Lost and Found


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Lost and Found

Você quer muito uma coisa. Traça um plano na sua cabeça, imagina uma rota e diz para si mesmo “Ok, eu posso fazer isso. Eu vou conseguir”. E então, quando está no caminho que leva ao seu desejo, percebe que as coisas não são como imaginou. Nem de longe.
É muito mais difícil do que esperava.

E já que não consegue chegar lá por sua conta, compra um mapa cheio de rotas alternativas e seguras. Caminhos retos e lisos, estradas de asfalto impermeável e brilhante.
Tudo parece perfeito para você. E por um tempo tudo parece ir bem. Você sabe o que quer e está indo para lá.

Mas aí você descobre que querer não é poder. Sonhar não é fazer. São coisas conectadas, não idênticas. Talvez, consequentes. Como teoria e prática. Uma introduz a outra, mas uma nunca será a outra.

E no meio disso tudo, também acaba descobrindo que você não era a pessoa que sempre achou que fosse. Ah, não mesmo.

Você percebe que a sua índole é apenas um esboço da obra que sempre idealizou. E isso te deixa frustrado e autodepreciativo. E isso é patético. E você sabe disso.

Mas não sabe o que fazer. Não mais.

A estrada por onde você anda agora não tem mais um ponto de partida e não te deixa ver o horizonte. O caminho é liso demais, previsível demais. E só aí você percebe que esteve andando em círculos. Um círculo que te aprisionou numa realidade paralela.
Uma estabilidade infinita. Um ciclo perfeito.

E você está girando nele. Cada vez mais rápido.

Girando e girando e girando. Rodopiando acima do espaço.

O mundo é um borrão, sua cabeça dói e você começa a ter medo de que ela exploda. Seus pés doem e se arrastam no chão e você quer desacelerar.

Mas você está preso dentro desse círculo e o tempo está parado. Está sozinho no centro da eternidade, e o mundo está lá fora seguindo sem você.

Pare!”, você grita. “Eu quero sair!
Me tire daqui!

Ninguém responde, e ninguém vai responder. O silêncio e estabilidade pelo qual você pagou tão caro finalmente estão a seu dispor. Você só está falando consigo mesmo como sempre fez. Só que agora isso não é confortável e não tem mais graça. Agora, isso te dá medo.

Há apenas o silêncio e isso te apavora. Você está assustado enquanto sua mente fica cada vez mais quieta e vazia.

E então você se lembra do mapa, do exato momento onde o comprou. Lembra das suas dúvidas, do seu receio de desbravar o caminho diante de si. Lembra de como as coisas costumavam ser, quando você caminhava livremente sob o Sol. E tudo isso porque você queria que as coisas fossem perfeitas.

E para a sua própria surpresa, você descobre que odeia a perfeição.

A Perfeição é imutável. É eterna. E você já está cansado de coisas que duram para sempre, pois se lembra de que as melhores coisas da sua vida foram aquelas duraram pouco.
E então você se dá conta de que nunca precisou daquele mapa. Ou do asfalto. Ou da estabilidade. E jamais vai precisar.

O mundo é o caos e você faz parte da bagunça. E isso nunca lhe pareceu tão natural.

Você fecha os olhos e para de andar. Respira fundo.

Sem mapa. Sem asfalto. Sem estradas.

Apenas o desconhecido. Apenas você.

E então você dá um último passo para o lado. Atravessa a borda.

E sai do círculo.


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