O Expresso da Meia-Noite


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O Expresso da Meia-Noite

Por esses dias tivemos a grande perda de Rubén Aguirre, o eterno professor Jirafales. Isso me vez lembrar bastante das grandes ladeiras da Zona Norte aqui do Rio. Não pude continuar escrevendo The BackUp Plan sem colocar essa mistura de vontade e sentimento para fora. E no final, tive esse texto. Nele, dou vida a uma personagem criada com uma mistura das crianças de vi e convivi na época. O local é real e ainda se pode encontrar tal rua. @ZangadaBondy, essa é a minha tentativa de usar a primeira pessoa.

MENTE DE CRIANÇA
Lia Coelho


Os dias passam e as horas voam, mas eu continuo a mesma. Quem sabe um dia eu mude? Quem sabe um dia eu pare e pense que na realidade foi bom eu não ter mudado? Não sei ainda qual dessas opções eu quero ter. Só sei de uma coisa: ainda sou a mesma de sempre. Aquela menina metida e esnobe que gostava de corrigir o português dos outros. Meu avô percebia isso e dizia, agora eu vejo, de propósito: dois real, dois saco de biscoito. Irritada, corrigia ele como quem era dona da verdade, embora adorasse quando meu avô chegava de tarde, depois do almoço, e empurrava um torrão de doce-de-leite. Era para adoçar a boca depois de um prato de comida que minha avó fazia lá na vila. Não sei por que, mas criança tem o hábito de idealizar o mundo. E o mundo da minha infância era aquela vila.
Aquela não era a vila dos Chaves, infelizmente, mas tinha lá os seus apreços e semelhanças. Não havia o Seu Madruga, mas havia aquele homem velho e magro que morava ao lado. Chamávamos de o Homem dos Gatos. Aquele senhor solitário metia medo em todas as crianças da vila, inclusive em mim e em meu irmão. Quando ele passava, era uma correria danada de volta para o portão de casa. Joelhos ralados e o coração acelerado. Todavia, da mesma forma que corríamos de volta para casa, corríamos para ver o que havia dentro daquela porta entreaberta, atrás daqueles muros altos. A curiosidade matou o gato, nunca pareceu tão verdadeira naqueles dias. A casa fedia a aqueles animais. O mal cheiro era pior nos dias de calor durante o verão. Quando não era isso, de noite era aquele miado capaz de irritar o mais calmo dos homens. A casa onde ele morava tinha dois andares e no segundo andar dava para ver sempre pelo menos uns dez gatos pendurados no parapeito das janelas. Graças a Deus aquelas janelas tinham grade, pois senão algum daquele bichano já teria caído dali.
Não havia a Dona Clotilde ou a bruxa do 71. Mas tínhamos um terreno abandonado com umas três casas dentro que ficava do outro lado da casa dos meus avós. Quase nunca íamos lá. Era misterioso e vazio. Do segundo andar da casa dos meus avós, perto do galinheiro, dava para se espichar todo e ver o terreno ser engolido pelo tempo aos poucos. Meu pai costumava falar que ali morou uma senhora escura que cozinhava como poucos e sabia fazer uma feijoada como ninguém. Dizia que era uma senhora alegre que amava futebol, uma boa cerveja gelada e contar piadas. Todavia, aquela senhora já não morava mais ali e o terreno ia sendo aos poucos invadido pela natureza. As janelas quebradas, o mato alto que crescia por entre as frestas do chão de cimento e dentro das casas. O reboco que caía, algumas telhas quebradas e a pintura branca cheia de mofo pelos cantos e amarelada em alguns pontos. Aquele e terreno metia medo em qualquer criança da vila e por isso era comum mandarmos o perdedor de alguma brincadeira ir até o portão do terreno baldio, abrir o mesmo e ir até um pequeno pomar que havia na entrada. O pomar tinha sido plantado pelo meu avô. Havia uma bananeira, um mamoeiro e uma goiabeira, onde uns sanhaços apareciam todo dia para se empanturrar de frutas e nos agraciar com o seu canto melodioso. Graças à Deus eu nunca entrei lá. O reco-reco daquele portão enferrujado erriçava os pelos dos braços da molecada e acelerava o coração. Aquilo me metia mais medo do que a bruxa do 71.
Em frente a casa de meus avós havia um muro com um portão e do lado fora havia um grande espaço coberto por cimento. Aquilo era ótimo ralador de joelho quando algum infeliz caía durante algum pique-pega ou uma aposta de corrida do final até o início da vila. Quando não machucávamos algum joelho, brincávamos de bolinha de gude que meu pai comprava em pequenos sacos de 10 ou 20 bolas. Aquilo era ótimo para tacar no pessoal da rua, mas quando não estávamos endiabrados, nós realmente brincávamos de bolinha de gude e apostávamos algum doce ou figurinha. Não havia como jogar bola ali. Não que faltasse espaço, mas é que a bola geralmente parava ou no terreno baldio ou na casa do homem dos gatos. Depois de algum tempo a pessoa perde a paciência e o dinheiro de ter comprar uma nova bola a cada semana. Então nós não jogávamos bola ali. Apostávamos corrida subindo as escadas rapidamente, é claro. Para o desespero de minha avó que gritava da cozinha preocupada: Parem com isso crianças! Vocês vão cair!
Ninguém nunca caiu. O perigo deixava a brincadeira mais emocionante. Meu avô ria e pedia para brincar em silêncio.
Certa vez me enfezei com um guri da vila.
