Jornal O País das maravilhas é a vida


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O País das maravilhas é a vida

Os guinchos dos freios ressoaram e o ônibus parou pouco a frente de Alice. Ela, por sua vez, virou-se e rumou à entrada do ônibus, mesmo sendo impelida por uma força a retornar e aceitar a carona. Entretanto, não olhou para trás. Continuou em frente até a entrada de sua carruagem do real.
Quando as portas se abriram, uma luz forte e extremamente cintilante emanou de dentro do ônibus, revelando um mundo sem trevas ao qual Alice adentrou. As imagens ao seu redor se dissolveram. O mundo foi se apagando e a escuridão tomou conta.
Alice, acorde!
Deixe esse mundo de falsas verdades, e venha ver o que há fora do tronco da árvore! Venha antes que se torne tão louca quanto um Chapeleiro!
Pouco-a-pouco o véu da noite foi se dissipando aos olhos de Alice, e a mesma já conseguia distinguir alguns objetos em seu quarto.
Todo aquele pesadelo, não passou meramente disso: um pesadelo.
Seu verdadeiro amor continuava ao seu lado, como sempre esteve desde seus 16 anos. No caso, dormia profundamente à direita da cama.
Não acredita, Alice? Venha ver então o mundo de verdadeiras rainhas loucas. De verdadeiros gatos falantes. Siga o Coelho, Alice! Você está atrasada!
Alice se sentou à beira da cama e olhou ao redor novamente. O seu amor ainda estava ali, e mesmo que se beliscasse com toda força, ele não sumiria. Era real.
Ande, Alice! Está atrasada! Siga os passos do Coelho! Vá ver as flores!
As flores...
Pôs seu roupão quente e confortável e suas pantufas, para proteger-se do inverno canadense. Rumou para fora do quarto, ainda olhando para trás. O sonho havia sido tão real...
Seguiu o corredor iluminado apenas por um curto fio de luz lunar que vinha de fora e furava os vidros da janela com total imponência.
Passou pelo banheiro, cujo o vidro do box refletiu seus cabelos castanhos que não arrumara ao acordar do mau sonho. Caminhou até o final do corredor, pondo-se a frente de duas portas, opostas uma a outra e respirou fundo. Era preciso ver as flores.
Pôs a mão na maçaneta da esquerda. Parou por alguns instantes para contemplar a porta: azul como o oceano, possuía uma inscrição, as iniciais da família. Abaixo, o brasão. Abriu a porta sem fazer um mísero ruído. Vislumbrou, em suas camas, duas flores. Dois lindos garotos dormiam tranquilamente, nem imaginando que em um sonho de sua mãe, poderiam nunca ter existido.
Fechou a porta e os deixou em seus países das maravilhas.
Virou-se para a outra porta. De fundo branco, pinturas de flores lilás de destacavam, suas pétalas caiam, dançando até a base da porta. Segurou a maçaneta e a girou. Ali, a flor mais velha, desabrochada há 19 anos, estava deitada, ainda com a aprovação da faculdade em suas mãos.
Siga as flores, Alice. Veja o quão belas elas se tornaram. Frutos daquele amor iniciado quando você tinha apenas 16 anos.
Alice, o pesadelo não foi real. Foram sombras de uma das infinitas possibilidades que a vida poderia lhe ter reservado. Mas a vida não é feita de tristeza. Ela é feita de alegrias, seja em uma pequena viagem rumo as Maravilhas, ou ao acordar do lado daquele que você compartilha uma vida.
Alice, você não precisava aceitar a carona...você divide o carro com ele. Você divide uma casa. Você divide filhos. Você divide a felicidade, a tal ponto, com tamanha força, que nem mesmo a morte os separará.
Siga o coelho, Alice! Siga o seu relógio! Você quem está atrasada desta vez! Esqueça o buraco escuro e sombrio que você esteve, e olhe ao seu redor. O lindo campo de flores em que está!
Alice retornou a porta de seu quarto. Observou com os olhos tomados em lágrimas aquele que a poucos pensara ter perdido, mas que por toda a vida foi seu. Desde sua adolescência esteve ao seu lado, nos momentos bons...nos momentos tristes...
Desceu as escadas até o andar de baixo, olhando cada foto pendurada na parede. Cada imagem mostrando que o coelho já havia passado com o seu relógio. O relógio nunca para, mesmo com seus atrasos ou atraso de terceiros. Se não acredita no relógio do coelho, olhe as fotos. Elas não mentem.
Anos já se passaram desde a primeira foto que vocês tiraram juntos.
Alice rumou até a cozinha e fez para si um copo de café. Abriu o armário, pegou alguns biscoitos, e foi para seu escritório. Tirou os pugs de cima de sua cadeira, e sentou-se.
Estava na hora de trabalhar.
Crie, Alice! Escreva sua história!
Livros não se escrevem sozinhos.

Escutando: https://www.youtube.com/watch?v=nSDgHBxUbVQ

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