Jornal Drrrr


Por: ~


CLAIRE REDFIELD

CLR1
Harvardville, Junho

O corpo mutilado de Anna Mitaki, de quarenta e dois anos de idade, foi descoberto ontem, em um lote abandonado, não muito longe de sua casa, no noroeste de Raccoon City, fazendo dela a quarta vítima dos supostos 'assassinos canibais' que ocorreram nos últimos meses. De acordo com os relatos do médico legista de outras das vítimas recentes, o cadáver de Mitaki mostrou evidência de ter sido parcialmente comido, os padrões de mordida aparentemente formados por mandíbulas humanas. Pouco depois da descoberta de Mitaki por dois corredores lá pelas nove horas da noite passada, o chefe da polícia local fez uma breve declaração insistindo que o DPR (Departamento de Polícia de Raccoon) está 'trabalhando diligentemente para apreender os autores de tais crimes hediondos' e que atualmente está consultando com oficiais da cidade sobre medidas de proteção mais drásticas para os cidadãos de Raccoon City. Além desta série de assassinatos canibalescos, outros três foram mortos devido a prováveis ​​ataques com animais na Floresta de Raccoon nessas últimas semanas, elevando o número de mortes misteriosas até...

Claire Redfield parou de ler e largou o jornal na mesa onde tomava café-da-manhã com sua namorada. Dahlia, a quem todos chamavam de K-mart, era sempre mais bonita aos olhos de Claire assim, recém saída da cama, sem maquiagem e com os cabelos todos bagunçados, usando seus pijamas surrados e esfregando os olhos de tanto sono.

"Por que você parou de ler?" ela exigiu saber. K-mart sempre exigia tudo, nunca aceitava meios-termos ou coisas incompletas. Com ela, era tudo ou nada.

"Porque continua sem resolução. Eles nunca vão resolver esses casos. É uma vergonha o que está acontecendo em Raccoon City e me irrita saber que Chris vai se meter com esses incompetentes." Claire tentou parecer indiferente. Não queria deixar seus sentimentos tomarem conta do que dizia. Sempre fora assim. Nunca gostou de dividir o que sentia. Com K-mart e Chris era um tanto diferente mas, ainda assim, Claire nunca os deixou ver completamente dentro de si.

"Talvez Chris seja exatamente o que eles precisam. Talvez vá pra lá e resolva tudo. Talvez volte antes que você possa sentir falta dele."

"E talvez morra numa missão impossível." Claire não teve intenção de soar tão melodramática, mas não pode se conter, tampouco. Não queria que Chris partisse. A Equipe S.T.A.R.S. (Táticas Especiais e Serviço de Resgates) tinha lhe dado licença completa pelos próximos dois anos, mas agora, por causa dos bizarros acontecimentos que ninguém parecia ser capaz de desvendar, eles haviam decidido procurar o melhor agente que a equipe já tinha visto.

Não que Claire não apreciasse uma oportunidade de salvar a vida de terceiros. Ela sabia o quanto era importante o que o seu irmão fazia. Mas o momento não era certo. Claire achava que tinha hora, modo, lugar pra tudo. E ainda não estava na hora de Chris voltar para Raccoon. Algo ruim aconteceria se ele voltasse antes da sua hora.

K-mart lhe lançou um olhar cheio de simpatia e amor. Era um daqueles olhares que deviam ser completamente proibidos pois deixavam Claire sem saber o que dizer e faziam seu coração palpitar fora de ritmo. Ninguém nunca a tinha olhado daquela maneira antes de K-mart. Chris talvez fosse o cara mais querido do universo (definitivamente o único cara que Claire amaria nessa vida), mas ele era tão fechado quanto ela e conseguir que os dois trocassem qualquer tipo de gesto afetivo era um feito e tanto.

"Chris sabe cuidar de si mesmo," K-mart falou. "Se tem alguém que sabe, é ele."

Claire balançou a cabeça. "Não é só ele. Também tem... Tem nós."

"Nós vamos ficar bem."

"E Jessica?" Claire encontrou os olhos de Dahlia. "Será que ela vai ficar bem?"

K-mart piscou algumas vezes e Claire percebeu que ela estava tentando considerar a situação de outro ângulo; do ângulo de Jessica. Ela era namorada de Chris. Eles estavam juntos devia fazer pouco tempo, mas tinham finalmente comprado uma casa e Claire esperava que estivessem discutindo a possibilidade de começar uma família. Agora eles estaria partindo e Jessica ficaria sozinha naquela casa grande onde teria que guardar seus sonhos numa gaveta e esperar que ele voltasse. Se ele voltasse.

"Nós podemos cuidar umas das outras," K-mart decidiu enfim. "Como eu disse, talvez Chris resolva tudo e volte logo. Eu tenho fé nele."

"Você tem fé em todo mundo," Claire murmurou mas K-mart não pareceu ouvir; estava perdida num discurso empolgante sobre como elas deveriam aproveitar o último dia de Chris com ele. Festejando. Amando. Divertindo-se. Fazendo todas as coisas que Claire ia sentir tanta falta assim que ele partisse.


CLR2
Nos Limites de Raccoon City

Claire Redfield não estava com paciência. Hoje não. Por mais estranho que pudesse parecer, eram os dias ensolarados que lhe deixavam de mau-humor. Era inconcebível que ainda houvessem dias lindos como este enquanto eles viviam nesse pesadelo. Quem poderia imaginar? Mortos-vivos. Era o apocalipse.

Joseph Frost mexia no motor do seu trailer, como sempre. Era sua única paixão nessa vida. Os outros costumavam dizer que ele tinha se casado com aquele trailer; tinha até lhe batizado de Cíntia. Sherry Birkin estava sentada pegando sol enquanto Lisa cantarolava ao seu lado. K-mart tentava consolar Deborah Harper que não parava de dizer: "Está tarde. Eles já deveriam ter voltado."

"Preocupar-se não vai ajudar em nada," K-mart lembrou-a gentilmente, mas todos sabiam que ela só estava sendo legal. Cada um era conhecido por uma coisa naquele acampamento e ser legal era a característica de Dahlia. A verdade era que todos estavam preocupados. Todos. Até mesmo Claire.

Finalmente, um caminhão de construção se aproximou. Deborah deu um salto. "É eles? Estão de volta?" Claire esperava que sim. Não saberia o que fazer consigo mesmo se não fossem eles.

Como esperado, Helena pulou pra fora pela traseira e veio correndo abraçar sua irmã, Deborah. Matt Addison também foi em direção à irmã, Lisa. O resto deles, não tinha ninguém muito íntimo para recebê-los, mas nem por isso deixaram de ser abraçados ou bem-vindos. Claire foi contando nos dedos. Helena, Matt, Brad Vickers, Luther West. Por último, veio Jill Valentine do banco da frente, com sua atitude confiante e os olhos afiados. O pai dela devia estar em algum lugar por ali, mas ele não veio a receber e Claire achava que Jill preferia assim mesmo.

"Onde está Jack Norman?" Joseph Frost perguntou e todos meio que encolheram seus ombros.

Foi aí que mais alguém saiu do caminhão e a visão de Claire tornou-se um túnel. Era só ele quem ela via. Seu coração começou a martelar sua garganta e ela achou muito possível desmaiar como uma garotinha. Ele parou quando a viu, seus olhos azuis brilhando e ela soube que ele também lutava para manter suas emoções sob controle. Mas, por Deus, como era difícil.

"Chris!" o grito lhe escapou da garganta, rouco, cortante, e ele respondeu correndo na direção dela. Seus braços lhe apertaram, lhe apertaram tanto que Claire perdeu o fôlego, mas quem precisava de ar quando se tinha de volta a única coisa que havia almejado?

E Claire Redfield jurou naquele momento que nunca mais se deixaria incomodar com dias de sol.


CLR3
O dia amanheceu estranho para Claire. Era estranho ter Chris com ela. Era estranho Claire sentir-se tão estranha ao tê-lo de volta em sua vida. Ele que sempre fora a coisa mais normal que ela tivera, sua única constante, como o ponteiro de uma bússula, desde de antes dos dois perderem seus pais. Eram tudo que o outro tinha no mundo. Eram mais do que apenas irmãos, eles eram todos os componentes de uma família. Mas Claire ficou surpresa ao acordar, ficou surpresa com a verdade de que não fora um sonho tê-lo reencontrado, e ficou surpresa por não ter notado o quanto o seu coração doera nos dias em que não o tivera.

Estranho, mesmo.

As manhãs no acampamento eram sempre iguais. Deborah e Helena Harper discutiam sobre coisas banais porque as duas gostavam muito de estarem certas e não admitiam que outros pudessem saber mais do que elas. Sherry Birkin procurava o melhor lugar para sentar-se ao sol, o que parecia ser um tipo de terapia contra seus demônios internos. Lisa Addison saía para catar cogumelos pela floresta porque a atividade lhe fazia pensar que não era tão inútil para o grupo. Joseph Frost conversava com seu trailer. Luther West admirava seu cavanhaque perfeito num espelhinho portátil.

Esse tipo de coisa.

Mas havia certas diferenças nesta manhã. Havia Chris, andando de um lado pro outro e recebendo olhares curiosos e agradecidos, ouvindo desejos de bom-dia de todos por quem passava. Isso não surpreendia Claire; ele sempre fora bom em agradar as massas. Outra diferença era que Jill não estava em lugar nenhum, e ninguém lhe tinha visto desde ontem à noite, o que seria preocupante se Claire não soubesse que Jill podia cuidar de si mesma. Já o pai dela estava jogado num canto tentando passar um pano úmido no seu olho inchado e soltando urros ridículos de dor. Tinha levado uma surra linda na noite passada. Uma surra muito bem merecida na opinião de Claire.

Só que o mais estranho de tudo era Brad Vickers, o cara das camisas de flanela. Ele estava num morrinho mais pra frente, cavando um buraco profundo no chão. Claire achou que deveria ser profundo pois ele estava cavando naquele mesmo lugar já fazia um bom tempo. Quando ela se aproximou, no entanto, entendeu que ele estava cavando covas (isso mesmo: mais de uma), e esse era o motivo da demora.

"Brad? Você está bem?" Claire chamou. Ele nem pareceu ouvi-la. "Se continuar com isso vai acabar desmaiando aqui." Silêncio. "Beba um pouco de água pelo menos."

Brad parou por um instante e olhou para ela. Seus olhos estavam estranhamente carregados de tristeza. Aí estava a palavra de novo, Claire pensou, estranho. Parecia que ia definir o seu dia.

Jessica e K-mart se aproximaram, a primeira por ser absurdamente intrometida e a segunda trazendo uma caneca de café que Claire aceitou agradecidamente. "O que ele está fazendo?" K-mart perguntou, lhe dando a mão.

Claire deu de ombros e provou seu café. Estava uma delícia. "Ele não fala comigo."

"Ei, Brad?" Jessica chamou naquela voz de forçada liderança. "Você pode parar um segundo? Brad?!"

Ele enfiou a pá na terra e olhou pra ela. "O que você quer?" Seu tom era um tanto hostil. Claire tinha perfeita noção de que muitos ali não iam com a cara de Jessica, mas mesmo assim ninguém costumava faltar com o respeito.

Jessica não pareceu ligar. "Estamos nos perguntando o que você está fazendo," falou, imperturbável.

"Estou cavando," ele respondeu.

Isso irritou a Jessica. Ou pelo menos, Claire achou que sim. Não dava pra ter certeza pois Jessica tinha sempre uma expressão de irritada. Mas ela cruzou os braços e reforçou sua carranca. "Sim. E por que você está cavando?"

"Do que importa?" ele rebateu. "Não estou machucando ninguém."

