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Ana
Nome: ananás - quicksilver ❤🌈🐢 - #forçachape
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#ForçaChape


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#ForçaChape

Muitos de vocês não vão ler esse jornal. Muitos de vocês vão achar que é bobagem ou drama, talvez exagero. Eu gostaria de todo o meu coração que fosse.
Hoje o dia começou de um jeito horrível.
Eu mal tinha tido tempo de abrir os olhos quando meu pai chegou no meu quarto trazendo más notícias. Eu vou confessar que fiquei chocada, na hora, mas ainda não tinha processado a notícia corretamente. Um avião tinha caído. Ok. Aviões caíam e as pessoas sobreviviam à isso, pelo menos grande parte delas. O mais chocante era que tinha acontecido com um time pelo qual estávamos torcendo na Sul-Americana. O máximo que aconteceria era que o jogo seria adiado por algum tempo até que os feridos pudessem se recuperar, ou algo do tipo. Em minha defesa, eu ainda estava praticamente dormindo quando pensei nisso. Então, ainda sem raciocinar direito, eu lembro de ter perguntado ao meu pai "E como eles estão?" "Mortos", ele respondeu. Foi aí que começou o meu desespero.
Para começar: não teríamos mais um jogo, um campeonato, um título, um campeão. Não tinha como nada mais ser comemorado ou jogado. Essa certeza só aumentou quando eu vi a imensidade do acidente pelo noticiário. Eu tinha pensado neles na noite anterior. Lembro de ter lamentado o fato de que o jogo do meu time pela final da Copa do Brasil seria no mesmo horário do jogo da Chapecoense, e também lembro de nos ter imaginado recebendo a notícia da vitória da Chapecoense durante as comemorações do título do Grêmio. Estava tudo dando tão certo. O Internacional, nosso maior rival, estava sendo rebaixado. O ano estava terminando de um jeito maravilhoso, quando falávamos de futebol. Então acordamos com essa notícia.
Durante o dia todo tudo só piorou. Eu chorei a cada postagem, a cada momento em que lembrava do acidente. A cada homenagem, a cada notícia triste, a cada menção ao clube ou ao acidente, a cada demonstração da dor dos familiares de cada envolvido ou dos dirigentes do clube. Eu não sei bem ao certo como isso me atingiu tanto. Eu sempre tive uma ligação especial com a Chapecoense, que começou com a goleada de 5x0 sobre o Internacional, maior rival do Grêmio. A partir disso, passei a torcer por eles a cada jogo que não fosse contra o meu time. Logo depois, eu entrei para a escolinha do clube, e tive a oportunidade de jogar e aprender lá por pouco mais de seis meses. Eu queria poder ter continuado, ter me aperfeiçoado como lateral-esquerda, talvez até ter me tornado profissional, por que não? O futebol feminino está mesmo precisando crescer. Mas infelizmente eu tive que sair. Ainda sinto muita falta.
Então, mesmo que eu tenha uma ligação, a dor que eu senti não era nem minimamente explicável. Como ser humano, mexeu muito comigo. Doeu - ainda dói - milhares de vezes mais do que a pior dor física. Doeu forte, doeu fundo. Fiquei completamente sem condições emocionais pra nada. Eu não conseguia me controlar. Sabe aquela dor que faz você perder o ar? Sabe quando você deseja acordar e descobrir que foi tudo um pesadelo, mas não pode? Sabe quando a dor é insuportável, mas você se dá conta de que vai ter que suportar mesmo assim, porque não há nada que se possa fazer a respeito?
O mais irônico disso tudo é que eu nunca passei por essa dor antes. Nunca. Nunca ninguém tão próximo de mim morreu, com exceção do meu nonno. Ele era extremamente importante na minha vida. Mas ele tinha uma idade avançada, e de qualquer forma nós todos - incluindo ele - sabíamos que sua próxima ida ao hospital também seria sua última. Então, quando ele foi internado, foi só uma questão de tempo até que nós fossemos avisados da morte dele, que trouxe ao fim a agonia que ele tinha sentido nos seus últimos dias. Então - eu tenho até um pouco de vergonha de admitir - nós estávamos conformados quando ele se foi.
Mas o acidente era algo que ninguém esperava. Estava correndo tudo bem: o clube era novo, e tinha subido da série D e chegado até a sua primeira final internacional em tão pouco tempo. Não havia quase ninguém que não gostasse da Chapecoense. Todos estavam torcendo por eles, eram os representantes do Brasil no torneio e era um clube humilde e simples, que tinha chegado àquela final apesar de muitos outros clubes experientes e fortes estarem no caminho. Mesmo que perdessem o jogo e o título, já teria válido a pena. Eles já eram campeões. Tinham deixado todos orgulhosos, e iam para o jogo com um sorriso no rosto e aquela sensação maravilhosa de dever cumprido. Um time jovem, com jogadores jovens e vários futuros pela frente. É por isso que dói tanto. Pela repentinidade de tudo isso, e por todos esses pais de família, por todos esses filhos, irmãos, amigos, maridos que morreram. Cujos sonhos se acabaram e ficaram perdidos naquele avião. Por todos aqueles que ficaram em casa e que agora sofrem pelas suas perdas. E, se a minha dor, que mesmo não tendo muito a ver com o time, foi tão imensa, eu mal posso imaginar o quanto dói nos familiares e amigos das vítimas. Em quem os amava. Não consigo imaginar, não consigo. Só dói mais e mais a cada pensamento meu dirigido a isso.
Isso tudo também me fez sentir muita vergonha. Vergonha por todos os acidentes, por todas as tragédias às quais não demos importância ou oferecemos solidariedade, por todas às vezes em que a dor do outro não nos fez sofrer também. Por quando não fomos humanos o suficiente. Também me fez pensar em como nós estamos nessa vida só de passagem, e como somos frágeis. Em quanto a vida deve ser valorizada. Em quanto tempo passamos sem abraçar quem amamos, sem dizer a eles que são importantes e que estamos aqui por eles, para sempre. Em quanto tempo passamos apontando as coisas ruins e esquecendo das boas. Em como devíamos ser mais gratos por tudo, demonstrar mais nosso amor. Porque a vida é isso. Em um dia estamos aqui. No outro, não fazemos a mínima ideia. Nós todos somos o mesmo coração, batendo em sintonia em corpos diferentes. Somos feitos da mesma coisa. Somos uma só dor, um só amor, uma só cor. Somos todos seres humanos. E não é só futebol. É... inexplicável.


"Segura teu filho no colo
Sorria e abraça teus pais
Enquanto estão aqui
Que a vida é trem-bala parceiro
E a gente é só passageiro prestes a partir"

Escutando: Trem-bala - Ana Vilela

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