História Young Remembrance - Capítulo 6


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Festas, Jovens, Lembranças, Loucuras, Pegação, Romance, Sexo, Skins, Universidade, Violencia
Exibições 6
Palavras 8.324
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Fantasia, Festa, Ficção, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo, Violência, Yuri
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Deu uma tretinha pra postar esse capítulo, mas taí.

Espero que gostem.

Capítulo 6 - Ratos de esgoto


O QUE TÁ ACONTECENDO COM A MINHA VIDA, MANO?

Eu tenho uma amiga filha da puta que come a guria que eu estou a fim e acha bonito, uma mentirosa do caralho atriz de proibidão que tenta me comprar com pão de queijo e umas lágrimas, tenho meu ex comendo uma garota escrota que pagou uns caras pra bater na minha melhor amiga e tão prometendo que vão esfolar a gente, e um pai filho da puta comendo uma loira do caralho e VAI TOMAR NO CU. Dei um soco na parede. Minha mão começou a sangrar pra caralho, mas eu continuei socando, até começar a esfolar a tinta azul.

Minha mãe tinha me deixado pra trás, que merda. Sentei na cama e fiquei tentando entender as coisas. O que eu ia fazer sem ela? Onde meu pai estava? Como eu ia fazer pra continuar, tipo, VIVENDO? Que horas eram? Estava na hora da aula? Há quanto tempo eu não ia pra universidade?

Eu não queria ir pra fazenda da minha vó, eu nem gostava de lá. Queria ter uma daquelas vovozinhas que fazem bolo pra gente, tipo a vó da Carol. Elas usam aquelas roupas de vovó, e fazem meias de tricô. Estava me sentindo uma criança tendo aqueles pensamentos. Eu estava precisando sair de onde eu estava antes que ficasse louca. Por um segundo fiquei com medo de ter qualquer pessoa na porta da minha casa, aquilo estava acontecendo sempre, as pessoas estavam aparecendo na porta da casa das outras trazendo um monte de problemas. Pensei ter visto o vulto da Alice quando fechei a porta da frente, mas estava viajando.

Perguntei pra um cara qualquer na rua que horas eram, mas ele me ignorou. Eu devia tá com uma aparência péssima mesmo. Lembrei que era sexta-feira, mas aquilo não me deu ânimo algum. Passei em frente a uma loja bizarra daquelas pequenas, que vendem um monte de coisas falsificadas num cubículo minúsculo mesmo. Estavam vendendo uns relógios de pulso da China, parei pra perguntar o preço, mas só queria ver que horas eram. 11h da manhã e estava no segundo intervalo da aula. Se eu corresse dava tempo de pegar as duas últimas, e encontrar as meninas.

Entrei na sala, e todo mundo parou de fazer o que estava fazendo pra olhar pra minha cara. Queria muito um espelho naquela hora. E um remédio pra dor de cabeça. Sentei-me no mesmo lugar de sempre. Cait dormindo, Carol ouvindo música. Encostei a cabeça na parede e fiquei ouvindo a professora de bioquímica falar qualquer coisa sobre o sistema digestivo. Só sabia que o meu estava fodido, como eu por inteira. Carol jogou uma bola de papel pra trás, que acertou bem na minha bochecha. Antes que eu chutasse a cadeira dela perguntando se estava com algum problema, abri a bolinha de papel:

"Agora sim te foderam."

Carol sempre entendia. Ela levantou da cadeira e saiu da sala, eu fui logo atrás. Lá fora, no corredor mesmo, ela estava me esperando.

Eu: Cara...

Carol: Não precisa me contar. - ela me interrompeu enquanto tirava os fones de ouvido.

Fiquei ali olhando pra cara dela. Carol era minha amiga a pouco tempo. Todo ser sempre tem um amigo assim, ou pelo menos precisa ter. Não sabia o que dizer, mas nem precisava. A gente era de boas pra poder ficar em silêncio uma olhando pra cara da outra. Eu fechei apertei olhos e botei a mão na cabeça, estava doendo mesmo. Senti Carol me dar um abraço, desses bem rápidos mesmo, só pra dizer que estava ali. Encostei-me à parede, e comecei a escorregar, até sentar no chão, eu estava esgotada. Ela sentou do meu lado. Cait abriu a porta da sala, e viu a gente lá.

Cait: Por que vocês ficam dando festinhas sem me convidar?

Ignoramos.

Cait: Sabrina, tu tá péssima, mano. Que aconteceu? - ela finalmente tinha tirado aquele sorriso amarelo da cara.

Ficamos sentadas no corredor, acabei contando a história toda pra elas, iam acabar sabendo de algum jeito. Carol não falava nada, e que era só pra eu não me preocupar. Cait ficou dizendo pra gente dar umas tapas na mulher loira e essas coisas que só a Cait falava, mas ela até me surpreendeu quando disse que ia comigo quando eu quisesse visitar a minha mãe na fazenda.

Confesso que me senti um pouco melhor depois daquela conversa. Nada tinha acontecido, nem mudado, mas eu estava enxergando as coisas de outro modo depois de falar com elas. Parecia que as coisas estavam sendo encaminhadas, ainda mais quando a porta da sala se abriu de novo. Eu jurava que se fosse a Alice eu...

AHHHHHHH, Júlio! Que jeito mais lindo de abrir a porta. A gente parou de conversar pra ficar olhando pra bunda dele enquanto andava pelo corredor, e se abaixava pra tomar água. Puta que pariu. Queria olhar pra cara delas pra ver quem estava de boca aberta, mas aí percebi que eu mesma estava. Fechei minha boca antes que ele voltasse. Entrou de volta na sala.

Cait: Tá vendo, Sab? A vida é boa!

Rimos para caramba. Era boa mesmo, pelo menos naquela hora.

Cait: Além disso, aquela guria da zebrinha...

E aí ela ficou contando da guria, do que tinha feito com ela. Coisa de Cait também, mas dito e feito, guria com muita estampa de animal era meio piriguete. Tem várias maneiras de tu saber o nível de piriguete de uma guria, não só pelas roupas. Se tu perguntar pra ela qualquer coisa sobre artes, e ela disser que não gosta, quase sempre, se não sempre, ela é uma bela duma piriguete. Não gostar de música, cinema e ler, e tal.

Carol: Tu sabes que a Maiara tá a fim de ti, né, Cait?

Cait: Quem liga? A zebrinha eu não ia ver tão cedo, já a Maiara é tipo...

Eu: Eu peguei.

