, quando guria começa a chorar. Parece que elas fazem só pra te manipular. Eu não sou nenhuma psicopata sem sentimento pra simplesmente ignorar esse tipo de coisa. Eu não tava com pena, tava com raiva, tava com vontade de mandar ela se foder e parar de chorar. Só parei de olhar.

Alice: Eu sei como é. - quando ela abriu a boca, as lágrimas escorreram.

Eu: O que? - voltei a olhar pra ela.

Alice: Quando teus pais fazem essas coisas.

Eu: De que porra tu tá falando, guria?

Alice: Teus pais, não é? Tu não age assim à toa. Tu não faria as coisas que tu faz se isso não tivesse acontecendo. Tu não teria essa expressão. Aposto que tu tá cansada.

Eu: Tu quer o que? Me foder, é?. - quem sabe agora ela se ofendia e sumia.

Alice: Tu daria mais valor pras gurias se teu pai...

Eu: Só cuida da tua vida. Se tu abrir a porra da tua boca pra falar comigo de novo eu...

Alice: Tu não vai fazer nada. Tu não quer ser igual o teu pai.

Minha garganta fechou. Como eu odiava quando isso acontecia.

Alice: Eu não ligo de tu ter ficado com a Maiara, nem de tu tá me tratando desse jeito agora. Eu gosto de ti, Sabrina. No melhor sentido que isso pode ter.

Eu: Ah, é? - eu abri um sorriso gigante.

Ela concordou com a cabeça, enquanto enxugava as lágrimas na manga da blusa.

Eu: FODA-SE! - falei bem alto, de braços abertos pra ela, pra ver se dessa vez ela entendia.

Ela continuou chorando, enquanto eu dei as costas. Aquilo me partia o coração, mas a minha cabeça tava girando pra caralho, e dali a pouco eu ia começar a chorar também. Ela não tinha que falar nada dos meus pais, não era da conta dessa filha da puta. Ela não tinha que falar comigo, pra começar.

Alice: Pena que tu é uma covarde. - ela gritou, já longe.

Voltei pra casa e fiquei no meu quarto, deitada do mesmo jeito de sempre, olhando pros mesmos pôsters de sempre. Não tinha fome, nem sono, nem nada. Mesmo as dores no corpo de antes, já tinham passado. Minha casa tava vazia, tipo eu. Tive a sensação de que se o teto caísse sobre a minha cabeça as coisas melhorariam.

Resolvi fazer uns rabiscos sem nexo na parede. Eu gostava de fazer isso pra pensar. Peguei um pedaço de carvão velho que eu sempre deixava embaixo da cama e comecei a escrever. Saíram umas coisas loucas, umas palavras que eu nem sabia o significado, desenhei a Alice chorando, mas só eu podia ver que era ela. Ouvi meus pais discutindo sobre qualquer coisa na cozinha. Quem se importava? Até que tocaram a campainha. Não era nenhum dos meus amigos, eles não tocavam a campainha. Geralmente atiravam alguma coisa na minha janela.

Pai: SABRINA, VAI ATENDER A PORTA!!!

Como ele sabia que eu tava lá? Que babaca. Fui mesmo assim.

Desci as escadas correndo. Eu tinha uma habilidade muito louca pra fazer aquilo. Me lembrei de quando eu era criança, e descia aquelas mesmas escadas. As coisas pareciam ser melhores. Abri a porta enquanto os dois se xingavam ao fundo. Pra minha surpresa, e pra porra da minha surpresa mesmo, era a LOIRA. A outra do meu pai. A Cássia, com o mesmo cabelo de socialite amarelo ovo, preso num laquê. Usava uma roupa vermelha, um terno desses de secretária. Ela me pareceu muito sem graça ao me ver, mas tinha uma expressão cansada e triste:

Cássia: Oi... É...

Pai: QUEM É, SABRINA?? - ele gritou, de lá da cozinha.

Eu não sabia o que responder, só fiquei parada olhando-a de cima a baixo. Eu devia parecer com muita raiva, porque ela começou a suar em segundos. Minha mãe apareceu logo atrás de mim, abrindo mais a porta pra ver quem era.

Mãe: Pois não? - daquele jeito grosso da minha mãe, que também analisou-a com os olhos.

A porta já tava toda aberta, e meu pai pôde vê-la de lá da cozinha. Percebi que os olhos dela o encontraram dentro de casa, quando ela parou de olhar pra mim e pra minha mãe.

Cássia: Mauro, eu...

Ela tinha uma cara de choro. Meu pai apareceu correndo, com a maior cara de cínico, como se não entendesse nada. A mulher passou por mim e pela minha mãe, abraçou o pescoço do meu pai, e deu um beijo que eu nunca tinha visto ninguém dar fora dos filmes.

Fodeu. Fodeu. Fodeu.

Fiquei olhando aquilo tudo, sem saber o que pensar. Não queria olhar pra cara da minha mãe. Foi tudo tão rápido que nem tive tempo de sentir raiva.

Cássia: Eu te amo, Mauro. - ela disse quando parou de beija-lo.

Nessa hora, toda a raiva que não tinha aparecido gradualmente, apareceu de uma vez. Eu quase pulei no pescoço dele tipo como ela fez com o meu pai, mas seria pra enforcar. Já tava imaginando as veias do olho dele saltando, enquanto eu apertava o seu pescoço. Não quis olhar pra minha mãe, mas ela tava no canto do meu campo de visão. Ela colocou a mão na boca, e deu um grito de espanto, um pouco baixo pra situação. A mulher não parava de olhar pro meu pai, enquanto ele tava todo desconsertado. Dava pra ver na cara dele que ele não sabia se empurrava ela, se continuava a beijar, se se fingia de louco. No fundo, eu tava adorando ver ele se foder. Ele não parava de olhar pra mim e pra minha mãe, com aquela mulher pendurada no pescoço dele.

