~drawmuky

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Sobre personagens trans, por um trans. [Importante!]


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Eu estava, hoje mesmo, conversando com a Min sobre escrever um jornal sobre personagens transgêneros. Estava com vontade de escrever sobre já fazia uns dias, e aproveitei que acabei de ver The Danish Girl, então quero falar sobre o assunto aqui. Em primeiro ponto quero dizer que tudo que será escrito aqui será pela minha perspectiva como transgênero, e que isso não se aplica como regra geral já que cada trans se sente de uma forma diferente e possui percepções diferentes, então não posso falar por mais ninguém além de mim.

Vejo muitas discussões sobre desenvolvimento de personagens transgêneros em âmbitos com muitos da comunidade LGBTQA+, principalmente agora que se fala mais no assunto. Eu mesmo já falei várias vezes que acho muito importante e relevante retratá-los cada vez mais na mídia, inclusive foi por isso que comecei a escrever Discouraged, e também é o meu tema de TCC. Quem leu meus jornais anteriores ou conversa comigo sabe exatamente que o tema do meu trabalho é justamente desenvolvimento de personagens fora dos estereótipos padrões (homem, hétero, cisgênero e branco), estou mencionando isso apenas para caso alguém vá ler este jornal e ainda não saiba, quem sabe já está cansado de ler isso.

O início do debate é: Uma pessoa cis pode criar um personagem trans?

Essa questão é complicadíssima e existem casos e casos. Muitas pessoas vão dizer que não, porque você vai estar falando sobre uma realidade da qual você não vive e isso é errado - como um hétero escrever sobre um gay, um branco escrever sobre um negro, etc. Eu, particularmente, vou repetir que isso é a minha opinião e sou completamente aberto à diálogos, acredito que sim, um cisgênero pode criar um personagem transgênero, desde que ele pesquise sobre o assunto e tenha responsabilidade para falar sobre tal.

Quando estamos criando um personagem é preciso lembrar que você está trabalhando com o psicológico de alguém, assim como o seu. Que suas atitudes, sua personalidade, qualidades, defeitos, e todas as linhas que o moldam são resultados das experiências que viveu - os momentos bons, ruins, traumas, amores, tudo isso é resultado. É por isso que é difícil para nós escrevermos sobre uma realidade diferente da nossa, pois nós não sabemos como é estar sob a pele de outra pessoa, apenas podemos imaginar, sem vivência real.

Existem coisas que são mais simples, como por exemplo, escrever sobre coreanos não sendo residente da Coréia do Sul. Nós todos criamos personagens que são de realidades distintas das nossas, em diversos aspectos. Você pode pesquisar sobre o assunto e aí ter uma ideia mais concreta de como eles vivem, a cultura, alimentação, e como isso pode influenciar nas pessoas que são - de acordo até com características como, por exemplo, o fato de ser um país extremamente preconceituoso, homofóbico, transfóbico, machista, e por aí vai. A pressão que é criada sobre as pessoas que vivem lá e como isso molda como eles se adaptam ao país com o tempo, como algumas pessoas se tornam extremamente infelizes e nunca se abrem completamente por medo de perderem o emprego, a família, e como a vida é complicada, em contrapartida à outros países mais liberais.

Moldar o psicológico de uma pessoa é uma questão complicadíssima e que exige muito trabalho. Para construir os personagens que estou usando na faculdade preciso conversar com psicólogos, para ter uma ideia mais precisa sobre o que realmente estou falando e desenvolvendo. Construir um personagem transgênero exige muito mais trabalho do que você pode imaginar, principalmente porque a mente de um ou uma trans é uma confusão, e muitas vezes nem nós nos entendemos. Nos exige anos questionando a nós mesmos sobre as coisas, e toda e qualquer influência externa pode nos afetar psicologicamente - desde às pessoas que nos apoiam ou nos reprovam, as críticas, os abandonos, influência religiosa ou idealística daqueles que estão conosco - seja família, amigos ou romanticamente.



Preste atenção aqui: Se você quer criar um personagem trans sendo cis, você precisa pesquisar, conversar com pessoas transgêneras. É extremamente necessário que você estude e dialogue com estas pessoas para saber o que elas sentem, pensam, como cada tipo de coisa afeta no dia a dia delas, para que você não crie um personagem ou determinadas situações baseadas em estereótipos que muitas vezes possam ficar ofensivas, que ficam fora da realidade, que vão passar uma ideia errada mesmo que sem querer. Eu entendo que muitas vezes possa ser na melhor das intenções, mas você precisa pesquisar e entender antes de criar alguma coisa, antes de escrever sobre algo que você não vive, que não faz parte do teu mundo diariamente, porque a cabeça de uma pessoa trans é completamente diferente de uma pessoa cis. Então, não, eu não digo que é errado, eu digo que é preciso ser feito com cautela e consciência, especialmente para se falar sobre preconceitos, traumas, e toda a parte negativa e o que isso gera, como se reflete na pessoa que sofre esse tipo de agressão, seja física ou psicológica. Lembre-se que isso irá afetar também as pessoas que estão em volta, os círculos de amizade, aqueles que se importam, e nem sempre todos irão reagir bem, e até mesmo aqueles que aceitarem, poderá ser um processo lento e às vezes, dolorido. Isso também afetará a personalidade daqueles que interagem com a pessoa trans e como eles vêem o mundo.