Cait: Eu vejo ela toda hora, se eu quiser chamar ela lá na sala agora e ir pro banheiro e.. Que foi que tu falaste?!

Eu: Eu transei com ela, em cima do Twister.

A gente ficou o resto da última aula rindo. Ninguém imaginava uma porra daquelas. Não quis contar a parte da Alice e aquela cena toda pra não estragar o clima. Além do que eu não queria lembrar daquilo, e nem dela. A aula acabou, e fomos almoçar juntas na padaria. De novo fiquei torcendo pra Alice não aparecer pra comprar o chocolate dela. Talvez eu fosse uma covarde mesmo. Comi um sanduíche natural qualquer. Carol que me indicou, porque eu estava passando meio mal. Victória estava parada na frente do carro dela, no mesmo lugar de sempre, do lado do carro da namorada do Júlio e mais aquele monte de babacas de sempre. Às vezes eu começava a pensar que eles tipo moravam naquele lugar mesmo. Tales estava junto, e não parava de olhar pra mim. Ele disfarçava e dava uns beijos no pescoço da Victória, mas sempre que eu o olhava ainda estava me encarando. Encostei-me ao balcão da padaria e nem piscava enquanto olhava pra ele. Ele cutucou a Victória, falou qualquer coisa no ouvido dela e eles entraram no carro.

Passamos à tarde na casa da Carol jogando GTA. Podia está liberando minha adrenalina roubando uns carros de verdade e matando uns putos, tipo no jogo, mas senti um pouco de preguiça. O sofá da Carol era confortável, perfeito para o vídeo game. A mãe dela trouxe suco de laranja. Gostava dela. Eu acho que os melhores momentos da vida são quando tu tá jogando vídeo game com os teus amigos, só vocês. Pode cair um meteoro, queimarem a tua casa, surgir um tsunami, qualquer coisa, que tu nem liga. O importante é roubar o máximo de carros que tu puderes e cumprir as missões sem ser pego pela polícia. Eu chorava de rir e queria matar alguém a cada minuto, Cait mandava muito mal com a ansiedade toda dela, e a Carol mandava bem, muito mais que nós.

Cait: Se tu pegasses mina igual tu jogas videogames tu estavas feito, Carolz.

Ela nem ouviu.

Carol: Quer ficar por aqui hoje, Sab?

Era o melhor a fazer, não tinha nada na minha casa, e lá eu ia ficar sozinha. Sabia o que ia acontecer se ficasse sozinha no meu quarto.

Cait: E eu tu não convida, não?

Carol: Não sei nem por que to convidando a Sab. Não preciso convidar vocês. Podem ficar aí quando quiserem.

Sentia-me mais em casa aqui que na minha própria casa.

Cait: Demorou, mas vocês não tão a fim de uma festa bem louca hoje?

Eu: Não sei...

Cait: Tu não tem escolha, tu tem que ficar muito louca, cara. Tu tá precisando.

Era sempre essa desculpa. Ela sacou o celular do bolso, levantou do sofá e foi falar lá fora.

Carol: Não esquenta, Sab. - ela falou comigo enquanto atirava nuns caras.

Eu: É.

Carol: A Alice não vai tá por lá.

Como ela sempre sabia?

Era bom mesmo ela não tá por lá. Não estava nem um pouco a fim de ver a cara dela, principalmente porque ela ia me lembrar de certas coisas que eu queria esquecer. Melhor, que eu precisava esquecer. Cait voltou sorrindo e chutando a porta. Será que ela esquecia que a mãe da Carol estava lá? Acho que sim. Nem sei quanto tempo faz que Cait morava sem a mãe. E eu seria a próxima.

Cait: Vocês tem duas opções.

Eu: Hm.

Carol não desgrudava os olhos da TV, mas acho que pra ela tanto fazia também.

Cait: A gente pode ir naquela balada legalize da Avenida Mondal, ou...

Eu: To sem grana, mano.

Cait: É de graça. Desde quando eu pago pra entrar em algum lugar? Conheço os donos, já liguei pra lá e a gente tá free.

Eu: Hm.

Cait: Ou, tem a festa da Isabela.

Eu: Amiga do Tales?!

Cait: E daí, Sab?

Eu: Nem a pau.

Cait: Para de besteira, caralho. Tales não vai pular no teu pescoço se tu aparecer no mesmo lugar que ele. Já faz uns seis meses que vocês terminaram, mano. Supera.

Eu: Isso vai dar certo.

Cait: Tu tens que tomar essa festa de hoje como lição, entendeu? Pra tu superar. Tu tá precisando superar umas coisas pra se sentir melhor.

Carol: Cait já marcou de comer alguma guria por lá, certeza.

Cait: Cala a boca!

Óbvio.

Ela ficou nos mandando calar a boca enquanto a gente ria.

Eu: Nem fodendo, Caits. A Isabela já não deve gostar muito de mim por causa de tudo, Tales vai tá lá, e a Maiara e a Alice com certeza vai tá por lá também.

Cait: O que ta acontecendo contigo e essa mina? - ele falou pausadamente.

Eu: Mano, tu não entendes...

Cait: Tu tá parecendo criança! Não vai aos lugares porque a inimiga vai tá lá, e tu não gosta dela só porque o cabelo dela é mais bonito, ou porque ela roubou teu namorado, ou porque tem mais comentários nas fotos do facebook que tu! - ela pulou em cima de mim no sofá, e ficou me olhando com aquele olho preto e arregalado.

Ela estava mesmo a fim de ir.

Eu: Quem tu vai comer por lá, hein?

Cait: O Tales. - ela saiu de cima.

Eu: Vai tomar no cu!

Cait: Hahah Ninguém com quem eu tenha combinado.

No mínimo devia tá atrás de uma que ela sabia que ia.

Eu: Victória vai tá lá.

Carol: Eu não vou. - finalmente expressou alguma opinião.

Cait: Vocês parecem duas velhas! Por que vocês não namoram? Aí vocês adotam uma cachorrinha branca pra chamar de filha e fazem tricô até...

Ia longe nessas ofensas.

Ficamos discutindo até anoitecer e ficar inevitável que a gente saísse de casa. Era sexta-feira, porra. Tomei um banho rápido na casa da Carol e a mãe dela me emprestou umas toalhas limpas e brancas, e ainda deu opinião de como eu devia deixar meu cabelo. Eu não fiz o que ela pediu, óbvio. Acho que eu estava sentindo falta de uma mãe, agora que a minha estava longe. Engraçado que eu pouco me fodia quando ela estava por aí.