"O sol está muito forte," K-mart, a única que sempre conseguia lidar com todo mundo, avisou. "Não é bom pra ti."

"Vou ficar bem."

Tá bem, Claire pensou. Ela não era o tipo de pessoa que ia se meter no meio de um homem que queria muito cavar. Mas Jessica... Ah, Jessica era uma outra história.

Quando ela começara a sair com o Chris, Claire a tinha odiado, era verdade. Jessica era mandona, metida e meio grossa. Ficava sempre dando palpite na vida de Claire e tantando decidir o que Chris comeria na janta. Era desesperador de assistir para alguém como Claire que praticamente não havia tido uma mãe. E Claire soube que Chris também não gostara daquele lado de Jessica quando o viu começando a se afastar. Mas depois de um tempo, Jessica melhorou. Tornou-se amável e divertida, e por mais que mantivesse seus outros traços parecia estar dando o melhor de si para agradar a família Redfield. Era como se quanto mais Chris tentasse se afastar, mais ela tentava segurar-se a ele. Talvez fosse uma coisa ruim, mas havia algo que tornava Jessica Sherawat especial ao olhos de Claire: o quanto ela amava Chris. Jessica via o potencial dele, via do que ele era capaz. E sempre tentou dar-lhe inspiração para realizar suas vontades.

O problema era que depois que Chris resolveu voltar para a Equipe S.T.A.R.S., Jessica meio que perdeu suas estribeiras e voltou a ser aquela pessoa do início. Má. Rancoroza. Sua tolerância estava praticamente nula e era preciso quase que nada para fazê-la descontar sua ira em espectadores inocentes. Portanto, não foi bem uma surpresa quando ela ordenou que Brad parasse de gracinhas e fosse fazer algo de útil pra variar.

"Por que você não me deixa em paz?" ele também alterou-se. "Não estou incomodando ninguém. Me deixem sozinho!"

"Acho melhor você me entregar essa pá," Jessica pediu soando como uma professora pedindo a um aluno do primário que lhe devolvesse um lápis de cor.

Brad fechou a cara. "Ou o quê?"

"Não tem ou o quê," K-mart se intrometeu novamente, e foi logo assegurando: "Não é uma ameaça, Brad. Foi apenas um pedido. Mas se você insiste, nós te deixaremos em paz." Ela pegou Jessica pelo braço e lhe deu um puxãozinho gentil.

"É, vão embora," Brad disse. "Saiam daqui. E eu vou cavar. Por que não importa o que façamos, é na terra que vamos terminar. Eu falei para minha mulher e minha filha, falei que ficariam bem. Vocês acham que adiantou? Não. Foi uma grande mentira. Eles apareceram do nada. Dúzias deles. E as arrancaram das minhas mãos. A única razão de eu ter escapado foi porque os zumbis estavam ocupados demais comendo a minha família. E os culpados por isso? Eles nunca vão pagar. A Umbrella nunca vai pagar. Porque todos nós estaremos mortos antes que alguém possa fazer alguma coisa."

E ele voltou a cavar.

As meninas voltaram para onde os outros estavam e Claire fez uma contagem de cabeças, para ter certeza de que todos estavam presentes. Contou treze pessoas, sem Jill e incluindo Jake Muller que tinha acabado de voltar de sua campanha de caça com meia dúzia de esquilos. Ele nunca desapontava, esse Jake Muller, nem em aparência, nem em competência.

Mas agora faltava Chris. Se perguntando aonde ele poderia ter ido, Claire avisou K-mart que já voltaria e seguiu pela estradinha do acampamento enquanto os outros seguiam com suas atividades.

"Viu só?" dizia Matt para Lisa quando Claire passou por eles. Matt tinha acabado de construir um muru baixinho de pedras em volta da fogueira. "Agora poderemos manter um fogo mais alto, sem que ninguém possa ver. E sem que ninguém precise ser espancado."

"Não foi por causa da fogueira que ela deu nele," Lisa discutiu. "Foi pelo machismo, chauvinismo, ignorância e completa falta de educação."

Matt respondeu alguma coisa mas Claire já tinha se afastado demais para ouvir. Seguiu por entre o caminho que ia até a floresta, passou por cima da cerca de barbante e latas, e então achou que tinha ido longe demais quando, finalmente, ouviu vozes que lhe fizeram parar.

"O que você quiser." Era a voz de Chris. "Foi você quem me salvou. Só você. Confiarei no que achar melhor para o grupo."

"Ainda vou usar isso contra ti," Jill respondeu. "Pode ser que se arrependa dessas palavras."

Claire encarou a árvore mais próxima sem saber o que fazer. Sentiu uma vontade repentina de rir quando pensou: estranho.


CHRIS REDFIELD

CRR1
Com o desaparecimento de três pessoas na Floresta de Raccoon no início desta semana, os funcionários da cidade finalmente pediram que a estrada fosse bloqueada na Rota 6 rural no sopé das Montanhas Arklay. O chefe de polícia anunciou ontem que a Equipe S.T.A.R.S. vai participar na busca dessas pessoas em tempo integral e também estará trabalhando em estreita colaboração com a DPR até que haja um fim para a erupção de assassinatos e desaparecimentos que estão destruindo a comunidade. Quando perguntado por que a Equipe S.T.A.R.S. Não tinha sido atribuída a esses casos até agora, só foi dito que eles têm ajudado a DPR desde o início e serão apenas uma "adição bem-vinda" à força-tarefa que atualmente trabalha nos assassinatos que correm soltos. Fundada em 1967, a Equipe S.T.A.R.S. foi criada originalmente como uma medida contra o terrorismo afiliado a cultos por um grupo de oficiais militares aposentados e ex-agentes de campo da CIA e do FBI. Sob a orientação do ex-diretor da Agência Nacional de Segurança e Defesa, o grupo expandiu rapidamente seus serviços para incluir tudo, desde negociações de reféns e quebra de código até controle de motins. Trabalhando com agências de polícia locais, cada filial da S.T.A.R.S. é projetada para funcionar como uma unidade completa em si.

Chris Redfield suspirou antes de entrar no helicóptero que o levaria para sua primeira missão de volta na Equipe S.T.A.R.S.. Tinha vindo por vontade própria; contrário ao que os outros pensavam de que tinha sido convocado, Chris tinha na verdade se voluntariado para isso. Mas não estava gostando da maneira que as coisas estavam sendo feitas. Estava surpreso de que estariam enviando as equipes separadamente. Embora fosse padrão, esta não era exatamente uma operação padrão. Apenas o número de mortes com o qual estavam lidando era suficiente para exigir uma ofensa mais agressiva. O fato de que havia sinais de organizações nos assassinatos deveria ter levado status A1, mas o caso ainda estava sendo tratado como algum tipo de corrida de treinamento.

Ninguém mais via... Eles não conheciam Billy...

Chris pensou de novo sobre o telefonema noturno que tinha recebido de seu amigo de infância. Ele não tinha ouvido falar de Billy há algum tempo, mas sabia que ele tinha tomado uma posição de pesquisa com a Umbrella, a empresa farmacêutica que era a maior contribuinte para a prosperidade econômica de Raccoon City. Billy nunca tinha sido o tipo de se assustar com qualquer coisa, e o desespero aterrorizado em sua voz havia sacudido Chris, enchendo-o de profunda preocupação. Billy balbuciara que sua vida estava em perigo, que eles estavam todos em perigo, implorou Chris para encontrá-lo em uma lanchonete na borda da cidade e, então, nunca deu as caras.

Ninguém ouviu mais falar nele depois disso.

Chris havia repetido a conversa inúmeras vezes em sua mente durante as noites sem sono desde o desaparecimento de Billy, tentando convencer-se de que não havia conexão com os ataques a Raccoon, mas foi incapaz de acabar com sua crescente certeza de que eles não compreendiam nem metade do que estava acontecendo. Mas Billy soubera. Os policiais tinham verificado o apartamento dele e não encontraram nenhum sinal de violência... mas os instintos de Chris lhe disseram que seu amigo estava morto e que ele tinha sido morto por alguém que queria impedi-lo de falar.

E Chris parecia ser o único que ligava.

Ele empurrou os pensamentos de lado e entrou no helicóptero. Tinha que se concentrar, manter sua mente no que poderia fazer para descobrir por que Billy tinha desaparecido, mas estava exausto, vivendo de um mínimo de sono e de uma ansiedade quase constante que o atormentava desde a ligação de Billy. Talvez estivesse perdendo sua perspectiva, sua objetividade embotada pelos acontecimentos recentes...

Ele se forçou a não pensar em nada enquanto se aproximavam do local.

"O quê?" Ao ouvir a voz alta do interlocutor, Chris virou-se para ele, junto com todos os outros. Ele estava agitado, uma mão pressionada no aparelho de ouvido. "Equipe Bravo, relatório, repita, Equipe Bravo, responda!"

O capitão mandou que ele colocasse no alto-falante.

O interlocutor bateu no interruptor do seu console e o som brilhante e estonteante de estática encheu a sala. Chris esforçou-se para ouvir uma voz humana em meio ao barulho, mas por vários segundos tensos, não houve nada.

Então: "... você me escuta? Mal funcionamento, vamos ter que..."

O resto foi perdido em uma explosão de estática. Chris sentiu-se aturdido e viu o sentimento refletido nos rostos dos outros. O transmissor do helicóptero fora projetado para continuar funcionando, não importava o quê; a única maneira de estragá-lo era se algo grande acontecesse.

Algo como um acidente.

"Posição?" o capitão quis saber.

"Eles estão no, uh, setor vinte e dois, final da cauda de C," o interlocutor respondeu.

Chris sentiu o nó no estômago ao reconhecer as coordenadas.

A Mansão Spencer.

Poderia ser uma coincidência? Os Bravos estavam em apuros, e praticamente em cima da antiga mansão da Umbrella.

Houve uma ligeira perda de altitude quando o piloto mudou de direção. Os subúrbios esfarrapados da Floresta de Raccoon deslizaram abaixo deles. O crepúsculo estava finalmente se instalando e a floresta foi crescendo sombria.

"ETA... três minutos," o interlocutor falou e Chris olhou ao redor da cabine, observando as expressões silenciosas e sombrias de seus companheiros de equipe. Então voltou-se para o interminável mar de árvores enquanto o helicóptero descia, forçando toda a sua atenção para a busca. A Mansão Spencer tinha que estar perto, embora não pudessem vê-la dali. Pensamentos de Billy e Umbrella pesaram na sua exaustão, tentando quebrar seu foco, mas Chris se recusou a ceder.

Então ele o viu a menos de um quilômetro de distância, uma nuvem oleosa de fumaça preta fervendo pelos últimos vestígios da luz do dia, manchando o céu como uma promessa de morte.

Quando se aproximaram da nuvem de fumaça, as lâminas giratórias do helicóptero a empurraram para baixo e para fora, criando uma neblina negra que se misturava às sombras pesadas das árvores. Qualquer chance de encontrar o veículo derrubado foi perdida naquela fumaça e no crepúsculo. O piloto pousou em um pedaço raspado de grama alta. Enquanto os trilhos oscilavam até o chão, Chris já tinha a mão na trava, pronto para sair.

Eles se espalharam e começaram a procurar. Se moveram rapidamente pela área arborizada, a visibilidade caindo nitidamente sob os ramos agulhados. Da luz fraca que se filtrava em direção a eles, Chris viu que havia outra clareira adiante, alta com gramas frágeis. Eles emergiram do bosque, e encontraram o helicóptero da Equipe Bravo. Ninguém falou enquanto examinavam a cena. A fuzilagem do helicóptero estava intacta, não havia nenhum risco visível. O trilho de pouso da porta parecia curvado, mas fora isso parecia não haver nada de errado com ele. As escotilhas estavam abertas, a cabine sem danos. Pelo que Chris podia ver, a maior parte do equipamento do Bravo ainda estava a bordo.

