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Oq ta com teseno
Nome: Carolina
Status: Usuário
Sexo: Feminino
Localização: Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil
Aniversário: Indisponivel
Idade: Indisponivel
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ALERTA TEXTÃO


Postado

Bom, eu não sei exatamente o porquê de eu estar escrevendo — ou pior, postando — isso, mas suponho que seja tanto para fins terapêuticos quanto uma forma de dar alguma explicação razoável para qualquer um que tenha o mínimo de interesse em saber porque, afinal, eu abandonei completamente o spirit e minha fanfic

Então, tesouros, sentem-se que lá vem história.

Eu venho me sentindo emocionalmente perdida há algum tempo. Passei por uma longa depressão — cerca de três anos — e, enfim, em 2015 eu consegui me recuperar. Pelo menos eu imaginava que sim.

[TW: violência, depressão, estupro, bullying, relacionamento abusivo, suicídio]

Tudo começou no famigerado ano em que eu precisei mudar de escola. Basicamente, eu era uma adolescente insegura, pisando em terras desconhecidas e em carreira solo. Segui administrando bem as coisas no primeiro semestre, angariando alguns membro para minha gangue e até consegui fazer o senpai me notar. Começamos a namorar e tudo funcionava sem muitos problemas, além de algumas notas baixas em física. Até que, um belo dia, a calmaria que precede a tempestade acabou: um diagnóstico de cancer na minha avó. Esta distinta senhora acumulou ao longo de sua vida todos as doenças cronicas conhecidas. Diabetes, pressão, problemas cardíacos. Tudo. Ela precisava fazer mastectomia e a cirurgia seria bem arriscada. Eu fiquei completamente arrasada, especialmente influenciada por dois fatores: Eu morava com a minha avó na época e sempre tinha sido assim desde que eu nasci. Ela, basicamente, me criou; O outro, é que minha avó também cultivou ao longo dos anos vários problemas psicológicos que sempre respingavam em mim. Minha infância foi inundada de chantagem emocional e culpabilização, mesmo quando eu claramente não tinha culpa. Dessa vez não era diferente. Sempre que eu fazia algo que minha avó desaprovava, ela dizia que estava morrendo e que eu era a pior neta do mundo. Inclusive, as coisas que ela desaprovava simplesmente não faziam sentido, como, por exemplo, quando eu saía com meus amigos ou namorado e ela achava um absurdo eu não abdicar de toda a minha vida para ficar velando seu corpo ainda em vida. E não, eu não largava-a em casa e saía todo dia, toda hora. Era, basicamente, ir no shopping ao sábado, ao passo que eu passava a semana inteira com ela.

Eu estava num estresse emocional absurdo e eu cultivo o péssimo hábito de nunca contar os meus maiores problemas para as pessoas em que eu confio. Ou seja, eu fui guardando isso para mim e me afastando dos meus amigos — tanto os novos quantos os antigos, que eu vinha perdendo contato lentamente. As consequencias foram, previsivelmente, a deterioração das minhas amizades e do meu namoro. Além disso, na minha casa, minha família se decepcionava cada vez mais com a pessoa em que eu estava me tornando. As notas baixas em física, uma escolha profissional controversa, segundo eles. Aparentemente, eles perceberam que eu não era o gênio da família. Eu provavelmente não teria o futuro brilhante que me prometeram quando eu era ainda uma criança. Eu não era mais especial. Eu era a mais nova vergonha da família. E minha mãe, desde então, fez questão de frisar isso todos os dias durante o jantar em família. Ela passou os três anos do meu ensino médio me dizendo sistematicamente o quanto minhas ambições eram estúpidas e como ela estava decepcionada. Ela fez isso até matar literalmente todos os meus sonhos. Por isso, até, que eu sou tão perdida profissionalmente. Não me encontro plenamente em nenhuma área ou curso. Eu não sinto prazer fazendo o que eu sempre quis, tampouco o amor que eu sentia. Três anos é tempo suficiente para realizar uma lavagem cerebral. Desde essa época até hoje eu não ouvi sequer 01 elogio da minha mãe.