Saímos pela rua sem um caminho certo. A gente só queria tá na rua. O céu estava bem bonito, com umas estrelas muito loucas. Na primeira vez que eu fiquei com o Tales estávamos deitados na grama do jardim do condomínio dele, perto da piscina. A gente colocou os pés na água e deitou com a cabeça na grama. Ele sabia uma porrada de coisas de estrela tal, o nome delas e ficava me contando. Eu não entendia nada, mas era legal a animação dele me contando.

Parei com aqueles pensamentos quando lembrei que provavelmente o veria hoje com aquela idiota. A cada dia eu ficava com mais raiva dele. Antes eu pouco me fodia, mas já estava começando a me irritar. Principalmente com essa história dos traficantes que bateram na Carol. Ela ainda estava com o olho meio roxo. Sem contar que de uns tempos pra cá eu vejo eles juntos pra todo lado que eu olho, ele tá tipo onipresente.

Eu: Vocês já pararam pra pensar que a Victória é um ser onipresente?

Cait: O que é onipresente?

Puta merda.

Chegamos num dos pontos da cidade que eu mais curtia. Era uma praça que ficava no alto de um morro, tinha umas escadas de pedra escura, e lá em cima tinha uma fonte, sei lá o nome daquilo. Se tu fosses bem à beirada, dava pra ver boa parte da cidade. De noite era bem bonito. A gente subiu lá pra fumar um. Dividíamos até dichavador. Estava começando a pensar em como certas coisas não faziam sentido. As meninas levantaram e saíram da praça discutindo ainda sobre sei lá o que. Só acompanhei. Chegou ao meio de uma rua bem larga, tipo um cruzamento, mas não estava passando muito carro àquela hora. Ficamos em cima de uma tampa de esgoto, dessas que ficam no meio da rua. Cait parou ali mesmo.

Eu: Que porra a gente tá fazendo paradas aqui?

Cait: Vocês não queriam a festa?

Eu: Ninguém decidiu ainda. Carol já levou uns socos da última vez que tu decidiu as coisas sozinha, tu devia...

Ela só se abaixou e levantou a tampa que estava no meio da rua. Aquilo era bizarro, mas enquanto fiquei olhando esperando pra ver a merda que Cait ia aprontar uma luz verde neon e forte pra caralho saiu de lá debaixo, acompanhada da música "Miami Trick" do LMFAO. Que era aquilo?!

Ficamos nos entreolhando enquanto Cait abria um sorrisão. Não resisti e tive de abrir também. Olhei pra cara da Carol que estava toda verde por causa da luz, e ela também estava rindo. Foda-se a balada da Mondal, vamos pra essa porra de festa da Isabela!!

Não sabia que pico era aquele, e nem o que a Isabela tinha feito pra arranjar, mas nós descemos a escada e lá embaixo tinha uma fila enorme pra entrar numa espécie de caixa preta. A música já estava alta pra caralho lá fora. Muitas caras escrotas e conhecidas na fila, mas eu não ligava muito, estava achando tudo engraçado. Viva as drogas!

Cait já estava alucinando, dançando e esbarrando numas gurias. A maioria olhava pra ela sorria, reconhecendo-a de algum lugar. Estávamos sempre juntas, e por isso provavelmente elas me reconheciam também, mas a minha cara não era lá muito amigável e a Carol era tímida. Enquanto Cait fazia a social dela, Carol já foi acendendo outro baseado ali mesmo.

Eu: Porra, Carol.

Ela assentiu com o olhar.

Eu: Tá fumando mais que qualquer pessoa que eu conheço.

Carol: Não mesmo.

Não mesmo. Tinha uns caras que já não sabiam mais fazer outra coisa que não fosse fumar um baseado. Eu não sei como os caras chegam nesse ponto. Quero dizer, é legal e tal, mas dá pra tu viveres sem. Fomos andando naquela fila enrolada pra caralho, não saía do lugar nunca. Passavam pra lá e pra cá umas gurias bem esquisitas, e bem bonitas. Uns cabelos bagunçados pra caralho presos numas faixinhas douradas, umas de batom vermelho, saia alta. Acho saia alta muito estilo, mas é isso, muito estilo. Se a saia não combinar com a guria ela fica parecendo uma capa de bujão de gás.

Cait estava delirando com o ponto alto da música. Aquela parte que as batidas ficam mais devagar, pra depois estourar, e quando estourou:

Cait: I'M IN MIAMI BITCH!!! - ela gritou pra cima, e depois dançou seguindo o ritmo da música.

Era uma porra duma música boa mesmo. Não gosto muito desse tipo de música, a não ser que eu esteja bem drogada, o que não era o caso, mas mandaram bem na música.

Como um fantasma, uma guria de chapéu, blusa larga e calça preta rasgada nos joelhos, passou por mim. Ela escondeu o rosto no chapéu, e deu pra ver que ela tinha um cabelão comprido e liso. Era a Alice, com certeza. Fiquei esperando pra ver se logo atrás dela aparecia a Maiara, mas não. Depois de muito enrolar, finalmente entramos na porra da festa. Na porta estava a Isabela. Ela deu um sorriso muito grande quando me viu, bêbada do caralho.

Isabela: Sabrina!

Cait: Vai que é tua, Sab. - me deu uma cotovelada na costela.

Isabela: Olha, a Cait! - ela apontou toda encantada, mas Cait já tinha se mandado.

Eu: Legal a festa, Isa. - tentei ser simpática, sei lá por que.

Isabela: Gostou, Sab?? Esse pico é demais, vim numa festa aqui há muito tempo, é muito foda. Aproveitem aí! - ela deu umas tapinhas no meu ombro e no da Carol.

Não dava pra enxergar. Só reconheci a Isabela porque ela estava na porta. Pelo menos não ia ver a cara de ninguém que não quisesse. Fumei mais uns e fiquei tomando vodca com energético. A festa estava foda, mais que a da Nathany, apesar dela ter o triplo de dinheiro de todo mundo. Já tinha encontrado ela por lá, estava com uma roupa toda preta que fazia o cabelo loiro dela ficar brilhante. Estava bonita. Fiquei imaginando se encontraria a ruivinha, mas eu nem estava a fim de pegar ninguém. Senti-me até meio broxa, mas estava sussa.

As meninas já tinham sumido, e eu estava sozinha bebendo perto do bar, pra que quando acabasse eu pudesse pegar outra fácil. Tinha uma guria do bar bem bonita, mas ela era mais velha. Esperei ela aparecer pra eu poder pedir outra vodca, e ela trouxe bem rápido. Talvez tivesse gostado de mim também. Essas gurias de bar não costumam olhar pra tua cara quando trazem bebida pra ti, mas essa estava sorrindo. Ela tinha o cabelo comprido e preso num rabo-de-cavalo, que deixava o decote da blusa preta dela a mostra.