Então, onde eles estavam?

Não fazia nenhum sentido. Se alguém estivesse ferido, eles teriam ficado ali. Se tivessem decidido sair, não deixariam o equipamento para trás.

Chris percorreu rapidamente a espessa cobertura do solo. Em alguns minutos, estaria muito escuro para ver qualquer coisa. Ele parou de repente, ouvindo. Estavam no bosque, no meio do verão. Onde estavam os animais, os insetos? A floresta estavam anormalmente imóvel, os únicos sons eram humanos. Pela primeira vez em sua carreira, Chris sentiu medo.

Estava prestes a chamar os outros quando alguém gritou primeiro de algum lugar atrás deles. "Aqui!"

Chris se virou e começou a correr de volta. Na luz escura, podia distinguir a forma sombria de um dos seus parceiros, agachado na grama alta perto de algumas árvores a cem metros do lado do helicóptero. Seu amigo levantou-se, segurando algo, e soltou um grito estrangulado antes de soltá-lo, seus olhos arregalados de horror, e por um instante, a mente de Chris não pôde aceitar o que tinha visto nas mãos dele.

Um revólver.

E uma mão humana ao redor, cortada no pulso.

Havia um grunhido profundo e gutural atrás deles, da escuridão das árvores. O grunhido foi juntado por outro e, de repente, escuras e poderosas formas saíram do bosque, pulando no membro da Equipe Alpha e jogando-o no chão. Chris puxou sua arma e parou, tentando obter uma mira nos animais que atacavam seu parceiro.

O lanterna do capitão emitiu um feixe fino que dançou sobre as criaturas, iluminando um verdadeiro pesadelo.

O corpo estava quase escondido pelos três animais que o rasgavam com poderosas mandíbulas. Eram do tamanho e da forma de cães, tão grandes quanto pastores alemães, exceto que pareciam não ter pelo, nem pele. Nervos e músculos úmidos e vermelhos brilharam sob a luz vacilante da lanterna, as criaturas atacando violentamente em um frenesi de sede de sangue.

O membro da Equipe Alpha gritou, um som burbujante e líquido enquanto ele lutava fracamente contra seus atacantes selvagens, sangue derramando-se de múltiplas feridas. Era o grito de um moribundo. Não havia tempo a perder; Chris apontou e abriu fogo. Três balas bateram em um dos cães; o quarto tiro ele errou. Ouviu-se um único gemido agudo e a besta caiu. Os outros dois animais continuaram seu assalto, indiferente aos disparos tumultuosos. E, enquanto Chris observava horrorizado, o seu parceiro, ou o que era o seu parceiro, começou a se levantar, por mais que já estivesse bem obviamente morto.

Chris cambaleou pra trás, seus pensamentos voando, seu coração martelando.

Morto, era pra ele estar morto!

Os ataques canibais em Raccoon City, todos eles perto daquela floresta. Chris tinha visto filmes o suficiente para saber o que ele estava olhando, mas ainda não pode acreditar.

Zumbis.

Não, de jeito nenhum, isso era ficção. Mas talvez algum tipo de doença, imitando os sintomas?

"Corram!" alguém sugeriu e os outros não exitaram em obedecer. Todos correram através de árvores escuras, ramos invisíveis os golpeando enquanto os uivos se faziam mais altos, mais insistentes. Chris visualizou sua salvação através das sombras de árvores, a ameaçadora Mansão Spencer iluminada por uma lua adiantada e correu nessa direção rezando para que os outros o seguissem. Parecia abandonada do lado de fora, madeira e pedra desmoronando no escuro. O tamanho total da estrutura estava encoberto pelas sebes sombrias de vegetação que a circundava. Uma frente de entrada maciça apresentava portas duplas, sua única opção para escapar.

Chris alcançou as portas primeiro, batendo na madeira pesada com um ombro. Surpreendentemente, elas se abriram sem problema e ele caiu pra dentro. Virou-se e começou a disparar sua arma, enquanto três outros homens ofegantes corriam para a abertura atrás dele. A Equipe Alpha empilhou-se no hall de entrada, e Chris atirou a massa do seu corpo contra as portas, fechando-as contra os grunhidos das criaturas que os seguiram até lá.

Eles tinham conseguido.

Mas agora que estavam aqui, Chris se perguntou se realmente estariam em melhor situação dentro do que fora...

CRR2
Hardvardville, Julho

Por muito tempo, Chris não teve consciência de nada. Encontrou-se em um estado de inexistência onde não podia ver, ouvir, sentir. Seu corpo estava em algum tipo de limbo, enquanto sua mente era assombrada por imagens que não podia compreender. O cachorro sem pele, seu parceiro levantando-se depois de ter sido estraçalhado. Grandes lustres pendendo do teto alto de uma mansão abandonada. Um laboratório subterrâneo. Confusão. Correria. Sangue. Caos.

Aos poucos, alguns dos seus sentidos foram voltando. Por mais que ainda não pudesse ver nada, estava ouvindo vozes que pairavam sobre ele.

"...Chris..."

"...teremos que ir em breve..."

"...estamos tentando continuar..."

"...por favor, volte pra mim..."

"...Chris, por favor, acorde..."

Às vozes foram ficando tão insistentes que, eventualmente, Chris foi capaz de obedecer ao comando. Seus olhos se abriram e imediatamente voltaram a se fechar quando o choque da brilhante luz do sol o cegou. Devagar, ele tentou de novo. Dessa vez estava preparado. Encarou o teto branco enquanto tentava entender onde estava. Moveu-se. Dolorosamente. Conseguiu sentar após vários minutos de esforço. Então olhou ao seu redor.

Estava num quarto de hospital. Como tinha chegado lá ou por quê, permanecia um mistério na mente nebulosa de Chris. Ele tentou se lembrar de alguma coisa. Onde estivera? Qual fora a última coisa que tinha feito? Algo o estava incomodando. Ele tinha esquecido de coisas importantes e tinha perfeita noção disso. Mas o esforço apenas fazia sua cabeça doer ainda mais.

E onde estava Claire? Ele definitivamente tinha ouvido a voz dela. Ela tinha insistido para que ele acordasse e agora que ele tinha conseguido, ela não estava aqui para vê-lo? Era estranho. A determinação de Claire não tinha falhas. Se Chris estava no hospital, ela teria ficado com ele vinte-e-quatro horas, sem falta. Seria possível que tinha ido comer alguma coisa? Tomar um banho? Falar com algum médico?

Chris deu mais uma olhada no quarto. Tinha um vaso na mesinha de cabeceira, mas a flores estavam apodrecidas. Outra coisa suspeita. Nada nunca apodrecia num hospital. Na parede oposta, os ponteiros do relógios estavam parados.

Confuso, Chris decidiu que estava na hora de buscar alguém para esclarecer as coisas. Ele se levantou da cama, lentamente, e sentiu suas pernas perderem a força por debaixo dele, e no minuto seguinte estava estirado no chão. Ele soltou um gemido profundo. Parecia que tinha ficado jogado no deserto por dias afim. Seu corpo não estava em condições para nada. "Enfermeira!" ele chamou, o mais alto que pode, o que não foi muito. "Ajude-me, enfermeira!"

Ninguém respondeu o seu chamado. Como aquilo era possível? Que tipo de hospital era esse?

Chris fez um esforço desumano para se pôr de pé. Suas pernas pareciam feitas de gelatina, mas de alguma forma ele conseguiu chegar até o banheiro. Apoiando-se na pia, ele abriu a torneira e bebeu a água até dizer chega. Seu estômago protestou pela falta de comida, mas os sentidos de Chris aguçaram-se e sua visão clareou-se.

Ele fez seu caminho para o corredor e a situação toda tornou-se um outro level de estranheza. Era como estar em um filme de terror.

O hospital estava completamente vazio, algo que Chris nunca pensou que veria. Tinha papéis espalhados por todos os lados, como se os funcionários os tivessem jogado pra cima antes de ir embora. Camas hospitalares estavam jogadas pelos cantos e as luzes piscavam num efeito sinistro. Havia buracos de balas nas paredes. O silêncio, no entanto, foi o que mais o incomodou. Fazia-o lembrar de alguma coisa. Alguma outra situação na qual o silêncio não se encaixava.

Respirando pesadamente, Chris seguiu pelo corredor até a mesa da recepção, onde tentou usar o telefone que não tinha linha. Mais uma vez, se perguntou como aquilo poderia ser possível. Será que o tinham largado num lugar abandonado de propósito? Uma pegadinha? O silêncio lhe dizia que não. A sensação de desconforto no seu estômago deixava claro que algo sério estava acontecendo. Chris entrou no corredor oposto que o levou até algo que seu cérebro não pode conceber: portas duplas, trancafiadas com grossas correntes e uma longa tábua de madeira.

Não abra. Mortos dentro.

Chris se aproximou. Eram as portas de uma das alas maiores do hospital. A primeira coisa que lhe ocorreu foi quarentena. Definitivamente uma epidemia. Pessoas tinham morrido. Corpos foram isolados para manter o contágio. Era a única explicação razoável. Mas então, enquanto ele ponderava possibilidades, uma mão, pálida e ensanguentada, forçou caminho por entre as portas duplas. Apenas os dedos foram capazes de passar, mas isso foi o suficiente para iriçar os cabelos da nuca de Chris. Em seguida, um empurrão que foi detido pelas correntes. E mais e mais mãos começaram a aparecer tentando, desesperadamente, tocar em Chris. O silêncio foi quebrado por rosnados, gemidos, barulhos que seres-humanos não deviam ser capazes de emitir, e Chris correu.

Alguma coisa dançou no fundo da sua mente. Uma lembrança. Um cachorro sem pele. Um homem zumbi.

A luz do sol lhe deu poucas esperanças quando Chris saiu do hospital. Ele reconhecia as ruas de Harvardville à sua volta, por mais que tudo estivesse um tanto irreconhecível. O estacionamento do hospital fora tomado por corpos enrolados em sacos pláticos, ensanguentados. A visão fez o estômago de Chris emaranhar-se. Carros militares haviam sido abandonados pelas ruas e não havia uma alma viva por ali. Chris foi indo, pelas ruas familiares, correndo, seguindo, com apenas um pensamento em sua mente: encontrar Claire.

Ele não chegou muito longe. Algo duro e desagradável acertou a parte detrás da sua cabeça e tudo ficou escuro.

CRR3
A janta foi feita e ingerida em silêncio. Chris sentia que parte do seu cérebro iria explodir com toda a informação que ele havia recebido, mas a outra parte tinha, inexplicavelmente, acreditado cegamente em tudo. Bem, talvez não tão cegamente. Alice tivera razão; ele tinha visto certas coisas que não tinham outra explicação.

Se confiava nela? Chris duvidava que fosse confiar em alguém mais nessa vida fora sua irmã. Mas Alice não lhe tinha dado motivos para suspeitas, pelo menos ainda não. Ela era uma mulher alta, bonita, mas com feições duras e frias que indicavam que tinha sofrido muito para estar ali. E Chris tinha altas suspeitas de que seu sofrimento tinha a ver com a morte de Billy. Ela respondia suas perguntas com prontidão, mas Chris podia ver que também tinha suas dúvidas, suas próprias dificuldades em lidar com a realidade à sua volta.

"Por que estamos em Harvardville?" ele perguntou, o pensamento tendo lhe ocorrido de repente.

Alice ergueu seus olhos claros. "Eu te trouxe pra cá. Sabia que sua irmã morava aqui. Achei que ficaria feliz de estar com ela."

Billy, Chris pensou novamente. Se ela sabia, fora porque Billy lhe tinha dito. "Obrigado," ele falou com sinceridade.

