Personagens perfeitos, clichês e padrões [para pessoas que criam OCs e pers. para fics interativas]


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ALERTA DE CONTEÚDO: TEXTÃO, PUXADAS DE ORELHA VIOLENTAS EM VÁRIAS GENTES POR AÍ

Existe uma coisa que eu debocho pra caralho, que são os "personagens perfeitos". Sempre seguem aquele padrão: "um homem de 1,90 de altura, forte, musculoso, de olhos de um azul intenso, tem 20 anos de idade, luta karatê, kung fu, boxe, judô, jiu jitsu, muay thai, é um mestre com armas, sabe dirigir muito bem, faz parkour, assumiu os negócios da família aos 16 anos e é extremamente inteligente e perspicaz, é muito analítico, um ótimo estrategista, estrela pornô e piloto de fórmula 1". (as duas últimas características eu coloquei justamente pra debochar de quem faz isso, e eu não devia nem estar explicando a ironia, mas baixou um espírito bonzinho em Kalz, olha só). Aqueles que, assim como eu, gostam de criar OCs para fichas interativas de vez em quando, e gostam de dar uma olhada nos personagens do resto do povo, com certeza já viu vários que seguem esse padrão (isso para não citar aqueles que criam personagens assim para as suas próprias histórias).

Ah, é. Tem sempre a grande fraqueza também: "ele chora", ou então "ele é frio". O tipo de ~fraqueza~ que colocam só pra falar que ele não é perfeitinho, sendo que continua sendo um personagem perfeitinho.

Tudo bem fazer personagens frios. Tudo bem fazer personagens que choram. Tudo bem fazer um personagem mestre em artes marciais. Tudo bem fazer um personagem de 20 anos que é um gênio. Tudo bem fazer um personagem excepcionalmente inteligente. Tudo bem fazer um personagem nojentamente adequado ao padrão de beleza - o qual é racista, transfóbico e horroroso pra caralho, pq todo esse povo que vocês acham bonito sempre é branco igual papel e cis, e sempre tem aquele corpo que a mídia adora vender como ~perfeito~. Enfim, não vou entrar nessa questão do quanto o padrão de beleza é horrível e prejudicial e o quanto vocês estão sendo no mínimo ignorantes e inocentes de ficar copiando ele o tempo todo.

A questão aqui é: por mais que seja tudo bem você fazer um personagem com algumas dessas características, se ele tiver todas elas, ELE SIMPLESMENTE NÃO É HUMANO CARALHO. ALGUMA VEZ na história você já ouviu falar de um traceur ou traceuse (praticante de parkour) que lutasse trocentos tipos de artes marciais diferentes, tivesse 375752553 pontos de QI, fosse rico pra caralho e dono da Coca Cola, da Microsoft, da Apple, atacante da Seleção, estrela da Playboy e primeiro-ministro da Inglaterra? Pois é, né?

É claro que é legal sonhar, mas na boa, seja menos ridículo. Principalmente se você estiver participando de uma fic interativa. Todo mundo que está na fic interativa vai querer ver seu personagem ganhar algum destaque, imagina uma onde todos eles são essa divindade em forma humana?

Pessoas têm defeitos. E eles não se resumem a "sou frio" ou "choro com facilidade". Pessoas têm defeitos, e têm FRAQUEZAS também. Talvez por culpa de vocês, que fazem personagens perfeitinhos, eu costumo fazer listas muito mais detalhadas e explicadas dos defeitos dos meus próprios personagens do que de suas qualidades. Mas pra falar a verdade, eu aconselho isso para todo mundo que ler esse texto: não fique falando das trocentas qualidades de seu personagem, coloque os defeitos em evidência. Mostre suas fraquezas. Mostre no que ele é ruim. Mostre aquilo com o que ele não consegue lidar. Mostre um trauma dele. Mostre situações onde ele pode perder o controle emocional e ficar impotente. Lembre-se de que ele não é invencível, e detalhe tudo aquilo que pode vencer ele.

