~DarkMorphine

DarkMorphine
Mazinha
Nome: Dark Morphine
Status: Usuário
Sexo: Feminino
Localização: Indisponivel
Aniversário: 3 de Dezembro
Idade: 19
Cadastro:

Baralho


Postado

Baralho

Cá estou eu novamente, nesse incomensurável e sombrio vazio dentro de mim. Não sei se estou flutuando, afundando ou estática. Só sei que aqui estou outra vez. Ora, não estou sozinha. Decerto, nunca estive. Se isso é bom? Eu não sei, todavia, acredito que não é. Eles estão comigo, como sempre estiveram nessa tenebrosa imensidão de puro nada. E eles querem voltar a jogar. Por isso, cá estamos nós, sentados no triste abismo, prestes a começar a partida.

Para iniciar esse detestável jogo, há apenas uma luz que ilumina o centro de nossa roda. Há cartas de um baralho sentimental no meio. Cartas surradas e deprimentes. Ao meu lado direito está um dos dois monstrinhos que convivem comigo: a Ansiedade. Não, esse monstro não possui um sexo definido, porquanto ele é apenas um emaranhado de sentimentos perturbados que possuo. Não conheço seu rosto ao certo, apenas sei que é inquieto, agitado. Está sempre se movendo e sussurrando palavras rápidas e desconexas. Ele me incomoda, visto que passa essa inquietude para mim e, quando percebo, estou agitada. Coração disparado. Não posso me acalmar. Não consigo.

Já ao meu lado esquerdo, há o outro monstrinho: a Depressão. Este também não possui um sexo definido, exatamente pelos mesmos motivos do outro. Ele é sempre cabisbaixo, quieto, quase imóvel. Nunca tem vontade de nada, sequer de mover seus dedos para alcançar as cartas. E, lógico, ele também passa isso para mim. Fico dividida entre um e outro. Totalmente desconfortável, mas em simpatia com ambos. E, com esses dois, estava completa nossa rodinha. Todos prontos para iniciar o jogo que desprezo. Todos (?).

Eu, como sempre, esqueci as regras do jogo. Não posso jogar. Não consigo. Sendo assim, apenas observo-os embaralhar as cartas daquele deplorável baralho, enquanto analiso sorrisos cruéis surgirem nos lábios de ambos. Ora, eu sei. São eles quem dão as cartas. Eles são os juízes e são eles quem criam as regras. Apenas as sigo, sem entendê-las, contudo. Sorrio irônica: jogo esse abominável jogo há anos, séculos. Mesmo assim, nunca sei o que devo fazer ou como devo agir para vencê-los. Tanto não sei que sempre enrolo em minhas jogadas e tudo acaba indo para a prorrogação – a qual desconheço o tempo de duração, assim como também não tenho consentimento sobre o período de permanência do jogo oficial. Não possuo o controle sobre isso ou sobre eles.

Eles dão as cartas, eu as recebo. E assim começa. Cada um coloca, ao centro, a carta desejada que antes estava em sua mão. As minhas cartas? Negras ou brancas. O que significam? Não sei, no entanto sempre sacrifico as brancas, não obstante meu maior desejo de toda partida seja eliminar as negras. Eles colocam as deles: o amor, o ódio, a tristeza, a angústia, a felicidade... Ao reuni-las, podem invocar os momentos desejados e descartar os indesejados. E tudo reaparece como um relâmpago em minha mente. Meu coração dói. Meus olhos ardem. Minhas mãos tremem. Meu desespero corre solto por todo meu corpo, encolhido no chão. As risadas que deixam escapar por entre seus lábios apenas me apavoram mais. O que eu deveria fazer? Qual carta devo jogar para impedir que aquelas memórias e sentimentos voltem à minha destroçada e confusa mente?

Engulo em seco e faço minha jogada. Se eles haviam invocado as péssimas lembranças, tentaria eu me desfazer das cartas brancas, invocando a paz aparente. Não anula, entretanto, os efeitos das jogadas deles, apenas amenizam. As cartas negras que sobram em minha mão fazem-me mal, mas é menos do que as cartas que aqueles dois continuam jogando. Sempre e sempre. Toda partida é sempre igual. Eles estão contra mim, conquanto eu ache que eles só querem minha companhia. Que eles querem que eu faça parte deles. Ou que eles sejam uma parte de mim. Deturpada mente inquieta e ridícula garota inútil...

Eu sei. Sempre soube. Não posso vencê-los. Nem mesmo com ajuda medicinal. Eu deveria entregar os pontos, jogar a toalha e desistir daquele jogo maçante. Todavia, não faço. Sou uma idiota. Idiota por permanecer me torturando e me obrigando a persistir com um jogo que não desejo jogar e que sei que não possuo condições de vencer. E, mesmo sabendo disso, eu prossigo a jogar, prorrogando tudo. Almejando derrotá-los e dar as cartas. Sei que não posso vencê-los, porém, não viso minha derrota no jogo. Sou uma péssima perdedora. Então eu continuarei ali... No jogo, na rodinha, no vazio. Jazerei ali e não deixarei que me vençam.

O empate é mais digno do que a derrota. Entretanto, em meio a todas aquelas jogadas, em meio a todo aquele barulho no silêncio, pego-me pensando: se eu abandonasse a partida e me entregasse aos dois de corpo e alma... Será que me sentiria mais completa do que no momento estou? Será que conseguiria reunir meus pedaços e me reformar? Será que eu poderia apenas desistir de tudo e de todos... E aproveitar a solidão em mim, dançando com meus monstrinhos?

Será que eu devo jogar todas essas cartas ao centro e gritar por clemência? Devo deixar escorrer o rubro quente em minhas veias, enquanto pinto novas cartas, agora vermelhas? Ou será que devo apenas aprender as regras do jogo inicial? Ora, de qualquer forma, cá estou eu novamente. Perdida em hipóteses e vendo toda minha vida mudar de rumo, voltando a recair numa imensidão atroz e infinda.

Escutando: Dançando (Agridoce)

Gostou da Jornal? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...