"Não faz muito tempo que ela partiu," Alice continuou. "Eu estava mantendo um olho nela. Houve uma revolta uns dias atrás. O hospital foi fechado e ela não conseguiu... Eu não sei realmente o que foi, mas ela foi embora com mais duas mulheres."

Sim. K-mart e Jess. Claire as teria levado junto. Claire teria levado todo mundo que pudesse carregar. E se tinha deixado Chris pra trás, não havia dúvidas de que não tivera escolha. "Não tinha ninguém no hospital," Chris falou. "Quando eu acordei, não tinha ninguém."

"Não," ela concordou. "O último médico foi embora um pouco antes. Eu estava indo buscar você."

"Mas preferiu me acertar na cabeça."

Ela encolheu os ombros. "Cada um faz o que pode."

Chris sentiu os músculos do seu rosto se moverem e se perguntou se seria mesmo possível estar sorrindo.

"Se ela estiver viva," Alice disse, "vai estar em Raccoon City."

Aquilo não soou certo. Se aquela situação toda começara em Raccoon City, por que alguém iria pra lá? "Isso não seria suicídio?" ele perguntou.

"Não necessariamente. Eu sei o que você está pensando, e tenho certeza de que Raccoon está lotada de mortos-vivos, por isso as ruas principais devem ser evitadas. Mas há um acampamento de refugiados em um local estratégico, pelo que eu ouvi." Ela apontou para um rádio num canto da sala de jantar. "Bem grande, eles disseram, antes das transmissões pararem. Proteção militar. Comida. Abrigo. Disseram para as pessoas irem pra lá. Disseram que seria mais seguro."

"Se disseram para as pessoas irem pra lá, por que você não foi?"

Ele se arrependeu assim que as palavras deixaram seus lábios, assim que ela escutou, assim que ela o encarou com aqueles olhos claros cheios de dor.

"Eu não fui porque estava tomando conta de ti," ela falou secamente. "Era tudo que eu poderia fazer por... Por ele. E devo a ele mais do que posso expressar."

Chris assentiu, envergonhado. Queria agradecer novamente, mas sabia que não era o que ela queria ouvir.

"E além do mais," ela voltou ao assunto, "o dr. Charles Ashford tomou conta do Laboratório de Arklay. Diz estar tentando resolver essa confusão. Encontrar uma cura."

A palavra cura meio que trouxe ao Chris um novo senso de propósito e ele soube que o deveria fazer. "Se você acha que vou encontrar Claire em Raccoon City, então me parece uma ótima ideia ir pra lá," ele lhe disse. "Podemos partir quando o sol nascer."

"Não. Eu não irei contigo." Alice tamborilhou os dedos na mesa. "Talvez eu te encontre depois. Mas ainda tenho coisas pra fazer aqui. Contas à pagar."

Aquilo não era o que Chris esperava. Tinha contado com a ajuda de Alice. A ideia de ir sozinho... Não lhe apelava muito. Mas, também, se tivesse que ser, nada o impediria de chegar até Claire. E Alice permaneceu resoluta. Chris podia não conhecê-la bem, mas tinha perfeita noção de que quando tomava uma decisão, nada a faria mudar de ideia.



Na manhã seguinte, eles se despediram um do outro.

"Cuide-se, Chris," Alice disse. "Eles podem não parecer muita ameaça quando estão sozinhos, mas em um grupo, todos famintos... Tome muito cuidado. E eu espero que encontre a tua irmã."

Chris também lhe desejou coisas boas e em seguida partiu. Dirigiu-se primeiro para a Central de Polícia de Harvardville, agora abandonada, e encheu uma bolsa com todas as armas que pode encontrar. O arsenal não estava cheio, nem ele tinha esperado que estivesse, mas havia uma boa quantidade de armas que ele achou viria a servir. Pegou uma das viaturas e deu início a sua viagem. Ligou o rádio enquanto dirigia e tentou mandar uma mensagem: "Alô, tem alguém ouvindo? Tem alguém aí? Se alguém ouvir isso, por favor, responda. Alô? Acampamento de sobreviventes, por favor, responda. Transmitindo num canal de emergência. Estarei chegando em Raccoon City pela rodovia 85. Alguém na escuta? Por favor, responda."

Não houve respostas, mas ele não tinha esperado tanto. Coisas boas levavam tempo, Claire sempre dizia, e mais principalmente no apocalipse. Não ia deixar que isso lhe tirasse a fé. Ele dirigiu e dirigiu, mas eventualmente acabou numa estrada onde todos os carros haviam sido abandonados e não havia passagem. Era isso mesmo. Teria que continuar à pé. Chris decidiu que isso também não seria um problema.

Chris passou pela placa que dá boas-vindas à Raccoon City. O nível de destruição o chocou um pouco. Ele passou os olhos pelas ruas abandonadas, pelo lixo, pelo abandono. Havia helicópteros, carros, alguns revirados, e até mesmo um tanque de guerra que fora deixado ao longo da avenida principal. Lembrando do conselho de Alice, Chris pensou em trocar de rua, mas o tanque lhe chamou atenção. E não havia nenhuma ameaça presente. Será que apenas uma olhadinha rápida...?

Ele se aproximou do tanque. Era um modelo moderno, novo, daqueles sem cor. Chris sentiu um cheiro desagradável, olhou pra cima e viu um corpo sendo bicado por corvos. Enojado, ele deu a volta pelo tanque, se aproximando da traseira e foi então que viu, virando a esquina, um grupo enorme de zumbis. Ele correu para o outro lado, mas logo percebeu que havia zumbis vindo de lá também.

Parabéns, Chris, você vai morrer.

Cercado, ele fez a única coisa que lhe veio em mente. Jogou-se para baixo do tanque e começou a rastejar assim que os mortos-vivos começaram a imitar-lhe. Sentia seu coração acelerado, sentia sua respiração exigindo mais ar, mas o ar à sua volta estava podre com o cheiro de decomposição. Chris puxou um revólver e disparou três vezes, todas certeiras. Mas esse era o único revólver que tinha consigo, os outros bem fechados na bolsa pendurada nas suas costas. Não daria tempo. Não daria nem-

Olhando pra cima, ele viu sua salvação: uma abertura na base do tanque. Chris escalou por ali no último minuto e fechou a escotilha. Então precisou de um tempo para se acalmar, para respirar. Quando se moveu novamente, viu que não estava sozinho. Um soldado morto o encarava. Ele se mecheu, atacou, e Chris, sem pensar, disparou o revólver uma quarta vez. Grande erro. O barulho foi como uma explosão nos seus ouvidos e o mundo começou a girar. O zumbido o deixava tonto. Mas definitivamente não estava surdo porque no instante seguinte, ele ouviu, uma voz de mulher saindo do rádio do tanque por entre a estática: "Ei, você. Panaca. É você mesmo no tanque. Está confortável aí?"


CRR4
Chris não estava sentindo-se querido naquele grupo, mas também não tinha escolha senão permanecer com eles. E se o que eles diziam era verdade e fora mesmo culpa dele eles estarem naquela situação, então devia à Jill tirá-los de lá. Com vida.

Um homem negro, alto e musculoso, esperava por eles no telhado. "Não houve nada que eu pudesse fazer," ele disse aos olhares indignados que recebeu. Chris seguiu o caminho que todos faziam e encontrou um outro cara, esse, por sua vez, lânguido, com o rosto magro e feio meio coberto por um cavanhaque escuro e duas longas entradas em seu cabelo que deixavam claro que ele em breve ficaria careca.

"Você está louco, Norman?" Matt exigiu.

O homem, que segurava um rifle de sniper, voltou-se para os seus companheiros. "Deviam ter mais educação com um homem armado," disse numa voz arrastada. "Huh? Questão de bom senso."

O negro se aproximou. "Aí, cara, você está gastando balas que nem temos."

"E está trazendo todos eles pra cá," disse Matt. "Dê um tempo, Norman."

"Ah, mas já não basta eu ter uma mulher me enchendo o saco o dia todo me dizendo o que fazer," Norman gesticulou para Jill, "agora vou acatar ordens de ti?" ele fez uma careta para o negro. "Acho que não, brô. Está pra nascer o dia."

"E que dia é esse?"

"Luther, deixa pra lá," Helena disse. "Não vale à pena."

"O dia que eu receberei ordens de um negro," Norman disse. Luther, enraivecido, tentou acertá-lo no rosto, mas onde Norman era pequeno e magro, ele também era rápido. Desviou-se e acertou Luther no rosto com o rifle. "Você se acha tão especial por que tinha dinheiro, não é?"

"Chega, Norman!" Matt falou. "Já chega!"

Mas Norman definitivamente não estava satisfeito pois saltou para cima de Luther e os dois começaram a lutar. Os outros gritaram, mandaram, pediram para que parassem, mas nada de serem ouvidos. Chris abriu a bolsa que havia trazido da central da polícia e puxou um par de algemas. Norman levou umas porradas de Luther, que era muito maior do que ele, mas então puxou um revólver para se defender.

"Não! Não! Não!" choramingou Helena. "Por favor! Por favor!"

Todos congelaram. Norman aproveitou o momento. "É. Vamos ter uma conversinha sobre quem está no comando. Eu voto em mim. Alguém mais? Hora da democracia, pessoal. Levantem as mãos. Huh? Todos a favor? Huh? Alguém se manifesta?"

"Eu." Chris lhe acertou com um gancho de direita e Norman caiu estatelado no chão. Chris ajoelhou-se no seu peito, colocou a algema no seu pulso direito e prendeu-o junto a uma grade que protegia o encanamento. Dali ele não sairia sem a ajuda de alguém.

Norman soltou um grunhido animalesco. "Quem é você? Da onde que veio?"

"Escuta aqui, Norman," Chris disse pegando a arma dele, "as coisas são diferentes agora. Não existem negros ou brancos. Não existem homens e mulheres. E definitivamente não deveriam existir branquelos inatos como você. Só tem nós e eles. Os vivos e os mortos. Sobreviveremos trabalhando juntos, não separados."

"Vá se ferrar," Norman vociferou.

"Deveria ter mais educação com um homem armado. Questão de bom senso." Chris se levantou. "Vou te dar um tempo pra pensar nisso."

"Se eu me soltar, é melhor você rezar," Norman gritou, puxando com violência contra a grade que o tinha preso. "Ouviu?"

Mas Chris não estava prestando atenção. Jill o encarava de uma maneira estranha que ele não pode decifrar, mas que era, por falta de uma palavra melhor, atraente. Ela desviou o olhar e começou a mexer no seu rádio.

Luther se aproximou e apertou a mão de Chris. "Obrigado," disse. "Eu o teria matado se você não tivesse se metido. E mesmo ele merecendo, não ia querer ter isso na minha consciência."

Chris o estudou. "Eu tenho uma estranha sensação de que te conheço."

Luther sorriu. "Eu escuto isso sempre. Você gosta de esportes? Basquete? Ou é apenas fã de relógios caríssimos?" No momento que ele disse, Chris soube quem ele era: Luther West, jogador de basquete. E muito famoso. Havia outdoors com a cara dele espalhados pelo estado inteiro.

"É, o Luther é a celebridade do grupo," disse Brad juntando-se a eles. "Como está o sinal, Jill?"

"Fraco," ela respondeu. "Como o cérebro do Norman."

"Continue tentando," disse Matt.

"Pra quê?" Helena perguntou. "Não há nada que possam fazer por nós. Iria só assustá-los."

Matt devia ter notado a expressão confusa de Chris pois elaborou: "Temos um pequeno grupo de pessoas fora da cidade. Não há centro de refugiados, isso é cilada."