Eu: Teu sorriso é bonito.

Sorriso, né? Ri comigo mesma.

!: Obrigada. - ela sorriu de novo, dessa vez meio tímida.

Sorri de volta e me virei de volta pra festa.

Não demorou muito pra ela voltar.

!: Gosto de sorrir para pessoas tristes.

Eu: E de onde tu tiraste que...

!: Tu tá aí sozinha, encostada no balcão numa festa dessas. Só não pode tá muito bem.

Ela tinha razão. Eu já nem sabia o que responder.

!: Gosto de pessoas tristes.

Eu: Só posso te dizer que sinto muito, então.

!: Luiza. - ela estendeu a mão.

Eu: Sabrina. - apertei-a.

Ela saiu pra servir uns caras, enquanto eu fiquei observando a festa pra ver se encontrava algum conhecido. Consegui reconhecer a Maiara, que estava junto com as gurias da pista, inclusive com a zebrinha. Deu pra ver a Cait também, o cabelo dela denuncia muito. Por sorte ela estava coma Carol, eu acho. Tinha uma guria de xadrez e óculos pelo menos. Se não era ela, a Cait tinha arrumado um protótipo muito parecido pra andar com ela na festa. Vi também a Victória, com certeza era ela. Procurei Tales perto dela, mas ela estava só com uns caras.

!: Bin?

BIN?!

Virei-me num só impulso, que porra era aquela?!

Tales: É você?

PORRA.

Tales foi a única pessoa de quem eu já gostei na vida. Era isso que resumia ELE pra mim. Já namorei outros guris na vida, que nunca duravam mais de duas semanas, e eu não me lembro do nome de metade deles. Mais da metade, talvez. Conheci-o lá pela sétima série, quando ele entrou na escola, e eu o achava o guri mais bonito de lá. Não namoramos por muito tempo, e também não posso dizer que foram os melhores dias da minha vida, como as pessoas costumam dizer quando namoram. Ele era alto, eu era do tamanho do seu abraço. Com o tempo tu aprendes que não é difícil uma guria caber nos teus braços, mas tu sempre sente falta de uma.

O som do 3OH!3 estava alto, era Starstrukk, mas eu parei de ouvir qualquer coisa assim que a voz dele apareceu. Só ele me chamava de Bin. O gole de vodca me desceu dolorido na garganta, como quando tu tomas mais do que aguenta.

Eu: Que tu quer? - tentei disfarçar meu susto com grosseria.

Tales: Legal te ver também.

Passamos uns seis meses sem falar, sem olhar um na cara do outro, e de repente ele aparece exigindo que eu seja simpática? Dei mais um gole na vodca e me virei de volta pra festa, enquanto ele continuava me olhando:

Tales: Eu sei que é estranho, mas...

Eu: Tua namorada vai me lançar um soco de lá de onde ela tá se te ver aqui.

Tales: É dela mesmo que eu quero falar. - e franziu a boca, como sempre fazia quando ia falar algo tenso.

Eu: To cheia de notícias dela, não me interessa.

Tales: Ela...

Eu: Se quiser eu pergunto pra ele.

Tales: Tu tem que tomar cuidado. Tu e a Cait.

Eu: Ela já mandou uns babacas darem uns socos na Caroline! - me virei pra ele muito brava, como se fosse dele a culpa. - Eu só não entendo porque foi na Carol, e porque tão atrás do Cait, se eu também estava com ela e ninguém ainda veio me cobrar. Carol que não tinha nada a ver...

Tales: Eu te cobri.

Ele me quebrou as pernas dessa vez.

Tales: Eu tava junto no carro, na boca, com a Victória. Falei que não era tu com a Cait.

Eu: Tu falou que era a Carol?!

Tales: Não falei que era ninguém. Era uma amiga que eu não tinha reconhecido.

Alguém deve ter visto Carol com a Cait naquele dia. Que azar. Concentrei-me em meus pensamentos enquanto Tales ficava parado ali do meu lado. Não estava acreditando, e ele precisava sair de perto logo.

Eu: Foi só isso que tu veio me falar? - tipo, pode ir embora agora.

Tales: Não, na verdade.

Fiquei em choque, completamente. Estava me sentindo uma idiota por estar daquele jeito. Parecia que eu tinha voltado pra oitava série, primeiro colegial, quando Tales vinha falar comigo e eu queria sumir porque achava ele muito bonito. Enquanto ele pensava no que ia falar, fiquei olhando pro seu cabelo, que estava mais lindo do que costumava ser. Por que eu estava reparando nisso? Não se repara nessas coisas. Acho que eu só estava brisando, querendo desviar a atenção pra outra coisa que não fosse aquele momento muito...

Maiara: Sab! - ela me deu um selinho.

ELA ME DEU UM SELINHO. E abraçou meu pescoço. QUE?! Fiquei ali, imóvel, sem saber pra onde olhava. Pro meu azar, olhei pra cara dele, que estava mais sem graça do que eu.

Maiara: Tales, oi! - ela olhou pro Tales como se não tivesse visto antes, num susto. Por que as gurias fazem essas coisas?

Tales: Acho que eu já vou. Era... Isso. Da Carol, e tal.

Maiara: O que tem a Carol, Sab? - ela se virou pra mim, nosso rosto muito perto mesmo, e ela estava pendurada no meu pescoço. Fiquei tentando entender aquela cena muito louca, enquanto eu olhava pra cara da Maiara, e Tales ia embora.

Quando ele foi embora, queria que voltasse. Acho que eu nunca sei o que eu quero.

Maiara: Hein? - ela insistiu, e me deu outro selinho.

Eu: O que tu tá fazendo?

Maiara: Como assim? - ela desceu os braços que estavam no meu pescoço pra minha cintura, e me abraçou, olhando pra minha boca.

Eu: Não, tipo, que porra é essa? - eu não estava nem aí pra grosseria, e nem percebia também. A vodca te engana.

Maiara: Nada, eu só te vi agora, se tu tá com ciúmes de alguma coisa que me viu fazendo antes.

CIÚMES? Eu te vi faz muito tempo. Eu sabia que isso ia acontecer, eu sabia. Queria tirar ela de perto de mim.

Eu: Não, Maiara. Isso. - eu não conseguia encarar ela.

Maiara: Por que tu tá me chamando de Maiara?