Aproveitando a deixa, o filme The Danish Girl foi muito criticado antes de ser lançado por ter um ator cisgênero interpretando o papel de uma personagem trans, que é a Lili, uma das primeiras mulheres transgêneras a fazer cirurgia de redesignação sexual. Vi muita - mas muita gente mesmo - reclamando e fazendo textão no Facebook, no Filmow, para criticar a escolha do ator, e tenho que admitir que eu mesmo fiquei com um pé atrás, nessas horas é sempre importante que exista mais espaço para atrizes e atores trans na cinematografia em geral, mas então eu vi o filme. E mudei completamente minha opinião.

O filme, de fato, possui alguns erros, mas no geral é espetacular e muito pesado, também. A história de vida da Lili é extremamente triste e ela passa por situações que, falando como trans, são extremamente traumáticas. Para uma atriz transgênera interpretar aquele papel, ter de se vestir de homem, ter de passar por todas aquelas cenas, seria pesado demais e poderia gerar distúrbios pesados. Eu totalmente apoio o fato de que usaram um ator cis, que conversou e trabalhou junto com outras trans para poder interpretar o papel, do que usar uma atriz e deixá-la perturbada por isso. Existe uma cena onde ela se olha no espelho, nua, e aquela é uma das cenas mais importantes e marcantes do filme, eu já mencionei isso em uma fanfic, mas, olhar no espelho quando você não se adapta ao seu corpo é extremamente depressivo. Expor uma mulher antes da cirurgia à um público geral poderia piorar a situação dela, afinal, precisamos lembrar também que muita gente não entende sobre a questão toda, e muitos olhariam para ela e chamariam de ator, homem. Você sabe o quanto isso seria horrível para ela? Então, sim, eu apoio a ideia de tê-lo como ator no papel em proteção, justamente, às atrizes e ao efeito colateral que isso iria causar. Eles conseguiram retratar bem a ideia num geral e fez o seu papel.



Para vocês terem uma ideia, em Orange Is The New Black temos a personagem Sophia, interpretada pela atriz trans Laverne Cox, uma mulher maravilhosa. Quando foram fazer o episódio que mostrava sobre seu passado, a equipe de produção fez o irmão dela atuar no papel, para que ela não precisasse se vestir de homem e se sentir disfórica. Então, sim, ele fez o papel de uma personagem trans também. Por ela. Aliás, o seriado da Netflix está de parabéns, junto com Sense8, que conta com a personagem trans lésbica Nomi, e também é dirigido por duas irmãs atualmente abertamente transgêneras que são também diretoras da trilogia Matrix.

A maioria das pessoas que eu vejo problematizando demais as causas, nem são transgêneros, são cisgêneros que fazem papel de defensor das causas sociais e saem fazendo textões sem sequer ter ouvido a voz de alguém da própria causa antes. E, honestamente, eu estou cansado de gente cis metendo o dedo onde não deve, julgando filme e falando mal sem sequer saber como é a realidade em si. Escrevendo sobre coisas sem ter conversado antes, achando que estão certos porque estão problematizando. Problematizar é legal e importante sim! Dar espaço para atores e atrizes trans é importante sim! Mas por favor, saiba do que você está falando ao invés de se colocar na frente de uma causa que não é sua. Deixem os trans falar sobre os trans, a causa é nossa, somos nós que sentimos, perguntem e nos deixem falar e dialogar sobre, antes de tomarem ideias precipitadas e estereotipadas baseadas naquilo que você já leu ou viu na internet. Todo mundo é totalmente livre e todo apoio é muitíssimo válido e aceito, mas dependendo da atitude, isso pode nos prejudicar. Apoie com consciência.

E mais uma vez, repito, cada trans sente de um jeito, pensa de um jeito. Tem outros(as) que não irão concordar com o que eu disse, e eu não quero desvalidar a opinião de nenhum deles(as). Pergunte o motivo, pergunte o porquê. A forma como tiveram que lidar com cada situação e as experiências pelas quais passou vão fazê-los ter um ideal diferente. Estudem. Certo? Certo. No geral, recomendo The Danish Girl. Sense8. The Orange Is The New Black. Tem mais, só perguntar.
Qualquer dúvida quero deixar claro que estou completamente aberto à diálogos e debates construtivos, pode comentar aqui ou me mandar mensagem privada. Também dou espaço para outros(as) trans se pronunciarem sobre o assunto caso desejem, e também respondo dúvidas e indico conteúdo caso seja do interesse - não que eu seja O Doutor No Assunto, mas no que puder ajudar, ajudo.


Agora, um pouquinho sobre meus projetos, tem duas oneshots novas:

The Golden Boy – yoonkook, pwp, crossdress & bondage.
Nemorovás – yoonkook, bonitinha mas choros.
Coming Down – yoonkook, capítulo 7 saiu. 8 em breve, reta final.
Discouraged – yoonkook, transboy!yoongi. capítulo 1 no ar, finalmente. 2 em breve.
What are you scared for? – jikook, two-shot, vampire!jeongguk & incubus!jimin.
Spring Flowers – yoonmin, oneshot, fluffy.

Quero usar esse finalzinho de jornal para agradecer todo o carinho, suporte e amor que tenho recebido em cada uma das minhas fics. Discouraged passou 150 leitores, Coming Down passou 170, The Golden Boy já está quase nos 200 e faz poucos dias que foi postada. Vocês são incríveis, e cada comentário que recebo me faz perceber que vale muito a pena cada tempo que dedico para escrever para vocês. Muito obrigado mesmo.

Um abraço, e até a próxima.

Escutando: The Head and the Heart — Honey Come Home
Lendo: Muitas coisas.
Bebendo: Chocolate Quente.

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