Vamos conversar?


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Noite silenciosa, transito apático. Luzes acesas, TV desligada. Você liga o computador e acessa a internet, mas não encontra nada de interessante. Seu celular não tem créditos e os seus amigos estão todos offline. Você está sozinho em casa, sem ninguém para conversar.

Vai até a cozinha, prepara um lanche rápido e toma uma xícara de café. Sentado à mesa, você olha ao seu redor. O azulejo das paredes é claro e em tons pastéis, e você começa a pensar o quão sem graça isso é. Antes que perceba, está encarando o nada.

Por que é exatamente isso que está em sua mente. Nada.

Um vazio silencioso e enjoativo. Mas isso ainda te incomoda. Pra caramba.

Você começa a se irritar e não tem ideia do motivo. Ou melhor, ainda não percebeu.

Em sua cabeça, um alarme silencioso ecoa: Por favor, aconteça alguma coisa. Qualquer coisa, não importa o quê. Contanto que seja interessante.

E se você, caro leitor, se sentiu familiarizado com algum destes sintomas, já deve saber qual é o problema em questão:

T.É.D.I.O

Cinco letras, uma palavra. E um sofrimento que parece não ter fim.

Até pouco tempo, eu não havia me dado conta de que sofria deste mal. Ele sempre esteve lá, quietinho, escondido no canto mais nebuloso da minha cabeça; apenas esperando qualquer oportunidade para vir à tona.

Talvez essa constatação veio tão tardia devido a minha péssima mania de enxergar tudo ao meu redor de forma prática. Pode parecer estranho, mas as vezes eu quase me esqueço que tenho um lado mais emocional. Talvez por que eu raramente o use. Sim, sou daquelas pessoas que gostam de teorizar tudo. Não... Acho que o correto seria dizer que não me sinto à vontade para encará-los na maioria das vezes.

De qualquer forma, agora que minha rotina diária se tornou muito mais calma, de repente os dias parecem demorar uma eternidade para passar.

Agora, tudo está tranquilo.

Não preciso mais acordar as cinco da manhã para atravessar a cidade. Não preciso mais correr para pegar o ônibus e me espremer entre os passageiros que estão tão ou mais atrasados que eu. Não preciso mais ficar uma hora depois do expediente revisando textos.

Não preciso mais enfrentar fila na porta do restaurante mais barato para almoçar todos os dias, e comer o mais rápido que puder. Não preciso mais dormir curvada sobre a mesa da biblioteca, repondo as horas de sono mal dormidas . Não preciso mais contar cada centavo, pensando em quantas xícaras de café poderei comprar durante a semana, pois café é a única coisa que mantém minha mente funcionando depois de toda essa correria.

E por último.... Eu não preciso mais correr.

"Como assim, não preciso mais? E agora? O que é que eu vou fazer com o meu tempo?"

Foi aí que ele chegou. O tédio.

Veio silenciosamente, com passos suaves. Saiu daquele cantinho nebuloso e veio bater à minha porta.


Primeiro veio o silêncio, depois a falta de distrações. Agora, veio a fase final: onde começamos a perceber o quão vazias e chatas nossas vidas são.


Dizem que mente vazia é a oficina do diabo.

Bem, provavelmente, eu diria que nesse caso em especial o diabo somos nós mesmos.

O tédio apenas nos faz encarar aquilo que não queremos ver. Nos faz ver como somos cheios de espaços vazios e páginas em branco. Espaços que nos esforçamos tanto para preencher com uma rotina caótica e turbulenta, as vezes desgastante.

O tédio te obriga a passar tempo consigo mesmo, e lhe dá tempo para pensar nos seus problemas. Aqueles problemas que você jura que vai resolver, mas que até hoje não teve a iniciativa de começar.

O tédio nos proporciona uma visão de nossas fraquezas e defeitos. E ainda faz aquela pergunta infame: "E então, até quando você vai deixar isso continuar?"

E é nesse estágio em que começamos a ficar malucos. Não queremos ouvir, não queremos admitir. No final, não queremos encarar nossas fraquezas. Não queremos ver o que há de errado em nossas vidas. Qualquer coisa, menos isso.

Geralmente, para escapar desse beco sem saída, acabamos fazendo coisas estúpidas. É quando o perigo começa a nos rondar. Alguns entram em relacionamentos superficiais, outros adotam hábitos pouco ou nada saudáveis. Há também os mais infelizes, que se perdem num círculo de vícios e se tornam autodestrutivos.

Tudo isso para não ter que passar algum tempo de qualidade consigo mesmo.

Mas eu ainda fico imaginando. Será que é mesmo tão ruim assim? Ou será que é apenas o medo nos sabotando, como sempre?

Eu só acho que, se o tédio insiste tanto em nos incomodar, talvez seja porque ele tenha algo realmente importante para nos dizer. Talvez ele queira apenas que façamos algo mais produtivo com nossas vidas. Talvez ele queira nos ensinar alguma lição valiosa. Talvez, ele seja o termômetro que a vida nos dá, para nos avisar que é hora de nos reinventarmos.

Por isso, ao invés de fugir tão desesperadamente ou temê-lo tanto, por que não o convidamos para sentar e tomar um café? Assim, descobrimos logo o que ele quer de nós.

Pelo menos, é o que estou tentando fazer.

Ao invés de correr pelas ruas, estou ouvindo as coisas meu redor. Estou tentando me ouvir.

E estou ouvindo bastante música também, quando o silêncio fica pesado demais. Estou tentando olhar para meus pontos fracos, e encontrar formas para superá-los. Pouco a pouco, estou aprendendo sobre mim. Estou me acostumando a encarar minhas fraquezas.

Não posso dizer que o progresso é rápido e milagroso. E não posso dizer que é fácil e indolor.

Mas estou convencida de que é melhor assim.

E você, caro leitor? Já recebeu alguma visita do senhor Tédio?

Talvez ele tenha algo para lhe dizer também.

Boa sorte.

Escutando: My First Story - Fukagyaku Replace

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