A verdade que vocês não querem saber, mas eu preciso contar.


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A verdade que vocês não querem saber, mas eu preciso contar.

Então, eu apaguei Latte.

E por mais que o site tenha a possibilidade de se fazer o restauro de histórias, esta é uma que eu duvido profundamente que vá recuperar.

Vocês devem estar se perguntando o que é a verdade, que não querem saber, mas eu quero contar.

A verdade é que a autora que vocês parecem gostar tanto, é uma pessoa doente.
Não, nunca fui em um médico que me desse um diagnóstico, simplesmente por ter medo de ter em mãos um pedaço de papel que me faça oficialmente alguém doente.

Aos treze anos tive meu primeiro ataque de pânico. Em uma briga boba na internet com alguns trolls, sendo sempre a pessoa exageradamente sensível que eu sou, cheguei ao ponto do nervosismo em que minha mãe se assustou com meu estado. Naquele dia eu senti como se tivesse apagado do mundo por alguns minutos, como se estivesse assistindo tudo de fora do meu corpo, como eu tremia e gritava enquanto minha mãe tentava desesperadamente me fazer parar de me arranhar.

Aos dezesseis anos eu fui sozinha morar em Portugal. No primeiro ano estava morando na casa de uma senhora amiga da minha avó. Em um dia, depois de uma briga com ela e com meu namorado na época (que morava no Brasil), eu me cortei pela primeira e única vez. Nunca fui muito boa em lidar com dor.

No ano seguinte me mudei para uma casa onde vivi sozinha. O que eu já tinha, a depressão que eu já carregava nas costas desde os treze anos ficou pior, ao ponto em que eu passava dias sem nem mesmo sair da cama, e outros em que dormia direto. Engordei até os 95kg, cortei meu cabelo muito curto, e nem lembro de ter cortado, pensei em me matar durante dias e mais dias.

No ano depois não aguentei e voltei pra perto da minha família. Fiz um curso, arranjei amigos, briguei com alguns deles, fiz mais amigos, comecei a escrever, consegui um emprego e tudo parecia ficar tudo bem.

Aí algo voltou pra me assombrar. Minha sexualidade.

Nunca gostei de admitir, nunca gostei de ser chamada de lésbica por causa da minha aparência, nunca gostei de olhar pra algumas meninas de um jeito diferente. Nunca gostei do fato do meu primeiro amor ter sido uma garota.

A primeira vez que cogitei ser lésbica, ou bissexual, foi na quarta série. Contei para uma "amiga" e ela contou para outras pessoas. No fim da minha trajetória naquele colégio em particular, eu era conhecida como a "sapatão louca". Muito agradável. De fato.

A garota por quem eu me apaixonei, nunca olhou pra mim desse jeito. E eu amei ela demais, em um silêncio que dói até hoje, mesmo que hoje, ela já saiba. Eu me separei dela quando fui embora pra Portugal, eu ignorei a existência dela e me forcei a não lembrar que existia até que ano passado nós voltamos a nos falar.

Mas o problema talvez não esteja aí. Porque hoje eu tenho um certo orgulho de dizer que ela é minha amiga, até um ponto.

Antes de voltar a falar com ela, eu conheci uma outra garota. Eu já via ela de longe, sempre achei ela linda, como aquela pessoa que eu queria ser e que queria que estivesse do meu lado. O melhor de tudo, é que ela lia minhas histórias, e foi um dos melhores momentos da minha vida quando ela veio falar comigo, toda animada, por eu ter escrito algumas das histórias que ela mais gostava.

Eu me forcei a aproximar. Eu abri caminho, até o ponto em que eu deixei claro que queria que ela fosse minha mais do que uma leitora, ou do que uma amiga. A distância física nunca me incomodou. A cada dia que passava eu me jogava mais e mais fundo em um poço que eu conhecia muito bem e me afogava em um lodo o qual eu parecia gostar de sentir entrar pelos meus pulmões.

Eu poderia dizer que me apaixonei, mas prefiro não falar isso.
Por essa pessoa, por esse deslumbre, eu escrevi uma história inteira, baseada no que eu queria poder viver com ela. Tardes sentadas no sofá, jogada entre papéis de rascunho de livros a serem escritos, gatos e cheiro de café. Noites em claro onde ela do sofá ia me observar enquanto eu escrevia, em silêncio. Manhãs preguiçosas e frias, com um pouco de melodrama.

Ela me fez querer me assumir. Por ela eu voltei a falar pra minha mãe que eu era bissexual. Por querer que tudo desse certo entre nós duas, eu me expus à algo que poderia ter dado errado. (vide a primeira vez que eu falei com minha mãe sobre meus sentimentos sobre a tal primeira garota, não ter resultado em uma boa reação)

Eu abri portas que tinha jurado manter fechadas, eu me deixei vulnerável e pronta a ajudar essa pessoa, que também era tão quebradiça e delicada, a se repôr. Eu abri mão dos meus próprios problemas, da minha própria doença, pra tentar cuidar de alguém que hoje acabou por ajudar a fazer com que eu voltasse a tem um daqueles ataques de pânico.

Enquanto eu escrevo isso, os meus dedos do pé se contraem de um jeito que parecem que vão quebrar. Durante toda minha loucura, toda minha doença, estou consciente. Estou consciente de que isso tudo é ridículo, de que deveria parar de chorar e esquecer tudo isso, de que deveria simplesmente seguir em frente. Estou consciente, mas não posso fazer nada pra impedir tudo isso de acontecer.

Isso aqui, é o único jeito que eu encontrei de colocar tudo pra fora, não posso ir pra sala e pedir ajuda à minha família, não tenho amigos que posso chamar pra me confortarem agora, tudo que eu posso fazer é colocar em palavras uma dor que beira o insuportável. Que me faz querer arrancar os olhos de tanto que eles coçam, que me faz querer dormir e não acordar mais pra não precisar ser tão errada em tantos sentidos.

Apagar Latte foi um jeito que eu encontrei de talvez, talvez, tentar diminuir essa angústia. Mesmo sabendo que não vai ser uma história ou um bloqueio em redes sociais que vai me fazer deixar de ser doente, mas vai suprimir essa loucura que está me apertando agora, até que eu me recupere e volte a ser a pessoa animada, criativa e brincalhona que eu me forço a ser, pelo meu bem e pelo bem de todos os outros.

Eu não sei porque estou escrevendo isso aqui, mas sinto que talvez, vocês que leem minhas histórias sejam as únicas pessoas que possam me entender, a partir do ponto que um pouco de mim está em cada uma delas. Nada é inventado, tudo é apenas uma distorção e romantização de uma realidade que eu preferia não conhecer.



Não tenho uma vida ruim. Tenho uma família ótima, amigos que me amam, tenho um trabalho, posso comer o que quiser, mas mesmo assim a angústia continua, por não ser fruto de uma condição, e sim de uma situação pré-instalada na minha cabeça.

Espero que isso talvez ilumine a mente de vocês sobre algumas das minhas atitudes quanto a histórias. Espero que isso não afaste vocês. Espero que isso não afete em nada.

Nunca fui muito boa em lidar com a dor.

Escutando: numb

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