Jornal Entre cafés e históricos


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A primeira coisa na qual eu penso é que está quente demais, e que eu vou derreter usando uma blusa escura assim, feita de um tecido tão grosso. Talvez, eu teria começado a reclamar e ficado de mau humor, mas o fato de estar usando um uniforme que eu conhecia muito bem me alegrava. E dessa vez, eu estava do outro lado.

Por mais que a minha descendência seja uma mistura de nossos amigos portugueses e índios tupiniquim, minha pontualidade é quase britânica, o que fez com que, quinze minutos antes de entrar oficialmente, eu já estivesse na porta da escola. Aquele era o lugar onde eu cresci, fiz meus primeiros - e mais antigos - amigos, me apaixonei pela primeira vez, comecei a ter problemas e resolvê-los por conta própria... Era ali. O mundo dá voltas, e normalmente, costumamos parar no mesmo lugar onde começamos. A cada fim, um recomeço, e ali estava o meu.

Talvez soasse irônico, e até sem sentido, eu dizer que me sentia como se fosse meu primeiro dia ali. Porém, aquela era a verdade; era como se eu voltasse a ter quatro anos, e desse meu primeiro passo de uma longa caminhada. Um passo incerto, que fora dado sem pensar duas vezes, mas que se caso falhasse, bem... Eu pelo menos teria tentado. As pessoas pareciam sentir como eu estava, e as boas-vindas soavam em um tom engraçado e familiar. Eu estava voltando para minha casa.

E a partir dali, foi mais fácil. O primeiro dia ainda foi estranho, como se ainda estivesse me acostumando com o território "novo" (afinal, quando um aluno poderia olhar históricos de outros alunos sem levar, no mínimo, uma advertência?). Porém, ao ser chamada de "tia" e "professora" pela primeira vez, não pude evitar de conter um sorriso. "Não sou professora". Mas isso não os impediu de continuar me chamando assim.

O segundo dia me fez pensar em rotina, por ter sido parado. Mas o terceiro finalmente me fez pensar no estresse. Não sei se estaria disposta a enfrentar esse desafio, porque sei o que isso tomaria de mim; o meu valioso e precioso bom humor. Parece que adolescentes não gostam da ideia de pessoas "que são só quatro anos mais velhas" dando ordens. Meu terceiro dia me fez pensar na rotina que eu terei pelo próximo mês, e considerar o meu mais novo planejamento de vida.

Se essa é a vida que eu imaginei que teria? Não.

Se eu estou fazendo o que queria? Também não.

Isso me desagrada, incomoda ou desanima? De jeito nenhum.

É o que eu quero para meu futuro? É o que eu estou tentando descobrir.

E assim eu viro mais uma página, me preparando para o quarto dia.


(Um texto reflexivo depois do meu terceiro dia de trabalho na minha antiga escola, uma suspensão, três horas monitorando a detenção, uma caixa de históricos para serem catalogados e cinco xícaras consecutivas de café.)

Escutando: Number 9 - T-ara
Lendo: Descanse Em Paz, Meu Amor
Assistindo: Investigação Discovery
Comendo: Yakisoba
Bebendo: Coca-Cola

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