Eu estava me afundando cada vez mais. Já mal falava com meus amigos, meu namoro ia de mal a pior, eu temia a morte da minha avó, vivia arrependida por ser uma neta tão ruim para uma senhora que supostamente tinha se sacrificado caridosamente por mim, vivia tentando aprender aprender física. Entretanto, nunca foi o suficiente para ninguém. Deixar de sair de casa não era o suficiente para minha avó, média 8 em exatas não era o suficiente para minha mãe. Elas continuavam me sugando e eu tentava desesperadamente corresponder as expectativas surreais das pessoas que eu amava.

Sobre meu namoro, achei que era amor, mas não era. Cada vez mais afastados, ele começou a me sugar também. Seus amigos passaram a me depreciar com cada vez mais frequência. Eles riam de mim geralmente por motivos relacionados a minha clara decadência física e psicológica. Meu namorado não me defendia. Na melhor das hipóteses, ria de mim também. Na pior, me agredia ativamente. Agora vocês devem estar se questionando "nossa, que cara babaca, por que você não terminou com ele?". Simples. Porque relacionamentos abusivos são um morde e assopra infinito. Ele me depreciava o quanto queria, me fazia acreditar que eu estava sendo exagerada que ele era um ótimo namorado. Seria difícil eu conseguir alguém que me amasse como ele o fazia, especialmente com todos os defeitos que ele e seus amigos me fizeram acreditar que eu tinha. Depois ele pedia desculpas, me dava umas migalhas de carinho e eu aceitava. Afinal, ele pediu desculpas e eu estava mesmo exagerando. Ademais, migalhas de afeto era o mais próximo de amor que eu vinha recebendo por meses. Afinal, minha família me rechaçava em tempo integral e todos os meus amigos se foram. Alias, minha melhor amiga na época, uma das poucas que não sumiu, entrou numa jornada louca de competição feminina e sempre que conversávamos ela me contava sobre o quão maravilhosa sua vida era — ainda que eu tenha descoberto, alguns anos depois, que ela estava tão na merda quanto eu — e sobre o quão melhor ela era que eu. De bonus, ainda insistia em dizer que nossa amizade ruía apenas porque eu sou uma amiga relapsa e não era boa em manter contato.

Ainda na esfera amorosa, o ciclo do morde e assopra vai ficando mais intenso conforme o tempo passa. O período de afeta fica cada vez menor e a violência cada vez mais brutal, até chegar ao ponto do estupro. Sim. Existem alguns problemas com o conceito de estupro, mas aqui vai:

"Crime que consiste no constrangimento a relações sexuais por meio de violência"

Quero ressaltar "por meio de violência" não significa somente "colocar uma arma na cabeça". Ele queria que eu matasse aula para transar com ele e, na maior parte das vezes, eu não queria. Ele insistia até eu ceder. Se eu não cedesse, me punia. Parava de falar comigo por dias. A essa altura da história, eu estava completamente isolada. Ele era o meu único contato humano. Minha única fonte, ainda que mínima, de afeto. Eu me agarrei a esse namoro como uma tábua de salvação. Era invariavelmente horrível. Eu fingia orgasmo na esperança de que ele saísse logo de cima de mim. Eu sentia vontade de chorar sempre que ele ia embora. Entretanto, na época, eu não conseguia entender o porque. Eu não entendia porque doía tanto, porque eu achava aquilo tudo tão ruim. Eu achava que era estranha, que na verdade era o único ser humano que não gostava de sexo. Guardei para mim, também, com vergonha. Agora, tantos anos depois, eu consigo ver que aquilo não tinha nada a ver com sexo, mas com estupro. Era assim semanalmente, duas vezes por semana. Aliás, todos os meus problemas sexuais atuais foram desencadeados por esses episódios.

Eu oficialmente odiava minha vida. Não tinha paz em casa ou na escola. Tudo era um martírio sem fim. A melhor parte do meu dia era comer. Sim, eu me enchia de açucar para compensar todo mal que me era infligido durante o dia. Bolo, biscoito recheado, brigadeiro. Tudo. Compulsivamente, mas escondida, para ninguém brigar comida. Previsivelmente, eu comecei a engordar. Cheguei a ganhar 6 kg em um ano. É muita coisa. Se continuasse nesse ritmo, minha expectativa de vida seria, sendo otimista, 25 anos.