Eu: Qual é a porra do teu nome?

Maiara: Não é isso, sua grossa do caralho. - ela me soltou, finalmente.

Achei que fosse mais esperta. Eu tinha combinado alguma coisa com ela? Por que as gurias simplesmente não esperam a gente chegar, se a gente quiser? E eu não queria. Tales estava ali. Ela fez ele sumir, e eu não ia falar com ele tão cedo de novo. Não sei se eu queria também. Eu sou um confusa de merda.

Maiara: Sab... - ela acariciou meu rosto.

Eu: Eu não quero ser grossa, mas só quis te ajudar aquele dia, e foi isso. Tu pode ir embora agora. Talvez a gente faça de novo, mas não quero ficar de casal contigo, não me entenda mal.

Ela fez cara de quem ia chorar. Eu simplesmente não sei como falar com as pessoas.

Eu: Maiara, é sério, mano, não vai chorar. Foi legal e tudo, tu é bonita, não foi um favor que eu te fiz, não é pra tu pensar assim.

Ela não mudava a expressão.

Eu: Vai, meu. Tu é uma guria esperta e bonita, não vai ficar triste com uma porra dessas, pensa que agora tu...

Maiara: Bem que a Alice me disse.

Eu: Ahn?

E ela saiu andando. Eu achei que a Alice nem falasse mais com ela, que coisa toda era aquela?

Estava tudo muito confuso e eu tendo conversas pesadas com muita frequência. Já estava me dando dor de cabeça.

Pude ver Tales abraçado com a Victória, de longe.

Luiza: Tá ocupada aí, hein?

Virei-me num susto. Estava concentrado demais imaginando aquela escrota se fodendo.

Eu: Não, na verdade não mais.

Luiza: É assim mesmo. - ela se apoiou no balcão do bar. Os peitos dela ficavam maiores ainda daquele jeito.

Eu: O que?

Luiza: Os garotos. Eles são assim. Tu gosta do moreno, não gosta?

Por que ela estava perguntando isso se eu conversei com Tales sem nem olhar pra cara dele direito? Enquanto a Maiara eu estava praticamente encenando um teatro de namoradinhas.

Eu: Não.

Luiza: Pra mim tu não precisa mentir, não te conheço.

Eu: Não to mentindo.

Luiza: É ele que te deixa triste?

A guria era linda, mas estava começando a me irritar. Eu mal falo da minha vida pra pessoas que eu conheço, imagina as que não.

Luiza: Tu pode mentir pra mim, mas não pode mentir pra ti mesma. - e ela foi servir uns caras.

Que vaca. Eu não gostava dele, não mais, mas por que aquilo me incomodava tanto? E não, definitivamente não era ele que me deixava triste. Ele era uma peça muito pequena e muito ridícula de um quebra-cabeça de filhadaputagem. Um quebra-cabeça não, um lego. Daqueles bem loucos. Uma cidade muito louca e muito grande de legos muito loucos e coloridos. Eu já estava meio alterada.

A Isa estava mandando bem no playlist da festa, e eu resolvi dar uma volta. Aquele canto no bar não estava muito favorável. Pulei, encontrei as meninas, desencontrei, peguei umas duas menininhas, e uma delas eu já tinha pegado em algum lugar nessa vida que eu não me lembro de qual agora, e assim foi. Nada mais deu errado naquela noite, finalmente. Estava me sentindo bem como não me sentia há tempos. Como eu não deveria estar me sentindo ainda, na verdade. Tudo era recente e, se eu parasse mesmo pra pensar, ia ver que estava tudo uma merda. Foda-se. Continuei ali, a música estava na altura certa, a vodca na temperatura certa, e minha cabeça nem doía mais.

Depois de mais uns copos e uns comprimidos, tudo ficou perfeito, e a festa acabou. Perfeita. Na hora de ir embora, não sabia se devia ir pra casa. Carol nem me perguntou, e me levou pra casa dela. Cait sumiu com alguma das minas dela. Na casa da Carol, ela chutou um colchão que ficava embaixo da cama e me jogou um pijama na cara. Só Carol usava pijamas. Apesar disso, ela deitou com a roupa que estava, não prestou nem pra tirar o próprio tênis, e dormiu. Apaguei logo em seguida.

Quando acordei eu estava com uma ressaca sem fim, mas ainda era sábado, então tudo bem. Peguei o pijama que Carol tinha me dado, e que eu não vesti, e joguei de volta nela. Ela fez um grunhido qualquer, e mudou de posição. As pessoas parecem tão idiotas quando dormem. Fiquei ali por mais um tempo olhando para o teto do quarto dela. Era bem diferente do meu. É. Eu estava sem assunto, e não sabia se já estava na hora de ir pra casa. Eu queria mesmo era nunca mais aparecer por lá. A mãe da Carol podia me adotar. Logo eu seria maior de idade, nem ia custar muito. É o caralho, eu estava muito bem sem mãe àquela hora. Queria tá sem pai também, pra falar a verdade. O que me fodia mesmo pra voltar pra casa era o risco de encontrar aquele filho da puta por lá. Pior, com a loira ainda. Agora que eu não precisava mais fazer teatro pra minha mãe, com certeza eu o mataria na primeira oportunidade. Só no grito:

Eu: SEU PUTO!

Carol: Que isso, Sabrina? - ela mudou de posição de novo, enquanto esfregava os olhos. Carol  ficava bizarra sem óculos pra mim.

Eu: Foi mal. Não era pra sair alto. Não era pra sair. Pensei alto.

Carol: Hm. - e dormiu de novo. Como assim?!

E Tales, hein, cara? Fiquei ali deitada pensando. Estranhei que eu não tivesse sonhado com ele. Fazia tempo que eu não sonhava com nada, mas o que é que ele queria? Pedir pra eu tomar cuidado com a Victória? Ah, vai à merda. Pouco me fodo praquela escrota, e só não disse isso pra ele porque estava muito travada na hora, mas é o que eu penso mesmo.

Meu celular tocou. Só podia ser a Cait. Hm, número desconhecido. Eu não costumo atender meu celular nunca, muito menos quando não conheço o número, mas eu não tinha nada a perder mesmo. Estava acordada fazia tempo e a Carol não fazia o mesmo logo, já estava me angustiando. Vai que era a Cait ligando do celular da mina nova dela.

Eu: Alô?

!: Sabrina? - era voz de mina. Opa.€

Eu: Oi. Quem é?

!: Tu não marcou meu número quando te mandei mensagem?

Caralho! Era a ruivinha.

