~Mokocchi

Mokocchi
Eu gosto é do estrago
Nome: Mokocchi
Status: Usuário
Sexo: Feminino
Localização: Lavras, Minas Gerais, Brasil
Aniversário: 8 de Setembro
Idade: 18
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Como eu (quase) fui estuprada


Postado

Como eu (quase) fui estuprada

Oi. Se você leu o título do jornal, provavelmente saiu da página ou ignorou a notificação, pois todos já estamos cansados de falar sobre estupro. E realmente, é um assunto tão repetitivo, e tão desagradável, que cansa. Também imagino que deva estar pensando porquê estou tocando num assunto que estamos cansados de falar a respeito, ou porquê não volto a postar coisas alegres, histórias e textos de amor. Oh, meu amigo, o que vivi hoje passou longe de ser um ato de amor. Hoje, não venho como Mokocchi, e sim como Mariana, a menina que está por trás da romântica e alegre Mokocchi. Por isso, acho que vocês merecem uma apresentação adequada. Então vamos começar de novo.

Oi, meu nome é Mariana, tenho 17 anos, e hoje, 3 de julho de 2016, quase tive o corpo violado. Marquei com minha melhor amiga de ir ao cinema, iriamos ver Procurando Dory, seria minha segunda vez vendo o filme já que o amei tanto. Estava frio, e senti que estava prestes a resfriar, por isso pus uma blusa com mangas bem quentes, uma calça jeans e tênis. Bem peculiar para quem sempre sai de casa usando um vestido. Andamos juntas até o shopping já que moro em uma cidade pequena, pegamos a segunda sessão que começava às cinco da tarde, vimos o filme, e chorei tanto quanto na primeira vez. O filme acabou por volta das seis e quarenta, minha amiga foi para a casa dela, e eu fui para a minha.

Já tinha ficado um pouco mais escuro, por isso corri até chegar perto da minha casa. Subi o morro, quase perto do centro, quando diminuí o passo numa rua que sempre costumo passar. Era iluminada, cheia de carros estacionados, mas hoje não estava tão cheia. Quando olho pra frente, vejo uma sombra, e paro. Um homem (se é que pode ser chamado de homem), daqueles bem altos, usando um capuz impedindo de ver-lhe o rosto. Ele olhava pra mim, e unicamente para mim. É claro que fui pro outro lado da rua. Pois ele também foi. Parei outra vez. Ele também, tentando se esconder atrás de um dos carros, sem tirar os olhos de mim. Me olhava como um porco babando em cima de sua lavagem, me despindo a força com garras invisíveis que me arranhavam, machucavam, e invadiam. Aquele porco teve a capacidade de me violar apenas com aquele olhar nojento, e esperava por minha aproximação, para saciar toda a sua vontade e gozar toda a sua monstruosidade dentro de mim.

Eu sabia que ele me queria. Seria uma tonta se não soubesse. E o que pensei no momento? Que morrer seria uma opção melhor. Mas uma coisa era certa: eu não deixaria aquele porco fazer o que quisesse comigo.

Agora chegamos na parte em que eu entro em dívida com minha sorte. Havia um restaurante aberto bem do meu lado, eu entrei antes que ele pudesse me alcançar, corri para o caixa, desesperada, implorei por ajuda, e aqueles anjos me deixaram ficar escondida na cozinha. Um dos funcionários foi verificar lá fora, e quando voltou, me disse “Você teve sorte, menina, quando ele me viu, saiu correndo”. Fiquei uma meia hora lá em estado de choque, pensando no que poderia ter acontecido se aquele restaurante não abrisse aos domingos, no quão suja eu estaria daquela baba de porco, e toda aquela maldade despejada em mim.

Agora, a última parte que não trás um final tão feliz assim. Liguei para a minha mãe e pedi para ela me buscar, expliquei o que aconteceu, e por alguma razão, sua voz se converteu para a mais furiosa possível. Ela chegou acompanhada do namorado da minha irmã, agradeci aos anjos que me salvaram, e fui recebida com um tapa.

“Como você pode voltar a pé numa hora dessas?”. Mãe, são apenas sete horas da noite.
“Como você pode sair de casa vestida desse jeito?”. Mãe, eu estou toda coberta, usando uma blusa com mangas e uma calça jeans.
"Como você pode sair pra um lugar daqueles?". Mãe, eu fui ao cinema ver um filme da Disney.
“Como você pode sair de casa toda maquiada?”. Mãe, já saí de casa maquiada várias vezes e isso nunca me aconteceu.
“Como você pode caminhar por essas ruas?”. Mãe, passo por aqui todos os dias para ir pra escola.

Todos os argumentos dela, não importa quais fossem, voltavam para a triste e inegável pergunta: “Como você pode sair de casa sendo mulher?”.
Por fim, depois de tantos sermões sem sentido, eu perguntei a ela:

“Mãe, você realmente acha que a culpa é minha?”.

Ela me respondeu com um curto e breve:

“Sim, porque mulher é quem tem que evitar isso.”.

Não, mãe. Você não sabe o quanto errou feio em me culpar por quase ser estuprada. Não importa a hora, o momento, o lugar, as circunstâncias, nada mudará o fato que sou uma mulher, e assim como todas as mulheres, sofro o risco de ser violentada, vista e tratada como um brinquedo sexual.

Não, mãe. Não é culpa minha por quase ter sido estuprada. A culpa está na monstruosidade desses seres que ainda não evoluíram. A culpa está naquele filho da puta que me olhou como um objeto, que me violentou apenas com aquele olhar invasivo e sem coração.

Não, mãe. Mulher não tem que evitar isso. A maldade que deve ser extinta do mundo. A podridão deve ser extinta do mundo. Assim como mentes fechadas como a sua devem ser extintas do mundo.

Por isso, pessoa que está lendo esse desabafo, eu suplico. Se algum dia você ver alguém passando por tal situação, seja mais um anjo, seja aquelas pessoas que me ajudaram. Ou, se algum dia passar por situação parecida, ou até pior, nunca se culpe. Não culpe a hora, não culpe o lugar, não culpe as circunstâncias. Culpe o ESTUPRADOR. VOCÊ é a vítima.

Afinal, você também acha que a culpa foi minha por quase ser estuprada?


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