~LiaHyuuga

LiaHyuuga
Little Fickle Girl
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Aniversário: 6 de Setembro
Idade: 16
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Rosa Vermelha


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Rosa Vermelha

Quando uma pessoa parte, os outros têm que se adaptar a isso. Têm que, de alguma forma, agir como se tivesse esquecido tudo o que viveram com a pessoa que partiu.

Comigo não foi diferente. Mas eu não sabia que seria tão difícil voltar a viver como se você nunca tivesse existido.

Na verdade, eu nunca imaginei como seria viver sem ter aquilo tudo, sem ter aquela antiga atmosfera alegre me cercando. Sem ter você.

E com a sua partida, todo o resto também foi embora.

O ruído da máquina de costura na sala ao lado. Muitas vezes era esse o seu modo de me dizer bom dia. Só que eu não levantava logo, eu ficava ali deitada, ouvindo. Até hoje não sei por quê.

Nem sempre você costurava por tantas horas. Às vezes eu acordava tarde e, quando isso acontecia, o seu modo de me dar bom dia era diferente. Ele ligava o rádio e vocês conversavam, quase sempre discutiam. E quando eu finalmente levantava, vocês continuavam discutindo. Isso nunca mudava. Na minha concepção, eram o par perfeito!

A máquina de lavar fazia aquele barulho repetitivo, que me dava sono. Eu te fazia aquelas perguntas bobas, cantava canções infantis e saía inventando versos pela casa. Futricava nas coisas velhas do quarto ao lado e brincava de casinha com aqueles brinquedos antigos.

Cheiro de flor, lençol e papelão.

Mexia nas suas gavetas e me adornava com suas joias. Ameaçava pular daquele pequeno muro, só para te assustar. Não conseguia aprender a jogar canastra, até hoje não consigo. Mas gostava de extraviar e inventar jogos com seu baralho.

A porta da sala sempre estava aberta, as cadeiras sempre estavam lá fora, e a grama sempre era alta e fofa.

Eu gostava do ventilador de teto do seu quarto, mas nunca da hora de ir dormir. Era muito tarde, e enquanto eu teimava para esperá-la voltar daquele tal lugar chamado “faculdade” – no fim eu só conseguia vê-la na manhã seguinte – você me distraía com aquela mesma história. Era sempre a esperta raposa que vinha roubar as uvas da casa e acabava na lata de lixo. Raposas nem sempre são tão espertas quanto parecem ser.

Quando acordava chorando no meio da noite, por conta de um pesadelo, você me deixava tomar sorvete. E era uma das melhores coisas. Era algo muito legal.

Mas o tempo foi passando e você foi ficando cada vez mais cansada. Eu nunca tive a oportunidade de te retirar daquela cama, ou de te fazer bolinhos de chuva como você antes fazia. Nem de comer mais uma de suas lasanhas. Eram únicas.

Tudo que pude fazer foi te ouvir e chorar.

A porta da sala nunca mais foi aberta. A máquina de costura nunca mais foi usada, e nunca mais eu dormi ao som da máquina de lavar. Não ouvi mais a história da raposa, não fiz mais bolinhos de chuva e não tentei mais jogar canastra.

O rádio não toca as mesmas músicas, porque vocês não discutem mais. A grama está alta demais, e as paredes estão mofadas.

Sua rosa vermelha ainda está viva.


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