Sobre o amor próprio


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Sempre achei esquisita a forma como o amor se apresentou pra mim. Veio aos pouquinhos, meio discreto, e logo tomou conta de meu peito e aqui se aconchegou. Pela alma tão cheia desse sentimento gostoso, bonito, decidi compartilhá-lo com a fonte de desse amor, despejando com palavras e carinhos todo o líquido colorido que transbordava de meu coração. Acontece que ele veio me secando com panos, contendo todo meu sentimento ali dentro, pediu que eu não o entendesse mal, mas que mantesse o amor ali; não quis se molhar com ele também.
O coração ficou ferido pela brutalidade, embora delicada, da resposta que ganhou por toda a coisa bonita que ali gerou. A alma ficou magoada. Tomou conta da situação então aquela sensação inquieta de vulnerabilidade, que eu conclui que geralmente vem dos fins tristes. Por um tempo, a alma se aquietou, enquanto o coração ainda gotejava as cores de amor pelas artérias, e elas faziam a pele coçar pelo incomodo.
E era tão difícil para meu cérebro aceitar que meu amor - pessoa, não sentimento -, não tinha a mesma ansiedade que eu no que precipita o toque, não sentia frio na barriga ao deitar-me em sua cama, não tinha a mesma urgência no beijo, não tinha aquela vontade, meu amor não sentia o mesmo amor que eu. Ainda assim, eu lhe disse outro dia que se sentimentos são cores, então por ele eu tinha o suficiente para colorir aquele cômodo inteiro e ainda sobrava para pincelar o corredor; soou tão bonito e agradável que não pude deixar de simpatizar pelo meu próprio sentimento que inundava o peito, e a empatia foi tão grande que comecei a notar que talvez ele vibrasse por mim mesma, e talvez eu devesse pensar em substituir as velhas paredes brancas por coloridas.


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