Sobre "o fascismo está morto"


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Sobre "o fascismo está morto"

O fascismo está morto, mas insiste em voltar com uma aparência diferente, como os zumbis.


Vocês talvez tenham lido sobre esse caso na internet. Um pai assassinou o filho, Guilherme Silva Neto, na terça-feira (ontem, dia quinze de novembro), porque "discordava da participação dele em movimentos sociais", como a ocupação de instituições públicas (o filho participava da ocupação da UFG, que está alinhada com a esquerda).

Eu moro a poucas quadras de onde o assassinato ocorreu. Eu já tinha visto esse garoto na ocupação (eu o conhecia apenas de vista, porém). Sabe, a morte choca muito mais quando ela acontece do seu lado, com pessoas que você vê.

A imagem que serve de capa a esse jornal é um esquema muito simples de como o fascismo funciona: há, na sociedade, um medo ignorante de alguma coisa. Chamaremos essa coisa de E: poderiam ser os judeus, os islâmicos, os homossexuais, tanto faz. O medo de E faz com que pessoas mesquinhas aproveitem a oportunidade para querer colocar a culpa dos problemas nesse grupo E (mesmo que na realidade eles nem tenham a ver com isso); digam que E é a causa da corrupção, e que E é o que coloca ricos contra pobres, negros contra brancos, o que quer que seja, e eliminar E solucionaria isso. Colocaria todos trabalhando juntos, esse papo corporativista. Esses mesquinhos ganham espaço, e são agora um grupo político que busca cada vez mais votos, prometendo acabar com E e por consequência todos os males. Agora é impossível ignorá-los: eles já são muitos. E as pessoas que apoiam se sentem bem orgulhosas de estarem nesse grupo contra E, mesmo que às vezes eles se excedam nos discursos. Mesmo que às vezes espanquem quem faz parte de E, ou matem. Mesmo que construam campos de concentração para matar aqueles que fazem parte de E. Sem problemas, é necessário mostrar a E seu lugar como inferiores, exterminá-los, e você apoia seu país a todo custo.

Então a guerra acaba, e você perde. E você descobre que aquele cara que você fuzilou antes de sair para o happy hour com os amigos porque era um E era seu vizinho de tantos anos, que tinha um filho que brincava com os seus. Aquela moça que você espancou até amassar o crânio dela, uma maldita E, era a médica do posto de saúde, que uma vez te atendeu quando você estava passando mal com dengue depois de ter sido mandado embora de outros hospitais. Você descobre que matou pessoas; gente que tinha família, amigos, sonhos, desejos, gostos, desgostos, e um direito à vida. Suas mãos estão sujas de sangue, mas você era apenas alguém seguindo ordens, seguindo a opinião popular. Como Eichmann, o arquiteto do Holocausto. Vocês sabem, é preciso colocar comida na mesa, as crianças querem um brinquedo novo de Natal. É claro que você não era um fascista, de maneira alguma, assim como os outros milhões que jamais fizeram parte desse regime. Ninguém precisava disparar o gatilho das armas, apertar o botão das câmaras de gás, assinar os documentos, fazer as propagandas, claro que não. Foram todos enganados. Vítimas, sempre seguindo ordens. Para o diabo o mea culpa.



Sutileza não é meu forte.



Mas o fascismo está morto. Tanto quanto Mussolini, Hitler, Franco, Salazar, e todos os outros. Tudo isso que eu acabo de contar não acontece na realidade. Guilherme Silva Neto não foi assassinado de maneira cruel, covarde e mesquinha por discordância política. E pessoas como essas e essas também não existem. Malditos esquerdistas petralhas; deve ser alguma conspiração deles forjando tudo isso.


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