Jornal Corra


Por: ~


Corra

O transparecer fatídico de um dia em nevasca, onde os dedos dos pés congelavam nos sapatos, e o cachecol verde no rosto cobria os lábios roxos. A tremedeira dos calafrios que percorriam todo o seu corpo, e o cinza neutro do nada, que pareciam enevoar todos os trezentos e sessenta graus de visão, não lhe aconchegavam esperanças. Porém, o som de cascalho a um palmo depois da neve em seus pés, lhe dizia: Ele estava perto.

Talvez sobre uma ponte, ou algum tipo de estrada antiga. O homem encapuzado trabalhava incansavelmente suas pernas, estas tão frias e com pouca velocidade. A coordenação motora já não era mesma, tão pouco, sua respiração não lhe dava dúvidas, a qualquer momento poderia falecer. O frio, mesmo nos cachecóis mais caros, e nas roupas mais robustas, atacavam a pele de qualquer um. Ele sentia a dor de cada célula, que corria rapidamente, como um fogo na chuva. Queimando até desaparecer.

Lá na frente, encontrava-se uma luz, tão fraca quanto sua esperança. Os cortes em seu corpo esguio corroíam a sua sanidade, a que lhe restou depois daquele ataque.

As pálpebras congeladas lhe forçavam a fechar os olhos, estes exaustos pelos dias de caminhadas sombrias. Poderia ser este, o final trágico de uma sepultura?

Sua vida lhe angustiou todos os dias. Desejos contidos, sexualidade escondida... Poderia ele salvar sua própria vida? Poderia falar dos filhos, daqueles que gerou sem prazer, mas que lhe aguardavam atentos a porta de mogno frio. Também sua própria etnia, esta tão hipócrita que o obrigou a estar ali.

O pastor nada dizia, apenas morreu, em sua sepultura escondida.


Com seu amontoado de decepções, e um pouco de alegria, o pastor sabia, que no final, todos ali morreriam.


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