Por exemplo, atualmente eu tenho uma fic em publicação que se chama Shingeki No Ghoul, onde o protagonista é um homem trans de nome Emerick Asamoah. Ele é negro, transgênero, 1,65 de altura, corpo robusto, usa black power, olhos pretos. Está fora do padrão de beleza, e isso é lindo. Pessoas não-brancas também existem, sabem? E só pra constar, ele não é aquele "negro passável", de nariz e lábios finos, traços "brancos" e cabelos glamourosos. Eu o descrevo desde sempre como um negro de pele bem escura, nariz largo e lábios grossos. E ele é transgênero. Nunca passou por transição nenhuma. Não é uma dessas pessoas trans que vocês, cis, adoram olhar e falar ~até parece homem de verdade~ (e só pra constar, isso é estupidamente babaca e transfóbico e quem fala isso merece levar quinze tiros em cada perna e ter os olhos arrancados com uma faquinha de serra). Ele é um homem trans que nunca pôde fazer nenhuma cirurgia ou tratamento, que amarra faixas ao redor dos seios, usa roupas largas e precisa se impor para ser reconhecido, algo que só consegue fazer porque a) ele é muito forte (E NÃO É SEM MOTIVO, ele tem a porra de uma história por trás que explica onde ele foi buscar essa força, e que mostra seus traumas e sua frustração com o mundo, não é um "era filho do casal mais lindo e rico da cidade e aí do nada virou mestre em 39 artes marciais diferentes"); e b) ele não vive onde nasceu, por isso muita gente não sabe que ele foi designado mulher, apesar de considerá-lo muito "feminino" e por isso questionar sua sexualidade. Mesmo assim, uma boa parte das pessoas que o conhecem do lugar onde ele nasceu não o reconhecem como homem. Ele não é só mais um da mesma forminha branca, perfeita e padronizada comprada na lojinha da Ana Maria Braga que 90% dos leitores e escritores parecem usar.

Além disso, ele também é um excelente combatente. Possui enorme agilidade e excelentes reflexos, além de uma grande força física e resistência (estes provenientes de sua natureza ghoul). Sabe lutar judô e kas-pin (arte marcial finlandesa) pois treinou desde criança, tendo sido criado num regime ditatorial militar. É um ghoul com um grande poder regenerativo. Mas, ele tem fraquezas. Para começar, não é um herói. Eu não o descrevo como uma boa pessoa para se ter por perto. Mas também não é um desses ~psicopatas~ que vocês adoram fazer, um desses vilões que não passam de cópias mal-feitas da já decepcionante Gasai Yuno ou algum outro psicopata dos animes/séries que eu não conheço. Ele é arrogante, prepotente, despreza seus adversários, ignora as opiniões das pessoas ao seu redor, é grosseiro, sarcástico, mal-educado, sem noção e agressivo. Ainda que não fale e não demonstre, e ainda que [SPOILER ALERT DA MINHA FIC, caso pretenda lê-la ou a esteja acompanhando, pule a parte em vermelho] tenha vencido um dos kakujas, ele sente medo deles. Também sente medo de dois humanos que considera serem capazes de matá-lo. Ele sente MEDO, pois sabe que pode perder, que não é invencível. Entenderam o que estou tentando demonstrar? Não é legal manter tudo tão padronizado. O mundo é muito mais infinito do que vocês pensam.

Agora que já falamos tanto sobre a questão dos padrões quanto sobre a dos personagens invencíveis, vamos passar para o último tópico: os clichês.

É claro que é impossível evitar completamente os clichês. E na verdade, acho que não devemos evitá-los completamente. Afinal, existem coisas que de vez em quando acontecem de forma clichê. É claro que você pode colocar determinadas características consideradas clichês em seus personagens. É claro que você pode colocar frases clichês em suas histórias, assim como acontecimentos. MAS, preste muita atenção agora: NÃO ABUSE. Não encha seu personagem de características e frases prontas. É pouco imaginativo, entediante, e para pessoas como eu, incrivelmente irritante. Sério, eu dou cada facepalm lendo algumas fics / OC's por aí...

Uma coisa que muitos parecem não entender, é que para escrever, é preferível que você tenha uma ideia. E então, desenvolva bem essa ideia. Coloque detalhes, explique. Está criando um OC? Não perca tanto tempo na personalidade, vá primeiro para a história. É por lá que você começa a moldá-lo. Crie a história dele, mostre os eventos importantes. Como o ambiente onde ele foi criado moldou seu jeito de ser, como a cultura dele influencia suas ações. Não mostre só as vitórias dele, pense também em suas derrotas. No meu caso, eu gosto de drama (isso é um GOSTO PESSOAL), por isso, gosto de criar personagens com histórias trágicas. O meu personagem citado anteriormente, Emerick Asamoah; eu diria que a sua história de vida é a parte mais clichê dele. Basicamente, mais da metade de sua família foi morta. Entretanto, ele não é só "minha família morreu pela razão de que rosas são vermelhas e violetas são azuis, aí eu fiquei puto e agora quero vingança". O Emerick é uma pessoa, e ele se desenvolve durante a história. Suas opiniões mudam. A família dele morreu porque ele é um ghoul numa sociedade humana. A raça dele é perseguida pela humanidade, os quais não buscam prender os ghouls, e sim matá-los e remover suas kagunes para fabricar armas poderosas. Há um motivo para eles terem sido mortos, entende? Clichês existem e todos podem usá-los, mas pense no desenvolvimento do seu personagem de forma original. No caso do Emerick, eu exploro muito o lado político-social do mundo para moldar seu pensamento. Existe um cenário claro.

