Jornal Sobre.......mim


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Lembro-me quando depois do almoço,ia animada passar meu shortinho azul de escola que ia até o comecinho de meus joelhos ralados, com a ajuda de meu pai e depois ficava olhando no espelho enquanto passava a escova no meu cabelo curtinho, o colocando de lado do jeitinho que eu gostava, para logo depois ficar em dúvida entre qual arquinho iria usar hoje, o vermelho? Ou o azul?, O azul lembra o mar, o vermelho lembra o amor, a professora gosta mais do vermelho, então eu vou com o vermelho. E depois de tudo devidamente em seu lugar, pegava minha mochila de rodinhas dos Flintstones e começava a empurrar pra frente pra trás, pra frente pra trás, esperando meu pai me levar, a escola fica na rua de trás mas meu pai gosta de me levar e eu gosto de ir com ele também, hoje é segunda feira mas eu nem ligo pra nomes dos dias ainda, por que hoje a professora vai dar aula sobre poesia e eu gosto tanto de poesia.
Quando chegava a hora de ir, corria animada na frente esperando pelo meu pai, e depois só me lembrava dele indo embora e me dando tchau, é claro que o meu tchau era sempre mais animado, eu era sempre mais animada do que aquelas pessoas, aquelas pessoas a quem eu sou igualzinha hoje em dia.
Entrava na escola sabendo que hoje seria bom, assim como eram todos os outros dias que antecediam esse, e que no futuro não seriam mais, avistava minha sala, 4° ano, duas filas bem postas aguardando o início do hino nacional e o pai nosso que vinha logo depois, eu era a primeira da fila das meninas porque meu nome começava com a, e a professora pegava na minha mão e na do meu colega para guiar a fila rumo a nossa sala. Quando a gente chegava na sala eu sentava bem na frente, atenta a tudo que a professora falasse, não porque era necessário mas sim porque eu gostava, gostava de tudo que ela falava e gostava que ela gostasse de mim.
Hoje vamos fazer varal de poesias, ela disse e eu nunca sabia sobre o que iria escrever, mas sabia que sempre que me sentasse de frente para o meu caderno almaço já gasto de tanto apertar o lápis nas folhas ao fazer minhas letras tortinhas, viriam para o papel todas as coisas que eu desejava colocar, hoje em dia não é mais assim. Quando eu terminava todas as rimas, e estrofes separadinhas cada uma em seu devido lugar, levantava de vagarzinho para não fazer barulho, pois os outros ainda se mantinham concentrados tentando passar seus pequenos mundos para os cadernos e ia toda ansiosa até a mesa dela, porque queria que ela visse o quanto eu era boa, porque eu sabia o quanto era boa, hoje em dia eu não sei mais. Ela lia e relia cautelosamente enquanto eu esperava de pé ao lado de sua mesa, tentando decifrar suas expressões, e ao terminar dizia que estava linda e era a melhor da sala, olhava no fundo dos meus olhos e dava um sorriso cheio de orgulho aquele sorriso que dizia, eu acredito em você, acredito que você é a pessoa mais especial do mundo e acredito que vai ter um futuro tão grande e brilhante, e eu acreditava, porque eu gostava tanto que ela acreditasse em mim, porque ela foi uma das poucas pessoas capazes de fazer eu acreditar em mim, e quando ela me olhava eu tinha certeza que ela estava certa, como eu tive certeza de pouquíssimas coisas na vida até hoje, e eu gostava tanto que ela acreditasse em mim. Hoje em dia eu não acredito mais. Mas ainda tento escrever imaginando ela no fundo da sala sentada em sua mesa, me esperando com aquele sorriso dizendo que acredita em mim, porque um dia de repente,quem sabe, talvez eu volte a acreditar em mim também.


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