Pai: Mel, eu...

Mãe: SHH!!! - ela levantou a mão pra ele, do jeito que ela fazia pra mim quando ficava muito, muito, muito brava mesmo.

Eu não quis ficar ali parada pra saber o que ia acontecer.

Eu: Tu é um bosta, daqueles que dá nojo só de olhar. - falei, olhando bem no fundo dos olhos dele, enquanto eu subia pro meu quarto. Ignorei aquela mulher.

Bati a porta do meu quarto com força, queria que tivesse quebrado, mas não foi dessa vez. Deitei no chão mesmo, tava foda de ficar em pé. Minha respiração tava mais ofegante do que umas 20 horas atrás, quando eu tava com a Maiara. Percebi que eu devia ter ficado lá embaixo, porque tinha mais gente por perto. Quando não to sozinha, consigo segurar qualquer barra numa boa, como se tivesse pouco me fodendo. Sozinha, tudo vinha de uma vez. A cabeça girando, garganta fechada, meu corpo todo quente, os olhos doíam bem no fundo. Acho que era vontade de chorar. Eu não queria, mas consegui ouvir os idiotas lá debaixo. Meu pai tava falando num tom de voz muito calmo, como se nada tivesse acontecendo. A mulher tava chorando, e minha mãe desbancava todo mundo com os gritos dela. Isso era o que eu mais gostava na minha mãe, por incrível que pareça. Ela fodia qualquer um com as palavras.

Mãe: Mais nem uma palavra. Pode te mandar tu e essa vagabunda.

A vadia gemeu qualquer coisa.

Mãe: TU e essa VAGABUNDA.

Imaginei ela levantando a mão. Meu pai se defendeu, mas não pude ouvir. Ela interrompeu de novo, gritando:

Mãe: Ou melhor, EU vou embora. Já faz tempo que to querendo sair dessa cidade, eu sabia que ia dar bosta. Fica aí, eu vou buscar a Sabrina.

Pai: Ficou maluca, Mel? Tu vai pra onde, tu não ...

Mãe: NÃO TE INTERESSA MAIS PRA ONDE EU VOU OU DEIXO DE IR. SAI DA MINHA FRENTE.

Caralho. Essa podia tá indo pra casa da minha vó. Caralho. Caralho. Minha mãe tava indo embora. Eu fiquei ali esticada no chão. Definitivamente não conseguia me levantar. Era como se me tivessem arrancado os ossos. Ouvi o barulho do carro do meu pai. Ele também tava se mandando. Minha mãe subiu as escadas chorando pra caralho. Eu queria ir ver como ela tava, mas não conseguia. Meu estômago tava fundo, fundo mesmo, parecia que eu tinha tomado um soco. Me encolhi e abracei meu próprio joelho pra ver se passava. Comecei a chorar. Não tava ligando de chorar mesmo. A gente cresce com essa de não poder chorar nunca. Desde quando tu é criancinha, tu nem sabe resolver as coisas se não for chorando, e os caras já começam a te cobrar que tu é gente grande, e tu não chora. Tu acaba até criando uma resistência mesmo. Eu lembro de todas as vezes que eu chorei na vida.

Minha cabeça queimava, e eu tava ficando sem fôlego. Não conseguia me imaginar mais fora daquela posição, fazendo outra coisa. Podia ficar lá pro resto da vida. Existe mesmo esse negócio de chorar até desidratar. Fiquei lá por umas horas, com certeza. Até abrirem a porta:

Mãe: Sab?

Não respondi. Tentei engolir o choro pra que ela não percebesse, mas minha cara tava inchada. Enxuguei o rosto correndo, ainda não conseguia me levantar.

Mãe: Filha... - ela veio andando até mim.

Se fosse meu pai, ele ia tentar me levantar com as grosserias dele. Minha mãe só me deixou ali, não moveu um músculo pra me fazer levantar. Ela sentou do meu lado e ficou passando a mão no meu cabelo até eu dormir. A gente não trocou nenhuma palavra, e nem precisava. Nós dois concordávamos que meu pai era um bosta. Quando acordei, ainda tava no mesmo lugar, mas minha mãe não tava mais lá. Fiquei deitada por mais um tempo, tentando imaginar que aquilo tudo tinha sido um sonho daqueles bens ruins, mas não. Meu rosto ainda tava molhado, e minha cabeça doía. Meu pai tinha mesmo dado uma daquelas.

Me levantei disposta a apagar aquilo tudo, fingir que nada aconteceu, e só mandar meu pai tomar no cu quando ele aparecesse. Provavelmente não ia aparecer tão cedo, então foda-se. Acho que finalmente seriamos só eu e a minha mãe, e tudo ia ficar bem. Ela nunca tava em casa, mas ainda era melhor que o meu pai. Mãe é mãe.

Enquanto me espreguiçava e sentia cada osso do meu corpo doendo pra caralho, vi um papel em cima da minha cama, que eu mesmo não tinha deixado lá. Meu coração disparou, eu já tava imaginando. Peguei o papel na mão, era um bilhete. Minha mão tremia enquanto eu lia:

"Sab,

Quando estiver lendo esse bilhete, provavelmente eu já estarei longe. Vou para a casa da sua avó, na fazenda. Não te acordei para que viesse junto, pois tu tens uma vida aí, e não seria certo que eu a tirasse por causa do seu pai. Estarei aqui te esperando pra quando quiser vir me visitar. Ou logo as coisas se acertam, e eu vou te buscar, filha.

Te amo,

Mãe"


Notas Finais


:(


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