"Então cabe a nós acharmos uma saída," Chris deduziu.

Norman riu. "Boa sorte com isso. As ruas são perigosas por aqui, eu ouvi dizer. Você não ficou preso num tanque?" Ele olhou para Jill. "Não foi isso, peituda? Que tal você me soltar e irmos dar uns pegas em algum lugar?"

"Só se você quiser levar um chute na garganta," ela respondeu.

CRR5
Nos Limites de Raccoon City

Chris estava nas nuvens. Por mais que seu positivismo lhe tivesse garantido o bem-estar de Claire, ele nunca tinha esperado encontrá-la tão rápido. E tão bem acompanhada.

De acordo com ela, todos haviam sido mandados para Raccoon City um pouco depois da epidemia se espalhar, mas aquilo obviamente fora uma cilada porque quando eles chegaram, encontraram a cidade tomada por zumbis. Jessica, aparentemente, tinha sido avisada por um de seus amigos da polícia, que vir pra cá era a melhor ideia, e as outras estiveram assustadas demais, confusas demais para discutir. Quando elas chegaram e viram a situação de Raccoon City, tentaram encontrar um lugar para passar a noite e acabaram dando de cara com Jill, que tentava guiar um grupinho de gente para fora da cidade. Elas se juntaram e montaram acampamento, e no final acabaram ficando por ali mesmo, quando mais e mais gente foram se juntando à elas.

O acampamento de sobreviventes fora muito bem montado. Eles tinham dividido tudo em um local com algumas barracas onde dormiam até quatro pessoas, um local com uma fogueira que servia como cozinha, uma área com eletrônicos que pertenciam à Jill, e um parte dedicada à arte de estender roupas. Joseph Frost, um dos integrantes do grupo, possuía um trailer ao qual ele chamava de Cíntia, e que se provou muito útil para aqueles que não queriam ter que fazer suas necessidades no mato. E tudo isso fora cercado por uma muito bem pensada cerca feita de barbante e latas vazias que faziam barulho e avisavam se alguém tropeçasse nela.

Naquela noite, após Chris ser apresentado a todos (e no instante seguinte esquecer a maioria dos nomes), eles sentaram ao redor de um lindo jantar de cogumelos que a irmã de Matt, Lisa Addison, tinha preparado pra eles. Chris não fazia ideia de como ela tinha conseguido encontrar cogumelos o suficiente para alimentar quinze pessoas, mas nem teve oportunidade de perguntar. O assunto logo voltou-se pra ele. Claire queria saber como ele tinha conseguido chegar até elas. Como tinha saído do hospital? Como tinha pensado em vir pra cá?

Chris deu o melhor de si para explicar Alice e todas as coisas que ela tinha dito. Já que o grupo consistia de mais gente, ele também explicou pra quem trabalhava e o pouco que lembrava da missão que o levara até a Mansão Spencer na noite em que fora parar no hospital. As notícias não sentaram bem. Que a Umbrella estivesse trabalhando com um montão e coisas ilegais... Tudo bem, era bem provável que todas as companhias fizessem isso. Mas experimentos genéticos e armas virais? Era um assunto pesado demais para a hora do jantar.

"Não foi isso que disseram quando tudo começou," Helena foi a primeira a se recuperar do choque. "Os noticiários... Eles todos falaram em acidente nuclear. Ninguém nunca mencionou a Umbrella como culpada."

"E ninguém nunca irá," disse Sherry Birkin, uma menina loirinha com grandes olhos acinzentados. Ela parecia nervosa de ter a atenção de todos voltada nela, mas continuou: "Meu pai trabalhou para a Umbrella até sua morte, muitos anos atrás. William Birkin, chefe investigador virologista. Ele trabalhou no Laboratório de Arklay fazendo pesquisas com o vírus da Ebola no final dos anos 80. A Umbrella tinha adquirido amostras para fins oficiais de investigação de vacinas. A função do meu pai era modificar o vírus, fundindo seu genoma com outros. Foi a última coisa que ele fez. No final, alguém resolveu dedurar as pesquisas e a Umbrella colocou toda a culpa nele. Eles saíram ilesos, a companhia inteira. Já o meu pai foi preso e morto lá dentro, antes de ser julgado, para que não pudesse revelar nada."

Todos precisaram de um minuto para digerir esse novo pedaço de informação.

"Não pode ser verdade," Luther falou de repente, quebrando o silêncio. "Eles não podem sair impunes com esse tipo de coisa. Tem que parar no jornal, de um jeito ou de outro. O resto do mundo precisa saber."

"Eles encobrem tudo," Sherry disse. "Se o que esta acontecendo agora é culpa deles, eles já deviam ter algo preparado. Fusão na usina nuclear. Acidente trágico. Não é tão difícil."

"Nem a Umbrella é capaz disso," Luther discutiu.

"Quem você está tentando enganar?" manifestou-se Jill, que estivera quieta até agora. Algo parecia lhe incomodar. Os olhares dos outros quatorze sobreviventes caíram sobre ela e Jill os encarou de volta, atrevida, arrojada. "Olhe em volta. Você sabe exatamente do que a Umbrella é capaz." Então ela olhou através deles, para o outro lado da campina, onde o pai dela, Dick Valentine, colocova mais toras na fogueira, só pra ele, e falou: "Quer parar com isso?"

Ele nem olhou pra ela. "Está frio," resmungou num tom de voz tão intrépido quanto o que ela usara.

"Não muda as regras," Jill disse. "Mantemos o fogo baixo, só brasas, para que não possam nos ver de longe. Lembra?"

"Eu disse que está frio." Ele ergueu o tom de voz. "Por que não cuida da tua vida pra variar, Jill?"

Jill se levantou e foi até ele. Todo mundo meio que se mexeu, desconfortáveis, e alguns chegaram a prender a respiração. Chris, achando tudo meio absurdo e prevendo um possível desastre, também se levantou, para que pudesse enxergar melhor, mas Claire lhe segurou pela manga da camiseta e o puxou de volta.

"Não se meta," sussurrou num tom de quem sabe das coisas. "Acontece todos os dias. E ela não gosta que se metam."

Jill parou na frente do pai, que estava bem sentado em uma cadeira de praia, apoiando uma garrafa de cerveja na barriga protuberante e parecendo estar gostando da atenção. "Vale lembrar que não foi você quem saiu para juntar essa lenha, Dick," ela falou.

"Não é o meu trabalho," ele retrucou.

"Qual é o teu trabalho? Ficar sentado fumando cigarros?"

"Com certeza não é ficar ouvindo uma vadia presunçosa como você." Houve algumas exclamações do grupo, mas ninguém parecia querer se intrometer. "Você é bem a tua mãe, Jill," Dick continuou. "Não pense que não vou te dar um corretivo só porque você é uma vaca que fez faculdade, tá bem?"

Luther se pôs de pé num salto. "Ei! Você não pode falar assim!"

Mas o rosto de Jill era uma pedra. Devia já ter ouvido muito dessas coisas, e frequentemente também, pois não demonstrou emoção nenhuma enquanto encarou o pai. E também não demonstrou emoção nenhuma quando lhe deu um murro na cara. Houve o barulho de osso sendo atingido e algo molhado. Dick caiu da cadeira pro chão e Jill se jogou por cima dele, socando-lhe mais e mais, até que todos perceberam que não havia mais como ignorar a situação e correram até lá para separar pai e filha.

Chris chegou primeiro. Passou um braço ao redor da cintura de Jill e puxou-a pra longe. Foi mais difícil do que ele antecipara; por mais que ela não fosse pesada, estava determinada na sua fúria. Quando conseguiu isolá-la de todos, e pelo canto do olho viu que Matt e Luther seguravam Dick no lugar, Chris a soltou. "Ei, você está bem?" perguntou examinando a mão dela que estava ensanguentada.

Os olhos dela não pareceram registrar a presença dele. Ela se desvencilhou, foi até a fogueira e chutou a tora pra longe antes de marchar para sua barraca, deixando o resto deles para lidar com Dick Valentine.




ALICIA MARCUS

ALM1
A casa estava bagunçada, mas seus confortos lhe serviam o suficiente; afinal, Alice só passaria uma noite ali.

Chris Redfield se mexeu na cama onde ela o havia posto. Ele era um rapaz atraente, alto e forte, mas babava muito enquanto dormia. O que talvez fosse culpa dela mesmo já que o tinha acertado na cabeça com uma pá de aço. Seus olhos se abriram, azuis como o céu. Alice inclinou-se por cima dele mostrando sua faca preferida. Era uma lâmina afiada com um cabo prateado, adornado por um pouco de couro. Seu pai lhe tinha dado muitos anos atrás. O rapaz focou seus olhos no objeto. "Sim. Aproveite o momento," ela mandou. "Observe como está afiada. E saiba que se tentar qualquer coisa, eu vou te matar com ela."

O rapaz não disse nada e Alice se afastou.

"Você me nocauteou," ele acusou massageando o local onde ela o havia acertado.

"Você estava apavorado," ela justificou. "Achei que ia começar a gritar pelas ruas. O que teria chamado atenção indesejada. Confie em mim."

Chris a encarou como se a considerasse uma ameaça. Ponto pra ele; Alice tivera inúmeras oportunidades de matá-lo. Mas então ele notou o aposento em que se encontravam e ele se levantou de um salto. Sua cabeça não deveria estar lidando muito bem com o ferimento, no entanto, pois ele precisou se apoiar na parede antes de continuar. "Essa... Essa é a casa da Claire, da minha irmã. O que você está fazendo aqui? Como conseguiu...? Onde ela está?"

Alice sentou-se por cima do gaveteiro e deu de ombros. "Suponho que ela tenha ido embora. Todo mundo com um cérebro funcional fez isso. Todo mundo que estava vivo. E não posso garantir que ela esteja."

Uma sombra passou pelos olhos dele. Desagrado. Raiva. Seguida por medo. Alice sabia muito bem como era aquilo. Sabia que não era dela que ele tinha medo. Tinha medo de não encontrar ninguém com quem tivesse algum laço afetivo. Tinha medo de que não houvesse mais ninguém no mundo com quem pudesse contar. Medo de ser como Alice era. Mas ao invés de ter um ataque ali mesmo, ele engoliu seus sentimentos e pediu uma explicação para o que estava acontecendo.

Ah, como começar... Alice pensou em uma ou duas maneiras antes de descartar tudo. Se estivesse certa, ele não lembrava de nada. Mas teria que se esforçar para explicar. Devia isso a ele. O único problema era que ela não entendia tudo tão bem quanto tentava transparecer.

"Você sabia que no início do século XXI, a Corporação Umbrella se tornou a maior entidade comercial nos Estados Unidos? Nove em cada dez casas possuem produtos da Umbrella. Sua influência política e financeira está em todo lugar. Em público, é o maior provedor de tecnologia de computadores, produtos médicos e planos de saúde. Não necessariamente nessa ordem." Alice sentiu um sorrizinho amargurado brotar no seu rosto. "Sem que seus funcionários soubessem, no entanto, seu lucro maciço foi gerado por tecnologia militar, experimentos genéticos e armas virais."

Ele a estudou por vários segundos. Parecia estar se esforçando para entender o que ela dizia, mas deveria estar tonto: fora nocauteado logo após levantar de um coma. Alice teria sentido pena dele se isso não fosse completamente contrário à sua natureza. "Quem é você?" ele exigiu como se a informação mudasse alguma coisa.

"Meu nome é Alice. Eu trabalhava para a Corporação Umbrella," ela explicou. "Era chefe de segurança de um centro tecnológico secreto, a Colmeia."

"O que é isso?"

