Jornal O ultimo suspiro


Por: ~


Inicio de um novo dia e a movimentação já era intensa. Podia ouvir os sons de portas se abrindo a todo o tempo, combinado com uma seqüência de passos rápidos que iam se distanciando cada vez mais. Um pouco mais distante, consegui distinguir o choro de uma criança, um pouco abafado. O telefone tocava de forma insistente, enquanto os dedos de alguém batiam em grande velocidade sobre o teclado de um computador.

A minha direita, havia um barulho de algo pingando, estava perto o suficiente para que eu pudesse ouvir. Concentrei-me naquele som, pois entre todos os sons, aquele era o mais calmo e ritmado.
As gotas caiam em intervalos de três segundos. Pra ser mais precisa, três segundos e 25 milésimos, mas digamos que seja apenas três segundos, ninguém se importa realmente com as pequenas coisas, e 25 milésimos de segundo não faz diferença... É o que eles dizem.
Eu queria poder voltar 25 milésimos de segundos naquele dia, e bem, tenho certeza de que faria uma grande diferença para mim. Mas agora já não adianta mais.

As gotas continuavam a cair, e agora eu podia ouvir um outro tipo de som. Nunca tinha o escutado antes, desde o dia em que cheguei aqui. Tal som era agudo, intenso e prolongado.

- Façam o parar ! – gritei, mas a única resposta que obtive foi o eco em minha mente. O som seguia, e agora, uma nova seqüência de passos vinha em direção a mim. Duas pessoas? Não... Três.
Elas entraram na sala com pressa, batendo na porta que eu imaginava ser de vidro, parecia estarem nervosas, eu pude notar através de suas vozes.

- Os batimentos cardíacos cessaram!
- Vamos começar a reanimação.
- Afastem-se!
- Um, dois, três!

A essa altura, eu já não conseguia mais ouvir a gota da água caindo. O barulho que havia se iniciado tirava toda a minha concentração. Eu estava frustrada, irada, e aquele som me dava dores de cabeça.

- Parem! Eu não consigo ouvir! – gritei novamente, mas todos ignoraram. Comecei a chorar me debater, socar a cama, mas todo o esforço era em vão. Porque estavam me ignorando? Porque não podiam fazer silencio?

- Minha cabeça dói... – lamentei baixinho, entre choramingo. Sim, eu era uma pessoa melodramática, totalmente mimada, e esse era um habito que eu nunca consegui abandonar.

- Qual foi o horário? – ouvi uma voz masculina dizer. A voz estava rouca, seca, tão seca que parecia ter cortado a garganta ao sair.
- 7:39 – respondeu uma voz feminina, suave e doce. Então me lembrei. Às 8 mamãe estaria aqui, e me contaria alguma historia. Mal podia esperar. Ela sempre preparava uma historia diferente para mim, e às vezes, ela até mesmo criava. Ela sem duvidas era incrível!

- Vá em paz, pequena Sammy... – uma voz sussurrou próxima a mim, e eu pude sentir seu hálito sobre minha pele. Espera... Sammy ? Ela sabe que estou acordada? Não... E porque está me mandando ir? Para onde eu tenho que ir?

Pude ouvir novamente os passos, dessa vez, eles se distanciavam de mim. Comecei a gritar, pois queria explicações. Será que iria embora hoje? Estava tão feliz. Finalmente poderia ir para casa. Iria ver novamente o Tom, e brincar de arremesso com ele. Há, realmente estava empolgada por aquilo.

Enquanto comemorava, senti algo cobrir meu rosto e me fazer cócegas no nariz. Comecei a rir, e finalmente abri os olhos para ver o que era, foi então que me deparei com a escuridão.

- Ah, é isso...Eu morri...


Gostou da Jornal? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...