Eu estou bem?


Postado

Eu estou bem?

Eu nunca soube lidar com a culpa, seja ela culpa minha ou culpa sua, o arrependimento, o conhecimento e o reconhecimento da culpa são passos insuportáveis para mim, eu cometi vários erros, você também, mas nem todos eles merecem ter um peso de culpa em nossos ombros, eu sei, no entanto, não consigo evitar o frio que domina o meu coração a cada mínimo erro cometido, eu sou uma covarde confessa, confesso que não amo pelo medo de me machucar, confesso que não me aproximo por um dia ter que partir.
Sempre achei que fosse simplesmente ruim em um todo, que fosse medrosa, covarde, culpada, preguiçosa, fraca, acomodada, e tudo que seja antônimo de resiliente; sempre tive medo dos sentimentos, sempre fui racional, nunca fui apaixonada, não digo que nunca estive apaixonada, o que eu disse é que nunca fui apaixonada.
A diferença é grande, por mais que as orações sejam parecidas, quando você se apaixona por algo ou alguém você se dá, e eu nunca me dei, eu já estive apaixonada por pessoas e coisas, paixões anêmicas, eu nunca fui apaixonada, pois eu sempre me mantive próxima o suficiente para ver, mas distante o suficiente para fugir, houve alguns momentos em minha vida em que me questionei sobre a minha sanidade, momentos inúmeros se você me perguntar, eu nunca entendi a mim mesma, nunca entendi o porque eu não conseguia me entregar a algo de corpo e alma, o porque eu sempre me resguardava, sempre preparada para fugir, para me machucar, para sofrer, para mudar.
Em parte isso acontecia quando eu não completava algo que iniciava, e isso ocorre com muita frequência em minha vida, quando eu início algo pode parecer para você que eu estou completamente dedicada aquilo e que será incrível, porque eu iriei convencer você disso, eu sou extremamente boa em convencer as pessoas, talvez eu tenha o dom da oratória, talvez eu só seja manipuladora, não sei ao certo, mas a questão é que eu também acredito que aquilo irá durar para sempre, que eu vou chegar até o fim, mas eu nunca chego, a paixão acaba rápido, e quando eu olho para trás vejo que não fui tão a fundo quanto poderia, e que agora não existe nenhuma vontade em mim de voltar a andar naquele caminho, eu nunca tive sonhos verdadeiros se você olhar bem, eu tinha planos, mas depois de alguns anos eu sabia que nunca chegaria a eles, porque eu sou uma desistente, não é como se eu tivesse medo de continuar, esse nunca foi o problema, o que me deixa rápido é a paixão, a vontade de continuar, essa nunca permanece, e essa talvez seja a resposta pela qual eu nunca me deixo envolver, porque no fundo, eu sei que não irá durar, que deixarei incompleto, e talvez seja por isso que eu me afasto, que não me apaixono, porque eu não sei lidar com a culpa de não ser apaixonada.
Quando eu descobri que eu estava doente e que as mudanças entre paixão e desistência eram efeito de uma doença eu me senti mais leve, porque isso aliviou a minha culpa, mas isso não me livrou do problema entre começar, abandonar e nunca chegar ao fim de nada, eu nunca realmente me interesso pelo fim dos textos, das histórias, das músicas ou das pessoas, o fim é pálido, o caminho até ali é objeto de grande interesse de minha parte, afinal o caminho é onde os padrões se formam, é onde a trajetória ganha significado, o fim, é apenas o fim, o fim é rápido, o fim é sempre inquestionável, mas o caminho é cheio de possibilidades, o caminho é apaixonante e aterrorizante, é bom ver alguém apaixonado, mesmo que distante de mim, é invejável, no fim de algo se encontra sempre o início de outro caminho, a vida é cheia de metas e novos caminhos, mesmo a morte, dizem as religiões é o início de uma outra vida, eu pessoalmente gostaria que a morte fosse um fim definitivo, sem outros fins, sem outras metas, isso por saber que eu nunca vou encontrar os fins em vida, me contento com um único fim definitivo, a morte. Se a morte não for um fim definitivo viverei eu outra vida desistindo? Eu não desisto pelo medo, eu não desisto pela preguiça, eu desisto pela falta de paixão, e de que vale viver sem paixão? De que vale viver duas vidas sem paixão? De que vale viver?
[justo]


Gostou da Jornal? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...