Lembranças


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Lembranças

Lembro-me tão bem, como se fosse ontem, era uma criança de 6 anos, acho que naquela altura, antes de acontecer oque vou descrever a seguir, eu era muito feliz, não que agora não seja, mas antes era mais. Minha irmã mais velha apareceu com uma cara nada boa, levou-me à casa da minha avo, não sabia porquê, mas tivemos que passar lá a noite.
Amanheceu, todos os que naquela casa viviam, ostentavam um ar pesaroso, até a minha irmã. Para o meu desgosto, a minha amargura, aminha ruina, logo soube o porquê. Entrara na sala a correr, mas parei bruscamente, havia naquela sala algo que certamente não fazia parte da decoração: uma caixa, uma caixa muito estranha!!!
Dentro da caixa jazia o corpo de uma pessoa, uma pessoa que eu conhecia muito bem, a sua face era pálida, tao sem cor, tao sem vida… ainda que de olhos fechados era linda… parecia estar a dormir profundamente_ veio a minha mente, as manhas em que acordava antes dela, chamava-a enquanto a abanava «mãe…mãe…mãe…» como resposta, obtia «hummm…hummm…» punha as mãos nos seus olhos e levantava as pálpebras, depois de me pregar um valente susto, sorria e beijava-me a face_ aproximei-me, chamei-a varias vezes, mas não obtive o meu “hummm….” Habitual, aproximei-me mais para ficar junto de seu rosto, com as mãos levantei-lhe as pálpebras, ao seu o que vi, mas lembro que gritei e minha irmã veio em meu auxilio. Ralhou-me como nunca tinha feito, momentos depois abraçou-me e levou-me no colo ate o quarto ao lado. De uma maneira infantil explicou-me o que estava a acontecer, não produzi nenhuma reação, sequer caíra uma lágrima…


Foi só no dia seguinte_ quando pela primeira vez entrei num cemitério, vi porem a caixa onde estava mi madre, naquele lugar e logo fecharam-no. Para nunca mais voltar a vê-la, nunca…ate o fim dos tempos_ que eu chorei, chorei muito, durante horas, dias, semanas… mas a dor não passava, antes pelo contrário, só aumentava, o vazio tornava-se cada vez maior, as lembranças vinham-me à memoria, fazendo-me lembrar que sem ela eu estava so, que nada mais tinha valor, que queria ir com ela…

Viver tornara-se impossível, todos os dias pedia de pés juntos para ter a mesma sorte que ela, se não podia tê-la comigo, então não valia a pena viver!!!
Para tornar a minha dor ainda maior, alguns meses mais tarde recebi a noticia da … foi a vez de mi padre…pela religião as mulheres não podem tocar em cadáveres e menos ainda pisarem um cemitério_ só para tornar tudo mais triste não o vi pela ultima vez, não o toquei pela ultima vez…não fiz nada _ foi apenas uma noticia que chegou os meus ouvidos e que por tê-la recebido devia chorar, perder o meu chão e compreender que nunca mais voltaria a vê-lo.

Fizeram-se dois vazios no meu coração, a dor ia aumentando, aumentando e aumentando, tornou-se insuportável…não tinha mais razões para viver…!!!
Não sei o que fiz, não sei o que aconteceu, (…) acordei num hospital, sentia-me fraca e voltei a adormecer (….). Muitas coisas se passaram, voltei a viver, mas os meus dias eram cinzentos, nenhuma razão para sorrir, ninguém para chatear durante a manha, ninguém para ouvir-me contar as histórias do meu dia…aliás não haviam histórias para contar.

Tinha 8 anos quando tomei uma nova resolução, a de não lembrar. As lembranças faziam-me e ainda fazem-me mal. Não existe nada no meu passado que seja digno de recordar…ate as boas lembranças dos momentos que vivi com mi madre, fazem-me sofrer. Sofrer porque sei que nunca mais poderei estar ao se lado.


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