Eu: Ah, oi! Não, nem marquei, meu celular tá com um problema, a tela tá escrota, tal. – que mentira.

Clarissa: Ah.

Eu: Pois é. - mandei mal na desculpa. Fodeu.

Clarissa: De qualquer forma, quer fazer alguma coisa hoje?

Eu: Tipo o que?

Clarissa: Não sei. Tem uma choperia legal aqui perto de casa.

Eu: E beber?

Clarissa: É, né?

Eu: Pode ser. Tu mora onde?

Clarissa: Te mando mensagem mais tarde. Beijo. - e desligou.

Comecei bem o dia, com um convite disfarçado com um choppinho antes de tudo. Essas gurias não sabem mesmo ser sutis. Ainda era perto da casa dela.

Perdi a paciência de ficar esperando Carol acordar e resolvi ir embora. Não sabia pra onde, mas precisava tá na rua àquela hora. Esbarrei com a mãe dela no corredor:

Eu: Bom dia, Solange.

Solange: Bom dia, Sab!  Caroline ainda tá dormindo? - ela era sempre muito simpática e estava sempre de bom humor. Não sei mesmo como ela conseguia.

Eu: Tá sim. Eu já levantei porque preciso ir pra casa, meus pais devem tá preocupados. - ô. Meu pai comendo uma loira e minha mãe brincando de fazendinha na casa da minha vó.

Solange: Tá certo, a gente se preocupa mesmo... - podia ser paranoia minha, mas ela parecia não acreditar. Sorri.

Solange: Olha, leva umas bolachas que eu comprei pra vocês ontem, achei que fosse ficar mais tempo aqui. E um suco também. Tu gosta de chocolate, né?

Ela preparou uma sacola cheia de coisas pra mim. Não imaginava o favor que estava me fazendo, porque eu não sabia quando ia ver meu pai de novo, e estava sem grana. Agradeci, e tive de ir pra casa pra deixar a sacola lá, pelo menos. A sacola de comidinhas da mãe da Carol estava tão cheia e pesada que cortava minha mão, mas não podia reclamar. Quando finalmente cheguei em casa, vi que o carro do meu pai não estava na rua, e nem na garagem. Respirei aliviada.

A porta estava aberta. Tudo bem, eu devo tê-la deixado assim quando saí daqui pela última vez, ninguém deve ter passado por aqui mesmo. Entrei em casa cantando, nem acreditava que ia ter sossego. No caminho eu imaginava várias coisas. Que minha mãe estaria em casa de novo, ou meu pai estaria comendo a mulher na minha sala, mil coisas.

Eu: Whenever i come back... the air on railroad is making the same sounds...

Ouvi um barulho na sala. PORRA. Um cara devia ter entrado pra assaltar, como eu sou burra de ter largado aberto, puta que pariu, puta que pariu. Da porta da frente até a sala tinha um corredorzinho, então não pude ver logo quem era. Estiquei o pescoço disfarçadamente até onde dava pra ver a sala, como se quem estivesse já não tivesse me ouvido cantar. Meu coração se mantinha acelerado.

Deparei-me com o meu pai, sentado na poltrona dele. Por mais escroto que seja, todo pai que se preze tem uma poltrona só dele. Eu queria ter uma quando fosse dona da minha própria casa também, mas não queria ser que nem ele nunca. Não pra ser um bosta de pai como o meu. Ele tava com os pés na mesa de centro, cheia de jornais e uns mil cigarros que mal cabiam no cinzeiro, segurando um copo de whisky, que provavelmente tinha whisky dentro, esticado na poltrona de papai que ele não era.

Pai: Aí tá você. - ele me apontou.

Ignorei forte. Minha raiva era tanta que se eu abrisse a boca...

Pai: Que porra de sacola é essa?

E onde estava a porra do carro dele? Não era pra ele tá lá, eu tinha certeza que não estava. Comecei a imaginar que meu pai fosse só uma brisa que bateu, ou sei lá o que eu tinha usado ontem.

Pai: Hein? De onde tu trouxe essa porra?

Eu: Não é do teu interesse.

Pai: Responde, Sabrina!

Eu: Da puta que pariu. - e segui pra cozinha. Não ia perder tempo de vida falando com ele.

Pai: Tu volta aqui, garota!!! - ele berrou, como se eu estivesse muito longe.

Comecei a perceber que ele estava bêbado. Meu coração estava mais acelerado do que quando eu achava que um ladrão tivesse entrado em casa. Acho que meu pai era pior que isso. Mas não era de medo, era de ódio.

Pai: SABRINA!!!

Soltei a sacola no chão, e voltei.

Eu: Que foi, caralho?

Pai: De onde tu...

Eu: AH VAI TE FODER, MANO. - cheguei a cuspir enquanto gritava, e joguei o braço como se quisesse atira-lo na cara dele.

Pai: Mano não. Tu chama tuas amigas de mano, não teu pai.

Eu: Eu te trataria como pai se tu te portasse como um.

Pai: Como assim, porra? - ele gesticulava como um político. - Eu trabalho igual a um camelo pra tu levar essa vida que leva.

Eu: E fica comendo a secretária, bela bosta. Bela bosta minha vida também.

Pai: Ela não é secretária, e tu leva uma porra de vida boa sim! Eu pago tua faculdade, tuas roupas, tua comida, e ainda financio pra tu passar o dia fumando maconha e andando de skate, que é a única porra que tu faz.

Eu: E tu passa o dia comendo secretária.

Pai: Não é secretária, SABRINA. - ele gostava de berrar meu nome. Não deve ter sido a toa que ele o escolheu, devia gostar mesmo. Era sonoro.

Eu: Beleza, tu passa o dia comendo vadia.

Pai: SABRINA. - aí, ó. Falei.

Eu: Vadia piranha do caralho parece uma prostituta. Tu podia arranjar uma melhor com o emprego tão legal que tu banca tua filha.

Ele ficou vermelho de raiva, estava quase quebrando o copo de whisky que tava segurando.

Eu: Ela não tá aqui, né?

Pai: Não. Ela nunca vai...

Eu: Ela tá com o teu carro?! - finalmente minha ficha caiu.

Pai: Ela só foi buscar umas...

Eu: HAHAHAHHAHAHHAHAHAHAHAHAHAHHAHAHAHAHA - não aguentei.

Eu respondi, enquanto ria:

Eu: HAHAH Quando eu crescer, definitivamente não vou querer ser igual ao meu pai, como os meninos costumam dizer.

Pai: Que quando tu crescer. Já tá mais que na hora de tu virar gente.

Eu: E tu que nunca virou?