"Um laboratório subterrâneo gigantesco que desenvolvia armas virais experimentais. A mansão pra onde as Equipes S.T.A.R.S. foram mandadas, a Mansão Spencer, era uma entrada de emergência para a Colmeia. Eu era a agente de segurança colocada lá para proteger essa entrada. A Colmeia foi construída profundamente debaixo das ruas de Raccoon City. Uma instituição de pesquisa secreta, pertencente e operada pela Umbrella. Técnicos, cientistas, pessoal de apoio... Eles viviam e trabalhavam no subsolo. E a pesquisa deles era de suma importância."

"O que era?"

Alice balançou a cabeça. "Sua natureza era secreta até pra mim."

Ele precisou sentar-se depois disso. Alice não o culpou.

"Por que não posso lembrar de nada?" ele perguntou.

"A Colmeia tinha suas próprias defesas. Mecanismos, todos controlados por computador. Um gás foi liberado assim que você e a Equipe Alpha forçaram sua entrada. O efeito primário do gás é completa inconsciência. A duração pode variar, dependendo de quanto tempo você o inalou. Os efeitos secundários podem incluir perda de memória aguda."

"Por quanto tempo?"

"Subjetivo. Uma hora, dia, semana."

"Eu ainda não estou entendendo," ele admitiu. Alice brincou com sua faca enquanto ele formulava a pergunta. "Por que fomos mandados para lá? Eu... Eu não consigo lembrar. Quer dizer... Tinha um helicóptero que caiu. E a Mansão não estava abandonada como pensamos. Mas... O resto é um branco."

Alice tentou consolá-lo ao mesmo tempo que explicava. Por experiência própria, sabia que perda de memória era uma droga. "Um tempo antes das Equipes S.T.A.R.S. entrar em ação, algo grande aconteceu. Eu não sei os detalhes, antes que você pergunte. Mas a Rainha Vermelha tornou-se homicida. Selou a Colmeia e matou todos lá embaixo."

Aquilo não sentou bem com ele, ela pode ver, mas pensando bem, quem gostava de ouvir notícias sobre chacinas? Ele franziu as sobrancelhas. "Quem é a Rainha Vermelha?"

"Inteligência artificial," Alice disse. "O computador que controla a colmeia. A representação holográfica foi moldada com base na filha do programador, Angela Ashford. Ela foi feita para enganar e confundir quando se sente ameaçada." Alice parou para pesar suas palavras. Sabia que ele ainda estava confuso. Sabia que seria difícil entender. Mas era preciso que ele entendesse. "Sabe, corporações como a Umbrella acham que estão acima da lei. Meu pai foi um cientista renomado que participou de vários projetos e trouxe muitos ganhos para a Umbrella. Mesmo assim, quando ele mostrou seu desagrado para os atos da companhia à qual dedicou sua vida, eles o mataram. Então eu decidi que poria um fim neles. Mas, precisávamos de algo concreto. Algo para expor a Umbrella à mídia. Prova das pesquisas que faziam na Colmeia."

"Que tipo de pesquisas?"

"Do tipo ilegal," ela disse. "Genéticas. Viroses. Meu parceiro ia roubar uma amostra do vírus que estavam desenvolvendo." Ela rezou para que seus sentimentos não lhe traíssem. Rezou para que pudesse dizer parceiro sem indicar que ele era mais do que isso. Mas sabia que era o máximo que poderia fazer. Se precisasse revelar seu nome, se tivesse que falar... Não teria forças para continuar.

"E você ia ajudá-lo a sair de lá?" Chris deduziu.

"Ele era o meu contato na Colmeia. E eu era o alguém com acesso aos códigos de segurança e tudo mais."

"Considerando tudo que vi hoje, diria que o teu plano não deu certo. O que fez vocês falharem?"

Alice desviou seu olhar. Odiava ter que admitir fracasso. "Alguém foi mais rápido que nós. Alguém que queria o vírus pra si. Você tem ideia do quanto o T-virus valeria no mercado aberto?"

Chris pareceu enojado. "Valeria tudo isso?"

"Para alguém, sim."

Ele pensou um pouco antes de continuar o interrogatório. "Onde eu entro em tudo isso?"

"O meu contato, meu parceiro..." Alice respirou fundo, evitando o nome. "Ele disse que poderíamos confiar em você. Disse que você tinha contatos também. Que poderíamos te envolver no nosso plano, e você nos ajudaria a colocar tudo à vista do público. Eu não sei o que aconteceu." De repente, uma necessidade horrível de se explicar tomou conta dela. Uma culpa brutal. "Alguém chegou nele. Alguém o matou."

Não foi necessário muito para saber que Chris tinha entendido. Seus olhos brilharam, seus lábios se apertaram e Alice soube que esse era o máximo de emoção que ele demonstraria na sua frente. Mas não significava que não sentia a perda do amigo tão profundamente quanto ela. "Billy," ele suspirou fazendo os olhos de Alice arderem.

"Eu soube que você estaria na equipe enviada para a Mansão Spencer. Eu segui vocês até lá e assisti tudo de longe. Eu vi os cachorros. Eu vi... Eu vi o que aconteceu com o teu time. E dentro da casa... Não posso dizer exatamente o que aconteceu, mas sei que vocês encontraram o caminho até o Laboratório de Arklay. Lá se encontra a passagem para dentro da Colmeia. Mas vocês não passaram por essa entrada. As defesas da casa foram acionadas e quem ainda estava vivo, perdeu a consciência. Eu te tirei de lá," Alice lhe contou, "mas não houve nada que pudesse fazer pelos outros. Uma equipe de cientistas da Umbrella logo apareceu. E eles..."

"Eles o quê?"

"Os cientistas... Eles tinham equipamentos, roupas especiais, máscaras de gás. Você acha que isso os ajudou quando eles reabriram a Colmeia? Que os impediu de serem contaminados? Não. E sabe por quê? Porque o que eles encontraram lá embaixo, não foi um vírus no ar ou cadáveres dos seus companheiros."

"O que foi então?"

"Acho que você sabe," Alice sugeriu. "Você esteve lá. Você os viu."

"Você quer dizer..." Chris engoliu em seco como se tivesse que se obrigar a dizer as palavras, "...os zumbis."

Alice assentiu.

"Eles estão lá fora, agora?" ele perguntou apontando para a janela atrás dela.

"Sim. Ficam mais ativos ao anoitecer. Talvez seja o ar fresco ou... Talvez seja minha imaginação."

Chris concordou em silêncio e Alice soube que ele ainda não tinha engolido tudo que ela havia dito. "Nós..." ele se parou. Então começou de novo: "Nós temos certeza de que estão mortos mesmo?"

"Eu sabia que você teria que perguntar." Ela sorriu; estar sempre certa podia ser uma maldição às vezes. "Eles estão mortos. Exceto por algo em seus cérebros. Por isso devem ser atingidos na cabeça. Mais alguma coisa que você precise perguntar? Por que alguém vai ter que fazer o jantar, e não será eu."

"Sim," ele disse. "Você ainda não explicou porque está na casa da minha irmã."

Alice piscou. "Achei que fosse óbvio. Achei que alguém com aminésia sentiria-se melhor acordando num lugar familiar." Ela passou por ele, saiu do quarto e desceu as escadas dois degraus de cada vez.


SHERRY BIRKIN

SHB1
Nos Limites de Raccoon City, algumas horas antes

Nos seus vinte anos de vida, Sherry Birkin nunca pensou que uma coisa simples como o sol pudesse deixá-la tão feliz. Mas para uma jovem que tinha passado metade do último mês escondida num buraco no chão (literalmente), o sol parecia uma dádiva à qual poucos podiam se dar ao luxo. Ela deitou-se na grama seca e desejou que toda a vitamina D do mundo entrasse no seu sistema. Era uma sensação fantástica.

"Não brinque com fogo, Sherry," alguém disse. Sherry abriu os olhos e viu Lisa Addison pairando sobre ela. "Peça o protetor solar da Jessica emprestado. Tenho certeza que ela não vai se importar."

Lisa sentou-se ao lado de Sherry e depositou um baldinho de praia vermelho entre as duas. Aquela era uma rotina que as elas tinham desenvolvido: Lisa gostava de coisas nojentas, como sapos e cogumelos, e tinha feito sua fama no grupo de sobreviventes como catadora da segunda coisa. Todo final de manhã, ela vinha para perto de Sherry e contava com sua ajuda para limpá-los.

"Como você sempre sabe quais são venenosos e quais não são?" Sherry perguntou. Era algo que os outros sempre comentavam pelas costas de Lisa. Eles gostavam de fazer piadas a respeito, suposições, e ainda tinham um apelido pra ela: rainha dos cogumelos. Sherry não curtia esse tipo de coisa. Preferia ser direta e perguntar logo de cara.

"Só tem uma maneira certa de saber," Lisa disse e ergueu um cogumelo aos lábios.

"Não!" Sherry exclamou lhe agarrando o pulso.

Lisa riu. "Ah, Sherry. Você é um amorzinho. Não se preocupe. Esses todos não são venenosos. Eu escolhi bem."

Sherry sentiu as bochechas corando. "Como?"

Lisa deu de ombros como se gostasse do mistério e Sherry resolveu abandonar o assunto. Foi aí que o rádio montado por Jill Valentine começou a fazer barulho. Primeiro estática, depois uma voz. "Alô, tem alguém ouvindo? Tem alguém aí? Se alguém ouvir isso, por favor, responda."

Sherry achou que ia ter um ataque cardíaco de tanta emoção. Honestamente, nunca tinha levado muita fé na geringonça que Jill tinha montado. Não tinha fé que houvesse alguém lá fora para ajudá-los, muito menos alguém que dividisse o amor de Jill por rádios telecomunicadores. Mas ao ouvir aquela voz, tão masculina, tão cheia de esperança, Sherry foi convertida ao grupo de amantes de rádios. Levantou-se correndo e jogou-se ao lado do aparelho. Não fazia ideia de como usá-lo, mas foi guiada pela emoção. Apertou tudo que dava e respondeu para o estranho.

"Estamos te ouvindo! Podemos te ouvir! Está transmitindo, câmbio!" Não soube porque dissera isso, mas sentiu-se bem ao fazer.

Lisa e Joseph Frost, um outro sobrevivente, se aproximaram, os dois com olhares encorajadores. Mas a alegria deles não durou muito, pois em seguida pode-se ouvir a voz de novo e ele dizia: "Alô? Acampamento de sobreviventes, por favor, responda. Transmitindo num canal de emergência. Estarei chegando em Raccoon City pela rodovia 85. Alguém na escuta? Por favor, responda."

Era óbvio que ele não podia ouvi-los, mas Sherry não era nada senão persistente. "Estamos bem nos limites da cidade!" ela contou ao estranho. "Estamos te ouvindo. Alô? Alô?" Apenas estática lhe respondeu. Ela voltou-se para os outros. "Ele não me ouviu. Não pude avisá-lo."

Joseph ajoelhou-se ao lado dela. "Tente fazer conexão de novo."

"Precisamos de alguém que saiba o que está fazendo," Lisa sugeriu.

Sherry teria achado aquilo uma grosseria se não fosse tão verdade.

"Claire?" Joseph chamou. "Claire, precisamos de ajuda."

Claire, sempre tão disposta, veio correndo. Seus cabelos castanhos-avermelhados caíam por cima dos seus olhos quando ela pegou o receptor do rádio das mãos de Sherry e o trouxe aos lábios. "Alô?" disse. "A pessoa chamando ainda está no ar?" Estática. "Aqui é Claire Redfield, transmitindo do acampamento de sobreviventes perto de Raccoon City. Se estiver me ouvindo, responda." Mais estática. "Ele desligou," Claire deduziu enfim.

E ela não fizera nada que Sherry não tivesse feito também, Sherry não deixou de notar.

