Fui adotada


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Fui adotada

Era eu, no meio daquele lixo.
Suja, pulguenta, faminta, agredida.
Arrastando as patas traseiras no barro.
Havia apanhado por que não fazia silêncio.
E não consegui mais mover as pernas traseiras.

Mas aí elas vieram. Aquelas moças que sempre traziam a ração que podiam e o carinho que tinham.
Olharam para aquela massa de pelo sujo e olhar sofrido que eu era.
Colocaram-me no carro. Levaram-me para um pet shop.

Banho quente e consulta.
Tratamento.
Carinho.

Dois meses depois voltei a andar, mas sem agilidade, nem elegância.
Descobri que perdi muito dentes por apanhar.
Por que fizeram isso comigo?

Me disseram que não podiam ficar mais comigo no tal "lar temporário". Existia agora, cãezinhos que precisavam de mais ajuda que eu. Também anunciaram que eu iria ir para uma feira de adoção na rua, para achar uma casa pra mim.
Só não quero voltar pro lixo e para a dona que me batia.

Mas que iria querer uma peluda manca, meio atrofiada na arte de trás e sem dente?

Mas ela quis.

Aquela moça que primeiro passou e me olhou. Mas não parou. Passou de volta com compras de mercado. Sumiu. Ela era grande, mas não tinha cara de quem batia. Passou, dessa vez com uma garota morena, e pararam. A moça grande me fez um afago, adorei aquilo. Será ela? Mas foi embora de novo.

Passou-se mais algum tempo. Muitas pessoas passavam, olhavam e ás vezes paravam. "Adote um focinho", estava escrito num papel grande. Adotem o meu, por favor. Só não me batam. Fico quietinha, como pouco e durmo num trapinho no chão. Mas não me batam. Me adotem.

E aí, veio a moça grande. Correndo, muito agitada.

"EU ADOTO A JUREMA!", ela falou agarrando o ombro de uma moça que me ajudou, e que pareceu incrédula.

Eu tinha certeza que me chamavam assim, era eu? EU?

Perguntaram se ela tinha certeza. "A Jurema tem alguns problemas".

Assinou um formulário de responsabilidade sem ligar muito, alguém me soltou da correntinha e me pegou no colo.
E me alcançaram para ela. Ela me olhou e começou a chorar, mas parecia feliz.
"Vou cuidar de você", ela segredou.

Hoje eu já corro, subo e desço escadas e pulo por aí.
Como a vontade, durmo em um pelego de ovelha e tomo banho (não que eu goste, mas...).
Divido um quitinete de 18 metros quadrados com a moça grande. O nome dela é Amanda.
Ela faz faculdade pra cuidar de bichinhos, acorda com uma cara engraçada, tem chulé e não me deixa comer o gato da vizinha.
Mas ela sorri pra mim no meio do estudo, fica legal de rabo de cavalo, toma mais banho que eu, me deixa deitar em cima dela antes de dormir e nunca deixa de me fazer muito carinho.

Ela me mostrou que mesmo não sendo perfeita, houve uma pessoa no mundo que ainda era capaz de me amar e me cuidar.

E isso já era bem mais que um trapinho e um pouco de comida.


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O título é ambíguo, não posso dizer quem adotou quem.
E a qualidade da imagem é ruim, não é a melhor da nossas fotos, mas o olhar da Juju nela me tocou.


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