Ele levantou e ameaçou jogar o copo na parede, mas a pouca parte pensante dele que ainda restava deve tê-lo lembrando de que era um copo caro.

Pai: Tu me respeita. - ele me apontava o dedo.

Eu: TU DEIXOU MINHA MÃE IR EMBORA. - eu apontei mais alto, e mais impulsivo, e definitivamente impondo muito mais respeito.

Pai: Tua mãe foi porque quis, Sabrina. O sonho dela era morar de novo com a mãe.

Eu: O sonho dela era ficar longe de tu.

Calei ele, mais uma vez.

Eu: Eu só te digo uma coisa: se um dia eu entrar em casa e essa vadia tiver aqui, eu te fodo.

Pai: AHAHA - ele soltou uma risada denunciando que tava bêbado - Tu o que?

Eu: Ela, ou qualquer vadia. Tu não vai trazer porra de mulher nenhuma pra cá.

Pai: Nem tua mãe?

QUE FILHO DA PUTA, eu só não mandei um soco naquele bosta porque tava sóbria.

Eu: Minha mãe nunca vai olhar pra tua cara de novo, tomara.

Pai: E tu, quando vai ver ela?

Eu: Quando eu bem quiser, que tu não vai saber de mais porra nenhuma do que eu faço.

Pai: Eu sou teu pai!!!

Eu: Problema teu. Fazer filho é muito fácil.

Pai: Sabrina...

Eu: TE FODE.

Fui pra cozinha buscar a sacola.

Não dava pra ficar a menos de uns 5 quarteirões de distância dele. Quando passei pela sala de novo, confirmei:

Eu: Quando que tu não vai tá aqui, só pra eu saber?

Pai: Eu vou estar aqui sempre, a casa é minha. Tu para de fazer cena, tu não pode ficar sem me ver porque tu precisa de mim.

Eu: Paga a minha escola que fica de boa, de resto eu me viro.

Pai: Ah, é? Não vou pagar tua faculdade então. Daí tu vai ter que aparecer em casa.

Eu: Eu to pouco me fodendo pra faculdade. Só não te deixo fazer isso pra te foder.

Pai: Do que tu tá falando?

Eu: Deixa de pagar que eu converso com o diretor. O que os caras mais querem da vida é a mensalidade que tu paga, e vão fazer qualquer coisa pra tu continuar. Imagina se eu falo que meu pai parou de pagar meus estudos só pra fazer graça? Tu te fode muito forte.

Pai: ...

Encarei ele por mais uns segundos, e me mandei. Meu pai era um bosta mesmo, não sei como eu consegui me tornar eu mesma, era pra eu ser uma bosta pior que ele. Pelo menos eu sabia argumentar. Engraçado que eu não tava nervosa, nem com a cabeça queimando, muito menos com a garganta fechada. Tava tranquila de um jeito como eu não me sentia há muito tempo. Descarreguei toda a minha raiva naquele bosta. Descobri que todo aquele meu mal estar devia ser de preocupação com a minha mãe, de como ela ia ficar quando descobrisse, e de toda a sacanagem que meu pai tava fazendo com ela. Agora ela tava longe, mas tava sossegada na casa da minha avó. Meu pai podia fazer a porra que fosse, eu tava pouco me fodendo pra ele. Só não deixei que ele levasse vadia nenhuma pra lá porque eu sabia que minha casa ia virar um puteiro. Parece meio uma garota de 18 anos como eu dizer que não quer que a casa vire um puteiro, porque deve ser o sonho de qualquer um, mas eu sei lá. Acho que a única mulher que prestava que meu pai já arranjou na vida foi a minha mãe, por sorte.

E agora, pra onde eu ia? Pensei em passar no bar da Alice. Apesar de toda aquela história, era legal conversar com ela, eu me sentia bem. A gente tem mesmo muito em comum, mas o mais certo na hora era ir pra casa da Cait, ainda mais porque eu tava com uma sacola cheia de coisas pra nós dois. Ela morava sozinha e sempre faltava comida na casa porque ela tinha preguiça de ir comprar.

Quando cheguei, tive de jogar umas 10 pedras na janela do quarto pra ver se ela aparecia. Devia tá dormindo o filho da puta. Depois fiquei imaginando que ela pudesse tá com alguma guria, e me senti meio mal, mas ao mesmo tempo seria engraçado. Por sorte, ou azar, ela abriu a porta só de cueca, mas tava sozinha.

Cait: Não tem pão duro.

Eu: Não mesmo, eu trouxe um monte fresquinho da casa da Carol. - estendi a sacola.

Cait: Caralho, mano! Entra aí. - ela acordou na hora.

Comemos pra caralho e ainda sobrou um monte de coisa. Santa mãe da Carol. Contei pra ela sobre ontem, sobre a guria do bar, a Maiara, até Tales. Me arrependi, porque quando abri a boca pra dizer "Tales"...

Cait: NÃOOOOOOOO! - ela parecia aquelas velhas quando tu conta uma fofoca. Botou a mão na boca e tudo.

Eu: É, o Tales.

Cait: NÃOOOO! NO FUCKING WAY! - ela tinha mania de falar umas porras em inglês. Acho que tava assistindo muita televisão.

Eu: É, mano.

Cait: Mano, tu não vê o quão brilhante isso é!

Eu: Não mesmo...

Cait: Porra, Victória quer matar a gente, aí...

Eu: Tu. Ela quer matar tu.

Cait: É, eu, foda-se. Ela quer me matar, mas agora que o Tales tá in love de novo, tu pode dizer pra ele livrar a gente!

Eu: Te livrar, Caits. E ele não tá in love.

Cait: AH, VAI TE FODER, SABRINA! Tu acha que ele foi falar contigo porque é legal?

Eu: Não, ele FOI legal, teve uma atitude legal.

Cait: Mesmo assim, porra! Claro que não. - ela tava eufórica pra caralho, tava me dando medo.

Peguei uma almofada velha que tava no sofá pra caso eu precisasse me defender de algum ataque.

Eu: Mano, eu não posso tipo...

Cait: NÃO É USAR ELA, ANTES QUE TU FALE BOSTA. - tava gritando feito um louca. É tipo... - ela gesticulava, tentando me explicar alguma coisa inexplicável.

Só fiz uma careta.

Eu: Tá, Cait. - dei um tapa na mão dela pra tirar aquela porra da minha frente.

Cait: ISSO, VELHO! - ela deu uma cambalhota no chão. De cueca.

Eu: Tu bota uma roupa, pelo amor de Deus.