K-mart, a namorada de Claire, uma garota loirinha de olhos castanhos, se aproximou também. "Existem outros," ela já foi dizendo. K-mart era conhecida pelo seu otimismo. "Não somos só nós."

"E nós sabíamos que haveria, certo?" disse Deborah Harper, juntando-se ao grupo. "Por isso deixamos o rádio ligado."

"Está sendo muito útil." Todos se viraram para o interlocutor. Dick Valentine, o pai de Jill, era um velho rabugento que gostava de discordar e puxar briga. "Falo isso há semanas. Esse trambolho não serve pra nada. Jill é tão louca quanto a mãe dela."

Ninguém soube o que responder pra isso. Ninguém nunca queria responder pra ele. Evitá-lo era sempre o consenso.

"Ele tem razão." A nova adição ao grupo era Jessica Sherawat, uma amiga de Claire e K-mart. Ela era alta, loira e linda, e parecia gostar muito disso. Agia como se fosse a líder do grupo pois tinha passado em testes para a polícia local. Sherry usualmente tinha a vontade louca de lembrá-la que isso não fazia dela uma policial. "Temos que colocar placas na 85 avisando as pessoas para ficarem longe da cidade. As pessoas não fazem ideia no que estão se metendo."

"Nós não temos tempo," Claire, a verdadeira líder do grupo, rebateu.

"Então precisamos arranjar tempo," Jessica retrucou.

"Por que você não faz isso então? Estamos sobrevivendo aqui, Jess. Dia após dia. E se arriscar lá fora, sozinha, é um risco que devemos evitar, enquanto possível." Claire entregou o receptor de volta à Sherry e saiu marchando de lá com toda a ginga de uma verdadeira vencedora.


JILL VALENTINE

JLV1
Raccoon City, mais tarde

Jill estava tendo um dia ótimo até que viu um idiota solitário ser cercado por uma massa de zumbis, disparar vários tiros para atrair ainda mais deles e tomar refúgio no pior lugar imaginável: um tanque de guerra. Agora ele estava cercado, completamente sem saída. Bem, não completamente. Ele tinha um gênio dos eletrônicos pronto para lhe dar o empurrãozinho que ele precisava. Ela pegou o rádio portátil que carregava consigo (tinha ouvido tanta merda por causa desse rádio, tanta conjectura, tanto julgamento, e agora aqui estava) e chamou:

"Ei, você. Panaca. É, você mesmo no tanque. Está confortável aí?"

Demorou um tempo, mas a resposta veio, desafinada, desesperada. "Alô? Alô?"

Bem, pelo menos isso. Jill já tinha começado a temer que o rádio do tanque não estivesse funcionando. De jeito nenhum que iria até lá para resgatar esse tosco. "Você está vivo."

"Onde você está?" ele perguntou ofegante. "Do lado de fora? Consegue me ver agora?"

"Eu não sou a mulher-maravilha," Jill respondeu rispidamente. Por que homens tinham que ser tão lesados? "O que eu consigo ver é um tanque de guerra que não podia estar mais cercado por zumbies. É isso que você queria ouvir?"

Estática. "Não."

"Bem, essa é a má notícia."

"Tem uma notícia boa?"

Jill revirou os olhos. "Não."

"Escute, seja lá quem você for, não me importo de lhe dizer que estou um pouco preocupado aqui dentro."

E deveria mesmo. "É porque você não está vendo o que eu estou vendo. Iria surtar."

"Tem algum conselho pra mim?" a voz dele falhou um pouco. Não era algo novo para Jill; ela era conhecida por fazer homens chorarem.

"Tenho. Saia correndo daí."

Houve um silêncio prolongado. Então: "É isso? Sair correndo daqui?"

Jill teria rido se a situação não fosse tão séria. Mas estava na hora de oferecer ajuda verdadeira. "Serei seus olhos aqui fora. Escute bem. Tem um zumbi em cima do tanque, mas os outros já se distraíram e começaram a se dispersar. Está acompanhando até agora?"

"Até agora," ele falou.

"A rua do outro lado do tanque está menos cheia. Se correr agora enquanto estão distraídos terá uma chance. Pule do lado direito do tanque, continue nessa direção. Tem um beco na rua, uns 50 metros. Esteja lá."

"Ei," ele chamou quando ela terminou. "Qual é o teu nome?"

Homens realmente tinham a atenção de uma criança de cinco anos. "Você não me ouviu? Eu disse agora!"

Três segundos depois, ela o viu saindo de dentro do tanque, pela escotilha superior, acertando o zumbi mais próximo na cabeça com uma pá que ela não soube dizer da onde ele tirara, se jogando até o chão, atirando em alguns andarilhos descuidados e correndo por entre a horda de zumbis como se fizesse isso todos os dias. Jill teve que admitir: foi bonito. O rapaz tinha estilo.

Tão rápido quanto podia, ela desceu as escadas ao lado do prédio até o beco e quando viu ele passando o puxou pela camisa. Ele apontou o revólver pra ela, mas logo viu que estava bem vivinha. Jill o puxou e ele atirou mais um pouco nos zumbis mais velozes. Os dois subiram as escadas de emergência e havia tantos mortos-vivos abaixo deles que o barulho tornou-se enlouquecedor.

Assim que chegaram no topo do prédio, Jill voltou-se para ele. "No que estava pensando? Entrou andando na cidade, como se fosse o dono do lugar!"

E pareceu surpreso. "Não foi essa a minha intenção." Ele era bonito, alto, de uma maneira que enfurecia Jill. Ela odiava quando as pessoas eram mais altas do que ela. Altura, para a maioria das pessoas, era sempre sinônimo de intimidação. E se havia alguma coisa que Jill não permitia era ser intimidada.

"É, bem... Você ainda é um panaca."

Ele sorriu. "Chris," disse, oferecendo a mão direita. "E muito obrigado."

Ela considerou. "Jill," falou, aceitando-a. "E de nada."

Jill o guiou pelo telhado para um outro prédio, onde eles entraram e desceram alguns andares. Esse caminho os levou para um depósito onde os outros estavam juntando o que podiam para levar para o acampamento. Jill e Chris mal tinham entrado no depósito quando Helena Harper se jogou pra cima do novato e enfiou uma arma no nariz dele.

"Seu desgraçado!" exclamou, puta da cara. "Deveríamos acabar contigo!" Helena era assim, pavio curto como Jill, mas sempre por causa de medo e não de irritação. Ela nunca se controlava. E Jill tinha certeza de que isso acabaria lhe tirando a vida.

"Ei, Helena," disse Matt Addison. Ele era um cara legal, com uma única falha: era um cara. "Que tal se todos relaxarmos?"

"Relaxar? Você está brincando? Vamos morrer por causa desse imbecil."

"Então puxe o gatilho," Jill falou, curta e grossa, vendo que Helena não tinha nem o dedo pronto. Ela só estava dando mais um showzinho que impediria o sexo delas de levar qualquer credibilidade no futuro.

Os olhos de Chris não deixaram o rosto de Helena. Jill não pode dizer exatamente o que aconteceu ali, se fora ela, Chris ou Helena mesmo o responsável, mas Helena baixou o braço e se afastou. "Estamos mortos," murmurou. "Todos nós. Por tua causa."

"Eu não tenho certeza se estou entendendo," Chris disse e Jill teve que admirar sua honestidade que o fazia parecer cada vez mais tosco, e ele não parecia se importar.

"Nós viemos para a cidade buscar suprimentos," Matt explicou guiando Chris até a parte principal da loja. "Sabe pra quê? Sobrevivência. E sabe qual é a chave para sobrevivência? Entrar e sair em silêncio, sem dar um pio. Não dando tiros na rua como se fosse um cowboy."

"Todos os zumbis a quilômetros ouviram os tiros," completou Brad Vickers, um cara magrelo que usava muita flanela.

"Você tocou o sino do jantar," terminou Helena apontando para as portas duplas de vidro da loja que estavam sendo marteladas por mãos ensanguentadas. O vidro não iria segurá-los por muito mais tempo.

"Entendeu agora?" Matt perguntou.

Chris não disse nada. Seus olhos azuis examinavam a cena à frente.

"Ei, Jill," chamou Brad, "tente o rádio. Tente contatar os outros."

"Outros?" Isso chamou a atenção de Chris. "O centro de refugiados?"

"É, o centro de refugiados," falou Brad. "Estão com biscoitos no forno esperando por nós."

"Tá bem," Jill interrompeu-os. "O nível de sarcasmo está ultrapassando o permitido. E isso está vindo de mim." Os outros se olharam desconfortáveis como se não se sentissem bem ao serem comparados com ela. Jill resolveu que era um elogio.

Então ouviu-se o som de um tiro. Mais um.

Matt revirou os olhos. "Mas que droga. É o Norman, não é?"

Mais um tiro confirmou os pensamentos deles e todos saíram correndo em direção ao telhado.


JLV2
Raccoon City, ainda no telhado

"Desculpe eu ter te apontado a arma," Helena falou de repente. Chris olhou pra ela. "Não que eu não tivesse razão. Você nos meteu nisso."

"Sem problemas," ele respondeu. "Mas da próxima vez, puxe a trava da arma. Não vai disparar se não puxar."

Jill teve que segurar o riso. Helena era uma porta mesmo.

Chris pegou o binóculo que Brad carregava consigo e usou para olhar as ruas abaixo. "Aquela construção," disse apontando. "Os caminhões sempre deixam chaves à mão."

"Você nunca conseguirá passar pelos zumbis," Matt gesticulou para bem abaixo deles, onde havia dezenas e dezenas de mortos-vivos.

Chris olhou para Jill. "Você me tirou daquele tanque. Alguma chance de conseguir algo assim de novo?"

Jill tentou pensar nas possibilidades, mas a voz irritante de Jack Norman cortou o ar. "Escutem o salvador. Ele obviamente tem um plano."

"Eles são atraídos por som," Jill disse. "Eles te escutam, te veem, te cheiram."

"Podem nos reconhecer pelo cheiro?" Chris soou surpreso.

"Eles cheiram a cadáver, nós não," Helena disse. "É bem distinto."

E ele só precisou disso para formular um plano. Tá certo que era um plano horrível, mas Jill sentiu-se orgulhosa por ter sido ela quem o resgatou e ninguém mais. Eles voltaram ao depósito da loja onde, pelas portas dos fundos, Matt e Chris saíram, explodiram o cérebro de um zumbi e o trouxeram para dentro, tudo em menos de um minuto. Então todos vestiram sobretudos, luvas e óculos de proteção que encontraram na loja, se armaram de objetos duros e afiados e começaram a abrir o zumbi. Definitivamente nada agradável. Helena teve que parar para vomitar mais de uma vez. O cheiro, rapidamente, tornou-se insuportável. E então eles começaram a passar o sangue, os pedaços, as tripas e todo o resto no sobretudo de Chris e no de Jill.

Jill jamais admitiria em voz alta, mas o estômago dela enrolou-se em nós e bile ameaçou subir. Ela teve que se esforçar para manter tudo lá dentro.

"Quando voltarmos," Chris avisou aos outros, "estejam prontos."

"E Jack Norman?" Luther perguntou. Chris lhe entregou a chave das algemas.

Com um olhar a Jill, ele voltou até as portas dos fundos e saiu. Jill o seguiu. A quantidade de zumbis nesse beco não era tão grande. Eles seguiram, movendo-se vagarosamente, hesitantemente. Os zumbis que passavam por eles inalavam e seguiam em frente.

Ficou mais difícil quando eles entraram na verdadeira horda. Alguns zumbis se peichavam contra eles. Alguns não saiam da frente. E a maioria se inclinava para perto para conseguir cheirá-los bem. A vontade de Jill era de empurrar a todos, puxar uma arma e sair atirando, direita e esquerda. Mas ela sabia que isso resultaria numa morte dolorosa. Tinha que confiar no plano de Chris, pois era o único plano que eles tinham.