Tudo começou quando uma pipa embolada noutra começou a girar e girar e girar e girar e pronto. Caiu devagarzinho numa árvore que ficava no meio da vila. Não teve outra. Cacei uma pedra no quintal de uma vizinha, consegui uma linha velha na laje e me pus a preparar aquela marimba salvadora que ia me fazer ganhar duas pipas. Não que eu soltasse pipa. Mas gostava de ajudar meu pai a empiná-las e de vê-las subir no céu. Queria ter aquelas pipas. Então fiquei no segundo andar da casa dos meus avós e preparei aquele tiro certeiro.
Bom, não foi tão certeiro assim.
Precisei de cinco tentativas para encaixar a marimba na pipa e puxá-la para mim. Mas, ao fazer a pipa cair no chão e ao começar a puxar ela para mim, um guri de uma das casas do início da vila teve a audácia de pensar que aquele troféu era dele. Não prestou. Descei correndo e fui tirar satisfação. Com apenas nove anos de idade, marchei até ele e bradei que aquilo era meu. Ele disse que não. Eu disse que sim. Ele disse que não. E eu dei um soco bem no meio do rosto dele. Aquele guri era como Quico. Sempre queria ter o melhor brinquedo da vila, ou a melhor roupa. E fazia questão de esnobar e caçoar de quem não tivesse. E a minha paciência sempre foi muito curta.
Depois do soco, peguei a pipa e fui me embora. Feliz da vida.
Bom. Aquilo azedou logo, logo. Meu pai ao chegar do trabalho soube da história porque o guri era filho de um amigo de infância dele, dos tempos em que ele jogava bola na rua em frente da vila e massacrava os dedos dos pés quando chutava muito embaixo da bola. Meu pai ficou bravo e quebrou as duas pipas. Eu levei alguns tapas. Fiquei sem doce de leite por uns dias. E continuei enfezada com aquele guri sem vergonha. Além de ladrão, era dedo-duro, foi o que pensei na época.
A vila também não tinha o carteiro Janinho, mas tinha um padeiro que subia a ladeira com duas grandes cestas na bicicleta, trazia quitutes como biscoitos, pães, bolos e, principalmente, pão-doce com aquele creme de baunilha por cima e açúcar de confeiteiro. Às vezes penso que minha infância foi regada a altas taxas de glicose. Mas o que eu podia fazer? Todo santo dia, lá pela tardezinha, nós escutávamos lá da casa dos meus avós, aquela buzina inconfundível.
Powww-Powww.
Powww-Powww.
Sabíamos na hora o que significava. Logo, meu irmão ia até minha avó e avisava de que o padeiro tinha chegado. Minha avó então pegaria a bolsinha com os trocados dela e lá íamos os três subindo a vila para ir comprar pão-doce e alguns pães franceses para o lanche da tarde. Aquilo bem quentinho e com manteiga por dentro era divino. Só não podiam faltar alguns biscoitos para minha avó comer durante as novelas que ela gostava de ver na televisão.
Quando fazia muito calor, e faltava água lá em cima, nós não tínhamos o barril do Cháves. Mas tinha cinco enormes galões d´água que meu avô guardava e enchia d’água quando precisava. Lá, quando éramos pequenos, dava para entrar num e mergulhar dentro. Tempos bons e tão refrescantes. Quando crescemos um pouco, já não entrávamos no galão e tomávamos banho de balde. Quem nunca? Aquilo parecia um batismo da própria infância. Era lá no terraço do segundo andar da casa dos meus avós.
Aquela criança-moleque, metida em jogar bola e dar carrinho em todo mundo e de se enfezar quando algum malandro vinha tirar satisfação com meu irmão ainda está por aí. Anos mais tarde, ainda trapaceava no jogo do bafo, pois queria ganhar mais figurinhas ou tazos e por isso colocava um pouco de cola nas palmas das mãos. Depois pegava as repetidas e as vendia na hora do recreio a preço suficiente para comprar pacotes de figurinhas novos e comprar o meu lanche. Mas que ninguém fosse mexer com meu irmão. Virava bicho. Cruzava os braços e olhava com raiva para quem tivesse a audácia de encostar um dedo sequer nele. Enquanto ele chorava, eu mostrava ao mundo que ele não estava sozinho. Podia apanhar também. Mas também fazia os outros saírem machucados. Isso afastou os malandros por muito tempo, até meu irmão ficar mais alto do que eu e os papéis de inverterem.
Ainda sou, de certa forma, essa pessoa. Metamorfoseada. Ainda amo os pássaros. Como aqueles que eu via no pomar do terreno baldio. Ainda passo horas olhando para o céu em busca de algum sanhaço, rolinha ou gavião. A vida na cidade grande é pobre neles. Só se pombo. Pombo e mais pombo. Eles eram e ainda são tão sem graça. Por isso sei seus cantos melodiosos daqueles pássaros de cor. A raridade deles me faz apreciar a beleza de cada um.
A casa dos meus avós há muito tempo foi vendida. Os anos se passaram e a vila mesma mudou. O homem dos gatos morreu, e a casa foi reformada. O terreno baldio foi reformado e os netos daquela senhora quituteira moram de novo ali. A própria casa foi reformada, disse meu pai. Meu avô morreu há muitos anos. Mas sua lembrança boa e gostosa dos tempos em que ele dava escondido os torrões de doce de leite e seu sorriso bom ainda estão em mim. O padeiro, mais velho, dizem que ainda sobe a ladeira com seus quitutes.
Mas aquele guri sem vergonha ainda está lá, dizem. Eu ainda estou enfezada com ele. Ainda não me cansei de tacar bolinha de gude nele. É pena que não se encontre mais essas bolinhas.

Escutando: Legião Urbana
Lendo: Mar Sem Fim, de Amyr Klink
Assistindo: Orange Is The New Black
Jogando: Fifa 16
Comendo: Letras
Bebendo: Café

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