~Unheimlich

Unheimlich
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Notas de um velho safado.


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Notas de um velho safado.

“Eu escrevia visceralmente, alguns odiavam, outros amavam. Eu não estava nem aí. Apenas bebia mais e escrevia mais poemas. Minha máquina de escrever era uma metralhadora e estava carregada”
Pedaços de um caderno manchado de vinho, de Charles Bukowski.


Viver dói.

Parece ridículo e redundante.

Mas, provavelmente, viver será a coisa mais difícil que você terá de fazer em toda a sua vida – independentemente do tempo que ela durar. Porque tudo na vida está programado para dar errado, programado para falhar, para maldizer, para desgraçar. A vida não é um maldito parquinho de diversões. Na vida, o carrossel é desgovernado, o algodão-doce é salgado e você não vai ganhar um enorme Ted Bear na barraquinha de tiro ao alvo porque, simplesmente, você não vai acertar o alvo.

Eu, pelo menos, não vou.

E já superei esse fato.

E é por essa vida destemperada que eu escrevo.


Porque, olhando assim de perto, tudo parece muito catastrófico e sem jeito e sem saída até aqui. Mas, veja bem, nem tudo está perdido. Sempre há uma luzinha no final do túnel – vovó já dizia isso, uh? Para toda regra existe uma exceção. Tanto que, sim, mesmo nessa vida desgraçada de carrossel desgovernado, sem Ted Bear, há uma alternativa. É só você parar, pensar e refletir um pouco, e perceber o quê, nesse mar de decepções, te faz feliz.

Okay, fazer feliz é um pouco exagerado.... Eu sei.

Então, algo que te alivie dos dissabores e que não te deixe cair desse penhasco vertiginoso e traiçoeiro. Algo que dê aquela balançadinha alegre, de risinho curto, olhar amigo e mão parceira. Algo em que você possa descontar, verdade seja dita, todas suas frustrações. Onde você possa gritar tudo aquilo que está engasgado aí na sua garganta, todos os palavrões que você queria esfregar na cara de alguém e não conseguiu, todo o cuidado que faltou e ninguém deu bola. Onde você possa viver todo o amor que sentiu e que não passou de fantasia, onde você possa afogar todas as lágrimas que queria derramar, mas que secaram duramente antes rolarem bochechas vermelhas abaixo.

Tipo eu.

Uns desenham quadros maravilhosos (e que ninguém entende), outros cozinham pratos que fazem nosso paladar explodir em puro prazer (ou arder e enjoar de puro nojo). Há aqueles que se metem em esportes perigosos (e saem sangrando e, ainda assim, rindo muito, relaxados). Ainda outros que fazem músicas e, com um pouco de sorte, te fazem dançar ou chorar ou se divertir com elas.

Eu escrevo.

Mas, eu não escrevo só porque é divertido.

Porque não é.

Escrever dói também.

Quando paro para escrever, abdico do tempo que eu não tenho, revivo todo o turbilhão de sentimentos bons e ruins que dançam freneticamente dentro do meu peito, divido meu próprio ego em várias partes para dar vida aos inúmeros personagens distintos da trama.

Quando escrevo, eu tenho que ter vários problemas e o dobro de soluções.

Preciso rir, preciso chorar, preciso ficar bravo, preciso ser boba, preciso ser aquela velha chata de sermão batido, e também aquela criança birrenta, ou aquele adolescente solitário e perdido.

Quando escrevo, eu sou o gay que sofre preconceito, sou o cara que tem pau pequeno e se sente humilhado, sou a fã maluca e apaixonada que conhece o ídolo, sou aquele que perdeu toda a família, aquele que fez um sexo alucinante e cansativo, aquele que se divertiu tanto que perdeu até o rumo da própria história.

Sou a mãe preocupada, o pai ausente, o amigo para toda hora e o cara que estuprou a irmã daquele outro. Sou aquele que ama, aquela que odeia, o menino indiferente e a criança abandonada que tem pesadelos enquanto dorme.

Quando escrevo, eu preciso ser tudo ao mesmo tempo, aqui e agora.

Escrever dói.

Mas, me alivia.

Porque escrever é como pegar um novelo de lã todo embaraçado e bagunçado, e começar a tecer um sweater quentinho e bonito com ele. No final, todos os fios estão extremamente organizados, em harmonia, e o frio de rachar coco pode vir tranquilo, porque não vai me afetar.

Porque, assim como Bukowski, eu não escrevo para ficar famosinha (se bem que, a moda agora é essa: todo mundo empenhado em ser o próximo criador de uma saga bombástica, ou de um novo best-seller).

Eu escrevo porque minha vida é uma loucura e porque eu preciso “salvar o meu rabo, salvar meu rabo do asilo de doidos, das ruas, de mim mesmo”. Porque quando leio o feedback dos meus leitores, acerca de todas as minhas histórias, eu tenho a certeza de que não estou pirando, de que meu discurso continua coerente e firme, que minha criatividade e meus pensamentos, minha fantasia e minha realidade, ainda andam de mãos dadas e que, em meio a todo o caos, eu não estou sozinha.

Porque escrever me organiza.

Porque escrever tira das minhas costas doloridas e calejadas o peso de viver, a melancolia da solidão, a incerteza das escolhas, os sonhos esquecidos, a esperança apagada.

Então, se você acha que eu escrevo para ficar famosinha, por favor, se retire.

A minha vida já é difícil demais sem você e seu julgamento ignorante por perto. Não venha querer piorar as coisas ainda mais. Meus fantasmas, meus problemas, as minhas dores (essas que você não conhece e nunca vai conhecer) já fazem o bom trabalho de querer me derrubar, às vezes. Não há vaga aqui para você. Não nesse cargo. Não com esses encargos. Velho Bukowski dizia que o talento para sofrer e suportar, por uma ideia, um sentimento, um caminho, é nobreza. Mas, eu não sou aquele velho safado, logo, penso não poder ser tão nobre.

Por isso, se é isso o que você pensa a respeito da minha pessoa, apenas se retire.


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