Logo, eles conseguiram chegar no seu destino. Pularam a cerca como se a vida dependesse disso e o barulho atraíu os zumbis para eles. Eles arrancaram as luvas e os sobretudos e correram para dentro do caminhão mais próximo. Como previsto, as chaves estavam no porta-luvas.

Uns dois zumbis conseguiram pular a cerca e Jill os congratulou mentalmente por suas habilidades motoras. Não era sempre que zumbis faziam acrobacias. Eles esperam. Era parte do plano não destruir o caminhão a não ser que fosse extremamente necessário. Infelizmente, os zumbis que tinham passado para esse lado estavam agora acertando o vidro do passageiro.

Chris deu uma ré, afastando-se o máximo possível. No momento seguinte, bam!, a cerca caiu sob o peso de uns trinta zumbis que saíram pisando uns sobre os outros na pressa de chegar até eles. Então o grupo se dividiu em dois, cada um focando-se ou em Chris ou em Jill, e Chris pisou fundo no pedal passando por entre eles.

Eles encontraram os outros preparadíssimos nas portas de correr da garagem da loja. Eles jogaram tudo que puderam para dentro da traseira do caminhão e não houve tempo pra mais nada, pois o motor estava chamando muita atenção dos mortos.

E aconteceu que na pressa, ninguém nem se deu conta de que Jack Norman havia ficado pra trás.


JLV3
A noite foi caindo e o grupo de sobreviventes se reuniu novamente para um jantar fantástico de carne de esquilo. Jill resolver se juntar a eles, por mais que não conseguisse se concentrar em nada fora a conversa que tivera com Chris um pouco antes. Focou-se em dar corda no seu antigo relógio de pulso, que fora de sua mãe. Era um passatempo monótono que impedia os acontecimentos recentes de deixá-la louca.

O que Chris tinha dividido com o grupo na noite anterior lhe trouxera pesadelos, mas também algo mais profundo: um fio de esperança. Ele dissera que havia alguém, um tal de Ashford, tentando encontrar uma cura. Era pouca coisa, mas era mais do que eles tiveram em muito tempo. E se o Laboratório de Arklay fosse a única chance deles, Jill estava preparada para tomá-la.

O problema eram os outros que não seriam convencidos tão facilmente pois estavam presos naquele falso senso de segurança.

"Preciso perguntar," K-mart disse, interrompendo-lhe os pensamentos. Jill olhou pra ela e viu que a garota a estudava. "Isso está me enlouquecendo."

"O quê?"

"O teu relógio."

Jill piscou, confusa. "O que há de errado com o meu relógio?"

"Eu te vejo, todos os dias, dando corda nele!" K-mart exclamou.

"Aham," meteu-se Deborah. "Já me perguntei a mesma coisa."

Jill não ficou feliz em ser o centro da conversa. Não quando tinha coisas importantes no que pensar. "Que é?"

"Bem..." Deborah hesitou como se temesse a reação de Jill. "Se eu entendi bem, o mundo acabou. E acho que vai ficar nisso mesmo por um bom tempo."

"Mas você dá corda no relógio, todos os dias," K-mart terminou, rindo.

Jill não riu ou sorriu, seus pensamentos eram sombrios demais para permitir isso. Ao invés, mexeu no relógio por mais um tempo, a única lembrança que tinha de sua mãe, e então encarou a todos. "O mundo pode ter acabado, mas o tempo não acabou. O nosso tempo não acabou. É importante que lembrem disso."

Ninguém soube o que fazer com essa resposta. Era o tipo de resposta intensa, crua e fria, que batia em cada um deles de uma maneira diferente e cada um deveria interpretá-la como quisesse.

Jill olhou para Chris e soube que ele entendera. Apenas ele, mas era o suficiente.

K-mart disse: "Você é muito estranha," e os outros riram.

Jill gesticulou para Joseph. "Não sou eu quem passa o dia falando com um trailer."

Todos voltaram-se para ele.

"Agora, espere um pouco," ele riu. "Cíntia é uma ótima companhia. Bem melhor do que o resto de vocês. Ela nunca discorda de mim!"

As risadas foram se espalhando e o humor de todos melhorou bastante. Talvez precisassem disso de tempos em tempos. Piadas ruins. Palhaçadas. Implicâncias. Fazia-os parecer mais como uma família. Não que Jill fizesse alguma ideia do que famílias eram, mas a leveza da atmosfera a fez afastar os pensamentos pesados e guardá-los para um momento mais oportuno.

Assim que terminou de comer, Deborah Harper largou seu prato e se pôs de pé. De imediato, Helena lhe segurou pela barra da calça. "Onde você vai?" exigiu.

"Eu preciso ir no banheiro, mãe," Deborah reclamou. "Credo, eu estava tentando ser discreta." Houve mais algumas risadas e Helena a soltou. Deborah foi até o trailer de Joseph e ficou alguns segundos lá dentro antes de voltar até a porta e reclamar: "Estamos sem papel higiênico?"

Então ele surgiu, como se do nada, ninguém o viu aparecer, ninguém soube dizer de onde tinha saído. O zumbi pegou Deborah tão de surpresa que ela não teve tempo de fazer nada exceto dar pra trás, tropeçar, cair e gritar. Ele mordeu sua jugular e, em seguida, todos estavam de pé, pegando uma arma, formando um grupo de defesa porque a verdade era que não precisavam de momentos felizes; precisavam lutar para sobreviver.


JACK NORMAN
JKN1
Raccoon City, de volta no telhado

Jack Norman tinha a sensação de que o dia não terminaria bem pra ele. Talvez fosse as ondas de zumbis nas ruas lá de baixo ameaçando a vida de todos naquela loja. Talvez fosse o fato de estar algemado à uma grade no chão. Ou talvez fosse algum tipo de sexto sentido que ele nem sabia ter, algum tipo de poder caipira. Mas uma coisa era certa; a situação não estava indo do jeito que ele planejara.

O novato já tinha chegado posando de galo velho. O resto do grupo não servia pra nada e se Norman tivesse que apostar, diria que nenhum deles viria a sua defesa. Não que ele fosse louco o suficiente para achar que merecia o suporte de algum deles; tinha feito sua própria reputação tratando-os como se fossem semi-humanos ou nem isso. Afinal, eram todos fracos como mulherzinhas, os homens ainda mais que as mulheres, e todas as vezes que Norman tinha tentado ser honesto, acabara ofendendo os profundos sentimentos de alguém. Só acontecia com ele mesmo... Ficar preso no apocalipse com uma gente tão... Sensível.

Mais de uma vez por dia, Jack Norman se perguntava como aquelas pessoas tinham conseguido sobreviver ao fim do mundo.

Como era de se esperar, o novo herói decidiu que ia salvar todos eles e começou a bolar seus planos de ação. Jack não prestou muita atenção pois tinha sido acertado na cara por um soco inesperado e ainda estava sofrendo os efeitos disso. Achara que já estaria acostumado; não era a primeira vez que um herói de novela lhe batia para defender a honra de um terceiro, e Norman tinha certeza de que não seria a última. Mas seu corpo nunca fora muito forte (por mais que Norman tivesse crescido apanhando, fosse em casa, fosse na rua), e a única coisa que lhe permitia ganhar nas lutas era sua falta de escrúpulos em jogar sujo.

E, então, eles colocaram o plano em ação. Não levou muito tempo e todos os que ficaram pra trás para assistir começaram a comemorar a vinda do novato. Ele seria recebido de volta no acampamento como um herói de guerra, Norman tinha tanta certeza que era enjoativo. Foi então que Norman entendeu que, sem via de dúvidas, as coisas dariam errado pra ele, já que todo mundo preparava-se para ir embora enquanto ele ainda estava acorrentado ao prédio da loja de conveniência.

"Rápido! Rápido!"

"Vamos lá! Vamos lá!"

Jack Norman decidiu que estava na hora de tomar uma atitude. "Ei!" chamou o mais alto que pode, assistindo enquanto todos corriam em volta como baratas tontas. "Que é? Vocês vão me deixar aqui? Sério mesmo? Huh? Não podem fazer isso!"

Helena Harper, aquela vadia chorona, saiu correndo sem nem olhar pra trás. Compreensível, já que da última vez que tinha falado com ela, Norman tinha dito umas coisas bem bagaceiras que esse tipo de mulher frígida realmente não tolerava. Brad Vickers, o sem-culhões, a seguiu, o que também não foi uma surpresa. Esse não olharia pra trás nem pra salvar a própria mãe. Agora Matt Addison, sempre o bom escoteiro, parou na porta e lançou um olhar significativo para Luther West, o famoso jogador de basquete.

"A escolha é tua," Matt disse ao Luther. "Mas temos que ir agora." E ele desceu as escadas sem mais delongas.

Norman viu todas as suas chances se esvaindo por seus dedos e tentou de novo: "Ei!" chamou. "Addison! Não pode me deixar aqui assim! Luther! Luther West! Não pode me deixar pra trás, cara! Você sabe disso. Não seria humano da tua parte! Vamos lá, me ajude!"

Luther o olhou com raiva nos olhos. Ele era um negro de físico perfeito, com um daqueles sorrisos que foram feitos para comerciais de pasta de dente. E Norman tinha visto o rosto dele por todos os lados de Raccoon City nos últimos anos. Era óbvio que devia ter sido carregado de grana antes do mundo acabar. Mas de onde Norman vinha, a cor da pele importava muito mais do que uma carreira de sucesso. Luther soltou um rosnado entre dentes e, inexplicavelmente, começou a remexer seus bolsos em busca de algo. Norman rezou para que fosse uma chave, não uma arma. Mas então o retardado foi se aproximando sem prestar atenção por onde andava e acabou tropeçando num dos canos com suas enormes pernas, e se espatifou no chão com um estrondo digno de jogador de basquete. E, diante dos olhos cheios de pavor de Jack Norman, a pequena chave escapou das mãos de Luther West indo direto para dentro do bueiro.

Houve um momento de silêncio desconfortável. Então Norman começou a gritar: "Seu filho da puta! Você fez de propósito!"

Luther levantou-se. "Sinto muito," disse, nervosamente. "Foi um acidente."

"Mentiroso!" Norman berrou. "Você fez de propósito! Espere! Não me deixe! Não me deixe!" e ele implorou quando viu o último do seu grupo se afastando. Luther se desculpou mais uma vez, como se desculpas fossem ajudar em alguma coisa, e foi embora. "Nããão!"

Norman agarrou a grade que lhe prendia e puxou com toda a força que seus braços magrelos lhe permitiam. Puxou. E puxou. Mas nada aconteceu.

"Nãão! Vocês vão apodrecer no inferno! Todos vocês. Vão apodrecer no inferno! Eu vou ter certeza disso! Vou pegar todos vocês, seus desgraçados! Vocês vão ver!" Os gritos rasgavam de sua garganta. Ele não se importou. Não tinha mais nada a perder.

Quando conseguiu se acalmar um pouco, lembrou que tinha uma faca de bolso consigo, uma daquelas que eram mandatórias no bairro em que havia crescido. Pegou-a e tentou meter-la no buraco da fechadura, tentou forçar, tentou de tudo, e nada resolveu o problema de que estava sozinho, preso, num telhado, no meio da infestada Raccoon City.

Muito tempo se passou depois disso. Norman não soube dizer quanto exatamente. Mas escureceu e amanheceu, e ele ainda estava lá. O sol lhe trazia agonia. O estômago ardia. A garganta queimava. E Jack Norman percebeu que só havia uma maneira de sair dali e significava que não sairia inteiro.


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