As coisas começaram a se retroalimentar e eu me afundava cada vez mais. Riam de mim porque eu estava gorda, minha mãe me pressionava cada vez mais para fazer um regime e eu ficava cada vez mais deprimida. Para compensar, comia mais doces. Engordava mais. Ficava mais triste. Comia mais. Eu me odiava. Gorda, pele oleosa, o cabelo, antes platinado, agora tinha uma raiz escura de quase um palmo, com pontas duplas. Olheiras profundas, nariguda. Eu não queria mais sair da cama. Eu dormia nas aulas. Chorava todos dias no recreio e ninguém sequer perguntava o que estava acontecendo. Eu sempre estava na defensiva, vivia acuada, tal qual um animalzinho inofensivo, encurralado, lutando em vão pela sobrevivência. Eu não conseguia entender porque todo mundo estava sendo tão malvado comigo. Gratuitamente. Eu não havia feito nada que pudesse desencadear tamanha fúria. Eu me perdi nesse processo. Todos que eu amava, me maltrataram tanto, que meus valores foram completamente invertidos. Toda a raiva que eu tinha deles, eu desviei, erroneamente, para qualquer pessoa que eles tratavam com algum respeito. Eu odiava duas meninas da minha turma pelo simples fato do meu namorado e seus amigos as tratarem bem. Eu odiava instantaneamente qualquer um a quem minha mãe tecia um elogio. Eu transferi toda a minha raiva para qualquer um que fosse tratado como um ser humano. Eu não achava justo que elas tivessem dignidade quando hostilidade era tudo que me era dado. Eu tinha inveja. Vocês sabem a dimensão do quão problemático isso é? Eu inveja a dignidade humana, porque há muito ela me vinha sendo negada.

Eu nunca tentei ativamente me suicidar, mas eu comecei a fazer coisas estúpidas. Eu deixava nas mãos do destino se eu morreria ou não. Atravessava sem olhar para os lados, deixava o gás vazar. Ninguém dava a mínima. Ninguém legitimava meus sintomas alarmantes de depressão. Aparentemente, era só frescura. Eu que era fraca.

O destino resolveu que ainda não era hora de eu morrer. Depois que eu larguei a escola, passei um ano tentando me recuperar. Nesse período eu percebi que o sofrimento não é o protagonista da existência humana e que ainda valia a pena tentar, pelo menos mais uma vez. Minha avó operou e sobreviveu. Foi a única que eu perdoei nessa história toda, provavelmente porque é uma idosa e suas faculdades mentais já não são mais as mesmas.

Dado o textão, vocês devem estar se perguntando "tá, e por que raios você tá me contando isso?". Porque, caro leitor, a depressão é uma doença muito traiçoeira. Como já dito, o trigger para isso tudo voltar com força total foi eu, pela primeira vez, conseguir internalizar que eu fui estuprada sistematicamente por alguém que eu amava e que usava minha vulnerabilidade contra mim mesma. Como uma coisa puxa a outra, eu voltei a quebrar a minha cabeça tentando entender porque os seres humanos são tão malvados gratuitamente. Por que chutar cachorro morto, como diria minha avó? Eu não consigo entender. Eu não sinto mais raiva da minha mãe, mas eu não consigo respeitá-la mais. Eu não consigo mais legitimar seu papel de mãe.Eu achava que já tinha superado isso tudo, com pessoas maravilhosas que eu conheci em 2015 e que me fizeram acreditar que, vejam só, eu tenho qualidades e não apenas defeitos. Entretanto, as lembranças voltaram com tudo agora e eu estou completamente perdida, com um sentimento de injustiça absurdo. Eu simplesmente não sei o que fazer. Isso vem me consumindo há mais de um mês. Eu tenho medo que essa minha estadia no inferno tenha me rendido danos permanentes. Ainda tenho medo de sexo e sinto vontade de chorar as vezes. Não aceito minha mãe. Eu, que sempre fui extrovertida, virei um introvertida de carteirinha. Continuo desnecessariamente na defensiva. A insegurança e o medo de tudo isso voltar me ronda o tempo todo.

Eu tenho canalizado todas as minhas energias para resolver essas questões que tanto me afligem.

Em suma: Eu ando confusa e esgotada. Esse é um dos principais motivos do meu completo sumiço.

Espero que entendam

Toda sugestão / comentário acerca da história é vindo.

Ah, esse foi um texto difícil de escrever. Desculpem qualquer erro de digitação ou continuidade, por que eu sinceramente não tenho estômago para relê-lo e revisar.

Espero recuperar minha sanidade mental em breve e voltar a escrever How I met Felps. Não desistam de mim :(


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