Não sei se tá dando pra acompanhar, eu fico me desviando do assunto toda hora lol :v

Enfim. Existem pessoas de todos os tipos, e obviamente é necessário pensar no universo onde o seu personagem está sendo inserido para se criar uma história. Por exemplo: um personagem para uma fic de Psycho-Pass dificilmente vai ter o mesmo tipo de história de um personagem pra uma fic de The Walking Dead, o qual vai ser completamente diferente de uma fic de Dragon Age, que é diferente de Madoka Magica, que é diferente de Sakura Trick, que é diferente de Tokyo Ghoul, que é diferente de um romance original de fantasia futurista, que é diferente de um drama realista de época ambientado na Europa dos anos 30. O personagem vai ser fortemente influenciado pelo universo onde vive. Um fuzileiro treinado seria um sobrevivente bem útil em The Walking Dead, mas que espaço teria em Sakura Trick, um anime yuri de garotas colegiais? Claro que esse é um exemplo tosco, mas espero que entendam onde quero chegar.

Ainda relacionado aos clichês, mas dessa vez mais na questão do plágio: ainda que tenha sido um número menor de vezes, eu já vi pessoas fazendo seus personagens descaradamente plagiados de outros personagens. Da última vez, foi numa fic interativa de Harry Potter, onde alguém praticamente fez o Nagato, do Naruto, só que britânico e bruxo em vez de japonês e ninja. Eu lembro que na época respondi o comentário do cara pedindo pra ele fazer um personagem mais original e ele deletou sem responder alguns minutos depois, sumindo nos confins do universo. Agora, entendam: É CLARO que vocês podem se inspirar num personagem de que gostam. As pessoas fazem isso o tempo todo e não tem nada de errado com isso, sério. Uma das minhas séries favoritas, RWBY, inspira a maioria de seus personagens em outros. A Ruby Rose é inspirada na Chapéuzinho Vermelho; a Weiss Schnee, na Branca de Neve; a Blake Belladona, na Bela de A Bela e a Fera; a Yang Xiao Long, na Cachinhos Dourados; o Lie Ren, na Mulan; o Jaune Arc, na Joana D'Arc; a Nora Valkyrie, no Thor; e a Pyrrha Nikos, em Aquiles. Isso só pra citar os 8 principais. Mas, entretanto, contudo, todavia: ELES SÃO INSPIRADOS, NÃO PLAGIADOS. O Lie Ren é o Lie Ren, não o genderbend da Mulan. Ele tem suas próprias características, sua própria personalidade, sua própria história, suas próprias habilidades, etc. O mesmo para todos os outros sete. A Mulan apenas foi a inspiração inicial para o início da criação do Lie Ren, um personagem completamente novo. A Ruby Rose, por exemplo, porta um capuz vermelho e é vista lutando contra grimms lupinos no primeiro trailer de RWBY (algo feito de propósito porque os criadores queriam que as pessoas vissem a referência óbvia à Chapéuzinho Vermelho). A Nora [SPOILER ALERT DA TERCEIRA TEMPORADA EM VERMELHO] possui poderes elétricos, luta com um martelo gigante e tem uma força física extrema. A Pyrrha Nikos é a "caçadora perfeita" e tem um nome claramente grego. E por aí vai. Seja na personalidade, na história, nas habilidades ou na aparência, por favor, evitem cópias descaradas.

Enfim, é claro que todo mundo pode escrever o que quiser. Mas, na boa, se você quer que sua história e seus personagens sejam levados a sério, não dá pra simplesmente fazer um personagem como o que eu descrevi no começo do texto e fazer uma "história" cujo o único propósito é mostrar o quanto ele é fodão. Algumas perguntas básicas que eu sempre me faço antes de começar uma nova história: "O que eu pretendo contar nessa história?". "Qual é o propósito dela?". "Porque eu estou escrevendo isso?". E algumas perguntas que eu sempre me faço antes de criar um novo personagem, (inclusive os figurantes que só aparecem em um ou dois capítulos) são: "Qual é o objetivo desse personagem?". "Como ele vai interferir na história?". "Qual é sua própria história de fundo? Ou seja, a sua vida antes de ele começar a interferir/participar da história que eu estou contando?".

Texto escrito por Kalz Carvalho


PS: uma conhecida acabou de me lembrar de outra característica muito comum nos "personagens perfeitinhos", que é: "sou antissocial", agora to rindo toscamente aqui lol


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