Jornal Des- Humano


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Des- Humano

Alguns fatos recentes me chamaram a atenção e me levaram- como a uma das personagens de Clarice Lispector- a ter um momento de epifania, insight, pode ser. O primeiro evento foi o seguinte:

Estava eu no terminal esperando o meu ônibus, e um casal de cães de rua adentrou no local, por um momento cheirou-me e quando me afastei ele com medo também se afastou, eu não pretendia fazer mal a ele, tenho três cães em casa, longe de mim maltratar qualquer animal. Depois ele se afastou e foi em direção ao garoto que segurava um pastel, provavelmente o lanche do intervalo nas mãos, ele não devia ter mais que 7 anos. O garoto logo guardou seu lanche dentro da bolsa mas por puro descuido deixou a garrafinha cair no chão e esta assustou ao cão como se lhe atirassem uma pedra. Enquanto eu observava e esperava o meu ônibus o cãozinho faminto se deitou ao lado da sua fêmea nas mesmas condições, ambos famintos, magros, desprotegidos e descuidados. Deitado de onde estava me lançou um olhar que dizia mais do que qualquer coisa falada em puro português.

"Você não está vendo o quão errado isso está? Por que você não faz nada?"

E a resposta era tão clara e cristalina como as águas do mar do Caribe.
"Eu não faço nada, mesmo sabendo que está errado, porquê eu me tornei egoísta, e preocupada apenas com meu umbigo e minha maldita vida de bota vela tira vela."

Isso me lembrou House, ele costuma dizer que pessoas assim são " Vadias Egoístas."
E ele tem razão, não retiro a minha culpa e mais uma vez me peguei julgando a mim mesma como a pior das rés da terra. Como me tornei uma vadia egoísta? Quando passei a desejar me casar com o poder. Quando desejei me casar com o poder? Quando um filho da P*** me ameaçou de um dos piores crimes que se pode cometer a uma mulher. E tudo ganhou uma proporção ainda maior quando quem deveria me proteger, se virou contra mim e apontou o dedo na minha cara dizendo-me que era culpada. Meu subconsciente gritou: Ele tem razão, isso é culpa sua. Mas o que eu podia fazer, quando me apaixonei pelo Filho da P*** eu não sabia que ele ia se tornar o meu agressor, ou pelo menos tentar me agredir. Defini nesse momento que nunca mais deixaria ninguém me tocar. Foi nesse dia que eu me transformei na vadia egoísta que admito ser hoje. Alter Ego talvez não seja só um nome, eu costumo dividir as pessoas que eu sou sob a égide desse evento, antes? eu era uma garota amável, que adorava a família que tinha, que sonhava em conhecer o mundo mas acima de tudo queria ser veterinária e abrigar todos os cãezinhos abandonados das redondezas, cuidar como cuidava dos meus. Essa garota deu lugar a outra, uma nova, que usava a força acima de tudo até se apaixonar novamente e ser enganada novamente- admito- depois disso essa garota percebeu que a inteligência havia ficado na versão amável, e ainda há a mais nova versão, que é totalmente nova e que está tentando descobrir como juntar todas em uma só, unir inteligência, força e a clareza que a nova garota tem sobre quem é, e sobre algumas coisas.


Agora outro evento ainda no mesmo dia. Sim, esse jornal será longo, enquanto eu não arrumar uma terapeuta a única forma de aliviar isso vi ser escrevendo mesmo. Aproposito carregava em minha bolsa o almoço do dia, que despertou o olfato do canino.



Ao chegar na faculdade após o fim da primeira aula meu eu não conseguia respirar, além do fato de eu ter chorado o caminho todo graças a reflexão acima, como minha querida Day diz, eu sou muito mole pra chorar, sempre fui. Não sei como consegui segurar no dia que terminei o namoro decepcionante que tive, enfim meu peito parecia ter um bigorna em cima, liguei para meu pai e pedi socorro pela terceira vez nesses seis meses? é isso mesmo. O diagnóstico da emergência, ou hérnia de disco ou escoliose, traduzindo mais um defeito pra somar. Por isso vida de bota vela e tira vela. Antigamente minha avó (ela era bebê) vivia doente e o pessoal achando que ela ia morrer botava a vela na mão dela, e quando ela melhorava, tirava a vela.

Hoje passei no ônibus e vi uma cadeirante arrumada e sentada a beira da pista com duas bolsas, a dela e a de sua mãe que ao se lado entoava cânticos de louvor. Ela estava lá com a maior cara de tédio e vergonha, por isso usava fones de ouvido a fim de não ouvir o que sua mãe gritara com a bíblia na mão. Ao ver essa imagem pensei, eu não sou a única vadia egoísta da face da terra! Mas isso me levou a outro pensamento, como ficamos tão ingratos, incrédulos e desumanos? a mãe dela tinha fé, e com toda certeza de quem analisou os gestos dela, acreditava que Deus tinha salvo a vida da filha dela e que por isso devia gritar a todos diante do trânsito infernal da cidade. E a filha não estava nem aí! Se fosse eu só por ser a minha mãe olharia pra ela com o mínimo de admiração pelo esforço que ela é capaz de fazer, e que eu tenho certeza que além dela só meu pai e meu irmão fariam. Sinceramente eu faço parte do grupo dos desumanos, não estou me excluindo disso. Mas como desumana eu procurei durante a minha epifania o motivo de ter me tornado assim, e em busca de me re-humanizar coloquei o meu velho sonho no altar dos objetivos, vai ser difícil mas eu faço questão de pelo menos começá-lo. O que levou esses seres a se tornarem Des- humanos?

Escutando: Over Again - one direction
Lendo: Dom Casmurro
Assistindo: Babilônia
Jogando: Com o fies
Comendo: nada
Bebendo: Eu aceito um Johnny Walk se alguém tiver, sem gelo.

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