Cait: Nem fodendo! To na minha própria casa! Se tu quiser tu vai pra tua, eu vou ficar de cuecão.

Se ela ainda usasse uma samba-canção, mas Cait é muito gay, era daquelas boxer, branca.

Eu: Cala a boca, puto. Não dá.

Tentei esquecer que ela tava só de cueca e contei toda a história do meu pai também. Ela ficou rindo pra caralho das minhas respostas, dizendo que eu era muito foda e era por isso que ela andava comigo.

Cait: HAHAHA Caralho, Sab! Contigo por perto eu não tenho medo de mais porra nenhuma, tu é magrelinha, mas desbanca os caras se abre a boca.

E me deu um abraço. MANO, ELA TAVA SEMI NUA, QUE PORRA.

Eu: CAIT CARALHO VAI TE FODER E PÕE UMA PORRA DUMA CALÇA, MANO. QUE PORRA! SE EU CURTISSE VER MINA DE CUECA EU BOTAVA UMA E FICAVA NA FRENTE DO ESPELHO.

Cait: Mas tu não tem esse corpinho de sereia que eu tenho. - ela alisou a barriga. Que cena escrota.

Eu: VAI TE FODEEEEEEEERRRRRRRR!!!!!!!!! AHAHHAA

A gente ficou rindo feito umas babacas enquanto ela dançava um pagode que tava vindo da casa da vizinha.

Eu: HAHAH CARALHO, tua vizinha manda muito mal HAHAHA

Cait: HAHA manda nada, puta gostosa.

Eu: Agora. Sério. Põe roupa.

Cait: Não, mano! É sério, vem ver a vizinha. - ela correu até a janela. De cueca.

Eu: Que vem até a janela, Caitlyn...

Cait: VEM VER, PORRA! ELA TÁ DE SUTIÃ NA JANELA.

Corri feito uma louca, quase torci o calcanhar pra me levantar do sofá.

Cait: Mentira HAHAHAHAHAHAHAHAHAH - ela deitou no chão pra rir.

Tive que rir também. Por fim colocou um shorts velho que tinha lá. Continuamos sem fazer nada o resto da tarde, até que a ruivinha me passou uma mensagem.

Clarissa: Não te digo onde é a minha casa, mas é perto do Bar Barão, onde a gente vai. Às 9h.

9h, tá. Era melhor eu sair de casa umas 11h. Essas gurias falam 9h, mas essa é a hora que elas ainda tão pensando em se arrumar, e aí demoram pra caralho. Contei pra Cait, que ficou causando pra que eu pedisse pra ela levar uma amiga, porque ela queria ir junto.

Cait: Vai, mano!!!

Eu: Eu nunca saí com ela, porra. Como vou pedir pra guria levar uma amiga? E tu nem conhece amigas dela.

Cait: Foda-se. Tem buceta.

Eu: Essa foi a coisa mais porca que já saiu da tua boca. E olha que é foda.

Cait: HAHAH Zuera, mas é que esses double dates sempre dão certo. Se a ruiva não quiser te pegar, e eu pegar a amiga dela, ela vai ter que te pegar pra não ficar sozinha, e vice-versa.

Eu: A ruivinha vai querer me pegar, ela que me chamou.

Cait: NUNCA SE SABE. - ela arregalou os olhos verdes. Ela sempre ficava com cara de louca assim.

Mais com cara de louca.

Convenci-a de que aquela porra não ia dar certo. Emprestou-me umas roupas, e ligou pra uma guria na minha frente numa tentativa de tipo "olha, eu vou comer alguém hoje também". Cait era uma guria da quinta série, só que tarada.

9h. Eu tava sentada mudando os canais da TV. Não deixava em nenhum, nem por um segundo. Cait tinha uns 876754 canais, que nunca passavam nada. Não sei de onde ela arranjava dinheiro pra essas coisas. Passava as paradas de vez em quando, mas não era o dono do morro pra ter tanta grana assim. Foda-se também. Enquanto eu ficava lá moscando ela tava se arrumando pra sair com a guria que ligou.

Cait: E a Carol, hein? - ela falou do lavabo da sala.

Eu: Sei lá. Deve tá dormindo.

Cait: Haha cala a boca, já são 9h da noite.

Eu: Sei lá, ela nem me ligou nem nada. E pra tu?

Cait: Também não.

Ela saiu do lavabo e sentou do meu lado no sofá. Tava toda arrumadinha, parecia que ia sair com uma guria com quem se importava. Óbvio que não.

Cait: Sabe, a gente tem que arranjar uma guria pra Carol.

Eu: A gente arranja, mano. Ela não se vira na hora, é foda. Não dá pra gente estar juntas na hora.

Cait: Por que não? Sexo a trê...

Eu: Tu é uma merda mesmo.

Cait: Tá, mas vamo arranjar, Sab. Sério mesmo.

Eu: Demorou.

Ela se despediu, fez uma última dancinha e se mandou pra encontrar a guria. Nem sabia quem

era. Resolvi começar a me arrumar, já eram 9h30.

Cait tinha um monte de roupas. Ela era estilosa, segundo as gurias, e às vezes eu até achava que usava umas coisas legais, mas porra, era muita coisa pra minha cabeça. Tinha um monte de calça preta e justa, uns coletes, chapéus, e blusas com decote em V. Nunca tive muita paciência pra escolher roupa, e nem tenho muitas. Minha sorte era que Cait gostava das mesmas cores que eu, então não tive muito problema com isso. Muito preto, branco e cinza. Coloquei uma das calças pretas, que tava amassada, mas não tinha outro jeito, e uma camiseta cinza com umas coisas pretas escritas, com gola em V. Fazer o que. Eu tava arrumado, de banho tomado, e com a cabeça tranquila. Não tinha como dar nada de errado. Tava com uma roupa daora, mas quando me vissem pegando a ruivinha as pessoas iam mudar a primeira impressão que tiveram de mim. Fui de metrô até um ponto e depois continuei a pé. Precisava economizar dinheiro porque aquele Bar Barão enfiava a faca nos preços. Só faltava vir a faca junto com a conta mesmo. Piada de tio bêbado.

Quando cheguei já devia ser mais de 10h, e nenhum sinal da ruivinha, mas é claro. Pedi uma mesa pra dois e fiquei lá viajando no cardápio. Tava com uma vontade de fumar, mas ia perder a mesa. Cadê essa mina logo?

Já tava me sentindo uma babaca de tá lá há tanto tempo esperando. Porra, que merda era aquela? 


Notas Finais


Esse encontro...


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...